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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Algumas palavras

Confesso: fui um idiota até o presente momento.

Como passei grande parte dos meus anos de consciência sem me angustiar tanto, sem perder a esperança, sem sentir esta vontade de morte que me tomou recentemente? Uma resposta seca: pensando que muitas das coisas que aconteciam com os outros não aconteceriam comigo.

Sempre tive esta confiança arraigada, embora sutil, de que as coisas "ruins" aconteciam com as pessoas por uma espécie de erro subjetivo. Todas as moléstias que afligem-nos cotidianamente, depressões, loucuras, paixões, todas eram vistas por mim como uma coisa facilmente remediável. Não posso dizer como, exatamente. Talvez tenha vergonha de dizê-lo. As pessoas "de boa" não teriam estes problemas. Seriam desequilíbrios, ou qualquer coisa do tipo. Em termos "naturais", tais coisas eram exceções, exageros.

Talvez possa ser assim. Como saber?

Mas eu sabia que certas coisas não poderiam acontecer comigo. Era sempre coisas que aconteciam com os outros, e não aconteceriam comigo. Isso dá uma espécie de tranquilidade, não? Nada mais tranquilizador de que tomar esta posição imparcial, um tanto de fora, de onde se pode olhar e simplesmente constatar.

E ir correr na Beiramar.

Até que alguma coisa abalou esta certeza subjetiva, esta certa imortalidade do meu eu. E passei, como de praxe, para o lado contrário.

Um dos antigos estóicos dizia: eu sou humano e nada do que é humano me é estranho. Quando algo acontecer a mim, quando for preso, quando estiver sofrendo as dores de algo, não posso dizer que era uma surpresa.

Queria ser um estóico, ao menos por uns momentos.

Pois agora sinto este excesso de humanidade. Tudo o que acontece com os outros pode acontecer comigo. Algumas coisas acontecerão de certeza, outras são probabilidades. Mas, de modo potencial, tudo pode acontecer, e de certo modo tudo já aconteceu.

Depois do suicídio do meu amigo, recente, numa conversa com um amigo eu dizia não ter mais certeza de que "as coisas acabam com a morte". Deve ter soado uma declaração um tanto esotérica. Mas, de certo modo, parece-me um tanto assim. Todas as vidas humanas passam por aqui. Algo acaba.

Existe um assassino, um estuprador, um ladrão, em mim. Modo de dizer. Todas estas coisas estão em mim. Poderia ser. Não queria colocar um peso moral nisto, mas é terrificante perceber que talvez não dá mais pra distanciar-se tanto das coisas que olhamos e que nos arrepiam de pavor. As coisas que preferiríamos deixar do lado de fora de casa, e nos proteger com unhas e dentes.

Pois, de certo modo, eu talvez tivesse um pouco de razão: em termos naturais todas as paixões e loucuras e ideais sejam uma desnaturalidade. Um desequilíbrio. Mas afinal, onde é senão com a "morte", com a entropia, que um equilíbrio seria atingido?

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Para Casa

Existe um estranho sentimento que floresce em determinadas estações interiores: este de as coisas acontecerem na época em que elas têm que acontecer. Tem gente que o poderia chamar de sincronicidade - eu não ligo. Livros que caem na minha mão, pessoas que conheço - tudo que possa portar um conteúdo, significados. Tem horas em que tudo anda como anda - sofregamente, mas com um pouco de lubrificante aqui e ali - e tem horas em que tudo assume este aspecto sinistríssimo de um pathos desconhecido.

O que qualquer um que tenha uma aproximação mínima com a loucura como ela é pode sacar: a loucura, trata-se disto, elevado à potências nevrálgicas.

Passei por experiências castradoras recentemente. Ainda mantenho os meus dois colhões, para a felicidade da minha voz de barítono e do meu futuro amoroso; entendam experiências castradoras como experiências de perda, de frustração, de privação.

Antes - ainda - amar e demais quetais que esta palavrinha pode conter - não vou muito longe, sei do fastio geral sobre este tipo de histórias.

Este ano, meu irmãozinho-a-ser, tão bem esperado e cuidado, morre no dia em que nasceria, por descuido médico. Aqui sentimos o suave absurdo que encompassa os verbos "nascer" e "morrer".
Recentemente quase morro, morreria numa linha temporal imaginária onde potentes antibióticos não existiriam. Sinto uma dor excruciante e temo: eis que isto é viver, supurar um órgão aparentemente sem uso, com dores atrozes, e ficar cada vez mais sonolento até dormir ad aeternum (o cirurgião passa pelas macas no corredor e me vê sonolento: para a sala de cirurgia este garoto, depressa).

Um amigo - um trekker do mesmo caminho - suicida-se estes dias. Missa de sétimo dia, hoje. Existe um buraco com forma de Fulano no universo. Deixa de herança, entre outras coisas, uma pergunta, que não quer calar.

Acabo de voltar de São Paulo. Chego em casa depois de dar uma volta no centro com Jão, que passou três dias por lá - eu uns 10 - na designosa quitinete do Will. Meu gato me recepciona à maneira dos gatos: efusivamente no início, algo que pode confundir-se com demanda insatisfeita de algo com que os gatos nunca estão satisfeitos, então contorce-se em cima do meu colo e ronrona, forçando meu dedos a roçar diversas partes do focinho e pescoço. Depois brigamos de mentirinha - ele morde cada vez mais forte, preciso fazer com que ele veja que estamos brincando, e só - e então corre para a comida.

São Paulo, a metrópole que eu amo odiar, ou odeio amar. Poucos meses desde a última vez em que lá estive, e sinto tantas diferenças em mim. Cansaço. Ansiedade. A cidade se abre um pouco mais, a cada vez que lá apareço; mas aquilo é algo diferente, eu sou um turista. Um estranho recepcionado como turista, e a cada momento Sampa me dirige a palavra, nos seus turbilhões de gente, sons e esquinas: se vieres para cá, conhecerás o que é uma metrópole.

Eu, que ultimamente tenho pensando tudo em termos de lixo, no meio do lixo. Acompanho o lixo com os olhares, dos olhos e da alma: temo pelo lixo, absorvo um pouco do lixo. Homens, cidades, metrópoles erguem-se por cima do lixo, e eu olhando para ele. Algumas pessoas são lixo; outras cobrem-se de lixo.

Civilização é: sabermos o que fazer com o nosso lixo. Quanto melhor a resposta a isto, maior a civilização e a paz de espírito de seus condenados. Eu tenho esta idéia de que poderíamos jogar todo o nosso lixo no sol, começando pelo atômico. Ia ser uma solução boa, tirando o custo astronômico, mas nos coloca em um problema ético, se podemos dizer que o universo comporta a ética, assim como as quatro forças fundamentais: estaremos tirando da Terra para jogar no Sol. Nada se perde, em termos energéticos, mas vendo desta forma talvez o lixo seja importante, e consigo imaginar um futuro em que tentaremos preservar não o ambiente, mas o nosso lixo.

Mas enfim, deixo para os futuros conterrâneos que pensem nos seus problemas prementes.

Qualquer um de sensibilidade um pouco mais aguçada pode perceber: não estou preocupado com o ambiente, o destino dos imigrantes, riqueza e pobreza, com as experiências de perda per se. Preocupo-me com isto pois tudo isto, de uma maneira assombrosa, me faz temer por mim mesmo. Angustio-me? Por mim. E estou angustiado, ah como estou angustiado. Se antes, o jovem deus prometéico que eu prometia ser, esperando pela Coisa garantida, pouco temia, agora algo rui e eu tremo de medo, relegado à mais simples neurose. Comprei a minha mortalidade carimbada e ganho mais angústia. Não digo, não posso dizer, que a barganha é sempre esta, mas comigo tem sido assim e nem mesmo sei se voltaria a ser aquele belo deus.

Vejo, porém, que as certezas - as certezas que temos em nossas vidas, a certeza de que "seremos" felizes ou infelizes assim ou assado, estas certezas que estão por trás de qualquer angústia - podem ser mortais. As certezas podem ser mortais, e disto eu não tenho certeza: eu sei.

É quando estas pequenas coisas das quais falava no começo, estas pequenobscenidades, começam a juntar-se e a sugerir uma ordem de certeza, esta pequena porta dos fundos para a mansão dita "loucura", que podemos sacar que as certezas podem ser mortais. Nenhum juízo de valor atachado a isto. Sabemos, porém, que as certezas podem ser mortais.

Isto foi sussurrado no ônibus, de volta para casa.

Prova de que as certezas podem ser mortais? É justamente por causa delas que as pessoas se matam, ou deixam matar.

Na festa da Nossa Senhora de Achiropita, comemos beringelas recheadas, antepastos, fogazzas e uma deliciosa polenta. Na cantina italiana próxima de casa, um carbonara, entradinha de sardela e demais petisquetes. Reportagem para um folhetim diário nos concede passagem por dois restaurantes chineses: um pra encher, outro pra degustar - refrescante sopa de vinagre. Queijos. Vinhos. Pães. Pessoas, muitas, nas ruas; cultura, livros, falação. Tudo o que se oferece na vida como civilização - ou melhor, como excesso de civilização. O excesso caracteriza um turista, o excesso caracteriza algumas pessoas. Há quem se especialize no excesso, outras na privação. Muitos confortam-se no meio termo. Quem sustenta a casa? Não sei.

Em Floripa o ar está fresco e há árvores nas ruas. As calçadas estão relativamente limpas. A maioria das pessoas têm casacos nos ombros. Ah. Todos sonhamos com um mundo melhor, e a maioria de nós faz suas apostas neste sentido. Sinto um terror, pequeno e contido, porém terror, ao me deparar com um cuidado que chamo de feminino, por faltar palavras. O cuidado, a vontade de preservar, de cuidar de algo infante, imberbe, de algo que pode passar por um pedaço de carne, ou cuidar de um pedaço de tecido, ou de uma história. De preservar, de curar, de fazer com que cresça; não só maternidade, não o que dá vida, mas o que a preserva. Para preservar, algo cai fora, de maduro.

Pobreza no meio da fartura. Ah, mas que pobreza irremediável, esta.

Qual a sua relação com a loucura? Dizem que uma análise com Lacan começou com esta pergunta. Muito, muito pertinente; uma elegante pergunta de gênio - e de cuidado.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

A importância de um sesshin

Perguntar-se sobre a importância de um sesshin, para aqueles que o fazem, fizeram ou farão, é uma das questões que soa desnecessária, até mesmo retórica. Um sesshin é importante; por que, de outra forma, as pessoas deslocariam-se de longe para passar dias e dias sentados no zafu? Eu, contudo, peguei-me fazendo esta pergunta, inspirado pela lembrança das minhas dores, dramas e desistências.

Há várias coisas das quais sentimos a diferença somente depois que elas acabam. Engana-se quem acha que, findo um evento, findas as suas repercussões. Durante um sesshin podemos sentir e vivenciar várias coisas, todos nós o sabemos. É somente, porém, quando voltamos para casa, quando voltamos para a nossa rotina, que vemos coisas novas desenrolarem-se – algo que talvez estava lá antes mesmo da viagem.

Uma das importâncias óbvias de um sesshin é o simples fato de que os praticantes reunidos ajudam a manter a prática uns dos outros. Podemos passar a admirar a coragem de Sidarta em sentar-se em zazen sozinho, sem professor, preceptor ou colegas, depois que vemos o quão fracos somos se não praticamos com outros. Não precisamos evocar forças ou energias: a simples pressão social de não abandonar uma sessão de zazen faz maravilhas – eu teria escapado muito, muito antes do terceiro dia.

Importante, também, praticar, neste caso, do lado de um roshi , e de pessoas que praticam o zazen por anos e décadas.

Importante ter a oportunidade – devido a um tempo planejado de prática intensiva – de aprofundar-se no zazen, de poder descobrir estados ainda não conhecidos, de poder ir um pouco mais longe que a prática cotidiana nos permite.

Tudo isto, enfim, importante. Valioso.

Mas há outra coisa importante que desejo deixar para falar aqui: importante é fazer um sesshin, com todas as suas importâncias – e desimportâncias – para ter esta experiência e voltar para as nossas vidas.

Como dizia antes, há coisas das quais o peso delas cai depois: seja fazer sentido depois, seja cair a ficha depois, seja simplesmente revestir-se de outras vivências, depois. Para ser sincero, não tinha muita certeza de porque eu fazia o tal sesshin – ah, por causa do rakussu, uma península de orgulho (o lado bom do orgulho, nos faz fazer coisas que não faríamos com pretensa humildade), para não decepcionar a mim mesmo e aos outros, por uma sede de saber, por um desejo inominável, para pura e simplesmente praticar. Ah, miríades de razões. Mas não tinha certeza e, acima de tudo, nos momentos mais desesperados, para a pergunta "por que você não vai embora?", eu só sabia dizer, depois de um certo tempo: "eu não sei". Prometia a mim mesmo que iria até o final do dia e então, somente de noite, iria ver se ia embora ou não. Cada dia acabava em si mesmo: cada dia um novo dia, nova prática. Cada novo momento. Apesar das várias coisas, apesar das dores e delícias, apesar do rakussu para terminar, apesar dos transeuntes noturnos de São Paulo, apesar do delicioso nabo amarelo, íamos somente indo, fazendo zazen na hora do zazen. Apesar dos diversos pensamentos e distrações.

É agora que, então, olhando para lá, para a semana passada, me pergunto: como foi possível? E não é que aconteceu? Aconteceu. Ao mesmo tempo que pode parecer um sonho, ter um toque de irreal, tem a realidade das coisas não-sonhadas.

O valioso de um sesshin é ter a experiência da prática viva, presente, como um marco. Esta prática constante, este breve período em que nos permitimos e permitimos aos outros que praticassem com mais afinco, ecoará dias e semanas e meses depois, nos lembrando da nossa prática. Mesmo que sentemos muito pouco, mesmo que esqueçamos temporariamente do zazen, mesmo que o ritmo de nossas vidas exija outras prioridades, a experiência está "lá", podemos (tentar) voltar a qualquer momento e nos servir dela.

Qual experiência?

Dogen usava uma expressão interessante para referir-se à prática: prática-esclarecimento, ou prática-iluminação. A prática é iluminação, iluminação é prática; uma não difere da outra. Dizer, porém, que elas são "uma mesma coisa", só que "duas faces de uma mesma moeda" é perder a experiência com palavras: mesmo dizer do Um é perdê-lo irremediavelmente como Um. As palavras vêm, necessariamente, depois, e têm o seu gosto peculiar, muitas vezes saboroso; mas a prática, porém, está além das palavras, não no sentido que as negue.

Zazen é negar nada e afirmar nada. Se tivesse eu feito um esforço para "livrar-me" de todos os impedimentos, de todas as distrações, de todos os "venenos" durante o sesshin, isto não seria zazen: isto seria eu fazendo esforço para livrar-me de impedimentos, distrações e "venenos". Na maior parte do tempo, era isto que fazia: lutando com a dor ou tentando agüenta-la, pensando em desistir e depois arrependendo-me de pensar em desistir. Mas, embora isto não seja o zazen, isto é zazen: eis a nossa vida, eis a nossa prática. Nada de especial, de excepcional, no sentido de que antes mesmo que pudéssemos falar enquanto praticamos ela está lá. É simples, não é? Todos nós o sabemos. Simples mesmo em sua tremenda dificuldade.

"Nadem quanto queiram, os peixes não encontram um fim no mar; voem quanto queiram, os pássaros não encontram um fim no céu." Dogen Zenji.


Afinal, quando falamos de prática, sobre quem estamos falando?

Agora mesmo eu falo de importante e não-importante, de valioso, de prática e iluminação e vida, como se fossem coisas ou separadas ou excepcionais. É uma maneira de falar, uma maneira de passar algo – que eu espero que agrade a uns e sirva a todos.

domingo, 28 de outubro de 2007

A Parábola do Homem que Queimou o Dicionário de Grego Clássico

- Duvido que você encontre nike aí neste dicionário velho.
- E por que não haveria de encontrar? Estas palavras todas já estavam mortas quando o cara fez o dicionário.
Os dois estavam sentados em uma mesa de um café, com um dicionário de grego clássico, de capa azul, com um valor de três casas decimais de reais, escrito por um padre, e cheio de palavras gregas clássicas.
- Aposto mesmo.
- Claro que tem, mané. Maluco. Imagina só, nike ainda, podia apostar coisa melhor do que nike.
Namorados, um feio e um chato; um metido a helenista, o outro a hedonista, e no meio disto tudo, ninguém sabe de onde, juntos por mais de meio ano. Por uma lenta osmose, as características mais insignificantes de cada um tornaram um certo tipo de meio-termo indefinido de casal; o principal, porém, era que um continuava feio e o outro, chato.
- E se não tivesse? O que você faria.
- Rá, se não tivesse só restaria mesmo jogar fora uma merda de dicionário tão ruim assim.
- Deixa eu dar uma olhada.
E abriu no nu. Nu, iota, kappa... e nada. Nada de nike, nada.
- Olha, não tem.
- Ah, é? Fala sério. Deixa eu ver.
E viu, e viu que faltava justamente a tal da página. Nenhuma farpinha ou restinho de papel, prova amadora de que alguém havia arrancado nike do dicionário.
- Você tirou a nike fora?
- Nem. Pra que faria uma coisa desta? Vai ver que veio assim - sorrindo marotamente.
Pra bem ou pra mal, o helenista era honesto. Aposta era aposta - e o dicionário de grego clássico queimou num domingo de outono, num quintal de subúrbio.

Homenagem ao póstumo OCI; texto escrito em junho de 2004

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

ars longa uita breuis

Ὁ βίος βραχύς, ἡ δὲ τέχνη μακρή, ὁ δὲ καιρὸς ὀξὺς, ἡ δὲ πεῖρα σφαλερὴ, ἡ δὲ κρίσις χαλεπή

ho bíos brakhýs, hê de tékhnê makrê, ho de kairos óksus, hê de peîra sphalerê, hê de krísis khalepê

Ars longa, vita brevis, occasio praeceps, experimentum periculosum, iudicium difficile

A vida, breve; a arte, grande; o momento oportuno, fugaz; o experimento, hesitante; a decisão, árdua.


A famosa fase de Hipócrates, o pai da medicina; traduzida e abreviada para "ars longa uita breuis". A arte, tékhnê, se trata da arte da medicina; "arte" eram consideradas a arte da retórica, da navegação, da escultura. tékhne e poiésis: a arte e o fazer, poiésis sendo o verbo utilizado para as coisas que se fazem, como poesia. Com o tempo é que se diferencia a técnica da arte: para os gregos um escultor era, antes de tudo, um fazedor, como um sapateiro ou um latoeiro.

A arte da medicina, muito maior do que a vida, curta demais: a vida dos doentes, a vida dos médicos. A vida de um médico não é o suficiente para englobar toda a arte da medicina; o aprendizado prossegue, ininterrupto, até a morte - e além, com outros médicos aprendendo a mesma arte.

kairos é o momento oportuno, a "oportunidade". Há duas palavras para tempo, em grego: khrónos e kairos. khrónos é o tempo em si, o tempo que passa, impiedoso. kairos é um momento no tempo, o momento certo em que uma determinada ação pode ser efetiva - ou não. Uma flecha zunirá para cima de qualquer forma, assim como uma pedra cairá, de qualquer forma; uma flecha acertará o alvo, porém, em um determinado "momento oportuno", dadas as "circunstâncias" - mira, força, e quetais. "Ah, aqueles momentos em que eu podia ter feito algo, e não o fiz...", imagino Hipócrates com os seus botões. Pois o momento oportuno é fugaz, muitas vezes.

kairos é uma das palavrinhas gregas que vale a pena aprender.

E o experimento é hesitante; "periclitante", para se dizer. peîra é uma tentativa, um experimento. Tem aqui este sabor de tentativa - e erro. Pois o experimento não nos garante certeza; pode ser um tiro no escuro, baseado no tatear.

Quão árduo, quão sofrido pode ser um julgamento e uma decisão, dado todos os anteriores. krísis é decisão, escolha, julgamento; mas também tem um significado, de acordo com o meu querido LSJ online, de um ponto de mudança de uma doença, para pior ou melhor - que também pode ser "muito difícil de aguentar" (khalepos), para o nosso Hipócrates.

A frase é contundente, e por mais sintético que seja o grego, há um caráter marcante e duro nela. Um certo sentimento de urgência, de algo a ser feito, empresta a sua sombra. Algo além do que uma simples meditação - meletan - sobre o tempo de vida de cada um, e a arte que continuará adiante. Há que se fazer algo, há que se fazer - a arte da medicina que encontra-se, muitas vezes, em cima do fio da navalha.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Planta-ovo

A planta-ovo é a beringela. Perguntava-me Will a respeito do nome, egg-plant; e eu, muito erudito, repassava a informação colhida naquela tarde. A beringela selvagem (imaginem uma beringela selvagem, que ameaça à sociedade ela pode ser!) tem em média 3 centímetros de tamanho. É pequena, mas mortal. Provavelmente ela deve ter a forma de um ovo; um ovo escuro, talvez, sed ovum. Ergo, foi chamada de planta-ovo (ou melanzane, ou aubergine, ou nasu, ou brinjal, ou beringela). Suas primas mais civilizadas, contudo, tornaram-se aquelas senhoras beringelas, gordas e polpudas.

A beringela tem um poder fantástico de absorver qualquer tipo de gordura que você coloque nela. Duas beringelas médias podem, com toda a facilidade - e debochando da sua cara, se permitires - sugar o conteúdo de uma latinha de um quarto de litro de azeite de oliva. Sem titubear, sem um ai. É a coisa que as beringelas mais querem na vida: gordura. Água, luz do sol, minerais: tudo isto é colateral na vida de uma beringela, somente um meio para um fim mais nobre - sugar azeite de oliva e ser assadas em fogo alto.

As pessoas têm diversas formas de se haver com as beringelas. Uma seita alimentar moderna que começa com "macro" e termina com "biótica" diz que elas, as tadinhas plantas-ovo, são tóxicas, juntamente com o tomate e a batata, com as quais dividem a mesma família botânica das solanáceas. Uma pena, pois a mistura das três - juntamente com um bocado de pimenta, que também é uma solanácea - e cominho dá um belo, nutritivo e delicioso prato. O cominho é opcional, obviamente.

A questão da toxicidade das solanáceas não é motivo de dúvida: o motivo para cortarmos fora os brotinhos verdes que costumam nascer nas batatas é, exatamente, pelo motivo que na planta batatal a única parte que não é tóxica o bastante é o bulbo que chamamos batata. Quando a batata começa a crescer, concentrações de alcalóides aumentam nos brotos. As solanáceas são as plantas mais famosas da Terra, pelo serviço prestado aos nossos ancestrais, através dos seus alcalóides ("beladona" lhe sugere algo?).

Outras pessoas as amam. Talvez o lema das beringelas seja, realmente, beringelas: ame ou deixe elas. Felizmente as pessoas mais amam que as deixam, o que já se evidencia pelo fato de que, para um ovo escuro crescer até ficar do tamanho de um filhotinho de porco, alguma coisa a mais que o velho algoritmo darwiniano precisa atuar. Na Índia, a beringela é considerada a "rainha dos vegetais". Não é surpreendente vindo de um país em que as pessoas só tem vegetais para comer, muitas vezes. Resta saber se ela é rainha por um quê a mais, ou se é rainha pela sua presença constante e pressurosa.

Se ela é rainha, porém, o seu tratamento não é real. Macera-se, soca-se, corta-se, amassa-se, assa-se, frita-se, salga-se, tempera-se a beringela. Não conheço monarquia em que se louva a majestade com tratamento tão brutal - talvez na Revolução Francesa.


O meu primeiro contato com a beringela deve ter sido, provavelmente, com a beringela à milanesa. Durante muito tempo se achou, neste país, que o único uso a esta coisa preta fosse passá-la em farinha de rosca e ovo e fritar grossas fatias, que perderiam água, sugariam óleo e ficariam crocantes por fora e cremosas por dentro. As famílias emigrantes do Oriente Médio guardavam os seus olorosos segredos de beringela dentro de suas casas. Cosa nostra. Estes segredos incluíam suaves cremes de beringela, carinhosamente batidos; beringelas estalantes e cricrilantes, cuja casca rompia-se desapaixonadamente, como um relâmpago, recheadas com carnes, arroz, vegetais, temperos - ou a própria ela-mesma, retirada, processada e recolocada por mãos de dedos grossos.

A beringela, assim como as mais gostosas e mais suaves coisas da vida, é daquelas que a simplicidade é o dom e a regra. Colocada num forno com azeite, sal e pimenta, é antepasto, pasto e pós-pasto, acompanhada de um bom pão. Chorei de alegria quando, estes dias, descobrimos por acidente a beringela perfeita: as tiras longitudinais, salpicadas por azeite e sal, colocadas em forno altíssimo. Um pré-tratamento para uma futura lazanha, que saiu melhor que o mais apurado cuidado. O óleo salpicado - imagine você borrifando azeite de oliva como água - que não encharcava a beringela, e ao mesmo tempo lhe dava amparo espiritual para enfrentar o forno, deixou o resto da sua polpa entregue a si mesma, liberando seus sucos e aromas que, sublimados pela temperatura altíssima, não tinham mais o que fazer a não ser na polpa se agarrar, só que desta vez transmutados em algo mais - um éter, a quintessência.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Meu presente

Completei 24 anos de vida, na semana passada, dia 17.

Ganhei poucos presentes. O que se sucede? Com o passar dos anos, as pessoas dão menos presentes? Sou eu e a minha talvez falsa modéstia em dizer que não precisa de nada, somente a "presença"? Ou é a falsa modéstia dos outros? A situação econômica?

E nem mesmo fui caprichoso em alguns pedidos... me perguntaram o que eu queria, eu respondi: "um abajur", pois preciso de um abajur para meu quarto. Talvez tenha sido somente para demonstrar a intenção de me dar um presente... talvez a própria intenção de me presentear, por si mesma, tenha sido o meu presente. Tempos estranhos, em que nos presenteamos com intenções.

Ainda estou esperando o meu exemplar de "O idiota". Existem outros itens, também, desde 15 reais até a seu rendimento anual. Ainda está em tempo; aproveite.

Mas eu descobri o que eu gostaria muito de me dar de presente. Sim, eu me dar de presente: este papo de presente entra em cena no aniversário, mas todo dia é dia de índio e de presente - uma flor, qualquer coisa. Eu me daria de presente a qualquer dia, este presente. Eu gostaria de ter, sempre do meu lado, um alguém ou algo que me criticasse, com argúcia, inteligência, ironia, finura e firmeza.

Não precisa ter um ar de intelectual e usar óculos de retângulo aro grosso, me olhar por cima e jogar sua torrente ácida; tampouco seria alguém com "experiência", um realista, uma pessoa mais dura e vivida que sabe do que a vida "é feita" e que me puxasse para baixo. Besteira. Nem um tampão, nem um tapado. Podia ser uma pessoa tão estúpida quanto eu; perdida nos mesmos rodeios, um tanto hesitante, um tanto entediada em muitos momentos.

Não, não estou falando de um amor, de um relacionamento. Não, gente, nada disso. Estou falando de um crítico, ou conselheiro, a palavra que melhor lhes descer.

Podia ser um amigo imaginário, uma alucinação, um diálogo interno comigo mesmo. Que diferença faz? Nenhuma, a não ser que se faça na rua e assuste os cavalos. Podia ser um homem jovem, ou uma mulher velha; idoso ou jovem, menos criança - uma criança assim pode me assustar. Um animal também não conviria muito: ia achar muito estranho um animal falante. Pelo menos no começo.

Alguém bem-pensante e bem-falante. Nada de circunlóquios ou preleções; nada de um mestre para me dizer o certo, ou um sacerdote para me contar do errado. Alguém que sabe que critica, mesmo enredado nas mesmas coisas que critica; alguém que sabe que toda firmeza pode ter algo de agressivo, mas somente por um momento; termina-se com um café, depois. Nada de carinhos ou abraços excessivos: eles tendem a atenuar demais os efeitos das palavras.

Eu queria uma outra palavra para atenuar as minhas arestas; uma outra palavra para me tirar um pouco fora daquilo que eu presto tanta atenção: a mim mesmo, à minha miséria e à minha salvação.

Tirar fora não é, simplesmente, esquecer.

Eu queria me levar menos a sério. E isto, muitos devem saber, é facílimo de dizer - e tão complicado para vivenciar.

Este lugar - este lugar que eu delineei e poderia continuar a fazê-lo, embora de fato seja muito simples - é um lugar complicado. Poucas pessoas assumem este lugar. Em sua maioria, amigos, durante pouco tempo, quando não entram naquilo que amigos gostam muito de fazer: fantasiar conjuntamente.

Este lugar é um lugar: não é uma pessoa, ou um título. Como eu falei, pode ser uma alucinação, se for o caso. O problema das alucinações é que elas costumam ser bastante perturbadoras - e isto não tiro da minha experiência pessoal, que é muitíssimo pobre em alucinações.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Cila-ila, Caribdis-ibdis & Tila Tekila

(versão 1, modificações possíveis, eu tenho pressa...)
Ultimamente tenho sido assombrado - literalmente assombrado, assombreado, soçobrado - por um questionamento cruel. Cruel, e delgado como uma lasca de cristal; a crueldade de uma lasca de cristal que se enterra debaixo da unha.

Onde está a diferença entre desistir e deixar acontecer? Onde está aquela sutil diferença entre desistir de algo - por achar impossível, por não poder mais ir adiante, por quaisquer razão - e a consciência limpa de que algo acabou, de que se tentou, se viveu?

Onde poder confessar que não dá mais, e onde é que esta confissão é uma mentira?

Será que dá para definir esta dúvida? Será que eu sempre sou responsável pelas minhas escolhas?

Nem todas as coisas são possíveis. Há coisas que simplesmente não podemos fazer. Isso não nos mostra que as coisas são impossíveis: há muitas coisas que podemos fazer. É assim que se dividem as coisas, então? Entre possíveis e impossíveis? Mas ora, como haveria de ser assim, se olhamos ao nosso redor e vemos as circunstâncias e a paisagem mudando, de momento a momento. Olhamos para a nossa história e vemos que certas coisas que achávamos impossíveis são possíveis, e outras, que achávamos possíveis, não o são tanto assim... e nada impede que este movimento continue, a colocar os possíveis nos impossíveis e vice-versa.

Estou falando de dois pólos, possível e impossível, mesmo sabendo, como coloquei agorinha acima, que não se trata de estes dois pólos, realmente. Se trata de algo muito, muito mais complicada: a probabilidade.

Mas... onde está a diferença entre desistir e deixar acontecer? Por que se desiste? Quem é que desiste?

Enfim, quem é que vai conviver com o arrependimento?

Afinal, arrependimento existe?

*****

Ao mesmo tempo, a realidade me bateu com força total, e me lançou de cara no chão.

Somos uma geração que tem medo de realidade, pois achamos que ela não existe por si só. Vivemos nesta posição esquisita de negar uma realidade forte, mas ao mesmo tempo a temos na nossa frente todo o tempo - e sabemos disto.

Creio que não se trata em nada de uma característica destes nossos tempos, esta dialética frente à realidade. Mas os nossos tempos são os primeiros a inventar para si a fantasia de uma realidade "virtual", de várias realidades, de várias facetas. Enquanto que em outras épocas parecia ser mais difícil sair fora da historinha do "real" - a não ser pela via da fantasia desenfreada, pra se dizer assim (romances, céu e inferno, loucura) - a nossa época se compraz e se congratula em colocar para si mesma que a realidade tem o impacto de uma bala de gelo no crânio. Ela pode impactar, mas ao mesmo tempo derrete-se.

Quando eu falo realidade eu não falo somente "do mundo lá fora". Este mundo lá fora, que é ele? Que sou eu, este mundo "aqui dentro"? Realidade pode ser definida, para os meus simples interesses leigos, como aquilo que resta depois de tudo mais, depois de qualquer dissolução do mundo dentro das nossas cabecinhas: a morte é um exemplo de realidade, para se colocar assim. Ou melhor, o saber-se morrer.

A realidade é o lembrete que se tem de fazer alguma coisa, mesmo que não se saiba o quê, ou o porquê.
*****

Onde desistir, então? Será que toda desistência é uma covardia? Será que devemos mesmo, como Hamlet, tomar de armas frente a um mar de problemas e, opondo-se a eles, extingui-los? Será que é esta a metáfora da vida humana - a da "luta", a da oposição, a da força humana frente aos vendavais que ameaçam extinguir sua tênue e fraca, porém inteligente, centelha de vida?

Ou será que a metáfora é a homérica, os homens como gerações de folhas ao vento, morrendo e caindo, ao capricho de deuses tão caprichosos quanto nós, mas imortais?

Ou será que a metáfora é outra, de um homem numa relação harmônica com os outros e com o seu mundo, encontrando um equilíbrio dinâmico - ou pior, encontrando a entropia?

O que nos espera além das estrelas: o fogo, o gelo, ou uma injeção de graça na testa? Ou o carimbo do Ibama intergalático?
*****

Eu não vou afirmar que todas as respostas são temporárias (apesar de me parecerem assim), mas se assim são, eu não me admiro. Não vou afirmar que todas as decisões morais e éticas são temporárias, apesar de me parecerem assim, mas se o forem, eu não me admiro. Não vou afirmar: não posso dizer.

Me admiro um pouco, na verdade, a admiração de um cara que gostaria que ao menos uma coisinha ínfima que fosse fosse certa, segura e certeira.

(A morte? Mas quem é que morre? Te contaram? Quem?)

Mas não me admiro no sentido de achar que só é assim, se for, por uma falha humana.

Talvez faça mais sentido - e seja mais engraçado - se pudéssemos pensar que ter certeza seja a maior falha humana de todas. De que, quando alguém chegar e dizer para nós, "eu sei", podemos desconfiar muito dele.
*****

Vocês entendem? Se seguimos pelo caminho, encontramos nossos inimigos mais ferrenhos. Se não seguimos, não encontramos nada, nem ninguém, e morremos. Se continuamos pelo caminho, encontraremos no mínimo dois rios. Um do nada, e outro do tudo. Não é difícil de ver isto. Não é uma experiência mística. Encontramos dois rios, um do "niilismo", e outro do "eternalismo". Dizem que foram estes os dois rios que Sidarta encontrou, para usar o personagem espiritual com quem tenho mais intimidade. Encontramos o caminho de que nada existe, ou nada é verdadeiro, ou nada permanece, e vivemos com isto. Ou então encontramos o caminho de que algo existe, algo é verdadeiro, algo permanece - para sempre - e vivemos com isto.

Como viver com o primeiro? Já sabemos o que o niilismo sincero e aplicado pode fazer. Todos nós sabemos. O segundo, eternalismo, sabemos também.

Dizem que era esta a discussão que estava em voga 2600 anos atrás, na época de Sidarta: a discussão se existia algo que permanecia para sempre, ou, para colocar em uma palavra, se existia algo que era imutável. Alguns iam pro lado do niilismo e respondiam que não: nada era imutável, nem a mais minúscula das partículas imagináveis. Outros iam pro lado do eternalismo e diziam que sim, que havia algo imutável, mesmo que fosse a mais minúscula das partículas imagináveis.

Não precisamos ir muito longe para entrar nesta discussão: a discussão entre mutável e imutável encontra-se no nosso berço cultural, no nascimento da nossa "filosofia".

E, falando seriamente, não há nada de mais nesta discussão também, pois é um questionamento básico, ao meu ver. Ele continua ininterruptamente até hoje. O importante é perceber que cada um destes posicionamentos leva a uma atitude com relação à vida e morte.

Este questionamento está no âmago da vida cotidiana, da vida de todos nós. Esta AMBIVALÊNCIA está no âmago da vida de todos nós. Não precisa ser dotado para ver: não se trata de misticismo, ou de insight. Este conflito está no âmago da nossa "existência".

Quem eu sou? E nos damos respostas: escolhemos uma opção, muitas vezes mudamos no meio, misturamos um pouco, fazemos uma resposta, e vivemos desta forma.

E eu tenho a impressão de que nenhuma das respostas vai acabar com esta contradição fundamental. O que fazer, então?

Se fosse somente uma questão de responder a uma pergunta, não seria tão foda assim. Afinal, há várias perguntas que não damos a mínima se elas forem respondidas ou não - a não ser, é claro, quando elas se apresentam para nós, quando sim tratamos de resolvê-las (e nem sempre estamos certos de ter dado "A Resposta", mas grande coisa...) Mas esta contradição, ela te incomoda ou não?

Muitas vezes dá vontade de tirar uma faca que está enterrada no meu peito, achando que ela é a causa de tanta confusão, de tanta insatisfação. Mas todos sabemos o que acontece quando tiramos facas enterradas no peito: o sangue brota e jorra com força.

O que fazer? Fazer nada, afinal de contas é tudo um sonho, nada existe em seu sentido mais puro? Tiro ou não tiro?

Quem é que vai tirar a faca? E quando, e onde, e como?

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Will-ill

Estou triste.
Amigo ou irmão... enfim, como continuam sendo poucas as palavras; e como continua intenso o meu anseio de empregá-las...
Muitos antes de mim já falaram de amigos. E muitos antes de mim já o foram. O mesmo para irmãos. Como posso dizer, senão isto, de alguém que se foi e que pra mim não pode ser somente ou irmão ou amigo?
Como amigo: os anos de convivência, os interesses conjuntos, as cenas compartilhadas, as tantas conversas. A leve sutileza da amizade, com os seus tempos de inércia - outros de exaustão - e seus reencontros de festa.
Como irmão, que outra palavra mais para descrever aquele palpitante mistério de um laço, de uma espécie de sangue conjunto correndo. Não simbioticamente: correndo, fluindo.
É uma tarde de um belo dia. Verão, ou primavera, ou qualquer outra estação que queirais. Aquela que sentirem melhor, batendo no seu rosto, é esta. Façam-me o favor de apenas não chegar a extremos de congelar a água: imaginem comigo, para que possais compreender. O sol oblíquo traz aquela luz dourada - aquela luz de final de tarde que esmaece e parece poder virar qualquer outra luz que lhe apeteça. Há pequenos glóbulos luminosos refletidos por um rio, este cercado por barrancos de terra rica e preta, e espigões de plantas delgadas, finos canudos. A água flui. Lentamente, letargicamente, nos cinturões onde as rãs depositam seus ovinhos. Água turva em contraste com a água corrente e rápida e lépida e fresca. Há alguma coisa se movendo nesta corrente: um barquinho, um tronquinho, uma pessoinha, não se pode ver. Duas pessoas, uma de cada margem, correm paralelas, um pouco atrás desta forma indistinta, esta sombra buraco no rio. Sou eu e meu amigo. Corremos e rimos e gorgolejamos de emoção e fúria, em disparada deste buraco negro no rio. Muitas vezes um vau no rio nos aproxima, chegamos perto de alcançar a nossa presa. Podemos sentir o calor e ver o suor na testa do outro. Outras tantas, estamos distantes. Margens são margens, distantes. Escuta-se o barulho dos galhos sendo quebrados pelos pés, ouve-se possíveis lamentações solitárias, vê-se que o outro diminuiu a marcha. Tiras verde-escuras cortam a sua imagem, me apresentam-no em fatias: quase desaparece. Corremos atrás da mancha no rio.
É assim que se flui.
Estou triste. Meu amigo Will foi-se para São Paulo, este final de semana.
Eu sei: São Paulo é ali do lado. Eu sei: que excelente oportunidade para ele. Eu sei: não vai ser a última vez que eu vou o ver.
Esta última eu mais sinto que sei. Mas eu sei.
Ele estava, faz muito tempo, contando com isto, querendo isto. Eu vi, acompanhei, dou fé, e dei apoio. É uma coisa importante para ele, muito além da importância que as pessoas dão para a palavra importância. E para mim também o é, mesmo que eu não o saiba dizer.
Pois o meu grande amigo dá o seu passo no Mundão. Todos nós damos os nossos passos no Mundão. Bilhões de pessoas deram os seus passos no Mundão - e a maioria delas está morta - história. Uns tinham filhos, outros não os tinham, como o Will. Muitos deram seus passos por necessidade, muitos por vaidade. Uns claudicantes, outros triunfantes. Uns sôfregos, outros trágicos, outros contidos, tantos ignorantes.
Choro por quê? então me perguntam. Que tristeza é esta?
Bem, eu chamo de tristeza para poder dizer a vocês. São tantas coisas em mim que eu detestaria vos fazer perder o seu tempo precioso catalogando os meus sentimentos.
Tristeza de não poder ter perto de mim este cara que dividiu muitas coisas comigo. Tristeza de ter que ouvir, escutar, e torcer, somente. Melancolia e nostalgia por visões do futuro passadas. Insegurança quanto ao futuro, por ele e por mim. Inveja - este o mais insidioso e mais pessoal de todos.
E, eu não sei explicar, um tremendo otimismo e bom-humor. Eu estou, de uma certa forma, contando contigo, Will. Acho que você sabe disto.
Eu não me dirijo muito a ele, aqui nesta minha escrita, pois eu sei que ele não me lê. Quase não me lê, e se duvidar nunca me leu, aqui no meu blog. Eu não me importo muito com isto. Mas eu vou me dirigir a você agora, Will, mesmo que você não me leia.
Admiro a tua presença. Admiro a tua alma. Ter te conhecido e conviver contigo é uma prova de vida - e ponto.
(Eu pretendia te escrever uma pequena eulogia, além destas palavras, mas não farei mais, por receio de ficar cheesy para os meus colegas amigos e algo-mais leitores. Né, meus colegas leitores? Eu queria que todos vocês saíssem chorando depois de ler o meu texto, devido a minha excepcional capacidade de colocar emoções no papel; que todos vocês desviassem os olhos marejados de lágrimas e pensassem então nos meus amigos, e deslumbrassem a ambivalência e a finitude dos laços humanos... Estou sendo egoísta: quero que todos chorem porque eu estou chorando. Sem essa, que a vaca tá esperando a ordenha.)
Então vá logo de uma vez, e trate de ser feliz. Nos vemos em breve.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Seria Horácio epicurista?

[Adendo do dia seguinte, seis de maio de dois mil e seis, data do sesquicentenário do nascimento do médico vienense, forefather da psicanálise, vida doçura esperança salve salve Sigmund Freud {lê-se "fróid"}. Sim, Quinto Horácio Flaco tinha sua ampla raiz epicurista. Depois de uma estafante busca pela internet encontrei fontes fidedignas deste fato, e descobri que Epicuro falava umas coisas muito mais interessantes do que eu imaginava, e que eu sou um cara tão genial que acabei sendo epicurista na minha pontuação da poesia, mesmo conhecendo três linhas biográficas sobre a vida de Epicuro, tirada de um velho manual de filosofia qualquer. Mentira, é que o epicurismo tem um pontos de contato com o pensamento budista. O texto, assim sendo, está sendo reescrito para o futuro próximo.]

Estou passando por uma época complicadinha. Não entro em detalhes, mas estava recentemente procurando alguma peça de literatura que refletisse este velho drama, o drama do amor e da separação; não o drama do amor-resto de um, e de outro que não ama mais. Falo sim do amor de dois, separados. Procurei, e algumas coisas que encontrei não me satisfaziam. Principalmente Romeu e Julieta, muito cristão, que a única parte que eu gosto é a linda declaração de amor dos dois.

Eu sou muito (pós?)moderno para ser romântico!

Hoje de manhã, do nada, me lembrei do Horácio, a tal falada ode do Horácio (Odes, I.11), que uma época eu cheguei a ter escrita em letras grandes no meu quarto, mas nunca eu parei para ler direito como eu fiz hoje. Ela fala o seguinte (a tradução depois é minha; valeu, Perseus!!):

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, uina liques et spatio breui
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit inuida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

Não queiras, Leuconoê - é ímpio - conhecer o fim que a mim, a ti, deram os deuses, e nem tentes os cálculos dos babilônios. Quão melhor suportar o que quer que virá! Sejam vários invernos, ou seja o último que Júpiter nos concede, e que agora enfraquece o mar Tirreno contra as pedras; sejas sábia, filtres os vinhos, e corte todas as longas esperanças, sendo nosso tempo breve. Enquanto nos falamos fogem os nossos instantes, invejosos: colha os dias, confiando o mínimo no futuro.

Enfim, estava bem ali, debaixo do meu nariz este tempo todo. Sentei-me hoje então e escrevi uma pequena análise leiga, baseado no que eu conheço, e algumas questõezinhas interessantes, esclarecendo e aumentando o pouco o sentido e o significado de algumas palavras e expressões. Não seria nem uma análise, e sim alguns pontos interessantes.

O que se segue é este texto.

Nefas é a palavra para "contra a lei divina". Sendo este poema romano e pagão, seriam as vontades e leis dos deuses; impiedade seria, por exemplo, a húbris, o orgulho humano em se exceder acima de sua medida (p. ex, de conhecer o que lhe reserva a vontade - ou mesmo o capricho, pois os deuses são caprichosos - do Olimpo). Este é um conceito grego, mas creio que pode se aplicar neste poema de Horácio. Os "cálculos (números) dos babilônios" se refere à astronomia caldéia - à previsão de um futuro através de sinais externos.

E por que seria "tão melhor" suportar o que vier? É uma boa pergunta. Eu mesmo estou me fazendo ela a torto e a direito. De três uma: ou há o destino, e mesmo que o pudéssemos prever não poderíamos controlá-lo; não há destino certo e seguro, e neste caso poderíamos conhecê-lo um pouco e controlá-lo um pouco, talvez muito pouco; ou não há destino. As Moiras, na mitologia greco-romana, eram as três deusas: uma fiava o tecido da vida, outra media o comprimento dele, e outra o cortava. Mas, mesmo assim, as vidas dos homens eram como folhas de árvores, sujeitas à vontade e necessidades dos deuses. Como fica esta questão?

Em qualquer um dos três casos, porém, não vale a pena saber do futuro. Em um, porque ele não vai mudar; em outro, porque ele é incerto, e no terceiro, porque não dá pra saber.

Os invernos e os verões e demais estações que se repetem e, apesar de ser cíclicos, marcam a linha reta unívoca que marca a vida humana; este mesmo inverno (se) enfraquecendo, debilitando (e a primavera começa antes do inverno terminar...) ao bater e bater e bater as ondas contra a barreira de pedras lambidas por muito tempo pelas mesmas ondas da água do mar Tirreno (pumex significa pedra, em geral, especialmente estas pedras erodidas pela água). Que visão magnífica! As pedras lentamente sendo dilapidadas pela água, pedras onde o próprio inverno deixa de ser... Quão prático, numa cena dessas, usar a palavra "inverno" para invocar um tempo natural e cíclico, sendo que o "inverno", tal como nós vemos, morre a cada ano...

Filtrar os vinhos, isto é, passar o vinho por peneira ou coador para retirar as impurezas: os pedaços de casca e de fruta ainda presentes, pedrinhas, os sais que se formam no fundo, e a parte da borra que ainda permanece. Como todos os visitantes da cantina da Pipa sabem (ou da sua cantina de vinhos coloniais local) vinho com impurezas dá uma dor de cabeça!, além de não ser a coisa mais fantástica de se tomar na vida. A sabedoria - invocada anteriormente - pode ser também a sabedoria de tomar dos próprios vinhos. Aliás, se uma pessoa filtra os seus vinhos, há uma grande chance de que a mesma os tenha produzido (e talvez plantado e talvez colhido e talvez pisado as uvas). Quer dizer, a pitadinha de ponos, de sofrimento/trabalho duro, presente na vida cotidiana.

Spatio brevi é ablativo absoluto de razão, "sendo a extensão (da vida) curta".

Spes longam é a "esperança que se estende (muito no futuro)"; "de uma vida curta corte todas as esperanças que apontam demasiado além". Quer dizer, não são todas as esperanças a ser cortadas de uma tal vida curta, mas sim estas longas esperanças. Aiaiai...

"O tempo invejoso nos foge enquanto falamos". Este inuida, além de invejoso, pode significar algo que nos odeia, algo que não nos é favorável. "Estamos aqui a falar, Leuconoê, e eu a te contar para colher os dias, enquanto estes mesmos dias estão a correr por baixo do nosso nariz". Invejosos do quê? Eu não sei. Me parecem mais impiedosos de não conceder a nós o que tanto queremos - o desejo de que eles não passem, o desejo de termos algo aqui para sempre.

E então chegamos a um ponto importante, o famoso carpe diem. Colha os dias, imperativo. Quando se trata de plantas, carpo quer dizer colher como se colhe uma flor, ou uma fruta. Para animais, é se alimentar (tomar como nutrição) de (plantas). O carpe do Horácio faz uso de quase todos os usos do verbo carpo, desde colher até alcançar, juntar, aproveitar, usar, perseguir, gastar. Me agrada, porém, pensar que este carpo me relembra os vinhos a ser filtrados. Os dias (momentos) podem ser como moscas para um rã, prontos a ser rapidamente agarrados (e usados, gastos, comidos, um atrás do outro...), mas de que forma, se não somos rãs?

Eu retomo este ponto por causa do significado que carpe diem acabou tomando com o tempo, desvinculado do seu contexto aqui no poema. "Aproveite o dia" é uma frase simples e equívoca demais, podendo ser lida de várias formas. Procure rapidamente na internet por carpe diem e literatura, e verás de tudo, desde os sonetos engraçadíssimos do século XVI (um dos quais traduzi, faz muito tempo, aqui - relevem que faz tempo), até definições e defesas do hedonismo. No poema inteiro, certamente, Horácio fala da brevidade da vida, de como ela nos foge em cada momento. Ao pedir a Leuconoê, porém, para que seja sábia e filtre os vinhos, ele está simplesmente pedindo que ela seja uma sábia hedonista e prefira uns prazeres que outros, somente?

A última frase pode apontar para um possível sentido: confiando o mínimo no (dia) posterior. Credulus é a mesma que o nosso crédulo: o que acredita com facilidade, sem suspeita. Acreditar no quê, porém? Acreditar que um dia seguirá o outro, certamente, e que amanhã certamente o sol levantará no leste e se porá no oeste. E talvez acreditar nos prazeres futuros, e nos sofrimentos futuros, o que não deixa de ser o destino, ao meu ver. Quam minimum credula postero, acreditando o mínimo. Acreditar e esperar, acreditar "um mínimo" e esperar "não muito além".

Até onde? Esta é uma pergunta fantástica que eu tenho me feito todos os dias.

[Aliás, para os budistas, estes últimos pensamentos podem ter lembrado, mesmo que de longe (para mim foi muito de perto) a famosa reflexão sobre a morte, que para muitos parece um pensamento pessimista, mas é uma prática que traz uma reflexão muito profunda.]

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Sócrates redux

"Não é de mal gosto lembrar-nos que dentre em breve futuro próximo estaremos a discutir certamente com fervor a novidade-então-presente que agora tomamos como certa e definida."

Ufa! Como é difícil traduzir as coisas certinhas assim do nada, grego clássico para português pós-moderno. Essa frase aí é do Sócrates, mas não adianta procurar nos anais quaisquer que quereis, pois lá não estarão, tenho certeza. Essa coisa aí ele me falou, e pra deixar tudo claro e certo a conclusão é minha, embora ele tenha resumido em uma frase, como é do costume dele agora, embora ele ainda passe por aquela balbúrdia toda de ironia, de maiêutica, essas taizinhas.

O que na realidade eu queria dizer que, em termos de idéias, elas têm uma história, e esta história, muitas vezes incompleta ou mal-contada, reifica a idéia; não é de se estranhar que muitas das vezes, quando elas mudam demais, as idéias renascem, por assim dizer. Deixam de "ser elas mesmas" e passam a "ser outras coisas".

O problema é que o Sócrates é meio surdo. Sério mesmo: achei que devia ser cera na orelha (depois que vi o estado do coitado quando nos conhecemos não duvido que ele tenha cera até no cu), mas é velhice mesmo. Velhice relativa, digamos, a mesma velhice que ele tinha quando bebeu a tal taça e foi pro Hades...

aliás, tenho que encadear as coisas pra falar de tudo certinho, senão começo a ir de uma à outra e acabo falando de nada.

Sócrates é meio surdo, feio, mas não tanto assim quanto diziam, e é esquecido das coisas; agora sou eu que tenho de retornar às definições em jogo, mesmo que acabe indo contra o meu argumento, eu que sou um cara idôneo e honesto. Ele me diz que é assim já faz dois mil quatrocentos anos (eu que tive de lembrá-lo de quanto tempo ele tinha morrido). Para o meu grande horror inicial, infinita surpresa medial e astronômico divertimento atual ele lê muito devagar e lê mal, por causa dos olhos (quantos sóis na baía de Falera! quantos!), e por que foi alfabetizado nos padrões atenienses da sua época. E no Hades não tem nada pra escrever, embora ele tenha me dito que os Iluministas tinham planos de terminar a Enciclopédia antes de se mudarem para outro paraíso, mais conveniente às suas necessidades post mortem.

O interessante, apesar de tudo isso, é que na conversa ele é incomparável. Descobri, depois de um pouco de tempo, que ele aprendeu a falar de outras formas, em outros idiomas, muitos dialetos europeus obscuros, certo. Isso, em primeiro lugar, explica o conjunto incongruente de sons que ele chama de "meu grego", os quais eu nunca fui capaz de entender. Depois de me contar das conversas infindas com a gentarada grega que mal morria zupt! se mandava pra lá, deu pra compreender a razão: imagine você ter conversado durante centenas de anos com gregos de todas as formas e cores, da Jônia, Macedônia, falando o koiné de todo o Mediterrâneo, o helenístico, imagina só! além de todos os outros esquisitos barbudos de outras partes do mundo.

Nem sempre barbudos, segundo ele me conta. Alguns tinham rastas, e outros eram carecas.

sexta-feira, 31 de março de 2006

Visita

A coisa mais incrível aconteceu, mas estou receoso de contar aqui, nunca se sabe, a internet, dizem, todos ficam sabendo de cada vírgula mal colocada. Na verdade não ficam, pois alguém usa vírgulas na net? Mas enfim... conto.

Cheguei aqui em casa esta segunda feira, cansado e ferido de mais um dia acadêmico maçante e desconstrutivo, de idéias toscas e flácidas como... enfim, o conceito de tosco e flácido que você, leitor atento, tiver em mente - alguns são desaconselhados para menores - quando, ao chegar no portão do prédio, vejo um cara velho e barbudo sentado na escada.

Ele tinha a pele bem bronzeada, curtida, os olhos cinzas e uma basta cabeleira que, embora branca, ainda conservava traços de um antigo castanho queimado. E uma barba um tanto mal cuidada, nada que uma gilete de três lâminas e quatro crianças taiwanesas não resolvam. Ele me vê chegando e vem falar comigo. Achei engraçado ele estar somente com uma camiseta, ainda mais aquela da Embratel que tinha a Ana Paula Arósio, na época que ela considerada a beleza encarnada e todo mundo gostava dela, a pobre-menina-que-namorado-suicidou-se-defronte; mas relevei a camiseta, depois de ver que ele não tinha nada por baixo, deixando a semi-mostra sua vergonha, que na penumbra não era nada saradinha.

Balbuciou algumas coisas, balbuciou modo de dizer, pois falou alto - eu que entendi coisa nenhuma e achei que a caninha Camarão tinha tido mais um freguês esta tarde, e já entrava em prédio meu com aquela carinha burguesa de "por-favor-saia-da-minha-frente", nojinho, quando ele me pega pelo braço e começa a falar mais claro e mais devagar, fazendo gestos amplos com o braço, parecendo que queria o meu liquidificador emprestado, sei lá.

Mas tinha algumas palavras que me eram familiares. Será? Ele começou a apontar para si mesmo, dizendo "Sôôcrates, Sôôcrates, Sôôcrates", parecendo que ia vomitar. Deu um pulo pra trás, instintivamente, e depois me dei conta que Sôôcrates devia ser Sócrates. Me parecia que o sujeito queria dizer que se chamava Sócrates, o que achei muito irônico e até conveniente. Por causa disso relaxei um pouco, botei as coisas no chão e tentei entender o que aquele cara queria.

Mesmo assim continuava a entender bulhufas. Patavinas. E ele lá falando, e tentando arranjar um vidro sujo onde pudesse escrever alguma coisa, e me pegando o braço e falando mais alto, ficando meio sem ar e vermelho no processo, parecendo o tipo de cara que fica enfezado se ninguém o escuta. Parecia até que falava grego.

Me lembrei então que queria estudar mais um pouquinho de grego ainda aquele dia, e que tinha de dar comida pro gato e limpar a pequenina caixinha de areia higiênica do elegante senhor Gato, e já estava me desvencilhando dele e ele me olhando com um ar muito de perdido e desamparado, prestes a desabar no chão e clamar por misericóridia e eu achando aquilo tudo muito esquisito, quando de um átimo ele começa a murmurar, como se tivesse se dado conta de algo importante, sua face se ilumina e ele começa a gritar com todos os pulmões, para a felicidade dos meus vizinhos, "diaphteironta, diaphteironta, diaphteironta!"

Donde, donde um velho de rua aprendeu a ler grego clássico? Isto o que passou pela minha cabeça. Acontece que, como percebi três segundos mais tarde, ele não era um velho de rua. Bem, pelo menos não da minha rua.

sábado, 16 de abril de 2005

TPE

A Teoria das Personas Enológicas foi proposta inicialmente por um grupo latino-americano de pesquisas psicanalíticas, com ampla base de dados neurológicos e psicofarmacológicos. Ela propõe que o conjunto de fatores organolépticos, inclusos também os fatores ambientais (terroir, aclimatação, safra, acondicionamento, manuseio, prováveis fungos), em interação com um substrato neurológico específico (como o seu, leitor), resulta em um fenômeno psicológico denominado de "embriagez persona-motivada", cuja descrição é feita então em bases psicanalíticas, com especial ênfase na "clínica do real" lacaniana.


Os vinhos bons têm personalidade. Alguém já percebeu?

Para tornar mais clara a explanação, remeto a uma outra coisa engraçada, que me acontece com frequência. É a difusão de sentimentos, nada mais do que, ao estar com pessoas alegres, a probabilidade de seu humor melhorar é muito grande, mesmo sem nenhuma razão aparente.

(Tem gente que chama isso de vibe, imagina...)

Algumas vezes esta difusão assume um caráter tão proeminente, que chega a estranhar. Falando em termos mais... poéticos, sou "tomado" pelo que "os outros" estão sentindo, um tanto quanto não-intencionalmente, em várias gradações.

Muitas vezes, quando tomo vinhos bons, sinto que sou "tomado" por ele também. E o que eles me trazem costuma ser consistente, com base na minha pouca-a-média experiência de degustação, de acordo com o tipo de uva, lugar, blábláblá.

Most amusing thought, most amazing thing.

Ontem foi o Santa Helena, borgoña de 2003. Speedy & rushy; vontade de mover montanhas para ir atrás do que eu quero. Meia garrafa.

quinta-feira, 10 de março de 2005

mística

Procurando por Alexander Scriabin, vou parar em um site sobre pianistas famosos.

Conheço o tal de Satie.

(Já tinha o visto muitas vezes antes, mexendo nas prateleiras de cds das lojas.)

Escuto a primeira Gnossienne, lent.

Que coisa linda. Parece a minha música, desde séculos. Tenho a víviva impressão de que ela é minha.

Ainda mais que o título, Gnossiennes, remete (segundo o encarte do cdzinho) ao palácio de Knossos, em Creta. Fiz a minha pesquisa usual online e descobri que, na mesma época em que Satie compunha as tais, as ruínas de Knossos estavam sendo postas à luz.

Estou estudando, ultimamente, muita mitologia grega. Junto com ela sempre vem a história, ainda mais quando se trata de Junito Brandão, um ótimo autor. Estou fascinado por duas coisas:

- Uma reprodução fotográfica da pítia de Delfos, de acordo com as representações de dois milênios atrás, numa matéria da Scientific American. Esta fala sobre a redescoberta (a hipótese é bem antiga) de que fontes termais no subsolo délfico provocavam a emissão de gases utilizados no transe oracular. Descobriram que o templo de Apolo fica bem acima de duas falhas tectônicas, e que a câmara oculta onde a pítia sentava-se sobre um tripé recebia estes gases todos (tais como etileno).
A fotografia, preto e branco, me admirou de tal forma, que estou para colocá-la em uma moldura.

- Os Mistérios de Elêusis que, contrariamente a tudo neste mundo, ainda continuam místicos. Não se sabe, até hoje, no que se constituía os Mistérios, que duraram assombrosos dois mil anos. Elêusis era uma cidadezinha perto do mar, a 20 quilômetros de Atenas. Todos os anos ocorriam as Eleusínias; há, sim, descrições de várias cerimônias "públicas", dos preparativos reservados aos iniciados, das várias etapas de purificação, de pular no mar com um leitão no colo, este tipo de coisa. Mas era proibido, a qualquer iniciado, falar sobre os mistérios que ocorriam no telestérion, a câmara profunda. A pena para isso era, dependendo da época, a morte.

Mistério, em grego antigo, é mustéerion,ou, uma "cerimônia religiosa secreta", pois os iniciados eram chamados de mústees,ou, derivado do verbo múoo, "fechar-se, fechar (especialmente os olhos e a boca". O adjetivo "místico" também vem daí, mustikós,ée,ón; tudo relacionado aos mistérios.

O meu interesse por Elêusis nasceu, como já era de se esperar, na minha pesquisa sobre fungos. Há uma teoria (The Road to Eleusis; Wasson, R. Gordon; Hofmann, Albert; Ruck, Carl A.P.; 1978), refutada e defendida apaixonadamente, que o kúkeon, uma bebida mítica grega, tomada em jejum pelos iniciados, continha substâncias psicoativas muito semelhantes ao ácido lisérgico (o que só demonstraria que os gregos não eram bobos nem nada).

Independente disto, os mistérios de Elêusis "reviviam" a história do rapto de Koré (Perséfone) por Hades, e do resgate dela por Démeter, sua mãe. É um mito muito profundo, que vou me abster de contar aqui, do qual existe uma narrativa muito bonita no hino homérico a Démeter, cuja melhor tradução pro português que encontrei se encontra nesta dissertação de mestrado.

Aproveitem, quem quiser.

******

Redux é uma expressão latina que significa "retomado". Creio que vem de re- e duco, "conduzo"; reconduzo. A etimologia é minha. Se não existir, acabei de criar uma palavra!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

Motos e carros

Estou no terceiro dia de moto e já me sinto à vontade em cima da máquina quase-voadora.

É mais ou menos assim: todas as vezes em que fico uma carinha sem tocar na dita cuja, quando volto volto cheio de medos e temores e: "ai que eu já caí, ai que eu já freei quase em cima do palio branco no verão passado, ai que os argentinos não sabem dirigir, ai que eu estou sem óculos, (com óculos) ai que estou com óculos e vou perder metade do campo visual se a minha lente de policarbonato quebrar em mil pedacinhos microscópicos se eu cair quase freando no palio branco de um argentino veranista..."

E então fico todo tenso e chego em casa cheio de dores musculares.

Até o belo dia em que percebo que ajoelhei, tenho que rezar, e com fé. Meto a mão e torço gostoso o acelerador.

Sair de moto sempre é acompanhada de um sentimento de "hoje é um bom dia para morrer". Parece trágico? Mas não é. Não tem nada de triste também não; é uma realidade, uma realidade que clama pela sua atenção e presença de espírito.

Pois pilotar uma moto é uma coisa aparentada e distanciada, ao mesmo tempo, da experiência de dirigir um carro.

Os dois são veículos, levam de um lugar para o outro, dividem o mesmo espaço arterial, obedecem às mesmas regras. E pronto; as semelhanças terminam mais ou menos por aí.
A moto é pequena, não se sustenta em pé. Gasta menos, não é tão rápida, e a aerodinâmica deixa a desejar (mais pela contribuição do piloto que da máquina). A moto convida para que se mexa nela; suas partes simples e expostas suportam a ignorância de mãos novatas.

O carro é resistente e continente em si mesmo; pode levar muita gente e muita coisa, além de servir de santuário e motel, para muitos. Muitos passam por um carro sem saber do que se passa no seu interior; o carro é, assim, mais fácil de ser abstraído (de um motor de combustível fóssil em um chassi com quatro rodas para, simplesmente, "carro", ora pois).

Dirigir um carro é orientar-se em um espaço bidimensional desenvolvendo-se numa tela à sua frente, usando os braços e as pernas. Há uma separação entre o dentro e o fora; o carro comporta vida privada.

A moto envolve o corpo inteiro, brincando com a gravidade, envolvendo mais de três sentidos.

Enquanto os carros, bólidos compactos, afileiram-se um atrás do outro dentro de uma faixa de asfalto, as motos costuram e cortam entre os motoristas, faceiras. O que ganham nisto, porém, perdem logo em que se encontram em uma faixa livre; motos normais nunca conseguem andar muito rápido, e ficam sendo ultrapassadas pelos carros lá de trás...

As motos são constantes e flutuantes, como borboletas; os carros páram e aceleram a toda hora.

Sair de moto é quase sempre um ritual.

Quando se tem um carro, entra-se no carro de qualquer maneira, joga as coisas pro banco de trás, deixa pra acordar no meio do trânsito. As meninas e os meninos de cabelos compridos só se incomodam com o vento. Carro se põe e se tira de todo lugar a toda hora, e entra gente, sai gente, e fica coisa, e vai coisa... e batidinhas sempre acontecem, coisa da pressa do meio da tarde.

A moto não. Em primeiro lugar, ninguém sobe na moto sem capacete; quer dizer, pra alguém pegar uma carona contigo ou precisa ser já da casa, ou estar andando com um capacete debaixo do braço. Daí vem toda aquela dança linda de motoqueiros se aprumando para subir na moto: arruma a mochila, depois enrola a corrente no peito, para então colocar o capacete e, daí sim, óculos para quem usa.

Sobe na moto e vai. De preferência de calça e jaqueta, pois qualquer batidinha é um vôo e é bom pensar em evitar, pelo menos, perder três bifes no asfalto.

Enfim, quando se está em cima de uma moto, se está em cima de uma moto. E ponto.