quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss

Fui saber da morte do Claude Lévi-Strauss quase uma semana depois que ela aconteceu, isto numa época conhecida pela rapidez de (muita da) informação. Disseram-me que houve menção nos jornais televisivos e demais quetais, que não chegaram aos meus ouvidos pelo simples motivo que eu não os assisto mais - e que não estou mais na Academia, onde certamente ouviria falar a respeito.

Uma conclusão a ser tirada: a informação não chega até mim, mas eu chego até a informação, muitas vezes pelas fontes mais insuspeitas e de um certo mal-gosto.

Mais por vir, quiçá, mas por ora quedo-me em silêncio e respeito por uns dos "pensadores" principais do século passado - embora sabendo que esta noite vou fazer uma visitinha para o Tristes Tropiques, que descansa, na estante branca, envolto no calor ocre.

(E agora está virando o tempo, que refresco!)

sábado, 31 de outubro de 2009

Kindle, ou demais

Finalmente o Kindle resolveu se espalhar um pouquinho, na mesma época em que outras novidades online resolvem aparecer.

Eu tenho ficado de olho no Kindle (ou Nook, ou Sony Reader, não importa qual) praticamente desde o momento em que ele surgiu: a idéia de um leitor digital não é inédita, e muito menos nova, somente faltava um pouco de tecnologia. Torci, então, para que ele não se tornasse uma das tecnologias recém-lançadas que são relegadas para um semi-esquecimento, utilizadas apenas por geeks e demais - isto significa, automaticamente, fracasso na sua vinda para países como o Brasil.

E então que parece que um pouco certo deu, e espero que o recém-aberto mercado editorial virtual brasileiro cresça exponencialmente, frutifique escandalosamente.

Se eu vou abandonar meus livros de papel? Claro que não, eu gosto do papel. Mas, ao mesmo tempo, fico pensando naquela grande estante que tenho no meu quarto, nos vários livros espalhados por todos os cantos. Fico pensando na minha coluna que já apresenta aquela leve curvatura dorsal, característica de quem lê muito, ou usa muito o computador, e nas várias posições estapafúrdias, assumidas por horas e horas, para segurar confortavelmente um calhamaço de 600 páginas de papel gramatura 180. Nos gramas e quilos de celulose carregados para cima e para baixo, dentro de uma mochila. Nas mudanças da vida que me forçarão a deixar uma parte da biblioteca para trás.

(A outra opção, ler menos e fazer mais academia, me deixa levemente enfastiado. Ler não é uma escolha, depois de um certo tempo. Ainda sonho com o dia em que talvez não precise mais ler, e queime todos os meus livros, inspirado por uma súbita sabedoria reveladora. Já pensei até em fazer uma espécie de porta-livros, uma versão menor e caseira daqueles que se vê em cenas de bibliotecas medievais, onde aqueles códices e infólios gigantescos podem ser apoiados.)

A minha questão é somente a praticidade.

domingo, 11 de outubro de 2009

William Harris

(abertura do livro 9 da Ilíada)

É com pesar e alegria que anuncio, com um atraso de mais de meio ano, a morte de uma pessoa que eu jamais conheci pessoalmente.

William Harris era professor emeritus da Universidade de Middlesbury. Dias atrás, ao cavucar atrás dos fragmentos de Heráclito em grego antigo, eu me deparo com um simpático .pdf que fornecia, além do que eu procurava, comentários curtos sobre a maioria dos fragmentos heracliteanos. O nome do autor, juntamente com o seu título, não me era estranho, e logo o clarão do reconhecimento alisou a minha testa recurva: é claro, é claro.

William Harris era um classicista, um professor de humanidades - uma disciplina que, dói-me dizer, receio não passar pelo crivo do novo século, ou ter de passar às duras. Seu foco principal? As letras antigas, latim e grego. Uns bons anos atrás, quando comecei seriamente a dedicar uns minutos do meu tempo diário a aprender latim e grego (com um foco no grego), deparei-me com os recursos básicos, fornecidos de graça pela internet através de çaites como o Textkit: textos didáticos que remontam a mais de século, com ênfase na gramática e na repetição formal incessante, enfadonhamente relembrando o leitor - que nessas alturas estaria se achando a mais ignorante das criaturas, um bárbaro no sentido lato da palavra - as centenas de regras, microregras e subsistemas de regras e suas malditas exceções. Os tempos verbais gregos "proteicos", como dizia I.F. Stone, aqueles que aparecem somente uma vez a cada cem anos; as hapax legomena, as palavras que aparecem somente uma vez em uma obra; as exceções - oh, que crueldade, as exceções - de tudo aquilo que você tenta colocar na cabeça, para então poder aprender.

William Harris apareceu neste momento, para confirmar o que eu, intuitivamente, já sabia: isto tudo é besteira, é a maneira errada; é como aprender a usar um jogo de talheres antes de aprender a comer. Deparei-me com o seu Guia de latim para a pessoa inteligente, que atraiu-me sobremodo por eu saber que a) eu sou uma pessoa inteligente, e b) há uma maneira mais inteligente de aprender a ler e a pensar um pouco em uma outra língua. Afinal, não somos mais infantes aprendendo a balbuciar as primeiras sílabas ("m(a)", "b(a)" e "p(a)"). E eis então que, jamais, até hoje, tendo terminado de ler, por inteiro, o seu "Guia", retomei a confiança - nunca perdida, na verdade - em aprender latim e grego.

William Harris tinha para si que aprender línguas clássicas era mais fácil do que muitos pensam, e bem mais interessante. É algo que não devia ser encarado como uma tarefa demasiado séria, cheia de pré-requisitos e demais quetais, com a seriedade e a sobriedade que raramente reservamos para a nossa própria lingua mater - que dizer para uma outra língua, praticamente morta fora dos muros eruditos e *eructivos. Ele confiava na oralidade e no trançar, muitas vezes não consciente, que o falar enreda e no qual nos vemos enredados, mais cedo ou mais tarde. Enfatizava a leitura de Homero com ritmo, com sonoridade; falava de Catulo como se tratasse de um conterrâneo, de um conhecido, de um amigo. Confiava também, enfim, na inteligência e na capacidade que - eu até o imagino - suponho que ele visse em cada pessoa disposta a gastar tempo para aprender algo que não vai contar, necessariamente, como um MBA, ou entrar no Lattes. Tudo isto sem jamais perder a inteligência crítica e o senso de humor que podia-se ver através das linhas.

William Harris respondeu ao e-mail que lhe mandei, muito tempo atrás. Fiquei entusiasmado - é exatamente esta a palavra, entusiasmo - com a sua visão da "leitura e recitação" dos épicos homéricos, e escrevi a ele, dizendo da dificuldade em encontrar material multimídia gratuito. Isso, evidentemente, não era um problema, como eu posso ver agora; estava somente choramingando. Ele me respondeu dizendo, em outras palavras, para seguir em frente, e então trocamos outras mensagens. Gostaria de, naquela época, ter tido mais estofo com que encher as minhas palavras e ideias, para tornar a nossa breve troca mais interessante e aprazível para os dois, e não somente para mim. Sabe-se lá, porém, qual o prazer de um professor, se não está justamente nisto: em ensinar e, continuamente e conjuntamente, aprender.

William Harris, professor emeritus, morreu aos 83 anos, de câncer. Jamais o conheci, e o admiro profundamente; é com carinho que retenho na cabeceira da minha cama a sua contribuição mais recente, para mim, os tais fragmentos de Heráclito, interesse tão recente.

Sua obra continua acessível para todos aqueles que o quiserem, e que todos possam se beneficiar profundamente.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Pergunta


Temos, dos dois lados, dois alótropos do carbono. À direita, o grafite, o mesmo que se encontra em nossos lápis e lapiseiras.

À esquerda, o diamante, o mesmo que se encontra nas coroas reais e nos anéis de casamento ao redor do mundo.

A bioquímica da grandessísima maior parte da vida terrestre é baseada em carbono. Até mesmo quando pensamos em procurar vida em outros lugares nosso pensamento automaticamente procura por metabolismos que têm o carbono como base - embora pareça que o carbono leva vantagem sobre outras formas imagináveis de bioquímica; ponto de discussão.

À direita temos um pedaço de carne, o mesmo que muita gente gosta de assar com sal e comer, o mesmo que temos em nossos braços e pernas, o mesmo que gostamos de apertar e beijar, quando na pessoa amada. O tom avermelhado é, em poucas palavras, por causa do ferro; além do carbono, outros elementos são importantes na nossa bioquímica, mais ou menos nesta ordem (que aprendi no secundário): CHONPS - carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo e enxofre.

A carne é macia, e quando viva é quente. O grafite é compacto, mas quebra-se facilmente. O diamante, cristalino, é a substância natural mais dura do mundo conhecido.

À esquerda temos uma concepção artística de um ser vivo cuja bioquímica seria baseada no silício, uma das bioquímicas hipotéticas alternativas, já que não se conhece, ainda, seres que funcionem com base nela. O silício, importante relembrar, é o componente principal na manufatura de chips eletrônicos.

À direita temos um lingote de silício.

A pergunta que resta: por que, exatamente, um ser hipotético com bioquímica de silício tem de parecer um arranjado de cristais? É o mesmo que dizer que nós, os carboneiros, teríamos que nos parecer com pedaços de carvão, grafite e diamante colados uns nos outros. Se houver uma objeção que faça sentido eu gostaria de ouvir.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Você sabia, mona?

Alan Turing é um cara conhecido. Mais conhecido, talvez, se o leitor tiver um interesse - mesmo que mínimo - na área da "inteligência artificial" (teste de Turing, alguém?). E pelo seu trabalho criptográfico, para a Inglaterra, na 2GM. Não vou fazer um nariz-de-palhaço explicativo para o Turing, vá dar uma olhada. Ele também está no Squashed. English required, as always.

E Alan Turing era homossexual, gay, como queirais, e foi condenado por crime pela mesma lei britânica que condenou Oscar Wilde.

Infelizmente eu não fui condenado, senão entraria para este seleto clube de homens inteligentes, e minha memória viveria para sempre.

Ou Turing escolhia pela condenação e sentença, e ia escrever um De profundis da computação, para seu computador Baby, ou se submetia a um tratamento psiquiátrico de última geração, para reduzir o tesão pelos outros homens, com aplicação de hormônios femininos; acaba sendo este último o seu destino. Dois anos depois, ele (provavelmente) se suicida, com uma maçã envenenada por cianureto. (Não nos apressemos a tirar causalidades precipitadas, por favor!)

O tratamento atesionante, se refletirmos a respeito, é de uma violência simbólica considerável. Tem gente que passou por isto voluntariamente, eu sei; a vergonha de si e a culpa operam verdadeiros milagres. Pelo menos Turing não virou um eunuco, ou foi esquartejado por quatro cavalos xucros, ou simples e rapidamente enforcado. Corremos até o risco - sedutor! - de pensar em tão compassiva medicina que dispõe de meios tão astutos para socorrer aqueles que sofrem.

Em agosto deste ano alguém começa um abaixo-assinado requerendo uma retratação e "perdão" do governo britânico com relação ao tratamento legal de Alan Turing. As pessoas deixam as suas opiniões, e no dia 10 deste mês o primeiro-ministro Brown faz uma declaração de "desculpas".

A considerar: ele merece ser "mais desculpado" por ter sido um dos "heróis" da 2GM? Quem opina parece compartilhar desta idéia. Muitos outros, evidentemente, foram mais sóbrios e disseram, com toda a razão que posso dar, que devia-se desculpar as outras tantas milhares de pessoas que passaram pela mesma lei, e por tratamentos, por muitas vezes, bem diversos, mas sempre envolvendo o sentenciamento e a ilegalidade. Turing é somente a figura pública, a encarnação, o bode-expiatório, o pharmakon ao revés, a figurinha a ser bafejada.

Gostaria de poder pensar que este tipo de coisa somente acontecia no nosso remoto passado bárbaro (uns 60 anos atrás), talvez como sintoma social do final da Guerra: "vamos consertar os nossos heróis, e inculcá-los vergonha". Aqui no Brasil as coisas são mais simples e decididas: quase todo mundo odeia quem é gay, ou tem seus grandes preconceitos. As pessoas "toleram", evidentemente, a tolerância na sua forma mais simples - a indiferença que corteja o desprezo. E, por enquanto, parece não ter novela que resolva. Que o diga Maurício de Sousa.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Chega

"Se você soubesse, de antemão, o quanto a prática ['espiritual', do zen] poderia ser difícil, sequer teria começado." Se não me engano, Albert Low falou algo deste calibre, no seu A vaca de ferro do zen.

O mesmo pode ser dito da vida. Se soubéssemos o quanto ela poderia ser difícil - cotidianamente, paulatinamente, excepcionalmente -, o quanto ela não cessa de nos mandar as benesses e as mazelas cotidianas, sem interrupção, acho que um bom número de nós escolheria, em algum momento, nem sequer ter aparecido - pensamento este evidentemente absurdo.

Tente imaginar que você jamais existiu. Não, não assim, não é pensar em você, seja o que for, olhando para o mundo sem a existência ______ (coloque o seu nome aqui); é pensar que você - que está pensando agora - sequer tenha experienciado um momento de consciência de si, e o mundo continuou. É praticamente inconcebível: podemos pensar a nossa não-existência - de modo até calmo e desapegado - somente se vemos com o nosso ponto-de-vista.

Não dá pra dizer "chega, pode parar" para a vida, por mais "vivido" que você pense estar. É tirar ou pôr. A vida é uma questão de vida ou morte, e não pensa em termos de excessos ou deficiências, de mais ou menos - "chega", "ainda não", "estou cheio/estou vazio".

Que pena. Queria uma banheira de água quente infinda, que não murchasse os dedos nem ardesse os olhos, com uma taça de vinho que não acabasse nunca e sempre mudasse a uva, a idade e o vinhedo, com direito a replay dos melhores momentos, sem ressaca. Ah, como eu queria.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Por favor, reflitam a respeito

Grandes baluartes intelectuais da nossa herança cultural fazem a nítida distinção entre homens e animais. A longa procura intelectual pelo que é distintivo do homem nos deixa claro: homem não é animal, e animal não é homem, seja a linha de corte a cultura, a linguagem, a inteligência, a consciência, a moralidade, a religiosidade, e outros, outros tantos.

Descartes, por exemplo, demonstrou claramente que animais são autômatos biológicos, que não sentem dor, posição confirmada e respeitada pelas nossas mais conceituadas instituições de ensino, de pesquisa, e corporações. Platão, the paragon of philosophers, classifica as nossas paixões mais "baixas" de animais, nos instando a nos livrar delas e aceder a paixões mais humanas e sublimes; visão esta que é compartilhada pelas grandes religiões mundiais, além de outros pensadores.

É tomando somente estes dois exemplos - aos quais eu poderia acrescentar tantos e tantos outros - que eu próprio conclamo a todos a abandonar o uso do fio-dental. Estudos recentes nos mostram que macacas ensinam os seus filhotes a passar fios de cabelo (humano) entre os dentes, para limpá-los e, assim, diminuir os riscos de infecções.

É evidente que, a partir do momento em que você imita um macaco, você se torna um macaco. Como poderíamos, então, continuar o vergonhoso uso de um procedimento que nos torna, cada dia mais, mais parecidos com um macaco, com um animal? É tarefa de alguns avisar a outros tais perigos que se escondem nas práticas mais cotidianas, que repetimos, sem o saber.

Eu nunca usei fio dental, e nunca o usarei.

[ditado por] Tilo, o Gato

(O dono do presente blogue não se responsabiliza por opiniões veiculadas por terceiros, como acima)

Uma história de meditação bem-sucedida

Existe uma coisa chamada "análise do discurso", uma ou várias técnicas, com vários referenciais teóricos, para, por exemplo, analisar representações sociais em pedaços de discurso - textos, vídeos, músicas. Há trabalhos interessantíssimos, e aponto para o LACCOS, aqui na UFSC. Há, também, trabalhos risíveis, daqueles que se pergunta se foi realmente necessário uma pessoa chegar até um mestrado, ou doutorado, para escrever algo que, usualmente, as pessoas fazem - ou tentam fazer - lá na redação do vestibular, ou numa mesa de bar, ou em um blogue.

Uma destas análises risíveis segue-se abaixo.

Faz mais de duas semanas em que o seguinte blogue está assombrando a minha caixa de mensagens do gmail, lá em cima, onde o onipresente google coloca os seus pequenos anúncios. É um blogue de um cara de meia-idade, que poderia ser chamado, aqui no Brasil, de Ricardo da Silva.