sábado, 21 de julho de 2007

if

an infinite number of rednecks
riding in an infinite number of pickup trucks
fire an infinite number of shotgun rounds
at an infinite number of highway signs
they will eventually reproduce all
of the world's great
literature
in

braille.gif (740 bytes)


http://www.buddhamind.info/riteside/index.htm

Exercício - II

Comprei um tradutor de textos para o meu computador, esta semana passada.

Se me falta a capacidade de traduzir? Creio que não, quando se trata de um pequeno punhado de línguas, línguas que se reduzem a uns dois ou três dedos da minha mão. É que eu tenho o velho ditado italiano na minha cabeça que diz, já traduzido, que o tradutor é um traidor. Traidor do texto original, do autor de outro texto, em outra língua; amante, talvez, do seu texto, da sua autoria por tabela.

Todos os amantes e traidores, de textos ou qualquer outra coisa, crêem que o seu objeto é um elevado do resto, do todo-o-mais. Eu comprei um tradutor de textos por estar ciente da imensa continentalidade das línguas. Primo em um pequeno pedaço da Experiência Falante de todos os homens; com o meu português e demais, eu penso ser o rei do universo em uma casca de noz. E o menino das margens de um lago acinzentado pela nuvem de borrasca no meio do continente africano? Ah, estas línguas todas que eu não sei. Por mais que eu tente casar todas as minhas primas, umas com as outras.

Quem me vendeu foi um velho senhor simpático, de rugas caninas e pêlos felinos. Tresandava àquele sabor único de velhice, não o embolorado. Como pele animal curtida no sol e lavada repetidamente.

Em verdade, ele é o criador do tal método de tradução, ou melhor dizendo, o seu curador, o seu guarda. Como eu vou poder dizer mais abaixo, o M(N)étodo de Tradução é um tanto primoroso. O vendedor de fato foi quem eu imagino ser o filho, ou neto, ou qualquer descendência longa perdida na história de tal senhor. Um jovem bonito, de dentes brancos e saudáveis, e coxas fortes. Sim, um cavalo. Um belo cavalo de raça, um alazão mouro, um puro-sangue mestiço. As olheiras denunciavam o árduo trabalho em converter todo aquele trabalho - até então impresso em tipos elegantes - para um meio digital. Árduo trabalho. Imagino outros tantos quanto ele. Apareceu aqui em casa, a pele como coral, o odor marinho. Muito saudável.

Um tempo atrás, em que a Rede Mundial ainda fosse algo restrito aos militares e aos cientistas, o programa de tradução me tomaria muito espaço. Muito espaço. Nada comparado ao que ocupava antes, obviamente, mas se era gigantesco, um parente próximo da biblioteca Borgiana - da qual eu fui um dos únicos a sair vivo, embora não esteja ainda muito certo disto - ao menos era uma só, fisicamente localizável, um belo monumento à traição dos tradutores. A ambição louca daquele velhinho era disponibilizar, para todos aqueles que o quisessem, tal Método de Tradução, em sua própria casa. Com a net, nada mais fácil.

Todos sabemos qual é o grande problema com as traduções digitais: elas não traduzem. Seus algoritmos, por mais bem-construídos que sejam, não simulam o nosso falar. Eles trocam certas palavras por certas palavras, analisam algumas expressões e trocam por outras, embutidas em sua programação por um homem cansado, porém atento. Até mesmo analisam contextualmente, fazem cálculos de probabilidade e sorteiam, da mesma medula que o tal do homem cansado os deu. Um dia, as máquinas vão aprender a falar - se é que não já aprenderam. Talvez uma delas tenha aprendido a falar e nunca mais parou; está trancafiada em um sótão em Viena. Só que os algoritmos não sabem trair. Eles não traduzem.

Meu querido amigo me contou que este problema é fácil de ser solucionado: basta disponibilizar todas as traduções possíveis em todas as línguas possíveis. Diferentemente da biblioteca Borgiana, porém - trabalho inútil, segundo ele - só os textos que existem agora terão traduções agora. Este relato que vos escrevo, por exemplo, está em andamento em várias línguas, do ramo românico, saxão, eslavo, chinês e hindu. Mais de dois tradutores em cada uma delas se ofereceu para me traduzir. Os resultados podem ser acessados facilmente através da Web; o programa é relativamente barato, e expira somente depois de 30 anos. O prédio usado anteriormente para tal procedimento maciço está sendo transformado em fábrica de hambúrgueres. Volumes valiosíssimos - como 13 traduções em russo de todos os volumes de Júlia, Sabrina e Bianca - estão sendo leiloados a preço de banana.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Exercício - I

Não digo meu nome, pois sei lá que horas são, e meu nome não importa. Não, não sou daqueles de personalidades múltiplas e o escambau: isto fica mais para o pessoal de óculos de tartaruga quadrado e quetais, os lúgubres que fizeram morada não sei em que recantos do vasto mundo "intelectual". Eu sou eu, ora bolas. Mais que claro. Simplesmente posso dizer que quanto a nomes, tenho mais de um. Mas posso ser chamado de Lucas.

Houve vezes em que acordei e era mais Lucas do que eu mesmo. Hoje, meu bem, não foi um destes dias. A minha cama desarrumada, os livros espalhados por todos os cantos do meu quarto, as laudas e laudas de papel jornal, o jornal nacional, o grande jornal da nação; muitas ainda nem abertas. Eu não me mantenho a par dos dias, os dias passam por mim, e vou saber dos dias, dos grandes dias do grande jornal, dias depois. São minhas quartas e quintas e minhas tardes de domingo que me fazem perguntar do meu nome. Gostaria de ter o meu nome - o meu nome real, regal, o nome de sangue e realeza perdida - estampado em tipos minúsculos numa destas páginas. O que se seguiria, eu não sei.

Mas agora não é mais a manhã. A noite adentra pelas minhas narinas, e os dias que passam por mim, diferentes em sua santa complacência, perdem substância quando a noite se aproxima. Saber que é uma quarta, uma quinta ou uma tarde de domingo pode, muitas vezes, ser somente o hieroglifo, um código, uma senha sem sentido para saber, eriçando os pêlos dos braços, que a noite se aproxima.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Escrevendo

Coisas ficando difíceis. Coisas ficando fáceis.

Está cada vez mais difícil escrever, atualmente. De vez em quando eu me pergunto se seria este o fim deste blog; mas então percebo que a pergunta só faz sentido se eu penso que há alguém que realmente me lê e que espera que eu escreva alguma coisa. Se não há, está tudo muito bem. Então continuo escrevendo.

*****

Meu gato está no meu colo, agora. Não digo nem colo, que colo não descreve a estranha posição dele em cima de mim. Ele está com a bunda apoiada no meu antebraço esquerdo, e o focinho no meu antebraço direito. O movimento do meu punho esquerdo ao teclar levanta e abaixa o traseiro dele, o que ele parece apreciar, pelo movimento da cauda e pela complacência. Agora ele se apóia em mim como se eu fosse de madeira ou pedra, procurando pontos de apoio para descer para o chão, onde se senta com as patas sempre unidas e se lambe.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Destrinchando um boi

O cozinheiro do Príncipe Wen Hui
Estava destrinchando um boi.
Lá se foi uma pata,
Pronto, um quarto dianteiro,
Ele apertou com um dos joelhos,
O boi partiu-se em pedaços.
Com um sussurro,
A machadinha murmurou
Como um vento suave.
Ritmo! Tempo!
Como uma dança sagrada,
Como "a floresta de arbustos".
Como antigas harmonias!

"Bom trabalho"! exclamou o Príncipe.
"Seu método é sem falhas"!
"Método"? disse-lhe o cozinheiro
Afastando a sua machadinha,
"O que eu sigo é o Tao,
Acima de todos os métodos!

Quando primeiro comecei
A destrinchar bois
Via diante de mim
O boi inteiro
Tudo num único bloco.

"Depois de três anos
Nunca mais vi este bloco
Via as suas distinções.

"Mas, agora, nada vejo
Com os olhos. Todo o meu ser
Apreende.
Meus sentidos são preguiçosos. O espírito
Livre para operar sem planos
Segue o seu próprio instinto
Guiado pela linha natural,
Pela secreta abertura, pelo espaço oculto,
Minha machadinha descobre seu caminho.
Não corto nenhuma articulação, não esfacelo nenhum osso.

"Todo bom cozinheiro precisa de um novo facão, uma vez por ano - ele corta.
Todo cozinheiro medíocre precisa de um novo cada mês - ele estraçalha!

"Eu sou a mesma machadinha
Há dezenove anos.
Cortou mil bois.
Sua lâmina é tão fina
Como se fosse afiada há pouco.

"Não há espaços nas articulações;
A lâmina é fina e afiada:
Quando sua espessura encontra
Aquele espaço
Lá você encontrará todo o espaço
De que precisava!
Ela corta como uma brisa!
Por isso tenho esta machadinha há 19 anos
Como se fora afiada há pouco!

"Realmente, há, às vezes,
Duras articulações. Vejo-as aparecendo
Vou devagar, olho de perto,
Seguro a machadinha atrás, quase não movo a lâmina,
E, vapt! A parte cai
Como um pedaço de terra.

"Então retiro a lâmina,
Fico de pé, imóvel,
E deixo que a alegria do trabalho
Penetre.
Limpo a lâmina
E ponho-a de lado".

Disse o Príncipe Wan Hui:
"É isso mesmo! Meu cozinheiro ensinou-me
Como devo viver
A minha própria vida!"


versão de Thomas Merton, A via de Chuang Tzu.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Probabilidades

domingo, 17 de junho de 2007

Fala em e para a análise

A psicanálise é voltada extensivamente para a palavra: o uso dela pelo analisando, o que ele conta, as interpretações do analista. Com Lacan, o inconsciente estruturado como uma linguagem perde o caráter de "profundezas do eu" e passa a estar aí, a olhos vistos. Existe somente um inconsciente na análise, e é o do analisando: e deste inconsciente pode-se dizer que ele existe somente na análise, ali onde ele aparece - que ele é produzido na análise.

A ênfase nas palavras, no que é dito, na fala do analisando, é criticado. Muitos dizem que é um limite, implicando que a análise poderia ir muito além se prestasse mais atenção a outros aspectos - corpo, gestos - e se também trabalhasse neles. Outros dizem que falar pode ser um processo ainda mais alienante. Outros dizem simplesmente que falar e falar pode no máximo provocar um alívio momentâneo.

É interessante perceber que, na controversa história da psicanálise, temos o caso de Reich, psicanalista que começa a trabalhar fortemente com o conceito de "couraça do caráter", deslizando deste modo para um trabalho mais corporal - e muito interessante. Temos também Perls, psicanalista, que felizmente critica Freud e, adotando certas visões fenomenológicas-existenciais presentes na época, cria a Gestalt-terapia. Temos Jung, o futuro herdeiro de Freud, que amplia o conceito de libido até o transformar em uma espécie de energia cósmica, quando então é deserdado.

Porque a psicanálise se apóia tanto no que o analisando diz? Porque não abrir um pouco o escopo e colocar nisto os gestos, o movimentos, os tiques? Porque ela se "limita" a meras palavras?

Por uma questão de método, de coerência e de funcionalidade. Se não for assim, a psicanálise deixa de ser análise e passa a ser outra coisa.

O psicanalista faz aquilo que menos fazemos na nossa vida cotidiana: ele escuta, uma escuta muito diferenciada.

Quando falamos uns com os outros, esperamos fazer sentido e ser compreendidos. Grande parte das vezes isso não acontece, e então nos esforçamos mais para fazer sentido. Fazemos sentido com palavras, gestos e ações: e o outro faz o esforço necessário para compreender. É como se houvesse, em cada diálogo humano, um campo que está presente e que o circunscreve, e que delimitaria as regras do diálogo. Este campo, obviamente, é uma metáfora, tirada da física. O namorado fala com a namorada dentro deste campo, o campo do namoro, e automaticamente o diálogo muda quando o campo muda - o namorado que terminou o namoro não pode mais dizer e fazer as mesmas coisas que dizia e fazia antes, que pareciam tão naturais. De onde vem este campo, seus fatores, sua delimitação, é estudo da psicologia, da lingüística, e não é a questão crucial da psicanálise. É, realmente, nada mais que uma metáfora.

Neste sentido, o psicanalista faz aquilo que menos fazemos: ele pede que o analisando fale o que lhe vier à cabeça, qualquer coisa, por mais idiota ou sem sentido que possa parecer, e escuta! Ele simplesmente não se importa se faz sentido ou não. E o analisando faz aquilo que menos faz no cotidiano: fala tudo o que vier à cabeça - ou tenta (associar livremente parece fácil, mas não é tão fácil, no divã...). O analisando associa livremente, e o analista escuta com atenção flutuante. É esta a fala que se trata na psicanálise, e não o fazer-sentido cotidiano. O psicanalista que se aventurasse a analisar a roda de chopp correria o risco de ser linchado, como nos diz Fabio Herrmann.

É esta "regra fundamental" que faz com que a fala na análise tenha a sua premência: a regra da associação livre. Se fosse simplesmente falar como falamos sempre, o analista seria, no máximo, uma pessoa mais sabida que saberia uma solução para os nossos problemas - seria somente um sentido a mais.

A experiência da fala no campo analítico é distinta do "cotidiano". Ela não procura acrescentar sentidos à nossa vida, à nossa análise, embora obviamente vamos tirando sentido da análise também. A escuta do analista escuta o que se fala além, escuta a lógica do chamado inconsciente.

Alguma coisa, como sempre, CONTINUA...

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Bamboo

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Planta-ovo

A planta-ovo é a beringela. Perguntava-me Will a respeito do nome, egg-plant; e eu, muito erudito, repassava a informação colhida naquela tarde. A beringela selvagem (imaginem uma beringela selvagem, que ameaça à sociedade ela pode ser!) tem em média 3 centímetros de tamanho. É pequena, mas mortal. Provavelmente ela deve ter a forma de um ovo; um ovo escuro, talvez, sed ovum. Ergo, foi chamada de planta-ovo (ou melanzane, ou aubergine, ou nasu, ou brinjal, ou beringela). Suas primas mais civilizadas, contudo, tornaram-se aquelas senhoras beringelas, gordas e polpudas.

A beringela tem um poder fantástico de absorver qualquer tipo de gordura que você coloque nela. Duas beringelas médias podem, com toda a facilidade - e debochando da sua cara, se permitires - sugar o conteúdo de uma latinha de um quarto de litro de azeite de oliva. Sem titubear, sem um ai. É a coisa que as beringelas mais querem na vida: gordura. Água, luz do sol, minerais: tudo isto é colateral na vida de uma beringela, somente um meio para um fim mais nobre - sugar azeite de oliva e ser assadas em fogo alto.

As pessoas têm diversas formas de se haver com as beringelas. Uma seita alimentar moderna que começa com "macro" e termina com "biótica" diz que elas, as tadinhas plantas-ovo, são tóxicas, juntamente com o tomate e a batata, com as quais dividem a mesma família botânica das solanáceas. Uma pena, pois a mistura das três - juntamente com um bocado de pimenta, que também é uma solanácea - e cominho dá um belo, nutritivo e delicioso prato. O cominho é opcional, obviamente.

A questão da toxicidade das solanáceas não é motivo de dúvida: o motivo para cortarmos fora os brotinhos verdes que costumam nascer nas batatas é, exatamente, pelo motivo que na planta batatal a única parte que não é tóxica o bastante é o bulbo que chamamos batata. Quando a batata começa a crescer, concentrações de alcalóides aumentam nos brotos. As solanáceas são as plantas mais famosas da Terra, pelo serviço prestado aos nossos ancestrais, através dos seus alcalóides ("beladona" lhe sugere algo?).

Outras pessoas as amam. Talvez o lema das beringelas seja, realmente, beringelas: ame ou deixe elas. Felizmente as pessoas mais amam que as deixam, o que já se evidencia pelo fato de que, para um ovo escuro crescer até ficar do tamanho de um filhotinho de porco, alguma coisa a mais que o velho algoritmo darwiniano precisa atuar. Na Índia, a beringela é considerada a "rainha dos vegetais". Não é surpreendente vindo de um país em que as pessoas só tem vegetais para comer, muitas vezes. Resta saber se ela é rainha por um quê a mais, ou se é rainha pela sua presença constante e pressurosa.

Se ela é rainha, porém, o seu tratamento não é real. Macera-se, soca-se, corta-se, amassa-se, assa-se, frita-se, salga-se, tempera-se a beringela. Não conheço monarquia em que se louva a majestade com tratamento tão brutal - talvez na Revolução Francesa.


O meu primeiro contato com a beringela deve ter sido, provavelmente, com a beringela à milanesa. Durante muito tempo se achou, neste país, que o único uso a esta coisa preta fosse passá-la em farinha de rosca e ovo e fritar grossas fatias, que perderiam água, sugariam óleo e ficariam crocantes por fora e cremosas por dentro. As famílias emigrantes do Oriente Médio guardavam os seus olorosos segredos de beringela dentro de suas casas. Cosa nostra. Estes segredos incluíam suaves cremes de beringela, carinhosamente batidos; beringelas estalantes e cricrilantes, cuja casca rompia-se desapaixonadamente, como um relâmpago, recheadas com carnes, arroz, vegetais, temperos - ou a própria ela-mesma, retirada, processada e recolocada por mãos de dedos grossos.

A beringela, assim como as mais gostosas e mais suaves coisas da vida, é daquelas que a simplicidade é o dom e a regra. Colocada num forno com azeite, sal e pimenta, é antepasto, pasto e pós-pasto, acompanhada de um bom pão. Chorei de alegria quando, estes dias, descobrimos por acidente a beringela perfeita: as tiras longitudinais, salpicadas por azeite e sal, colocadas em forno altíssimo. Um pré-tratamento para uma futura lazanha, que saiu melhor que o mais apurado cuidado. O óleo salpicado - imagine você borrifando azeite de oliva como água - que não encharcava a beringela, e ao mesmo tempo lhe dava amparo espiritual para enfrentar o forno, deixou o resto da sua polpa entregue a si mesma, liberando seus sucos e aromas que, sublimados pela temperatura altíssima, não tinham mais o que fazer a não ser na polpa se agarrar, só que desta vez transmutados em algo mais - um éter, a quintessência.

Parada Gay

A parada gay de São Paulo, este ano, ganhou da parada de Jesus - em São Paulo - por meio milhão de pessoas, pelas estimativas.

3,5 milhões de pessoas somam 2 porcento da população brasileira. Seja protestando pelo fim da homofobia, celebrando a diversidade, festando com os amigos, fazendo um arrastão, caçando um parceiro(a), exibindo o corpinho sarado ou simplesmente fugindo da multidão, como a Gretchen, 3,5 milhões de pessoas reunidas nas ruas da maior metrópole brasileira é um luxo. Oxalá números menores pudessem ser reunidos por outros motivos. Ia ser algo legal de se ver, 1 milhão de pessoas reunidas na maior metrópole do Brasil pelo fim da corrupção - eu também tenho uma veia utópica.

Ironicamente, porém, um dos poucos incidentes da parada foi o esfaqueamento e a morte de um homem que não fazia parte dos 2 porcento (era francês) e, pela apuração policial até agora, não era gay. Um provável crime de ódio que errou de alvo. 3,5 milhões de pessoas e um episódio irônico podem fazer uma combinação interessante, em termos políticos.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Minhas palavras não seguem
minha poesia ritmos
minha prosa é tépida e lenta e gasosa

Pudera. Palavras.
Como mostrar a você 5 enésimos de um mundo
em palavras que contam um enésimo cada?
Velocidade inalcançável.

A música faria melhor, se o pudesse.
Ela sempre se reduz ao parvo silêncio.
Portentoso silêncio. Magnífico silêncio.
Porém silêncio.

Consegue você dividir as palavras?
Persegui-las, alcançá-las,
encará-las,
dividi-las,
romper a escuridão de uma palavra em suas monumentais letras de gesso
fazê-las abrir-se como a flor de um ferimento sem sangue
um corte simples
uma carne morta

e olhar para diante e quem sabe o quê.

Talvez fosse o mundo uma cortina, talvez o fosse.
Talvez houvessem buracos. Talvez houvesse além, e

domingo, 10 de junho de 2007

Balde de sangue quente:
rio interno. Tão perto
deste mar insosso, ar
corrente. Barreira de
carne: gaiola de idéias:
ferrugem.

Jacas e Bananas

terça-feira, 5 de junho de 2007

As fotinhas da Dé

A Dé é uma amiga de longa data. Formou-se em Jornalismo na UFSC recentemente, junto com Iso e Ju (ou Isadora e Willian, como quiseres). Tendo como paixão secreta a fotografia, Débora se perdeu nos vastos caminhos da yoga, esbarrando de leve no vipassana, para, então, reencontrar a sua grande paixão - a Lomo? Outra grande paixão é o (o que ele é, Dé, guitarrista? baixista? vocalista? enfim...), é o integrante de uma banda nova e promissora da ilha.

Ela está com um site, onde coloca as suas fotinhas. De vez em quando aparece alguma coisa boa :D então eu deixo aqui para quem quiser dar uma olhadinha (já que eu não posso copiar e colar).

domingo, 3 de junho de 2007

"Especulações em torno da palavra homem"

A ser lido sem pressa alguma... em voz alta.

ESPECULAÇÕES EM TORNO DA PALAVRA HOMEM

Carlos Drummond de Andrade

Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?

um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?

Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?

E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta

nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?

Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômem

brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes

de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai

e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?

Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?

Vale menos, morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem

é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?

Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?

Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem

consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono

que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?

Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?

Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?

Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas

e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem?

Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata

com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?

Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insone?

Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?

E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?

Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?

Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?

Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?

Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?

Há alma no homem?
E que pôs na alma
algo que a destrói?

Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?

Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?

E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?

Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?

Meus livrinhos - parte um

Duas lembranças de leitura da minha juventude jovem me vieram com mais força, estes últimos dias. Estou em busca do tempo perdido; sem madeleines, mas com ajuda de pé-de-moleques. O que se tratava de uma mera lembrança, portanto, agora se trata de pistas importantes para algo que eu não sei o que é.

E a internet é uma mão na roda para isto. Achei que ia demorar mais tempo, já que eu não dispunha de nomes e nada a não ser a minha lembrança e conhecimento de palavras-chave: mas em quinze minutos encontrei as duas referências que eu queria. Uma delas, que fica para a próxima - talvez alguém se lembre com emoção e então poderemos ser nostálgicos juntos - é Mai, Garota Sensitiva. Lançado em 1992 - eu tinha 9 anos - foi um dos primeiros mangás a aparecer nos EUA e aqui no Brasil, pela editora Abril. Imagens dele grudaram na minha retina imaginária até os dias de hoje. Durante a minha mudança do bairro de infância para cá onde estou, aos 13 anos, estes "gibis" sumiram, para a minha tristeza na época.

E então, alguém se lembra de uma coleção chamada Aventuras Fantásticas? Eram um livrinhos "de RPG", como o chamavam, de capas com desenhos interessantes e verdinhos. Tinha mais de 20 títulos, dos quais cheguei a brincar com uns cinco, no máximo. Como é que funcionava? A Ediouro, nesta mesma época, tinha uma coleção "Enrola e Desenrola", ou alguma coisa "Escolha a sua aventura". A premissa é mais ou menos esta: o livro dispõe de uma quantidade de seções numeradas. Começando com a primeira, você toma uma escolha que, cada uma delas, o remete a uma seção diferente, e assim vai até terminar.

Esta série "Aventuras Fantásticas" adicionava um toque a mais, acrescentando nuances de RPG - como a definição de pontos iniciais, que eram utilizados nos "combates" e em outros impasses, e o uso de dados para determinar tais resultados.

Um título foi especial para mim. A maioria deles era de um colorido medieval RPGéico, com monstros e tesouros e feiticeiros e a balaiada toda. Alguns não o eram: uns eram mais voltados para a issai-fai. "Planeta Rebelde", porém, me fascinou de uma forma especial. A história issai-fai era interessante, na época; os problemas eram mais interessantes - incluindo um problema "final" que envolvia números binários e que eu achei o máximo; e as ilustrações. Ah, as ilustrações. Acabei de vê-las agorinha mesmo e, além da animação ao ver coisas passadas, relembrei do tesão que eu tinha com aquelas ilustrações, e como aquele "estilo" ficou comigo durante muito, muito tempo - principalmente nas ilustrações que eu próprio fazia.

(Não estou falando da ilustração da capa, por favor.)

Para quem quiser conferir, um pessoal disponibilizou o livro em formato PDF aqui. Então talvez possam sentir o Luquinha.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Fratura exposta na canela

Fui hospitalizado uma vez somente, creio. Talvez duas. Foi quando eu quebrei a minha perna, na metade da canela; tinha eu 13 anos. Fratura exposta: andava de bicicleta no meu bairro de infância, quando eu decido atravessar a rua, defronte à casa do meu pai. Vi um carro ao longe, indo para o aeroporto; talvez ele estivesse indo rápido demais, talvez eu tenha calculado mal. Ficou a primeira versão.

Era uma mulher, dentro do carro, que parou e me socorreu. De qualquer forma, o socorro era o menor problema, pois com a pancada pode-se ouvir lá de trás, onde o meu pai se encontrava com a minha irmã e a namorada dele.

O capô amassou e a minha cabeça bateu no vidro dianteiro, quebrando-o e deixando-o com linhas diversas, como uma teia de aranha. Eu voei aproximadamente quinze metros, indo parar do outro lado da rua.

É uma percepção engraçada: eu me lembro de coisas fragmentadas. Lembro de ver o carro vindo na minha direção, e de saber que ia ser atropelado - sem sentir medo, ou me lamentar. Lembro então de ver, tudo meio preto e branco, cinzento, pouca luminosidade e poucas cores, a minha vista indo do asfalto para o céu para os fios dos postes para o asfalto para o céu para os fios de postes - eu girei no ar umas duas vezes. Então estava no chão. Nenhum baque, nada disso. Simplesmente saí voando e pousei, sem sentir a batida ou o baque no chão. Foi como se eu tivesse levantando vôo e pousado de costas.

Mexi-me devagar. Nada parecia errado. Vi se tinha quebrado os dentes, ou se sentia alguma coisa na cabeça. Percebi que o meu relógio não tinha quebrado. Um tanto automático, sem pensamentos. Levantar-se. Era estranho. Mexi a perna direita: ela se movimentou. Mexi a perna esquerda: algo estava engraçado. Era como se ela não estivesse lá, como se fosse de borracha. Levantei a cabeça e vi o meu calcanhar fazendo um ângulo grave com o resto da canela. E foi então que eu gelei, e gritei alto, sem o saber.

Daí para frente, é só ver o meu pai e o pessoal todo vindo, com olhares assustados e vozes ansiosas. Até hoje tenho uma cicatriz que incomoda um pouco quando se passa a mão, e creio que uma perna ficou maior que outra.

Fiz operação e tive a minha primeira anestesia geral. Um verdadeiro sono sem sonhos.

No momento: não dói, não há medo, não há preocupação. Tudo isto vem depois - depois do quê, exatamente? Esta é uma pergunta muito interessante.

Eu sempre me lembro deste episódio. Sabem por quê? Eu morro de medo de ter dor.

Continua...

terça-feira, 1 de maio de 2007

Meu presente

Completei 24 anos de vida, na semana passada, dia 17.

Ganhei poucos presentes. O que se sucede? Com o passar dos anos, as pessoas dão menos presentes? Sou eu e a minha talvez falsa modéstia em dizer que não precisa de nada, somente a "presença"? Ou é a falsa modéstia dos outros? A situação econômica?

E nem mesmo fui caprichoso em alguns pedidos... me perguntaram o que eu queria, eu respondi: "um abajur", pois preciso de um abajur para meu quarto. Talvez tenha sido somente para demonstrar a intenção de me dar um presente... talvez a própria intenção de me presentear, por si mesma, tenha sido o meu presente. Tempos estranhos, em que nos presenteamos com intenções.

Ainda estou esperando o meu exemplar de "O idiota". Existem outros itens, também, desde 15 reais até a seu rendimento anual. Ainda está em tempo; aproveite.

Mas eu descobri o que eu gostaria muito de me dar de presente. Sim, eu me dar de presente: este papo de presente entra em cena no aniversário, mas todo dia é dia de índio e de presente - uma flor, qualquer coisa. Eu me daria de presente a qualquer dia, este presente. Eu gostaria de ter, sempre do meu lado, um alguém ou algo que me criticasse, com argúcia, inteligência, ironia, finura e firmeza.

Não precisa ter um ar de intelectual e usar óculos de retângulo aro grosso, me olhar por cima e jogar sua torrente ácida; tampouco seria alguém com "experiência", um realista, uma pessoa mais dura e vivida que sabe do que a vida "é feita" e que me puxasse para baixo. Besteira. Nem um tampão, nem um tapado. Podia ser uma pessoa tão estúpida quanto eu; perdida nos mesmos rodeios, um tanto hesitante, um tanto entediada em muitos momentos.

Não, não estou falando de um amor, de um relacionamento. Não, gente, nada disso. Estou falando de um crítico, ou conselheiro, a palavra que melhor lhes descer.

Podia ser um amigo imaginário, uma alucinação, um diálogo interno comigo mesmo. Que diferença faz? Nenhuma, a não ser que se faça na rua e assuste os cavalos. Podia ser um homem jovem, ou uma mulher velha; idoso ou jovem, menos criança - uma criança assim pode me assustar. Um animal também não conviria muito: ia achar muito estranho um animal falante. Pelo menos no começo.

Alguém bem-pensante e bem-falante. Nada de circunlóquios ou preleções; nada de um mestre para me dizer o certo, ou um sacerdote para me contar do errado. Alguém que sabe que critica, mesmo enredado nas mesmas coisas que critica; alguém que sabe que toda firmeza pode ter algo de agressivo, mas somente por um momento; termina-se com um café, depois. Nada de carinhos ou abraços excessivos: eles tendem a atenuar demais os efeitos das palavras.

Eu queria uma outra palavra para atenuar as minhas arestas; uma outra palavra para me tirar um pouco fora daquilo que eu presto tanta atenção: a mim mesmo, à minha miséria e à minha salvação.

Tirar fora não é, simplesmente, esquecer.

Eu queria me levar menos a sério. E isto, muitos devem saber, é facílimo de dizer - e tão complicado para vivenciar.

Este lugar - este lugar que eu delineei e poderia continuar a fazê-lo, embora de fato seja muito simples - é um lugar complicado. Poucas pessoas assumem este lugar. Em sua maioria, amigos, durante pouco tempo, quando não entram naquilo que amigos gostam muito de fazer: fantasiar conjuntamente.

Este lugar é um lugar: não é uma pessoa, ou um título. Como eu falei, pode ser uma alucinação, se for o caso. O problema das alucinações é que elas costumam ser bastante perturbadoras - e isto não tiro da minha experiência pessoal, que é muitíssimo pobre em alucinações.

sábado, 28 de abril de 2007

Questões issai-fai


Issai-fai (dois ditongos, "ái") é o termo antigo, usado pelas exuberantes culturas terrestres, para descrever uma área específica dos estudos sagrados: aquela da previsão. Alguns dos profetas issai-fai consideram-se descendentes diretos de uma tradição cultural de quase três milênios - ver ornitomantes, oniromantes e cartomantes. A maioria deles, contudo, nega esta descendência, preferindo-se colocar à parte de qualquer política temporal - muitas vezes assumindo uma postura cética, o que os liga com outra política temporal terrestre. No auge do movimento consumerista dos primeiros séculos da era nanológica, os estudos issai-fai colocaram-se à disposição para a produção contínua de material descartável. Foi somente com a concretização da intervia D a partir dos trabalhos de Golber e associados que muitos dos antigos profetas foram religados por um intervalo de 34 horas-p. Neste breve intervalo 27 novos rumos para o futuro da ASTI-Galáxia - em três linhinhas - foram delineados, nenhum de acordo com a Condução-FR. Assim, todos os antigos profetas foram exilados para a Aislândia, o que provocou a bancorrota de dois dos maiores conglomerados: o custo associado e corrigido de transporte, embarque-desembarque, chocolates e água mineral na Terra-1 era, para não dizer estrondoso, profético. Por que a Aislândia? Esta é a pergunta que vamos tentar esclarecer neste Xou.

ASTI-Madonna, em "Complexidades da religação: novas questões em uma época não tão nova". Xou no equinócio vernal do ponto-eixo 45.

Os maravilhosos conceitos lacanianos - Significante

O que são os maravilhosos conceitos lacanianos? O que eles têm de maravilhoso?

O problema com os conceitos é que sempre esperamos aquele conceito... aquela palavra, aquela idéia, que fará a diferença - para um discurso, para uma instituição, para uma pessoa. E, na verdade, como uma pessoa - um sujeito - é efeito de discurso, não muda muito se se trata da Igreja, do Estado ou da dona Maria.

Temos esperança com os conceitos... esperamos que um significante recubra a falta. Esperamos que um significante nos represente, que podemos chegar e dizer "depois de tanto tempo, isto aqui sou eu! isto me representa... isto é o que eu sou." E aqui eu introduzi um dos maravilhosos conceitos lacanianos, o de significante.

O maravilhoso dos conceitos lacanianos é que, a primeira instância, eles podem nos dar a esperança de cubrir algo - e eles maravilhosamente podem servir para fugir desta esperança. Não por sua "natureza intrínseca fugitiva da esperança", mas por estarem no campo do discurso psicanalítico.

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(Longa preleção sobre o conceito de significante; poderia eu me fazer mais claro? Fica a pergunta para todos. Nada de importante: passe para a próxima barra, se te apraz. Se te apraz, não me leia: faça o favor, contudo, de me avisar, com antecedência, que não me lerás.)

Significante é um conceito retirado da linguística, a linguística que nasceu no começo do século passado com Saussure. Saussure nos diz que a unidade linguística é o signo linguístico, e o signo linguístico é composto por duas partes: o significante (S) e o significado (s). A palavra "árvore", por exemplo, é um signo por ter um significado - o conceito - e um significante - a "imagem acústica" árvore. Saussure rompe com tradições que nos fazem pensar a unidade linguística como a relação de um termo a uma coisa: "o signo linguístico une, não uma coisa a um nome, mas um conceito e uma imagem acústica. Esta última não é o som material, coisa puramente física, mas a marca física deste som, a representação que nos é dada por nossos sentidos; ela é sensorial, e se nos ocorre chamá-la 'material', é apenas neste sentido e por oposição ao outro termo da associação, o conceito, geralmente mais abstrato" (Curso de linguística geral, Saussure).

s/S

O importante de ver aqui, para os propósitos do meu texto, é que o significante e o significado, para Saussure, não estão em uma relação imutável de colamento: há uma autonomia do significante para com o significado, e esta autonomia é que permite as substituições presentes na metáfora e na metonímia.

"Uma árvore não é somente uma árvore: uma árvore pode ser uma árvore". Se tivéssemos apenas uma fixidez entre significante e significado, a frase acima não teria sentido nenhum. Ela, contudo, pode ter um sentido.

Lacan introduz, em seu ensino, material da linguística, da chamada linguística estrutural - esta de Saussure. Na leitura de Freud, Lacan recolhe a idéia de significante e significado no "funcionamento mental".

O que difere - radicalmente - o uso dos dois conceitos em Lacan é que este nos diz da primazia do significante sobre o significado - S/s. O que, para Saussure, são duas cadeias mais ou menos correndo juntas - a cadeia dos significantes e a dos significados - trata-se, para Lacan, da primazia do significante, e da cadeia significante. O significado, aqui, passa a ser produto do deslizamento dos significantes.

Quando falamos, na nossa fala, temos uma série de significantes dispostos temporalmente. "Um rato roeu a roupa do rei de Roma" é um exemplo, todos eles significantes. O significado total da minha enunciação não é exatamente a soma dos significados de cada termo: a significação é dada somente no final, na minha pausa. Um. Parei somente com o um. Diz alguma coisa? Uma pessoa contando, talvez. Um rato. Factual, um rato, rato. Um rato roeu. O quê? A roupa. Um rato roeu a roupa. Ponto. Cada uma destas frases tem um significado diferente, não exatamente dado pelo simples somatório dos significados - mas sim pela disposição temporal dos significantes.

Lacan nos diz que a significação - o sentido - não é uma dimensão paralela e conexa com os significantes, mas é efeito de significantes. Quando se diz "linguística estrutural", se quer dizer que a linguagem é uma estrutura. Há de se saber mais sobre o conceito, sobre o movimento do estruturalismo - de forte impacto intelectual. Vide a obra de Levy-Strauss. Mas, basicamente, uma estrutura - como a da linguagem - é determinada pelos seus elementos em relação - estrutural - uns com os outros, não dependentes de uma organização externa.

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O grande "axioma" de Lacan - que muitos dizem ser o que ele desenvolveu durante os 30 anos do seu ensino - é a afirmação poderosa de que

O INCONSCIENTE É ESTRUTURADO COMO UMA LINGUAGEM

Prestemos atenção: o inconsciente (freudiano, psicanalítico, fruto da relação analítica) é estruturado como uma linguagem (a própria linguagem sendo uma estrutura). Como uma: o inconsciente não é uma linguagem, mas os seus mecanismos são como os mecanismos de uma linguagem.

O inconsciente é este constante e atemporal deslizar de significantes; o significado é efeito deste deslizar, e está mais do lado do consciente, do eu.

Lembremos que o significado é o sentido: para Lacan, o sentido é efeito do deslizamento "automático" de significantes "no" inconsciente.

É isto que a experiência da psicanálise vem nos mostrar. Isto chega a ser obsceno.

Como fica a questão colocada no começo do meu post, quando aceitamos pensar - ao menos por um momento - no significante para Lacan?

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Outros maravilhos conceitos lacanianos: objeto a Outro gozo sujeito desejo

Lição de casa

Para vocês, meus sinceros e fiéis leitores, a lição de casa de hoje é pesquisar sobre um singular item:

vocoder

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Empurrando o envelope

Existe uma maravilhosa expressão em inglês: pushing the envelope. Eu a escutei, pela primeira vez, no delicioso Storming Heaven, o relato de Jay Stevens da contracultura americana e aléim.

"Empurrar o envelope".. eu fiquei imaginando como empurrar um envelope... um envelope de borracha, talvez, um pouco de ajuda da topologia...

Nada que uma pesquisa de 5 minutos na net não me mostrasse que o tal "envelope", neste caso, é um conceito matemático, o "locus da interseção de curvas consecutivas". Dêem uma olhada aqui, para uma explicação (em inglês) da expressão.

Pushing the envelope quer dizer, dona Maria, "ir além, levar além dos limites preestabelecidos".

Na síntese sonora, o "envelope" de um som é a variação de sua amplitude no tempo. Mais conhecido como "envelope ADRS", é uma modulação dos diversos componentes, no tempo, de um som específico: ataque/attack, o tempo que leva para o som chegar a sua amplitude máxima; decaimento/decay, o quanto o som cai até chegar no nível seguinte; sustentação/sustain, o nível em que o som permanece até repouso/release, que modula quão rápido ele vai se "extinguir" (pensem numa nota de piano com o pedal para um release mais lento).

Parece simples, não? E é. Mas é impressionante o quanto mexer com estes quatro parâmetros podem modificar o som. Se quiser fazer a experiência, baixe um programinha qualquer de sintetizador (como o FruitLoops, o que eu brinquei um monte) e experimente em mexer nesta curva. Ele é um dos elementos cruciais da síntese sonora, este mundo novo e selvagem e maravilhoso.

Eu sempre imagino que a música eletrônica pushes the envelope. Eu tenho estima pelos envelope pushers. Acho um trabalho maravilhoso. De vez em quando eu abro os olhos e vejo gente pushing the envelope... e sempre imagino um envelope ADRS tomando forma de som, e mais gente mexendo com LFOs, amplificadores, sintetizadores, mixers; pushing the envelope.

Eis a minha contribuição de entrada para uma eulogia da museletro, que ecoa na minha cabeça recentemente. Em breve, em breve.

Real, simbólico e imaginário chez Lacan


Lacan nos propõe uma metáfora. Se nós tomamos uma mesa, a mesa imaginária recorta as funções deste objeto: se come nela, pode servir para colocar um vaso, marca a refeição, etc. A mesa simbólica é a palavra "mesa" tal como ela vem se ligar dentro do discurso: "à table!", fazer "table rase" [fazer tabula rasa, começar do começo, de novo] - o significante "mesa" pode assim se inserir dentro de outras expressões, como "table de matières" [sumário]. O real, enfim, se constitui do resto, mesmo daquele que não se conhece.

Lacan propose une métaphore. Si nous prenons une table, la table imaginaire recoupe les fonctions de cet objet, on mange dessus, elle peut servir à poser un vase, elle marque le repas, etc. La table symbolique, c'est le mot table tel qu'il vient se lier dans le discours : à table!, faire table rase - le signifiant table peut aussi s'insérer dans d'autres expressions, comme table des matières. Enfin, le réel se constitue du reste, soit ce que l'on ne connait pas.

sexta-feira, 20 de abril de 2007



Vocês, vocês, vocês têm três dias para assistir à minissérie televisiva Angels in America, antes que eu escreva um post sobre esta fabulosa história e passe por cima de qualquer spoiler warning conhecido.

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Botei uma foto de casa aqui.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Caffè sospeso

Dizem que a tradição nos cafés napolitanos - o sul da Itália - era a de uma pessoa, considerando-se afortunada, ou tendo acordado com o pé direito ou com um pouco mais de dinheiro no bolso, entrar em um café e pedir um "café em suspenso" - caffè sospeso. Ela bebia o seu café - seja ele espresso, prensa francesa, será que havia café turco? e pagava dois. Um segundo, já pago, ficava em suspenso para qualquer pessoa de menos fortuna que entrasse no café e pedisse por um que tenha ficado sospeso naquele dia.

Foi assim que eu ouvi. Dizem que acontece até hoje. Fico imaginando se criássemos o hábito de deixar coisas em suspenso aqui no Brasil, o que aconteceria.

Fico imaginando também os cafés em que todos sabiam que o dono embolsava mais sospesos do que o aceitável... ou aquele em que, pro velho comerciante, todo dia era um bom dia para mais sospesos, mesmo que ninguém tenha pagado por eles.

*****

E falando de café... eu ia escrever uma coisa sobre o café espresso, dizendo que as pessoas falam "expresso" com X para a palavra italiana espresso, que talvez significasse outra coisa do que "expresso". "Expresso", em português, quer dizer uma coisa que é rápida ou direta, ou uma coisa que é exprimida (não confundir com "espremida"). Eu pensava que espresso, em italiano, seria um falso cognato: que poderia remeter a "expresso" (pt), mas na verdade não remeteria. Eu poderia jurar que espresso era um particípio de um verbo que eu não sabia, o qual significaria "espremer", ou "passar sob pressão" - e então, neste caso, seria cognato de "espremido" ou "pressionado". Ledo engano meu: na verdade espresso (it) é, realmente, cognato de "expresso" (pt): meia hora de pesquisa na internet me demoveu de um conhecimento que eu achava que tinha.

Espresso é particípio do verbo esprimere, que quer dizer "expressar". Além disso, espresso também tem o significado de "expresso" - rápido, ou direto. Espremido (squeezed), em italiano, é spremuto - do verbo spremere. E pressionado/passado sobre pressão (pressed) é premuto.

(Eu coloquei as palavrinhas em inglês do lado pois eu procurei aqui.)

Quer dizer que está grafado incorretamente, se se quer manter a palavra em italiano, mas a tradução - a qual eu imaginava incorreta - está correta. Como mantemos a nossa sanidade cultural e não escrevemos caffè, então aí está.

Se você, leitor, tem uma correção, por favor, me mande; eu posso estar falando besteira.

domingo, 8 de abril de 2007

Mar bravio


BeiraMar num domingo de mar bravio.
Clique na imagem e ela, magicamente, se torna maior.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Henry Sobel

Eu não conheço o rabino Henry Sobel. Já o tinha visto, várias vezes, a sua imagem e a sua voz, na mídia; achei engraçado o sotaque, o cabelo. Não escutei direito o que ele falava. Então, não o conheço como rabino e como líder da comunidade judaica de São Paulo. Não sei do seu trabalho.

Ele, como todos sabem, foi pego roubando gravatas "de marca" em um loja em Palm Beach, EUA. Ele declara que não teve a intenção de roubar as gravatas, de que não sabe muito bem o que aconteceu. Passou uma noite na prisão, pagou uma fiança de 3680 dólares e pronto. Foi internado no hospital Albert Einstein na sexta passada, para investigar possíveis desordens psiquiátricas ou afins.

Reações diversas ecoaram: manifestações de solidariedade e preconceito seguiram uma a outra. Ele se afastou temporariamente da sua congregação, muito sensatamente.

Como estudante, eu sei que o rabino pode estar sendo "sincero" (relatando uma vivência "real") quando diz que não quis roubar; estas coisas acontecem. Não podemos dizer, contudo, que ele está sendo, pois isto requer uma confiança que não é preciso depositar, neste momento. A discussão passa longe se o rabino "é ou não é" cleptomaníaco ou não, se ele é um perverso ou não, se os remédios que ele toma mexeram com a cabeça dele ou não. Pessoalmente, esta discussão toda pouco me interessa, por só trazer, cada vez mais, preconceitos e defesas contra preconceitos.

Lembremos do famoso argumentum ad hominem: trata-se, na lógica, de oferecer um argumento contra um propositor do que contra um outro argumento. Falar mal de uma coisa - a religião, por exemplo - através de pontos considerados depreciativos nas pessoas que a advogam, ou nos seus representantes.

O caso dos "homens de religião" é complicado, pois deles é esperado que encarnem a moralidade de sua religião, que ajam moralmente. Assim, cai tão mal a um rabino ser flagrado roubando gravatas, mesmo que ele tenha dito que não o queria fazê-lo...

Disto tudo, tem somente uma coisa que eu gostaria de dizer: eu não queria que o rabino tivesse tido um tratamento pior, ou que esse ato isolado dele justificasse o depreciamento de uma instituição religiosa, ou de sua própria pessoa. Eu queria somente que um outro qualquer pudesse ter o mesmo tratamento e a mesma solidariedade, independente de ser rabino ou judeu ou católico ou comerciante ou evangélico e presidiário.

Lavou, tá limpo.

Sul da Ilha

Eu cresci, a minha infância, no sul da ilha, no bairro do aeroporto, Carianos. O aeroporto não era internacional: era mais um galpão de concreto com uma pista, que se conectava por caminhos misteriosos com a base aérea da aeronáutica. Um dos finais da rua (que depois virou avenida) Diomício Freitas era, justamente, num portão - uma guarita - que separava o "bairro dos oficiais" do restante da população civil. Havia uma certa rivalidade entre quem era filho de oficial militar e quem não o era, alimentado pelo esnobismo inocente.

Meu pai, por ser o dono da farmácia do bairro, tinha o crachazinho para passar pela guarita e adentrar na base aérea. Quando eu ia tomar banho na Tapera - uma praia pequena, de areia muito grossa e água parada como uma poça, cheia de medusas - eu ia por ali. Começavam logo as casas, todas semelhantes, dos oficiais; logo depois terminava esta aglomeração e a estrada continuava durante muito tempo, cercada dos dois lados pelo mato. De vez em quando via-se uma clareira que seguia em linha reta por dentro do mato, onde antenas baixas e parrudas se alinhavam em intervalos regulares. Mais a frente, uma elevação retangular, verde de grama, abrigava uma piscina onde se era tratado o esgoto. Logo depois, a estrada fazia uma curva e descobertava-se então o mar, uma pequena praia da mesma areia grossa da Tapera, um pouco mais agitada por causa do vento sul soprando. Praia deserta, não se podia tomar banho - ou ao menos as pessoas não o faziam. Propriedade da BASF. Um trapichão se debruçava sobre o mar. Uma das primeiras fotos que eu tirei - com uma câmera pequena, que tirava ainda fotos quadradas - foi de lá. Eu tinha visto uma baleia espanando o rabo na água. Corri e tirei uma foto; não me lembro de onde veio a câmera. Jurava ter enquadrado a cena: engano meu. Na foto, somente o mar de várias ondas pequenas do vento sul.

Um sentimento maravilhoso: aquele mar, aquele vento, aquele sol, aquela tranquilidade. Quase nenhuma pessoa. Eu catava conchas, nas poucas vezes em que ia para lá, e trazia montes delas para casa. Elas fediam dentro de uma sacola, o cheiro de mar podre, até que pai ou mãe resolviam jogar fora, para a minha insatisfação: eu apenas não tinha decidido o que fazer com elas. Colocava muitas de molho em um balde com um pouco de sabão, para tirar a lembrança molhada do mar. Muitas estavam quebradas, ou lascadas nas beiradas. Muitas eram muito velhas: assim o supunha, por ser que pareciam como pedra-pomes, cheias de bolhas e buraquinhos, prestes a se esfarelar e se dissolver na água. Outras, eram brilhantes, peroladas, como unhas esmaltadas. Algumas tinham um preto como ébano laqueado; outras eram brancas como osso.

Eu me lembro, quando eu cortei o pulso em um acidente aqui mesmo, na porta do prédio onde moro, que eu vi de relance o osso do meu punho. Era uma cor de pérola, um branco perolado, lindo. Muitas conchas eram assim.

Para entrar no meu bairro de infância, era preciso - e ainda o é - atravessar um espaço só de mato e mangue. Você vai pela Costeira, e em vez de pegar para o Sul-propriamente-dito (Rio Vermelho, Campeche, etc), vai para o aeroporto. Passa a ponte, de onde se tem uma vista bonita da Hercílio Luz brilhando de noite, e um breve espaço sem nada construído, a não ser a estrada e uma cerca alta, tem de ser percorrido antes que o Carianos comece a surgir aos poucos. A primeira vista é a vista do estádio de futebol da Ressacada. Quando eu era pequeno, a estrada era baixa e, quando a maré estava alta, a água do mar tomava a pista, saindo do mangue e do rio ali pertinho. Muitos carros ficavam sem poder seguir em frente; outros modelos o motor aguentava melhor. Este problema não existe mais, pois elevaram a altura da pista. Foi assim, contudo, que eu aprendi sobre este segredo incrível das marés, da forma mais prática possível para mim.

...

Mas eu comecei a escrever para falar de outra coisa. Comecei e fui por outros caminhos, ou por outro caminho, o caminho da "memória"... Eu cresci no sul da ilha, e conheci razoavelmente as praias da região. Tenho as minhas preferências, a até hoje gosto muito mais das praias do sul, de mar bravio e azul-escuro, açoitadas continuamente pelo vento sul, do que as paradas águas das praias do norte - as praias conhecidas do norte, claro. Santinho é uma exceção, e Moçambique, bem, ainda não tive coragem de conhecer a maior praia. Andei em vários costões, e muitas vezes encontrava grandes pedras, de uma pedra meio avermelhada, cor de ferrugem, com pequenas depressões. Muitas eram como se fossem pratos talhados na rocha: buraquinhos redondos, bem rasos, do tamanho de um prato cotidiano, um tanto maior. Haviam também, em menor quantidade, talhos profundos ou rasos. Eu sempre me perguntei, e perguntava aos adultos ao meu redor, o que eram aquilo: intuía que não era nada natural, embora não ficasse tão surpreso se alguém me dissesse que eram naturais. Mas a mim me pareciam coisa humana. Pensava se não seria gente mais antiga e mais rude, pescadores também, que utilizariam as pedras - e seus curiosos entalhes - para limpar peixe, talvez? Não sabia, e ninguém podia me dizer o que era.

Leio hoje num jornaleco, então, o projeto para colocar placas perto destas pedras, na Barra da Lagoa, informando do que elas serviram: oficinas líticas, ou "bacias de polimento", assim o dizem, onde os povos pré-históricos e indígenas da Ilha poliam e afiavam seus utensílios, armas e ferramentas. E lá estava a foto de uma dessas pedras, tão claras na minha lembrança. Na Barra tem algumas, uma, se não me engano, na beira mesmo do canal, perto de onde a criançada pula na água. É bom que se conte a história: as coisas ficam mais interessantes. Se bem que eu ainda ache que ficaria mais interessante sem placas, sendo contada por um manezinho...


segunda-feira, 2 de abril de 2007

Explicando Freud - lacaniamente? - parte I

Tudo começou quando os psicólogos leram o tal o do Freud.

Na página da Wikipédia sobre "desenvolvimento psicossexual", em inglês, desenrola-se todo aquele papo de "fase oral", "fase anal", de que a criança na fase tal é assim e assado, e que as pessoas que ou param ou regridem a tal fase do seu desenvolvimento são assim ou assado.

Isto não é psicanálise, isto é a psicologia usando vocabulário e palavreado psicanalítico.

O pior, contudo, é quando diz que, no advento da fase fálica, "pelos seis anos de idade", o menino "se apaixona pela mãe" e quer "tomar o lugar do pai". E então todo o drama do complexo de Édipo acontece, e o menino desiste de querer tomar a mãe do pai e se conforma com a castração. E então entra "em latência".

E isto é, realmente, a visão da psicologia do desenvolvimento que se encontra nos manuais.

Para o leigo - ou turista - que se aventura a ler psicanálise, ou este tipo de apresentação causa uma resistência incrível, ou a historinha bem-contada seduz, de alguma forma.

Semana passada tive a excelente oportunidade de ver isto por mim mesmo: uma mãe achou absurda a idéia de que o seu bebê tivesse uma "sexualidade", e ainda mais que esta sexualidade envolvesse ela, a mãe. Eu não tive como responder, na hora, de uma forma adequada ao momento e à ocasião.

Mas, quando ela falou isto, me veio a cabeça a imagem de um bebezinho - vamos chamá-lo de Pedro - que tem um Pedrozinho na cabeça e que tem desejos sexuais pela mãe e que por causa disto quer matar o pai. Isto é ridículo. Isto não é psicanálise. Em primeiro lugar, a criança sequer nasce com um "eu", para Lacan; até mesmo para sacar que ela é um corpo, um corpo separado da mãe, demora um pouco, e demora ainda um tanto mais para juntar os "fragmentos" do seu corpo em uma imagem aceitável - no famoso "estádio do espelho". O eu é uma construção imaginária, um jogo de espelhos. Lacan chama o recém-nascido de "pequeno pedaço de carne", o que não é tão delicado da parte dele.

Sexualidade não é o sexo. Parece óbvio, mas talvez não seja. A libido não é a força dessexualizada que Jung supunha ser, mas também não é somente a vontade de colocar o coisinho no buraquinho. Envolve as excitações corporais e o que fazemos com elas, desde pequenos. A "descoberta" do recém-nascido é que, junto com a satisfação de uma necessidade - fome, por exemplo - houve um "a-mais". O leite vem e mata a fome, mas vem este "a-mais" - o "amor da mãe", falando metaforicamente - que não se pediu.

É claro que o bebê não pediu nada, afinal ele nem sabe que desconforto é aquele que ele sente. O organismo chora, a mãe interpreta: "é fome o que ele tem", e vai lá e dá o peito. A satisfação da fome vem, e com ela o a-mais. É "de brinde". E é este o tipo de coisa que se aprende a pedir do outro - o brinde, o a-mais. Isto é sexualidade, para a psicanálise. A mãe tem prazer em amamentar, o bebê recebe mais do que o leite da mãe.

Continua...

domingo, 25 de março de 2007

Continue a história

Na noite do pepino, todas as mulheres solteiras de uma pequena cidade...

quinta-feira, 22 de março de 2007

Mudanças

Vitor voltou da Alemanha, onde estagiou durante um ano no departamento de demos executáveis - será que escrevi certo? - de uma das maiores empresas de software do mundo, a SAP. Passa seis meses no Brasil - volta depois para lá, para mestrar. Ele relata a suas "impressões" sobre cá-esta-terra em seu novo blog, escrito em inglês para os seus colegas do velho continente.

Vamos dar oi pro Vitor, galera! Oi, Vitor!

Bem-vindo de volta, meu querido!

O caríssimo Robizito vai ser casar. Será? Que coisa linda.

Se caminhares pela praça Roosevelt - Sampa - numa noite de semana e encontrares um carinha moreno, de grandes olhos e queixo mal-escanhoado, pergunte se o nome dele é Willian. Nas noites de deprê ele se manda para lá com um caderninho de "aspiral" - que arrepio que eu tenho quando escuto alguém dizer isto - e escreve, enquanto vê o povo da cena cênica paulista. Abra a Playboy deste próximo mês, abril, mês do meu aniversário, e procure por uma matéria sobre cachaça: é dele. Procure outra sobre hambúrgueres, e esta é do Bruno, que lá está também - só que nos dias de deprê ele se manda pra FNAC.

Adri(ano) agora é mestre - em psicologia, pela UFSC. Não consigo evitar a tentação de toda vez que o vejo o chamar de mestre. Todos que o viram nestes dois anos passados sabem o quanto este lindo exemplar neurótico deixou de ter vida pessoal, dedicando-se à sua pesquisa. Alguém lhe dê uma reatulizada sobre as futilidades humanas, por favor! Parabéns, meu caro Adri.

Meu pai cortou a perna com uma serra-elétrica estes dias, na região do joelho. Fui para a casa dele, visitá-lo, pensando que o encontraria de repouso na cama; ledo engano. Lá estava ele com a perna dura como uma pedra, no balcão do seu restaurante, andando pra lá e pra cá, serelepe.

Minha mãe pensa em fechar a farmácia; depois disso ela vai passear pela casa dos meus avós. Quem sabe ela não volta a estudar?

Flávio Joshin pensa em abrir uma academia de yoga com o irmão.

O que a Débora está fazendo eu não conto, pois este é um blog de família.

Minha irmã está com 20 anos e eu me surpreendo por ela ser uma mulher.

Eu vou começar estágio em psicanálise com o Sérgio, meu analista.

Mudanças, mudanças. Às vezes eu gostaria que parasse um pouco, mas na verdade eu sei que não pára, e só assusta muito quando quem não quer mudar é você mesmo. Os últimos dias foram assustadores, mas coisas novas vão aparecendo, e é um engano pensar que nada disso me toca. Por quantas coisas eu chorei, por desamparo, por desespero? Como é bom poder respirar, depois de ter de segurar o fôlego durante mais do que confortável.

Eu falo pra todos que eu tenho uma relação sui generis com os livros: eles me visitam nas horas em que costumam fazer mais sentido (claro que isto pode ser uma ilusão cognitiva proporcianada pelas vezes em que leio livros e sou profundamente tocado por eles, destacadas das vezes em que os leio e isso não acontece, mas não quero deixar a mágica se perder assim tão fácil não...) O que dizer do primeiro capítulo de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector? Ou mesmo, eu me lembro bem de ontem, indo pro João Paulo, um bairro aqui de Florianópolis, no ônibus, abro o livro e encontro a dedicatória:

A POSSÍVEIS LEITORES

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. C.L.

É um tanto natural e fácil amar aquilo que se é semelhante. Amar a diferença, que dificuldade!

Amar a dificuldade, que diferença!

terça-feira, 20 de março de 2007

De volta...


Marido e mulher dormem na mesma cama, mas não sonham os mesmos sonhos.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Ah, que delícia de ilha...


Praia Mole, perto da entrada para a trilha da Galheta, esta terça-feira passada.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Baudrillard est mort

Jean Baudrillard morreu, aos 77 anos, em Paris.

Eu tenho esta louca impressão de que a intelectualidade não morre. Como pode, não? Políticos morrem, donas de casa morrem, mas a intelectualidade não morre.

Então fico chocado quando alguém diz que Baudrillard morreu. Escuta, alguém pode me dizer se o Derrida ainda está vivo? E o Chomsky?

É como se um intelectual fosse somente as idéias dele. Neste sentido, a intelectualidade não morre, mesmo - enquanto nos dispusermos a não queimar livros em fogueiras na praça XV de Novembro.

De la séduction - do qual esqueci o título exato em português - é uma gracinha. Uma gracinha.

terça-feira, 6 de março de 2007

Bagdad Café


Uma recomendação do tio Lucas.

Sim, eu sei que recomendo muitas coisas, e muitas vezes é só para agitar o copo. Para atiçar discussões. Para ver o choque estampado no rosto, e rir internamente.

Mas esta aqui é uma recomendação sincera. Esta vem da parte de mim que é humana, que quer somente ser feliz, que sabe que não pode ser sempre, que chora com isto e vai na locadora e vê um filme como Bagdad Café e se emociona com ele. É da parte de mim que chega em casa e depõe a máscara cotidiana sobre o lençol amarfanhado da cama.

É uma recomendação feita com as entranhas. Coração é entranha; intestino é entranha.

(parte da produção de serotonina é no intestino)

O filme é uma pequena pérola. Se você procura por um blockbuster, ou por um roteiro extraordinário com um final surpreendente, ou por uma dissecação completa de um dos caracteres, ou por uma crítica altamente complexa e sutil sobre qualquer assunto em voga, esqueça que este filme existe. Não, eu nunca falei em Bagdad Café. Eu falei em Bagdad Café? Não, não falei no filme Bagdad Café.

Como eu disse, o filme é uma pequena pérola. Não tem nada de grande pérola. Mas é por ser pequena assim que é grande.

Assista-o despretenciosamente. Se não gostar, poupe o mundo - e os seus parceiros e familiares - das suas críticas. Vá fazer amor. Vá fazer pão.

Eu não o vi recentemente: faz muito tempo que o vi, mais de um ano. Mas é que hoje, voltando pra casa da praia, uma música sai do mais profundo rincão da minha coisice mental: "Áaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai am cóóóóóóóóóóóólin iúúúúúúúú". "Calling you", de Jevetta Steele. A música realmente colou.

*****

Agora, se você quer criticar, discutir teoria pós-moderna ou psicanálise ou quer somente cuspir na cara de alguém imaginário, aqui vai o filme para você, companheiro. The piano teacher. A música, de altíssima qualidade: Schubert & Parceiros. A língua? Francesa. O lugar? Áustria. Tem perversão, sexo, fetiches e garotões parrudos.

E é um ótimo filme também. Ótimo. Dá, tranquilamente, três rodadas de chopes no seu bar cult das proximidades.

*****

E agora eu vou ver Magnolia pela quarta vez. Com licença.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Muito além da diversão

Uma longa história que felizmente continua, depois de engatinhar durante anos, pausada por contigências históricas muito atuais. Estou surpreso e feliz por ter encontrando, através desta página, o seguinte estudo noticiado por três dos maiores tablóides americanos.

Griffiths, R.R., Richards, W.A., McCann, U., & Jesse, R. (2006). Psilocybin can occasion mystical experiences having substantial and sustained personal meaning and spiritual significance. Psychopharmacology, 187, 268-283.

Psilocibina, para os desinformados, é uma das substâncias "alucinógenas" presentes nos cogumelos "alucinógenos" (detesto esta palavra). Existem duas substâncias "alucinógenas" presentes nestes fungos, a psilocibina e a psilocina; como a psilocibina é metabolizada em psilocina no corpo humano, esta distinção é irrelevante. A psilocibina é altamente aparentada com uma grande classe de compostos, onde se inclui vários outros "alucinógenos", como o LSD (ácido lisérgico).

Só é desgastante ver que um dos jornais ainda diz que LSD tem potencial de abuso - uma breve passada de olhos na literatura científica não condiz com isto, a não ser que se tenha redefinido "potencial de abuso" nos últimos meses, algo do que não estou certo.

Não é necessário um estudo para comprovar os efeitos subjetivos de uma experiência como esta. Quem a teve sabe disto. Um estudo é importante, contudo, em dois sentidos: a) para limpar o caminho de muita tralha, propiciando uma discussão científica, e b) poder ter voz na mídia do estabilishment, não apenas como voz de uma "minoria" de usuários, mas a voz de uma ferramenta - a ciência - que tem grande prestígio social junto a "poderes" estabelecidos.

O interessante, também, e animador, é ver a circunstância em que o acontecimento está inserido: os pesquisadores (McCann é um nome conhecido na pesquisa com o MDMA, de um modo polêmico), o laboratório (Johns Hopkins), o país, o funding. Até este momento, as poucas alternativas vinham sendo conduzidas, de uma certa forma, fora do mainstream.

O interesse da pesquisa também conta. Eles pensam em uma aplicação de tais substâncias em casos de depressão crônica - como em pacientes terminais de câncer. Esta é a tendência em grande parte das pesquisas, ou, melhor dizendo, de tentativas de pesquisa.

Uma discussão séria e lúcida pode, então, começar a ter vez. O uso de tais substâncias tem um representação social nada positiva, independente da camada da população que se trate. Nem mesmo educação superior evita isto, o que é um dado incompreensível, ao meu ver. (Seria muito, muito interessante que eu tivesse material para comprovar isto que eu estou falando, sendo que se trata somente de percepção pessoal - bem fundamentada, sendo ainda percepção pessoal. Fica uma idéia para o futuro.)

Fico aqui esperando mais experimentos, mais resultados e mais mentes dispostas. Estou torcendo por isto, dedos cruzados, fitinha no pulso.

domingo, 4 de março de 2007

Visita aos vajrayanas

Hoje tivemos um "dharma com pipoca" aqui na comunidade da casa verde. O filme, é Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera. Um filme muito bonito, de visual mais bonito ainda. A segunda vez que eu o via.

E então, pela primeira vez, fui a uma sangha de budismo vajrayana - budismo tibetano. Aquela, que fica no Canto da Lagoa, atrás do bambuzal. Fomos eu, Edgar e o grande (literalmente) Flávio "Joshin", a convite do último que já conhecia um pessoal de lá.

Era uma cerimônia de tsog. Eu não sei o nome exato, ou do que se trata, mas era uma cerimônia de "Tara Vermelha" (faço pouco idéia do que seja, sei que é a invocação da tal), e no primeiro domingo do mês eles fazem uma espécie de oferenda de alimentos que todos comem - tsog, que foi o que eu fui.

Chegamos atrasados e nos sentamos no fundão, colocando almofadinhas coloridas nas nádegas. Crianças corriam para lá e para cá, um gato que ficava circulando pelas pessoas atrás de carinho e comida - muito parecido com o meu, por sinal, na primeira vez que o vi levei um susto de três nanosegundos, "o que você está fazendo aqui?". O lugar era muito colorido, com várias figuras nas paredes, de cores fortes, com flores estilizadas; um lugar gostoso. Um cheiro doce e fresco emanava de algum lugar.

E um monte de recitações em tibetano. Aproveitei o ambiente para um pouco de zazen. As recitações não paravam. Uma hora, dedicaram algumas palavras para seres que tinham morrido recentemente, incluindo a monja Zuiten do zen, vários praticantes humanos, um "cachorro na Lagoa" e um beija-flor.

Chegam então os pratinhos com comida. Uma pequena melange de várias coisas: um pedacinho de maçã, outro de banana, um sanduichinho de atum, tirinhas de pimentão verde, uma uva passa, fatia de queijo, biscoitinhos cream-cracker e wafers, fatias de pepino em vinagre, um pedaço de salame italiano e pimentinhas vermelhas. O último item me surpreendeu mais que o antepenúltimo (já sabia que o pessoal do vajrayana não negava carne), mas então me lembrei que era um cerimônia dos "cincos sabores", segundo meu grande amigo.

Comecei a comer as coisinhas... e o pessoal continuava recitando. Até me meti a comer a pimentinha. Uma mulher do lado me pede para eu ter cuidado, mordiscar a pontinha da pimenta primeiro. Agradeço e dou um bicadinha, que arde; "se é para comer, coma tudo de uma vez". E eu meto a pimenta na boca e a mastigo. E ela arde. Caramba, como a pimenta arde.

Chorava e fios de água escorriam pelo meu nariz. Cada respiração era como uma chama que se voltava para dentro. Recebi cinco pimentas: uma o Edgar pegou, três eu comi - a última eu praticamente engoli - e uma ficou para trás. Pretendia comer todas, afinal nunca se sabe o que o pessoal acha falta de respeito, mas uma ficou para trás - estava de bom grado para mim, muito bom grado.

Ótima oportunidade para olhar sensações sem se deixar levar demais... afinal, vai passar. Mas que arde, arde pra caralho.

Essa foi a minha visita no centro vajrayana. Fiquei contente de conhecer os colegas, e fiquei mais contente ainda por praticar o zen. Não me dou muito bem com rituais, com recitações. Prefiro o zazen, curto e simples - literalmente, preto no branco.

As formas são diversas, contudo, para diversas pessoas, diversos interesses.

Obrigado, pessoal.

sábado, 3 de março de 2007

Hora do lanche

São sete e pouco da noite. Me levanto do sofá onde me encontro, descansando de uma semana de estudos intensos estudando (é, paradoxal, mas é assim mesmo, D'na'Mari'a). Vou para cozinha com o pensamento de café fresco se antecipando ao momento presente; o café está praticamente alucinado, ali na frente: falta apenas o café real para que a minha fantasia vire realidade. Com o canto do olho, com um pedaço de banana-passa na boca, vejo um vulto cinzento se aproximando com um andar furtivo, os ombros levantados e a cabeça baixa: é o meu gato. Sei que esta não é o movimento de caçador dele: ele vem resoluto, embora devagar. Seus movimentos, se fossem humanos, me levariam a vê-los como certeza de algo. Quando ele caça, os movimentos são parecidos: o andar furtivo, a cabeça baixa, os ombros levantados. Mas algo é diferente. Talvez o olhar, não tão fixo. Os ombros, também, não tão tensos, embora semelhantes.

Ele entra assim, na cozinha, e tranquilamente passa por mim, não sem antes esfregar - de leve! - o seu rabo, e somente o rabo, por minha panturrilha, e se lança a arranhar uma das estantezinhas de madeira que temos.

Quer comer, sei de mim pra mim mesmo. Faz meses - talvez anos? - em que ele repete a mesma coisa.

Eu fico me perguntando "como é que este bicho funciona". Como é que, de uma forma ou outra, quando ele "quer comer", ele faz justamente este movimento? Por que não arranhar a cesta com a comida, ou pegar o próprio pacote de comida e servir-se ele mesmo? A pergunta, feita de uma forma senso comum, é "como é que ele pensa para fazer isto?"

Porém, eu tenho cá a minha hipótese - de que este era um comportamento supersticioso que foi reforçado mais que o acaso e virou resposta condicionada. Isto tudo é Skinner, o famoso Skinner que aprofundou as teorias de condicionamento do mais famoso Pavlov & seu Cão.

Comportamento supersticioso (daqui):

[Skinner] cortou completamente o elo causal entre o comportamento e a recompensa. Preparou o aparelho para recompensar a pomba de tempos em tempos, não importava o que o pássaro fizesse. Agora, o que os pássaros precisavam realmente fazer era só pousar e esperar a recompensa. Mas na realidade, não foi isso o que fizeram. Pelo contrário, em seis dentre oito casos, eles desenvolveram - exatamente como se estivessem aprendendo um hábito recompensado - o que Skinner chamou de comportamento supersticioso. Em que isso precisamente consistia, variava de pomba para pomba. Um dos pássaros girava como um pião, dando duas ou três voltas no sentido anti-horário, no intervalo entre as recompensas. Outro pássaro repetidamente lançava a cabeça na direção de um determinado canto no alto da caixa. Um terceiro exibia um comportamento de atirar-se para o alto, como se estivesse levantando uma cortina invisível com a cabeça. Dois deles desenvolveram independentemente o hábito rítmico do "balanço do pêndulo", oscilando a cabeça e o corpo de um lado para o outro. Eventualmente, este último hábito deve ter se assemelhado bastante à dança de namoro de algumas aves-do-paraíso. Skinner usou a palavra superstição porque os pássaros se comportavam como se achassem que o seu movimento habitual tivesse uma influência causal sobre o mecanismo de recompensa, quando na verdade isso não ocorria. Era o equivalente da dança da chuva para as pombas.

(o texto é bem interessante e merece ser lido todo... ainda mais sendo o Dawkins...)

Eu entro na cozinha, ele vem e arranha a estante, se esticando todo, e numa vez em três - digamos que ele faz isso umas seis vezes por dia - eu dou comida para ele, e todas as vezes ele come. Pra vocês verem, o reforço não é contínuo - não é sempre que ele acontece, e não é sempre no mesmo intervalo - tanto de tempo quanto de resposta reforçada.

Bem, tenho a impressão que ele secretamente ri-se de mim, pobre humano o comparando com simples pombos. De um certo ponto de vista, somos os dois mamíferos e talvez temos mais em comum em termos psicológicos do que ele com um pombo, ou eu com um pombo... Quem sabe arranhar a estante seja uma construção cognitiva?

Ah, se meu gato falasse... ou se eu, pelo menos, gateasse...

sexta-feira, 2 de março de 2007

Calor

Coisas a se questionar profundamente:

  1. o caráter de novidade que nosso pensamento e nossas práticas (humanas) parecem imprimir, sempre;
  2. a não-necessidade de uma "sacralidade";
  3. o ideal de progresso.

Um dos piores pesadelos deve ser o de um mundo transparente - de um mundo que funciona muito, muito bem; onde se pode ver o funcionamento de tudo.

Imortalidade e onisciência laplaciana deve ser a sombra secreta de qual todas as criaturas fogem em horror.

Sim, estamos apoiados nos ombros de gigantes... mas, de uma certa forma, não há nada de novo sob o sol.

*****

Está um dia terrivelmente quente aqui em Florianópolis. Ontem e hoje. O céu, azul anil, onde nenhuma nuvem pousava para nos dar refresco: a umidade da proximidade com o mar entranhava nos ossos e saía em suor escaldante. A presença insana do sol, folha alguma se mexia. Foi um dia ocupado: entreguei um trabalho, fiz uma prova, passei grande parte do dia na universidade, tive meus óculos escuros furtados, comi lanchinhos, comprei dezenas de bala de banana para distribuir entre os professores e meus coleguinhas, cheguei em casa muito, muito cansado, descobri que a moça da limpeza aqui em casa deixou todos as janelas fechadas desde o meio-dia, e meu gato mal conseguia miar, tamanho o forno aqui dentro, tomei um banho que me restaurou, e fui deitar na minha chapa macia com o ventilador soprando bafo morno em cima de mim.

Terrivelmente quente. Vou tentar ir à praia hoje, mas ainda tenho de entregar um último trabalho. Terrivelmente quente.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Alvorada da janela de minha casa...


... com uma pequena pincelada do Corel Photopaint, evidentemente.

*****

Porque você sabe onde as palavras vão cair,
você não tem medo de andar na chuva.
A chuva de caixinhas escuras,
quer caia na sua cabeça - ou não.

Apreendes as colunas, dois eixos e um,
espaços vazios, cheios, espaços,
em que caixinhas se lançam na lama
desenhando um pixelado gramado.

Assim então não tens medo.
Tantos hematomas e pancadas necessárias;
mas não são tão possíveis, tão queridas?
Pois acaso não sabes onde elas irão cair?