sábado, 3 de março de 2007

Hora do lanche

São sete e pouco da noite. Me levanto do sofá onde me encontro, descansando de uma semana de estudos intensos estudando (é, paradoxal, mas é assim mesmo, D'na'Mari'a). Vou para cozinha com o pensamento de café fresco se antecipando ao momento presente; o café está praticamente alucinado, ali na frente: falta apenas o café real para que a minha fantasia vire realidade. Com o canto do olho, com um pedaço de banana-passa na boca, vejo um vulto cinzento se aproximando com um andar furtivo, os ombros levantados e a cabeça baixa: é o meu gato. Sei que esta não é o movimento de caçador dele: ele vem resoluto, embora devagar. Seus movimentos, se fossem humanos, me levariam a vê-los como certeza de algo. Quando ele caça, os movimentos são parecidos: o andar furtivo, a cabeça baixa, os ombros levantados. Mas algo é diferente. Talvez o olhar, não tão fixo. Os ombros, também, não tão tensos, embora semelhantes.

Ele entra assim, na cozinha, e tranquilamente passa por mim, não sem antes esfregar - de leve! - o seu rabo, e somente o rabo, por minha panturrilha, e se lança a arranhar uma das estantezinhas de madeira que temos.

Quer comer, sei de mim pra mim mesmo. Faz meses - talvez anos? - em que ele repete a mesma coisa.

Eu fico me perguntando "como é que este bicho funciona". Como é que, de uma forma ou outra, quando ele "quer comer", ele faz justamente este movimento? Por que não arranhar a cesta com a comida, ou pegar o próprio pacote de comida e servir-se ele mesmo? A pergunta, feita de uma forma senso comum, é "como é que ele pensa para fazer isto?"

Porém, eu tenho cá a minha hipótese - de que este era um comportamento supersticioso que foi reforçado mais que o acaso e virou resposta condicionada. Isto tudo é Skinner, o famoso Skinner que aprofundou as teorias de condicionamento do mais famoso Pavlov & seu Cão.

Comportamento supersticioso (daqui):

[Skinner] cortou completamente o elo causal entre o comportamento e a recompensa. Preparou o aparelho para recompensar a pomba de tempos em tempos, não importava o que o pássaro fizesse. Agora, o que os pássaros precisavam realmente fazer era só pousar e esperar a recompensa. Mas na realidade, não foi isso o que fizeram. Pelo contrário, em seis dentre oito casos, eles desenvolveram - exatamente como se estivessem aprendendo um hábito recompensado - o que Skinner chamou de comportamento supersticioso. Em que isso precisamente consistia, variava de pomba para pomba. Um dos pássaros girava como um pião, dando duas ou três voltas no sentido anti-horário, no intervalo entre as recompensas. Outro pássaro repetidamente lançava a cabeça na direção de um determinado canto no alto da caixa. Um terceiro exibia um comportamento de atirar-se para o alto, como se estivesse levantando uma cortina invisível com a cabeça. Dois deles desenvolveram independentemente o hábito rítmico do "balanço do pêndulo", oscilando a cabeça e o corpo de um lado para o outro. Eventualmente, este último hábito deve ter se assemelhado bastante à dança de namoro de algumas aves-do-paraíso. Skinner usou a palavra superstição porque os pássaros se comportavam como se achassem que o seu movimento habitual tivesse uma influência causal sobre o mecanismo de recompensa, quando na verdade isso não ocorria. Era o equivalente da dança da chuva para as pombas.

(o texto é bem interessante e merece ser lido todo... ainda mais sendo o Dawkins...)

Eu entro na cozinha, ele vem e arranha a estante, se esticando todo, e numa vez em três - digamos que ele faz isso umas seis vezes por dia - eu dou comida para ele, e todas as vezes ele come. Pra vocês verem, o reforço não é contínuo - não é sempre que ele acontece, e não é sempre no mesmo intervalo - tanto de tempo quanto de resposta reforçada.

Bem, tenho a impressão que ele secretamente ri-se de mim, pobre humano o comparando com simples pombos. De um certo ponto de vista, somos os dois mamíferos e talvez temos mais em comum em termos psicológicos do que ele com um pombo, ou eu com um pombo... Quem sabe arranhar a estante seja uma construção cognitiva?

Ah, se meu gato falasse... ou se eu, pelo menos, gateasse...

1 comentários:

Robson disse...

Para começar, agradeço a ajuda no texto do the sampes. Preciso arrumar a palavra ainda, mas o farei.

Sabia que alguns analistas do comportamento observaram que um pombo apresenta padrões diferentes na topografia da bicada quando esta é realizada para produzir comida ou água.

Quando a contingência é para beber água, a bicada se assemelha à posição do bico ao beber, e quando produz comida, assemelha-se ao bico quando o pombo come.

Muito interessante. Mostra como o estímulo que avisa que há comida disponível (SD) realmente adquire propriedades "eliciadoras" (talvez) como as que eliciam a comida. SD e Reforço quase iguais, será? Doido, né? O fato é que essa "associação" produz mudanças na topografia operante.

Os movimentos de conseguir comida no seu gato são semelhantes ao de caça. Tem uma ligação forte aí. Tente ver como ele se aproxima da comida em si. Depois, se puder, conte-me.

Abraço.