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sábado, 4 de julho de 2009

Minha transliteração do grego antigo

(não uma postagem em si; serve somente como referência para notas futuras)

Macron para indicar as vogais longas; sem micron.

O espírito fraco (psilé) não é indicado; somente o espírito forte (daseîa), que toma a forma de um “h” antes de uma vogal.

O acento grave (bareîa) não é indicado; somente o acento agudo (oxeîa) é indicado.

Vogais acentuadas com circunflexo indicam perispōménē (que é a subida e a queda do tom na mesma vogal, que naturalmente é sempre longa).

O iota subscrito (hypogegramménē) toma a forma de um “i” escrito depois da vogal, que naturalmente é sempre longa.

Algumas letras e conjunções: χ = kh; υ = u (ou y); ζ = z (pronúncia entre zd e dz); ξ = x (pronúncia ks), γξ = nx; γγ = ng, γκ = nk.

sábado, 6 de junho de 2009

Tédio


Nada é mais insuportável ao homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem atividades, sem distrações, sem aplicações. Ele então sente seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Sem se controlar ele deixa sair do fundo da sua alma o tédio, o negrume, a tristeza, o desapontamento, o rancor, o desespero.

Rien n'est si insupportable à l'homme que d'être dans un plein repos, sans passions, sans affaire, sans divertissement, sans application. Il sent alors son néant, son abandon, son insuffisance, sa dépendance, son impuissance, son vide. Incontinent il sortira du fond de son âme l'ennui, la noirceur, la tristesse, le chagrin, le dépit, le désespoir.


Quando fiquei, uma vez, a considerar as diversas agitações dos homens, e os perigos e sofrimentos a que se expõem, na corte, na guerra, onde nascem tantas brigas, paixões, empresas difíceis e frequentemente ruins, etc., eu descobri que todo o mal dos homens vem de uma só coisa, que é a de não saber ficar em repouso em um quarto.

Quand je m’y suis mis quelquefois, à considérer les diverses agitations des hommes et les périls et les peines où ils s’exposent, dans la cour, dans la guerre, d’où naissent tant de querelles, de passions, d’entreprises hardies et souvent mauvaises, etc., j’ai découvert que tout le malheur des hommes vient d’une seule chose, qui est de ne savoir pas demeurer en repos dans une chambre.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Do octopuses dream of tentacled sheep?

Aproveitando o ensejo trazido pela homofonia da língua japonesa, compartilho um trechinho de Leminski, Paulo, o escritor e poeta brasileiro que primeiro conheceu - no sentido bíblico - os haiku japoneses - e percebeu a agudo e contundente sentimento em muitos deles, a ávida discrepância, a tolerante espera, a incongruência vívida. Em suas palavras: "não, o haikai de Bashô não é a fotografia adocicada de um lótus flutuando no velho tanque de um mosteiro".

***

tako tsubo ya
hakanaki yume wo
natsu no tsuki

蛸壺や
はかなき夢を
夏の月

A Bashô, este haikai pintou, quando num barco, na baía de Akáshi. Diz, mais ou menos:

a armadilha do polvo,
sonhos flutuantes,
lua de verão

O poeta, no barco, olha a água noturna e vê no fundo os cestos de bambu, onde os pescadores apanham polvos, atraídos pela luz das tochas: a boca das cestas tem pontas de bambu aguçadas, de modo que o bicho pode entrar mas não sair.

Os "sonhos flutuantes" ("hakanáki yumê") guardam relação com os reflexos das tochas na água trêmula, onde se reflete a lua amarela (ou quase vermelha) do verão.

Misteriosos parentescos entre os polvos que entram na armadilha, os sonhos que flutuam e os reflexos da lua: todas estas coisas parecem pertencer a um mundo irreal, subaquático, onírico.

No original japonês, uma estranheza de linguagem, que ainda carrega mais os milagres da cena. A partícula "wo", depois de "hakanáki yumê", sonhos flutuantes, indica, em japonês, que a expressão é o objeto direto de um verbo. Qual o verbo? O original não diz. Nem qual o sujeito. Quem faz o quê com os sonhos flutuantes? Arrisco a versão:

polvos na armadilha
sonhos pululam
a lua vermelha

"Flutuantes" não dá conta, plenamente, do japonês "hakanáki", verdadeira onomatopéia visual, imitativa do movimento de oscilação das águas. Algo como um zigue-zague. Um treme-treme. Um tremelique. Um quase-quase. A forma é simples. A intuição é barroca.

A tessitura sonora e silábica do haikai é rica de anagramas, tranças de sons que se entrelaçam. A sílaba "tsu" está em "armadilha" ("tsubo"), em verão ("natsu") e em "lua" ("tsuki"). "Hakanáki" quase rima com "nátsu".

Em "hakanáki", um japonês pode enxergar ainda, ainda, uma aparição do verbo "chorar", "náku", reforçando o clima aquático. "Hakanáki" compõe-se de dois ideogramas: "fruto" + "não" + "sem fruto".

"Hakanáki yumê", portanto é, literalmente, "sonho sem fruto".
Paulo Leminski. Vida: Cruz e Souza, Bashô, Jesus, Trotski. Porto Alegre: Sulina, 1998.

***

Haicai composto em 1688, durante a observação da pesca de polvos em Akashi, atualmente uma cidade da província de Hyogo. Potes de barro são submersos na água à noite, presos por cordas. Os polvos, tomando-os por abrigos seguros, neles se introduzem, permitindo sua captura. Por outro lado, as horas de sono do verão são curtas, tornando ainda mais efêmeros os sonhos. Será Bashô que sonha ou é o polvo, satisfeito com a tranqüilidade ilusória de seu pequeno mundo, ignorante do destino que o aguarda ao amanhecer? Na tradição poética, quem normalmente lamenta as poucas horas escuras do verão são os casais de amantes, que devem se separar na alvorada. Ao trocar esse sentimento romântico pela vida de um polvo, Bashô entra no campo do humor, característica da poesia de haikai. Entretanto, não sentimos vontade de rir. Ao contrário, somos tomados por grande compaixão pelo ser que, ao final de seu sonho, encontrará a morte. A lua que brilha sobre o polvo e seu pote é, afinal, a mesma que brilha sobre o homem e sua existência, tão fugaz quanto um sonho. O kigo é natsu no tsuki, lua de verão.