domingo, 4 de dezembro de 2011

domingo, 15 de agosto de 2010

Trilhas


Deixei os bosques por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez por ter me parecido que eu tinha várias vidas para viver, e não podia desperdiçar mais tempo com aquela. É impressionante a facilidade com que insensivelmente caímos numa determinada rotina e fazemos para nós uma trilha batida. Ainda não tinha vivido ali uma semana e já meus pés marcavam o caminho da minha porta até a beira do lago; e embora já faça cinco ou seis anos que eu o pisei, continua nitidamente visível. Receio, é verdade, que outros tenham enveredado por ele, contribuindo assim para mantê-lo aberto. A superfície da terra é macia e sensível aos pés dos homens; o mesmo acontece com as veredas por onde a mente viaja. Quão gastas e poeirentas não devem ser portanto as estradas principais do mundo! Quão arraigados os hábitos da tradição e do conformismo! Não quis comprar uma passagem de cabine para poder viajar em frente ao mastro e no convés do mundo, porque de lá podia apreciar melhor o luar entre as montanhas. E não desejo baixar à cabine agora.

I left the woods for as good a reason as I went there. Perhaps it seemed to me that I had several more lives to live, and could not spare any more time for that one. It is remarkable how easily and insensibly we fall into a particular route, and make a beaten track for ourselves. I had not lived there a week before my feet wore a path from my door to the pond-side; and though it is five or six years since I trod it, it is still quite distinct. It is true, I fear, that others may have fallen into it, and so helped to keep it open. The surface of the earth is soft and impressible by the feet of men; and so with the paths which the mind travels. How worn and dusty, then, must be the highways of the world, how deep the ruts of tradition and conformity! I did not wish to take a cabin passage, but rather to go before the mast and on the deck of the world, for there I could best see the moonlight amid the mountains. I do not wish to go below now.

Henry D. Thoreau, Walden, "Conclusion";
tradução de Astrid Cabral, Ed. A.

sábado, 14 de agosto de 2010

Estupidez

(...) assim se manifesta que o entendimento é, sem dúvida, susceptível de ser intruído e apetrechado por regras, mas que a faculdade de julgar é um talento especial, que não pode de maneira nenhuma ser ensinado, apenas exercido. Eis porque ela é o cunho específico do chamado bom senso, cuja falta nenhuma escola pode suprir. Porque, embora a escola possa preencher um entendimento acanhado e como que nele enxertar regras provenientes de um saber alheio, é necessária ao aprendiz a capacidade de se servir delas correctamente a nenhuma regra, que se lhe possa dar para esse efeito, está livre de má aplicação, se faltar tal dom da natureza*.
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*A carência da faculdade de julgar é propriamente aquilo que se designa por estupidez e para semelhante enfermidade não há remédio. Uma cabeça obtusa ou limitada, à qual apenas falte o grau conveniente de entendimento e de conceitos que lhe são próprios, pode muito bem estar equipada para o estudo e alcançar mesmo a erudição. Mas, como há ainda, habitualmente, falha na faculdade de julgar (segunda Petri), não é raro encontrar homens muito eruditos, que habitualmente deixam ver, no curso da sua ciência, esse defeito irreparável.

Kant, Crítica da razão pura, B 172.

(...) und so zeigt sich, daß zwar der Verstand einer Belehrung und Ausrüstung durch Regeln fähig, Urteilskraft aber ein besonderes Talent sei, welches gar nicht belehrt, sondern nur geübt sein will. Daher ist diese auch das Spezifische des sogenannten Mutterwitzes, dessen Mangel keine Schule ersetzen kann; denn, ob diese gleich einem eingeschränkten Verstande Regeln vollauf, von fremder Einsicht entlehnt, darreichen und gleichsam einpfropfen kann; so muß doch das Vermögen, sich ihrer richtig zu bedienen, dem Lehrlinge selbst angehören, und keine Regel, die man ihm in dieser Absicht vorschreiben möchte, ist, in Ermangelung einer solchen Naturgabe, vor Mißbrauch sicher*.
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*Der Mangel an Urteilskraft ist eigentlich das, was man Dummheit nennt, und einem solchen Gebrechen ist gar nicht abzuhelfen. Ein stumpfer oder eingeschränkter Kopf, dem es an nichts, als am gehörigen Grade des Verstandes und eigenen Begriffen desselben mangelt, ist durch Erlernung sehr wohl, sogar bis zur Gelehrsamkeit, auszurüsten. Da es aber gemeiniglich alsdann auch an jenem (der secunda Petri) zu fehlen pflegt, so ist es nichts ungewöhnliches, sehr gelehrte Männer anzutreffen, die, im Gebrauche ihrer Wissenschaft, jenen nie zu bessernden Mangel häufig blicken lassen.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Viver e/ou narrar

Quando se vive, nada acontece. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem, eis tudo. Nunca há começos. Os dias se sucedem aos dias, sem rima nem razão: é uma soma monótona e interminável. De vez em quando se procede a um total parcial, dizendo: faz três anos que viajo, três anos que estou em Bouville. Também não há fim: nunca deixamos uma mulher, um amigo, uma cidade, de uma só vez. E também tudo se parece: Xangai, Moscou, Argel, ao fim de 15 dias tudo é igual. Por alguns momentos - raramente - avaliamos a situação, percebemos que nos envolvemos com uma mulher, que nos metemos numa confusão. Por um átimo. Depois disso o desfile recomeça, voltamos a fazer as contas das horas e dos dias. Segunda, terça, quarta. Abril, maio, junho. 1924, 1925, 1926.

Viver é isso. Mas quando se narra a vida, tudo muda; simplesmente é uma mudança que ninguém nota: a prova é que se fala de histórias verdadeiras. Como se fosse possível haver histórias verdadeiras; os acontecimentos ocorrem num sentido e nós os narramos em sentido inverso. Parecemos começar do início: "Era uma bela noite de outono de 1922. Eu era escrevente de tabelião em Marommes." E na verdade foi pelo fim que começamos. Ele está ali, invisível e presente, é ele que confere a essas poucas palavras a pompa e o valor de um começo. "Estava passeando, saíra do vilarejo sem perceber, pensava em meus problemas de dinheiro." Essas frases, tomadas simplesmente pelo que são, significam que o sujeito estava absorto, deprimido, a cem léguas de uma aventura, exatamente nesse tipo de estado de espírito em que se deixam passar os acontecimentos sem vê-los. Mas o fim, que transforma tudo, já está presente. Para nós o sujeito já é o herói da história. Sua depressão, seus problemas de dinheiro são bem mais preciosos do que os nossos: doura-os a luz das paixões futuras.

E o relato prossegue às avessas: os instantes deixaram de se empilhar uns sobre os outros ao acaso, foram abocanhados pelo fim da história que os atrai, e cada um deles atrai por sua vez o instante que o precede: "Era noite, a rua estava deserta." As frases são lançadas negligentemente, parecem supérfluas; mas não caímos no logro e as deixamos de lado: é uma informação cujo valor compreenderemos depois. E temos a impressão de que o herói viveu todos os detalhes dessa noite como anunciações, como promessas, ou até mesmo de que vivia somente aqueles que eram promessas, cego e surdo para tudo que não anunciava a aventura. Esquecemos que o futuro ainda não estava ali; o sujeito passeava numa noite sem presságios, que lhe proporcionava de cambulhada suas riquezas monótonas, e ele não escolhia.

Quis que os momentos de minha vida tivessem uma sequência e uma ordem como os de uma vida que recordamos. O mesmo, ou quase, que tentar agarrar o tempo.

Jean-Paul Sartre, A náusea, pgs. 56-57. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss

Fui saber da morte do Claude Lévi-Strauss quase uma semana depois que ela aconteceu, isto numa época conhecida pela rapidez de (muita da) informação. Disseram-me que houve menção nos jornais televisivos e demais quetais, que não chegaram aos meus ouvidos pelo simples motivo que eu não os assisto mais - e que não estou mais na Academia, onde certamente ouviria falar a respeito.

Uma conclusão a ser tirada: a informação não chega até mim, mas eu chego até a informação, muitas vezes pelas fontes mais insuspeitas e de um certo mal-gosto.

Mais por vir, quiçá, mas por ora quedo-me em silêncio e respeito por uns dos "pensadores" principais do século passado - embora sabendo que esta noite vou fazer uma visitinha para o Tristes Tropiques, que descansa, na estante branca, envolto no calor ocre.

(E agora está virando o tempo, que refresco!)

sábado, 31 de outubro de 2009

Kindle, ou demais

Finalmente o Kindle resolveu se espalhar um pouquinho, na mesma época em que outras novidades online resolvem aparecer.

Eu tenho ficado de olho no Kindle (ou Nook, ou Sony Reader, não importa qual) praticamente desde o momento em que ele surgiu: a idéia de um leitor digital não é inédita, e muito menos nova, somente faltava um pouco de tecnologia. Torci, então, para que ele não se tornasse uma das tecnologias recém-lançadas que são relegadas para um semi-esquecimento, utilizadas apenas por geeks e demais - isto significa, automaticamente, fracasso na sua vinda para países como o Brasil.

E então que parece que um pouco certo deu, e espero que o recém-aberto mercado editorial virtual brasileiro cresça exponencialmente, frutifique escandalosamente.

Se eu vou abandonar meus livros de papel? Claro que não, eu gosto do papel. Mas, ao mesmo tempo, fico pensando naquela grande estante que tenho no meu quarto, nos vários livros espalhados por todos os cantos. Fico pensando na minha coluna que já apresenta aquela leve curvatura dorsal, característica de quem lê muito, ou usa muito o computador, e nas várias posições estapafúrdias, assumidas por horas e horas, para segurar confortavelmente um calhamaço de 600 páginas de papel gramatura 180. Nos gramas e quilos de celulose carregados para cima e para baixo, dentro de uma mochila. Nas mudanças da vida que me forçarão a deixar uma parte da biblioteca para trás.

(A outra opção, ler menos e fazer mais academia, me deixa levemente enfastiado. Ler não é uma escolha, depois de um certo tempo. Ainda sonho com o dia em que talvez não precise mais ler, e queime todos os meus livros, inspirado por uma súbita sabedoria reveladora. Já pensei até em fazer uma espécie de porta-livros, uma versão menor e caseira daqueles que se vê em cenas de bibliotecas medievais, onde aqueles códices e infólios gigantescos podem ser apoiados.)

A minha questão é somente a praticidade.

domingo, 11 de outubro de 2009

William Harris

(abertura do livro 9 da Ilíada)

É com pesar e alegria que anuncio, com um atraso de mais de meio ano, a morte de uma pessoa que eu jamais conheci pessoalmente.

William Harris era professor emeritus da Universidade de Middlesbury. Dias atrás, ao cavucar atrás dos fragmentos de Heráclito em grego antigo, eu me deparo com um simpático .pdf que fornecia, além do que eu procurava, comentários curtos sobre a maioria dos fragmentos heracliteanos. O nome do autor, juntamente com o seu título, não me era estranho, e logo o clarão do reconhecimento alisou a minha testa recurva: é claro, é claro.

William Harris era um classicista, um professor de humanidades - uma disciplina que, dói-me dizer, receio não passar pelo crivo do novo século, ou ter de passar às duras. Seu foco principal? As letras antigas, latim e grego. Uns bons anos atrás, quando comecei seriamente a dedicar uns minutos do meu tempo diário a aprender latim e grego (com um foco no grego), deparei-me com os recursos básicos, fornecidos de graça pela internet através de çaites como o Textkit: textos didáticos que remontam a mais de século, com ênfase na gramática e na repetição formal incessante, enfadonhamente relembrando o leitor - que nessas alturas estaria se achando a mais ignorante das criaturas, um bárbaro no sentido lato da palavra - as centenas de regras, microregras e subsistemas de regras e suas malditas exceções. Os tempos verbais gregos "proteicos", como dizia I.F. Stone, aqueles que aparecem somente uma vez a cada cem anos; as hapax legomena, as palavras que aparecem somente uma vez em uma obra; as exceções - oh, que crueldade, as exceções - de tudo aquilo que você tenta colocar na cabeça, para então poder aprender.

William Harris apareceu neste momento, para confirmar o que eu, intuitivamente, já sabia: isto tudo é besteira, é a maneira errada; é como aprender a usar um jogo de talheres antes de aprender a comer. Deparei-me com o seu Guia de latim para a pessoa inteligente, que atraiu-me sobremodo por eu saber que a) eu sou uma pessoa inteligente, e b) há uma maneira mais inteligente de aprender a ler e a pensar um pouco em uma outra língua. Afinal, não somos mais infantes aprendendo a balbuciar as primeiras sílabas ("m(a)", "b(a)" e "p(a)"). E eis então que, jamais, até hoje, tendo terminado de ler, por inteiro, o seu "Guia", retomei a confiança - nunca perdida, na verdade - em aprender latim e grego.

William Harris tinha para si que aprender línguas clássicas era mais fácil do que muitos pensam, e bem mais interessante. É algo que não devia ser encarado como uma tarefa demasiado séria, cheia de pré-requisitos e demais quetais, com a seriedade e a sobriedade que raramente reservamos para a nossa própria lingua mater - que dizer para uma outra língua, praticamente morta fora dos muros eruditos e *eructivos. Ele confiava na oralidade e no trançar, muitas vezes não consciente, que o falar enreda e no qual nos vemos enredados, mais cedo ou mais tarde. Enfatizava a leitura de Homero com ritmo, com sonoridade; falava de Catulo como se tratasse de um conterrâneo, de um conhecido, de um amigo. Confiava também, enfim, na inteligência e na capacidade que - eu até o imagino - suponho que ele visse em cada pessoa disposta a gastar tempo para aprender algo que não vai contar, necessariamente, como um MBA, ou entrar no Lattes. Tudo isto sem jamais perder a inteligência crítica e o senso de humor que podia-se ver através das linhas.

William Harris respondeu ao e-mail que lhe mandei, muito tempo atrás. Fiquei entusiasmado - é exatamente esta a palavra, entusiasmo - com a sua visão da "leitura e recitação" dos épicos homéricos, e escrevi a ele, dizendo da dificuldade em encontrar material multimídia gratuito. Isso, evidentemente, não era um problema, como eu posso ver agora; estava somente choramingando. Ele me respondeu dizendo, em outras palavras, para seguir em frente, e então trocamos outras mensagens. Gostaria de, naquela época, ter tido mais estofo com que encher as minhas palavras e ideias, para tornar a nossa breve troca mais interessante e aprazível para os dois, e não somente para mim. Sabe-se lá, porém, qual o prazer de um professor, se não está justamente nisto: em ensinar e, continuamente e conjuntamente, aprender.

William Harris, professor emeritus, morreu aos 83 anos, de câncer. Jamais o conheci, e o admiro profundamente; é com carinho que retenho na cabeceira da minha cama a sua contribuição mais recente, para mim, os tais fragmentos de Heráclito, interesse tão recente.

Sua obra continua acessível para todos aqueles que o quiserem, e que todos possam se beneficiar profundamente.