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sábado, 14 de agosto de 2010

Estupidez

(...) assim se manifesta que o entendimento é, sem dúvida, susceptível de ser intruído e apetrechado por regras, mas que a faculdade de julgar é um talento especial, que não pode de maneira nenhuma ser ensinado, apenas exercido. Eis porque ela é o cunho específico do chamado bom senso, cuja falta nenhuma escola pode suprir. Porque, embora a escola possa preencher um entendimento acanhado e como que nele enxertar regras provenientes de um saber alheio, é necessária ao aprendiz a capacidade de se servir delas correctamente a nenhuma regra, que se lhe possa dar para esse efeito, está livre de má aplicação, se faltar tal dom da natureza*.
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*A carência da faculdade de julgar é propriamente aquilo que se designa por estupidez e para semelhante enfermidade não há remédio. Uma cabeça obtusa ou limitada, à qual apenas falte o grau conveniente de entendimento e de conceitos que lhe são próprios, pode muito bem estar equipada para o estudo e alcançar mesmo a erudição. Mas, como há ainda, habitualmente, falha na faculdade de julgar (segunda Petri), não é raro encontrar homens muito eruditos, que habitualmente deixam ver, no curso da sua ciência, esse defeito irreparável.

Kant, Crítica da razão pura, B 172.

(...) und so zeigt sich, daß zwar der Verstand einer Belehrung und Ausrüstung durch Regeln fähig, Urteilskraft aber ein besonderes Talent sei, welches gar nicht belehrt, sondern nur geübt sein will. Daher ist diese auch das Spezifische des sogenannten Mutterwitzes, dessen Mangel keine Schule ersetzen kann; denn, ob diese gleich einem eingeschränkten Verstande Regeln vollauf, von fremder Einsicht entlehnt, darreichen und gleichsam einpfropfen kann; so muß doch das Vermögen, sich ihrer richtig zu bedienen, dem Lehrlinge selbst angehören, und keine Regel, die man ihm in dieser Absicht vorschreiben möchte, ist, in Ermangelung einer solchen Naturgabe, vor Mißbrauch sicher*.
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*Der Mangel an Urteilskraft ist eigentlich das, was man Dummheit nennt, und einem solchen Gebrechen ist gar nicht abzuhelfen. Ein stumpfer oder eingeschränkter Kopf, dem es an nichts, als am gehörigen Grade des Verstandes und eigenen Begriffen desselben mangelt, ist durch Erlernung sehr wohl, sogar bis zur Gelehrsamkeit, auszurüsten. Da es aber gemeiniglich alsdann auch an jenem (der secunda Petri) zu fehlen pflegt, so ist es nichts ungewöhnliches, sehr gelehrte Männer anzutreffen, die, im Gebrauche ihrer Wissenschaft, jenen nie zu bessernden Mangel häufig blicken lassen.

sábado, 22 de agosto de 2009

Did Plato beat the [bush] cat?

Com o passar do tempo gosto menos do Platão. Pessoalmente. Isto quer dizer o quê? Admiro a sua envergadura, mas o conheço cada vez mais e desprezo algumas de suas idéias. Ao mesmo tempo, contudo, sei que as suas obras escritas guardam as chaves - preciosíssimas! - da filosofia ocidental, mesmo que, algumas vezes, sejam anti-chaves, ou chaves de espaços negativos.

A República é o exemplo paradigmático do platonismo aplicado, e suas consequências. Seria a República uma grande ironia, ou somente um exercício intelectual? Ou um destino político inevitável do zôon politikon? Alguns dizem que Platão realmente sugeriu sua república como uma realidade prática, e a sua amizade com Díon pode sugerir isto. Outros dizem que há somente ramelas pedagógicas, e que uma leitura cuidadosa o indicaria - através de linhas de campos de imanência a la Deleuze, talvez? Ou então uma grande e deliciosa ironia. Como eu sempre cuido terapeuticamente das ironias, sonho com a terceira. Então eu e Platão riríamos muito.

Mas tomando seus escritos face-valued, a República é um pesadelo a que somente os reis-filósofos poderiam aspirar. Em termos práticos. A argumentação platônica tenta procurar a forma de governo mais justa possível, e neste interím passa por cima da timocracia/meritocracia, da oligarquia, da democracia e da tirania/despotismo, consideradas como formas "dialéticas" de governo, que não tem o Bem em vista e como objetivo e que, portanto, não podem manter-se por si mesmas (tomo o wikiartigo como hupomnemata).

Esta é a parte mais interessante da República: todos os sistemas pensáveis de governo são colocados em questão, com a conclusão citada acima. O que prossegue depois disto, porém, é de deixar qualquer (pós?)moderno de sobreaviso; o governo do Bem parece-se demasiado com os regimes totalitários que tivemos a oportunidade sangrenta de vivenciar (agora também temos a oportunidade sangrenta de vivenciar uma das formas de democracia mais radical).

Aliás, tenho a impressão que a espécie de utopia disforme de Platão - que apenas não merece o título de distopia por discrição por parte dos críticos - foi o campo que, desde o Renascimento (com a sua reconstrução de um helenismo e classicismo que talvez nunca tenham existido) semeou grande parte dos grandiosos projetos políticos modernos. Apesar de O (outro) Filósofo [Aristóteles] ter se servido fartamente de Platão em seu pensamento político, e consequentemente a escolástica cristã ter se servido fartamente - ou ter subjugado, o que se sobrepõe sutilmente - do Filósofo, a idade média européia nunca foi além do não muito temeroso, embora forte, pensamento feudal. Pelo menos desde as Cruzadas.

A música pode ser uma interessante analogia. Uma das partes que mais me enoja em Platão é aquela em que, em sua nova Cidade[-estado], certos tipos de "harmonias" e "tons" deveriam ser proibidos - os que "provocam" a lassidão, a intemperança, a melancolia, etc.; o trabalho dos poetas (poiétes, os "fazedores", vistos assim como meros artífices de mentiras e contrapostos ao logos verdadeiro do [rei-]filósofo) deveria ser severamente censurado; e a "literatura" poética - os épicos homéricos, por exemplo - deveria ser "reescrita", de modo a não sobrar nenhum trecho que, exempli gratia, descreva deuses olímpicos com paixões humanas. Tudo muito bem regrado.

Comparemos esta sobriedade de harmonias e tons com a profusão maluca da música pós-renascentista. Não é preciso ser apreciador de música "erudita" para verificar isto. Estou para encontrar o nefelibata que me diga que os melhores trechos de Bach, por mais glaciais e celestiais e "não-humanos" que sejam, não contém as pestíferas harmonias vilipendiadas por Platão.

Ufa. Ainda bem.

Isto assemelha-se, grosso modo, com uma discussãozinha que vim a saber atualmente: a da "reescritura" das cantigas de roda tradicionais. Você sabia que há uma versão "politicamente correta" do Atirei o pau no gato? Ela vai mais ou menos assim:

Não atire o pau no gato
Porque isso não se faz
O gatinho é nosso amigo
Não devemos maltratar os animais

(em algumas letras é Jesus quem diz para não maltratar.)

Pode haver algum mérito em querer diminuir um conteúdo "violento" em alguma coisa, mas justamente no Atirei o pau no gato? Você, leitor, você atira paus em gatos na rua, depois de ter cantado com fervor o Atirei dezenas de milhares de vezes, quando criança? Você sente uma propensão para isto? Você já atirou? Matou gatos? Envenenou-os?

Eu me lembro do prazer que era fazer o miaaaaaaaaaaaaaaaaaau final, aquele grito estridente de criança, que treme as órbitas dos olhos e esfria a barriga. Hoje eu tenho um gato em casa. Não sou um anjo de candura, mas ele ainda tem as quatro patas e as duas orelhas. Hum, vai ver que é um sentimento inconsciente de culpa, causado pela minha incessante cantilena de mau-trato aos felinos, que me faz manter e alimentar e acarinhar um deles dentro de minha própria casa!

sábado, 4 de julho de 2009

Carta de Epicuro para Meneceu

[Epicurus' letter to Menoeceus; lettre de Épicure à Ménécée; Epikurs Brief an Menoikeus; epistolḗ pros Menoikéa - greek text, texte grec, "griechische texte" (!), hellenik... whatever]

Abaixo vai a carta de Epicuro para Meneceu, em grego. Não encontrava o original transliterado na internetz - o original em grego, por exemplo, está aqui -, então resolvi fazer um favor para a humanidade, gastando algumas horas transliterando do xerox do Armário Branco - algumas notas sobre a transliteração aqui. As palavras em vermelho são as que não consigo encontrar tradução; as em verde são aquelas que eu faço idéia mas não encontro o verbete correto, e não quero desvirtuar ninguém.

O texto abaixo é do livro de M. Conche, em francês; Epicure, lettres et maxims, disponível na biblioteca da UFSC. As notas absolutamente ininteligíveis para alguém com menos de um doutorado são do mesmo texto, que boto apenas como curiosidade. Acompanha junto uma bela e boa tradução, em francês, que está disponível neste livro do google books, além de notas que tenho preguiça de copiar. Como o texto de Epicuro é livre para todos, não tenho medo do copirraite; as notinhas do autor(a), porém, poderiam me comprometer com a PUF.

Talvez uma tradução pessoal esteja em andamento. Talvez.

Por favor, aproveitem. É um belíssimo texto.

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Epíkouros Menoikeî khaírein.

[122] Mḗte néos tis ōn mellétō philosopheîn, mḗte gérōn hupárkhōn kopiátō philosophôn. Oúte gar áōros oudeís estin oúte párōros pros to kata psukhēn hugiaînon. Ho de légōn ē mḗpō toû philosopheîn hupárkhein hṓran ē parelēluthénai tēn hṓran hómoiós estin tôi légonti pros eudaimonían ē mē pareînai tēn hṓran ē mēkéti eînai. hṓste philosophētéon kai néōi kai géronti, tôi men hópōs gēráskōn neázēi toîs agathoîs dia tēn khárin tôn gegonótōn, tôi de hópōs néos háma kai palaios hêi dia tēn aphobían tôn mellóntōn. meletân oûn khrē ta poioûnta tēn eudaimonían, eíper paroúsēs men autês pánta ékhomen, apoúsēs de pánta práttomen eis to taútēn ékhein.

[123] Ha de soi sunekhôs parēngellon, taûta kai prâtte kai meléta, stoikheîa toû kalôs zên taût’ eînai dialambánōn. Prôton men ton theon zôion áphtharton kai makárion nomízōn, hōs hē koinē toû theoû nóēsis hupegráphē, mēthen mḗte tês aphtharsías allótrion mḗte tês makariótētos anoíkeion autôi prósapte; pân de to phuláttein autoû dunámenon tēn meta aphtharsías makariótēta peri auton dóxaze. theoi men gar eisín; enargēs gar autôn estin hē gnôsis; ohíous d’ autous polloi nomízousin, ouk eisín; ou gar phuláttousin autous hoíous nomízousin. asebēs de oukh ho tous tôn pollôn [124] theous anairôn, all’ ho tas tôn pollôn dóxas theoîs prosáptōn. ou gar prolḗpseis eisin all’ hupolḗpseis pseudeîs hai tôn pollôn huper theôn apopháseis. énthen hai mégistai blábai ek theôn epágontai kai ōphéleiai. taîs gar idíais oikeioúmenoi dia pantos aretaîs tous homoíous apodékhontai, pân to mē toioûton hōs allótrion nomízontes.

Sunéthize de en tôi nomízein mēden pros hēmâs eînai ton thánaton; epei pân agathon kai kakon em aisthḗsei; stérēsis dé estin aisthḗseōs ho thánatos. hóthen gnôsis orthē toû mēthen eînai pros hēmâs ton thánaton apolauston poieî to tês zōês thnētón, ouk ápeiron prostitheîsa khrónon, allá ton tês [125] athanasías apheloménē póthon. outhen gar estin en tôi zên deinon tôi kateilēphóti gnēsíōs to mēden hupárkhein en tôi mē zên deinón. hṓste mátaios ho légōn dediénai ton thánaton oukh hóti lupḗsei parṓn, all’ hóti lupeî méllōn. ho gar paron ouk enokhleî, prosdokṓmenon kenôs lupeî. to phrikōdéstaton oûn tôn kakôn ho thánatos outhen pros hēmâs, epeidḗper hótan men hēmeîs ômen, ho thánatos ou párestin, hótan de ho thánatos parêi, tóth’ hēmeîs ouk esmén. oúte oûn pros tous zôntás estin oúte pros tous teteleutēkótas, epeidḗper peri hous men ouk éstin, hoi d’ oukéti eisín. All’ hoi polloi ton thánaton hote men hōs mégiston tôn kakôn pheúgousin, hote de hōs anápausin [126] tôn en tô zên. [ho de sophos] oúte phobeîtai to mē zên; oúte gar autôi prosístatai to zên oúte doxázetai kakon eînaí ti to mē zên. hṓsper de to sitíon ou to pleîon pántōs alla to hḗdiston haireîtai, hoútō kai khrónon ou ton mḗkiston alla ton hḗdiston karpízetai. ho de parangéllōn ton men néon kalôs zên, ton de géronta kalôs katastréphein euḗthēs estin ou mónon dia to tês zōês aspastón, alla kai dia to tēn autēn eînai melétēn toû kalôs zên kai toû kalôs apothnḗiskein. polu de kheírōn kai ho légōn kalon men mē phûnai,
phúnta d’ hópōs ṓkista púlas Aídao perêsai.
[127] ei men gar pepoithōs toûtó phēsin, pôs ouk apérkhetai ek toû zên? en hetoímōi gar autôi toût’ estín, eíper ên bebouleménon autôi bebaíōs; ei de mōkṓmenos, mátaios en toîs ouk epidekhoménois.

Mnēmoneutéon de hōs to méllon oúte pántōs oukh hēméteron, hína mḗte pántōs prosménōmen hōs esómenon mḗte apelpízōmen hōs pántōs ouk esómenon.

Analogistéon de hōs tôn epithumiôn hai mén eisi phusikaí, hai de kenaí, kai tôn phusikôn hai men anankaîai, hai de phusikai mónon; tôn de anankaíōn hai men pros eudaimonían eisin anankaîai, hai de pros tēn toû sṓmatos [128] aokhlēsían, hai de pros auto to zên. toútōn gar aplanēs theōría pâsan haíresin kai phugēn epanágein oîden epi tēn toû sṓmatos hugíeian kai tēn psukhēs ataraxían, epei toûto toû makaríōs zên esti télos. toútou gar khárin pánta práttomen, hópōs mḗte algômen mḗte tarbômen. hótan de hápax toûto peri hēmâs génētai, lúetai pâs ho tês psukhês kheimṓn, ouk ékhontos toû zṓiou badízein hōs pros endéon ti kai zēteîn héteron hôi to tês psukhês kai toû sṓmatos agathon sumplērṓsetai. tote gar hēdonês khreían ékhomen, hótan ek toû mē pareînai tēn hēdonēn algômen; [hṓtan de mē algômen] oukéti tês hēdonês deómetha.

Kai dia toûto tēn hēdonēn arkhēn kai télos légomen eînai toû makaríōs [129] zên. taútēn gar agathon prôton kai sungenikon égnōmen, kai apo taútēs katarkhómetha pásēs hairéseōs kai phugês, kai epi taútēn katantômen hōs kanóni tôi páthei pân agathon krínontes. Kai epei prôton agathon toûto kai súmphuton, dia toûto kai ou pâsan hēdonēn hairoúmetha, all’ éstin hóte pollas hēdonas huperbaínomen, hótan pleîon hēmîn to duskheres ek toútōn hépētai; kai pollas algēdónas hēdonôn kreíttous nomízomen, epeidan meízōn hēmîn hēdonē parakolouthêi polun khrónon hupomeínasi tas algēdónas. pâsa oûn hēdonē dia to phúsin ékhein oikeían agathón, ou pâsa méntoi hairetḗ; katháper kai algēdōn [130] pâsa kakón, ou pâsa de aei pheuktē pephukuîa. têi méntoi summetrḗsei kai sumpheróntōn kai asumphórōn blépsei taûta pánta krínein kathḗkei. khrṓmetha gar tôi men agathôi katá tinas khrónous hōs kakôi, tôi de kakôi toúmpalin hōs agathôi.

Kai tēn autárkeian de agathon mega nomízomen, oukh hína pantōs toîs olígois khrṓmetha, all’ hópōs ean mē ékhōmen ta pollá, toîs olígois arkhṓmetha, pepeisménoi gnēsíōs hóti hḗdista poluteleías apolaúousin hoi hḗkista taútēs deómenoi, kai hóti to men phusikon pân eupóristón esti, to de kenon duspóriston. hoí te litoi khuloi ísēn poluteleî diaítêi tēn hēdonēn [131] epiphérousin, hótan hápan to algoûn kat’ éndeian ekhairethêi; kai mâza kai húdōr tēn akrotátēn apodídōsin hēdonḗn, epeidan endéōn tis auta prosenénkētai. to sunethízein oûn en taîs haplaîs kai ou polutelési diaítais kai hugieías esti sumplērōtikon kai pros tas anankaías toû bíou khrḗseis áoknon poieî ton ánthrōpon kai toîs polutelésin ek dialeimmátōn proserkhoménous kreîtton hēmâs diatíthēsi kai pros tēn túkhēn aphóbous paraskeuázei.

Hótan oûn légōmen hēdonēn télos hupárkhein, ou tas tôn asṓtōn hēdonas kai tas en apolaúsei keiménas légomen, hṓs tines agnooûntes kai oukh homologoûntes ē kakōs ekdekhómenoi nomízousin, alla to mḗte algeîn kata sôma [132] mḗte taráttesthai kata psukhḗn. ou gar pótoi kai kômoi suneípontes oud’ apolaúseis paidōn kai gunaikôn oud’ ikhthúōn kai tôn állōn hósa phérei polutelēs trápeza, ton hēdun gennâi bíon, alla nḗpōn logismos kai tas aitías exereunôn pásēs hairéseōs kai phugês kai tas dóxas exelaúnōn, ex hôn pleîstos tas psukhas katalambánei thórubos.

Toútōn de pantōn arkhē kai to mégiston agathon phrónēsis. dio kai philosophías timiṓteron hupárkhei phrónēsis, ex hês ahi loipai pâsai pephúkasin aretaí, didáskousa hōs ouk éstin hēdéōs zên áneu toû phronímōs kai kalôs kai dikaíōs, áneu toû hēdéōs. sumpephúkasi gar ahi aretai tôi zên hēdéōs kai to zên hēdéōs toútōn estin akhṓriston.

[133] Epei tína nomízeis eînai xreíttona toû kai peri theôn hósia doxázontos kai peri thanátou dia pantos haphóbōs ékhontos kai to tês phúseōs epilelogisménou télos, kai to men tôn agathôn péras hōs éstin eusumplḗrōtón te kai eupóriston dialambánontos, to de tôn kakôn hōs ē khónous ē pónous ékhei brakheîs, tēn de hupó tinōn despótin eisagoménēn pántōn engelôntos , ha de apo túkhēs, ha de par’ hēmâs, dia to tēn men anánkēn anupeúthunon eînai, tēn de túkhēn ástaton horân, to de par’ hēmâs adéspoton, hôi kai to mempton [134] kai to enantíon parakoloutheîn (epei kreîtton ên tôi peri theôn múthōi katakoloutheîn ē têi tôn phusikôn ehimarménêi douleúein; ho men gar elpída paraitḗseōs hupográphei theôn dia timês, hē de aparaítēton ékhei tēn anánkēn), tēn de túkhēn oúte theón, hōs ohi polloí nomízousin, hupolambánontos (outhen gar atáktōs theôi práttetai) oúte abébaion aitían ([ouk] oíetai men gar agathon ē kakon ek taútēs pros to makaríōs zên anthrṓpois dídosthai, arkhas méntoi megálōn agathôn ē kakôn hupo taútēs khorēgeîsthai), [135] kreîtton eînai nomízontos eulogistōs atukheîn ē alogistōs eutukheîn; béltion gar en taîs práxesi to palôs krithen orthōthênai dia taútēn.

Taûta oûn kai ta toùtois sungenô meléta pros seauton hēméras kai nuktos [kai] pros ton hómoion seautôi, kai oudépote oúth’ húpar oút’ ónar diatarakhthḗsēi, zḗseis de hōs theos en anthrṓpois. outhen gar éoike thnētôi zṓiōi zôn ánthrōpos en athanátois agathoîs.

FINIS

123 - 7 <hoi> supplevit Gassendi
124 - 3 post blábai scholia : aítiai toîs kakoîs - 9 ápeiron Aldobrandini: áponon libri
126 - 1 <ho de sophos> ins. ex Usener
127 - 4 <oúte pántōs hēméteron> epitome Laertii Diogenis in codice Vaticano gr. 96: om. libri.
128 - 3 tēn tês psukhês ataraxían cod. B. post correctionem: tēn ataraxían B (ante corr.): tēn toû sṓmatos ataraxían libr. cett.
128 - 8 <hótan de mē algômen> supplevit Gassendi
130 - 6 arkhṓmetha Cobet: khrṓmetha libri
131 - 5 proserkhoménous cod. Vaticanus gr. 96 ut Usener: proserkhoménois pler. libri - 8 tas en apol. cod. Vaticanus r. 96: tas tôn en apol. libri
132 - 7 philosophías cod. P post correctionem: philosophía cod. P (ante corr.) B Co - 9 <oude phronímōs kai kalôs kai dikaíōs> suppl. Estienne.
133 - 5 engelôntos Bailey: angéllontos: angelōntos: angelôntos libri <ehimarménēn … légontos> exemplii causa suppl. Usener
134 - 4 hupolambánontos Usener: hupolambánōn libri - 5 <ouk> ins. Usener
135 -1 nomízontos Usener: nomízein: nomízōn libri - 3 seauton Gassendi: heauton libri - 4 <kai> ins. Diano - 5 zḗseis cod. B post correctionem ut Usener: zḗsēi cod. P post corr.

Do desejo

Poste em construção permanente, a ser utilizado para milhares de coisas ainda incertas e não-sabidas; quem quiser colaborar com algo, é só entrar em contato com um grato autor.

(Olá! Eu sou um interlúdio que está, para o seu prazer e conforto, no lugar de um longo e entendiante monólogo sobre a etimologia da palavra desejo & cognatos.

O autor esboça, com muitas palavras, que desejo/deseo/désir/desire vem do latim desiderare, que embora de etimologia incerta talvez venha de "esperando vir das estrelas" (de sidero). A palavra alemã usada para desejo, wunsch, também tem a conotação de "voto" - fazemos votos/ we wish you... - e, como wish, provavelmente vem da raiz do PIE (Proto Indo-Europeu) *wen-/*wun-/*won, raiz esta com significado de "ir atrás, querer, desejar, estar satisfeito", e que é a mesma raiz de vênus, venéreo, venerar, venerável (arrá!): sânscrito vanas- "desejo," vanati "deseja, ama, ganha". O asterisco antes da raiz significa que ela não é comprovada, que não há registro dela - justamente pelo PIE ser uma tentativa de reconstrução...

Logo após, o autor copia descaradamente do dicionário etimólogico que está consultando, para escrever que uma outra família de quereres e desejares também vem de uma raiz do PIE, *wel-.*wol-, "ser agradável, desejável"; inglês will, alemão wollen, francês vouloir, grego elpis, latim volo, velle (voluntas, velleitas, voluptas), algumas coisinhas do sânscrito como vrnoti, "escolhe, prefere", e derivados.

Outra raiz do PIE, *gher-, "desejar, querer", vai viajar muito e virar o khrestai - "faltar, querer" - grego, que passa pelo kharisma, e que vira hortatório, além de peripatetices na Índia.

Outras palavrinhas gregas para desejo e correlatos: thelô e thelema, epithumia - "apetite, desejo, vontade" -, orexis - "fome, desejo, vontade, yearning (adoro esta palavra)" -, boulêsis - "desejo, vontade, deliberação", e a mais interessante, thumos, que serviu para batizar um órgão corporal útil somente para a pirralhada e que dizia-se ser a sede da alma, da vontade, e consequentemente ficou com o significado de "paixão".)

Este é outro dicionário, em uma versão papélica, que provoca muitos momentos de diversão e angústia. Vamos sinonimizar!

desejo: 1. alvitre: arbítrio, cabeça, capricho, determinação, escolha, fantasia, gosto, juízo, (bel-) prazer, predileção, preferência, querer, vontade. 2. ambição: apego, avidez, cobiça, cupidez, febre, fome, gana, sede. 3. anseio: anelo, pretensão, propósito. 4. apetência: ânsia, apetite, fome, vontade. 5. arroubo: arrebatamento, disposição, elã, entusiasmo, exaltação, fervor, ímpeto, impulso, interesse, rasgo, rompante. 6. aspiração: anseio, impulso, querer, vontade. 7. cisma: capricho, devaneio, extravagância, inspiração, obstinação, sonho, teimosia, veleidade, veneta. 8. lubricidade: apetite (sexual), atração, excitação, lascívia, tentação, volúpia.

À procura do desejo: alguns trechinhos...

...e o que mais vier a ser adicionado no futuro.

Analogistéon de hōs tôn epithumiôn hai mén eisi phusikaí, hai de kenaí, kai tôn phusikôn hai men anankaîai, hai de phusikai mónon; tôn de anankaíōn hai men pros eudaimonían eisin anankaîai, hai de pros tēn toû sṓmatos aokhlēsían, hai de pros auto to zên.

Da mesma forma é preciso considerar que, entre os desejos, uns são naturais, os outros vãos/vazios (kenos), e que entre os naturais uns são necessários, e os outros somente naturais. Entre os [desejos] necessários uns são para a felicidade (eudaimonia), outros para a ausência de sofrimento do corpo, e outros para a própria vida.

Epicuro, Carta a Meneceu, 128.

Ver Platão (Rep. 8.558d) para distinção entre desejos (epithumias) necessários (anankaious, também “de acordo com a natureza - physis, 8.558e) e não-necessários.

“die Einheit des Selbsbewusstsein mit sich selbst, zu seinem Wesen; diese muss ihm wesentlich werden; das heisst, es ist Begierde überhaupt”

"... quer dizer, consciência de si é o estado de desejo (Begierde), em geral."

Hegel, Fenomenologia do Espírito, parte IV.

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Estou pensando em...


João me presenteou com um inusitado: Ser e Tempo, do Heidegger. Juro, juro, juro que tremi nas bases: é uma leitura chatíssima e dificílima. Mas maravilhosa: um verdadeiro desafio intelectual. Dou-me uns 3 ou 4 anos para lê-lo.

O Gato, evidentemente, até fuçou, mas não deu muita bola. Da próxima vez vou esconder atum no meio do livro, pra ele ver o que é bom. Já falei, gente, eu tento fazer de tudo por este gato, mas ele não colabora.

Minha ambição é ler este e A Fenomenologia do Espírito, do Hegel. Mais uns 2 ou 3 anos. Por quê? Porque eu quero. Tou pagando!!

Heidegger é um mistério para mim. Teoria e prática (um filósofo ensina pelo modo como vive, diz Arendt) são nebulosos. Mistério é a palavra exata, muitas vezes.

Por exemplo: no último mês envolvi-me com três livros diferentes, e como já disse, tempos atrás, uma estranha sinergia apossa as minhas leituras, de tempos em tempos: são livros que magicamente caem na minha mão e falam sobre perguntas que estavam, naquele momento, flutuando como escolhos no cais mental, e destas algumas poucas vezes outros escritos ajuntam-se, como coleguinhas de recreio, e apontam para uma mesma coisa ou questão, mesmo que eu não tenha sabido de antemão.

Os livros são: A vida do espírito, o livro póstumo da Hannah Arendt; Sócrates, o feiticeiro, Nicolas Grimaldi, uma brochurinha que encontrei num sebo e levei como curiosidade - graças a D'us - anos atrás, e O que é filosofia? do Deleuze e do Guattari. Este último ficou numa leitura morna, pelo próprio estilo "desterritorializante" dos autores. A Hannah, com seu estilo claro e preciso, foi lida de cabo a rabo, a primeira parte, sobre o pensar. O do Sócrates foi relido em goles fáceis, pois é poético e atina comigo.

Neste livro soberbo, criticado e aclamado, um tanto quanto esquecido - ele não foi terminado, somente a primeira parte está "completa" - Arendt, que investigou as três atividades da vita activa do homem (labor, trabalho e ação) na sua obra-prima, A condição humana, volta-se para a vita contemplativa, arrematando o ponto deixado em aberto. Pensar, querer e julgar são as atividades da vita contemplativa, e a parte completa é aquela que fala sobre o pensar.

Esta é uma questão que me tem pego, ultimamente: o que é o pensar? Nunca consegui, e não consigo, pensar o pensar e a filosofia como simples intellectual enterprise, como produção de conhecimento, como puro uso do intelecto e produção de conceitos. Evidentemente isto acontece, e todos sabemos que produzir "especulações metafísicas" é tarefa facílima, dados um pouco de leitura, cultura e tempo livre. Mas, para a mesma autora que defendeu a tese, em outro livro (Origens do totalitarismo), que levar uma ideologia até as seus extremos lógicos foi característica importante de todos os regimes totalitários, o que seria então o pensar?

Arendt diz que ficou estupefata com incapacidade de Eichmann de pensar. Eichmann, porém, era um homem relativamente culto - pelo menos educado - chegando a citar Kant em seu julgamento. A "banalidade do mal", conceito criado por Arendt, reside no fato que Eichmann era um cara comum, preocupado com sua carreira na SS, sem nenhum traço específico de antisemitismo ou "doença mental". Para ela, Eichmann simplesmente não conseguia "pensar".

Que é o pensar, portanto, é o que Arendt tenta responder, numa espécie de antologia e argumentação. E é uma pergunta - e uma possível resposta - interessantíssima. Se possível, tentarei digitar a introdução e colocar aqui, para quem quiser.

O que, particularmente, me chamou a atenção, foi uma citação de Heidegger (referenciado no corpo do livro) colocada como epígrafe à introdução:
O pensamento não traz conhecimento como as ciências.
O pensamento não produz sabedoria prática utilizável.
O pensamento não resolve os enigmas do universo.
O pensamento não nos dota diretamente com o poder de agir.
Isto eu chamo de "quebrar os braços", "puxar o tapete", ou "fazer a egípcia".

Fofoca: Heidegger e Arendt foram amantes, uma época. Dá-lhe Diotima!

(continua...)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sabia ou não sabia?


tirado de cientistasocialnerd.blogspot.com

Estava eu lendo um dos livros mais surpreendentes que li nos últimos tempos - "Sócrates, o feiticeiro", de Nicolas Grimaldi, quando minha "sobrinha" de quatro anos de idade me pergunta o que leio, na pequena brochura que tenho nas mãos.

Eu digo que é uma história. Ele pergunta do que é a história. Eu digo que é uma história de um homem que ia todos os dias para o centro da cidade, e ficava perguntando a todas as pessoas que ele encontrava sobre várias coisas.

"Ele perguntava sobre o quê, Lucas?" Hum, nesta tenho que pensar um pouco. Como vou explicar que ele, Sócrates, ia interrogar sobre certas "virtudes" justamente aquelas pessoas que, de acordo com a opinião geral, as possuíam e delas demonstraram posse - a coragem em um general, a retórica com o melhor dos sofistas?

"Ele perguntava pras pessoas o que era a beleza. Você sabe, Maria?"

"O que é beleza?" (enrolando um pouco a língua)

"É".

"Não sei, Lucas".

Pausa para refletir se tento encetar um diálogo socrático com ela. Decido ser melhor não, e não pelo fato de ela ter quatro anos, mas sim por hesitar não conseguir prosseguir.

"E que outras coisas ele perguntava, Lucas?" ela continua, impávida.

"Sobre a verdade..."

"Ah", ela se remexe feliz na cadeira de balanço, "isso é fácil. Verdade é quando você não fala mentira. Você não sabia, Lucas?"

"Sabia, Maria."

"E ele sabia, Lucas?"

"Ele dizia que não sabia."

"Ele dizia que não sabia mas sabia, Lucas?"

"Não, ele dizia que não sabia mesmo, Maria."

"E ele ia perguntar pras pessoas pra saber, Lucas?"

"Talvez."

"E as pessoas sabiam e diziam pra ele, né Lucas?"

"Ele dizia que ninguém sabia."

"Mas..." pausa, olhando para o infinito, "ele sabia algumas vezes e não sabia outras, né Lucas?"

"Ele dizia que não sabia, Maria."

Trocamos de assunto.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Por que as pessoas dão esmolas para cegos e aleijados, mas não para um filósofo?

Diógenes: Elas sabem que um dia podem ficar cegas ou aleijadas, mas jamais pensam que terão uma filosofia (but they never dream they will take up a philosophy).

rá rá rá rá rá rá rá rá