quinta-feira, 31 de agosto de 2006

six-branched


Eu me quedo em assombro com a simetria natural. Desculpem-me, mas eu me quedo.

É um floco de neve. Não são todos que são assim tão simétricos, contudo. A maioria deles não o são. Mas, dadas as condições necessárias, voilà.

Quem precisa de mais mandalas do que esta?

Poema para os Atos Mortos

Um texto muito interessante.

"Ainda que lhes tenhamos tanto medo, e que nos esforcemos por toda a vida a não cometê-los, são justamente nos atos errados que se abrigam as lições mais fundamentais da condição humana. Quem jamais desejou viver sua própria vida como um grande equívoco? Todos nós acalentamos o sonho de acertar, acertar sempre, e desta forma obter o máximo do mundo. Mas a existência possui mais facetas do que imaginamos, e - principalmente - não somos perfeitos. Ou, sendo mais correto, os atos humanos são forjados pelas intenções relativas, e ironicamente são justamente as certezas absolutas que dão fruto aos nossos maiores erros - não somos perfeitos porque nos achamos quase sempre certos."

(continua...)

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Il y a?

Lembrando que, para um ponto de vista psicanalítico, homens e mulheres são definidos de formas diferentes com relação à ordem simbólica - independente de sua constituição biológica/genética. Este é o ponto de vista psicanalítico. Êêê. Assim, o texto abaixo não fala somente de homens e mulheres como os portadores de pênis ou vagina.

Tendo dedicado metade de um século ao estudo do amor, do sexo e da linguagem, Lacan apareceu, no final da década de 60, com uma dessas expressões-bomba pelas quais era tão bem conhecido: "não existe a relação sexual" ("il n'y a pas de rapport sexuel").

A redação em francês é ambígua na medida em que a expressão rapports sexuels pode ser usada para simplesmente se referir ao ato sexual. Entretanto, Lacan não estava afirmando que as pessoas não tinham relações sexuais - uma alegação no mínimo ridícula; o uso da palavra rapport aqui sugere uma esfera mais "abstrata" de idéias: relação, relacionamento, proporção, razão, fração e assim por diante.

De acordo com Lacan, não há nenhuma relação direta entre homens e mulheres uma vez que são homens e mulheres. Em outras palavras, eles não "interagem" uns com os outros como homem para mulher e mulher para homem. Alguma coisa impede tais relações; algo desvia estas interações.

Existem muitas maneiras diferentes de se refletir a respeito do que tal relação - se ela existisse - poderia envolver. É possível pensar que teríamos algo parecido com uma relação entre homens e mulheres se pudéssemos defini-los em termos um do outro, digamos, como opostos, yin e yang, ou em termos de uma inversão complementar simples como atividade/passividade (o modelo de Freud, se bem que insatisfatório até para ele). É possível até mesmo associar a masculinidade a uma curva seno e a feminilidade a uma curva co-seno, uma vez que isto nos permitiria formular algo que poderíamos tomar como uma relação sexual da seguinte forma: seno(ao quadrado)x+co-seno(ao quadrado)x=1.

[Segue uma figura de um gráfico com as duas funções, com uma diferença de fase de meio pi]

A vantagem desta fórmula específica é que ela parece explicar, de forma gráfica, a descrição de Freud dos diferentes tipos de coisas que os homens e as mulheres procuram um no outro: "Têm-se a impressão de que o amor do homem e o amor da mulher psicologicamente sofrem de uma diferença de fase" (vol.XXII, p. 164). Aqui, apesar da heterogeneidade aparente das curvas masculina e feminina, apesar de seus tempos distintos, seria possível combiná-los de tal forma a torná-los um.

Mas, de acordo com Lacan, tal igualdade é impossível: nada que se pudesse qualificar como uma relação verdadeira entre os sexos pode ser falado ou escrito. Não existe nada complementar a respeito desta relação, nem existe uma relação inversa simples ou algum tipo de pararelismo entre eles. Ao contrário, cada sexo é definido separadamente com relação a um terceiro termo. Consequentemente, só existe uma não-relação, uma ausência de qualquer relação direta imaginável entre os sexos.

Lacan procura mostrar que (1) que os sexos são definidos separada e diferentemente, e (2) que seus "parceiros" não são simétricos nem sobrepostos. Os analisandos demonstram dia após dia que seus sexos biomédica/geneticamente determinados (órgãos genitais, cromossomos, etc.) podem estar em conflito com conceitos socialmente definidos de masculinidade e feminilidade e com suas escolhas de parceiros sexuais (ainda concebidas por muitas pessoas como estando baseadas nos instintos reprodutivos). Os analistas são, portanto, diariamente confrontados com a inadequação de definir a diferença sexual em termos biológicos.

Bruce Fink, O sujeito lacaniano. Jorge Zahar; 1998.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

(Kissing, Alex Grey, 1983)

Il n'y a pas de rapport sexuel

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Unhas e estrelas

Minha irmã perdeu a unha do polegar direito, numa rave, depois que a mesma foi esmagada por uma porta de carro. Uma coisa muito feia, diga-se de passagem. Ficou preta, parecia que o dedo ia necrosar por inteiro, tomando todo o corpo dela.

A unha caiu, e ela está crescendo de novo. Hoje ela me mostrou a unha, que está cobrindo já metade da área de uma unha de polegar normal. Pode-se ver que a unha é grudada na carne, mesmo. Lembrei-me que a unha cresce da base para a extremidade, deslizando e empurrando a camada córnea acima dela. E nós vamos cortando, ou se somos indianos e queremos entrar para o Guiness deixamo-las crescerem até ficarem negras e encurvadas.

Isto me faz pensar sobre os processos vários que acontecem no nosso corpo, e dos quais sequer sentimos alguma coisa. Processos microscópicos, como o crescimento dos pêlos, das unhas, até mesmo dos membros. A tal da renovação celular - a maior parte da poeira de nossas casas é pele humana.

Olhem para o lua no céu claro, e tentem distinguir o seu movimento. Qualquer estrela, se for lua nova. A lua está lá, parada; eppur si muove.

Isto não é fantástico?

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

(Estou no lugar de um novo post que virá em breve. Por favor, sejam gentis comigo. Por mais que pareça curto ou mesmo desprezível, eu tenho sim algo a dizer. Todos os posts têm.)

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Eu já amei a Björk

Vi no blog do Robizito a lista dos 100 melhores videoclipes (de música), e nela, em sétimo lugar, o All is full of love da Björk.

Eu não o consegui ver inteiro nesta página, e eu não o tinha visto antes, então a curiosidade continua.

O Homogenic foi o primeiro álbum que eu escutei da Björk, e eu posso jurar para vocês que antes dele eu não havia escutado nada dela. Como eu vim a comprar o CD, eu não sei; como eu vim a saber de uma Björk, eu não me lembro. Tenho cenas de mim escutando musiquinhas do Post e demais, mas todas elas são sempre um tanto depois. É um destes lapsos da minha vida, e eu não faço questão de saber.

O que é curioso é que o Homogenic é um álbum terrível. Terrível. Terrível. Fabuloso. Pluto, que a versão neo-italiana futurista de um fim do mundo através de uma rachadura craniana, em gritos horripilantes e inumanos, é a música que antecede a All is full of love. Acaba-se de explodir e começa a se escutar o murmúrio suave de um som sabido eletrônico, mas que tem o suave calor e ritmo das batidas de um coração.

Eu nunca gostei de All is full of love, tanto porque eu achava que a música, como final do Homogenic, simplesmente não cabia (como ela fala aqui), tanto por achar esta coisa de amor e de tudo está cheio de amor um tanto papo comum açucarado, uma daquelas coisas que se diz quando se ama. A letra é, como eu posso dizer, banal. A mensagem, banal. Mas eu a escutei hoje e me perguntei, do que ela está falando?

you'll be given love
you'll be taken care of
you'll be given love
you have to trust it

maybe not from the sources
you've poured yours into
maybe not from the directions
you are staring at
twist your head around
it's all around you
all is full of love
all around you

you just ain't receiving
all is full of love
your phone is off the hook
all is full of love
your doors are all shut
all is full of love

E percebi que este tipo de coisa se descobre sozinho, e que certas coisas só batem quando têm que bater, mesmo.

E quando é dito pela Björk fica mais bonito. As coisas ditas pelos poetas ficam mais lindas, por serem mais... acessíveis? Humanas?

Uma vez eu quis casar com a Björk. Eu falava de brincadeira, pois além de achar uma artista extraordinária eu ouvia historinhas sobre ela, como a da vez que ela sentou numa roda de samba em Santa Tereza, no Rio (lugar gostoso, muito gostoso...) e ficou lá cantando. Agora eu não quero mais.

Tentem ver o vídeo, e me mandem se conseguirem um completo.