quinta-feira, 14 de junho de 2007

Planta-ovo

A planta-ovo é a beringela. Perguntava-me Will a respeito do nome, egg-plant; e eu, muito erudito, repassava a informação colhida naquela tarde. A beringela selvagem (imaginem uma beringela selvagem, que ameaça à sociedade ela pode ser!) tem em média 3 centímetros de tamanho. É pequena, mas mortal. Provavelmente ela deve ter a forma de um ovo; um ovo escuro, talvez, sed ovum. Ergo, foi chamada de planta-ovo (ou melanzane, ou aubergine, ou nasu, ou brinjal, ou beringela). Suas primas mais civilizadas, contudo, tornaram-se aquelas senhoras beringelas, gordas e polpudas.

A beringela tem um poder fantástico de absorver qualquer tipo de gordura que você coloque nela. Duas beringelas médias podem, com toda a facilidade - e debochando da sua cara, se permitires - sugar o conteúdo de uma latinha de um quarto de litro de azeite de oliva. Sem titubear, sem um ai. É a coisa que as beringelas mais querem na vida: gordura. Água, luz do sol, minerais: tudo isto é colateral na vida de uma beringela, somente um meio para um fim mais nobre - sugar azeite de oliva e ser assadas em fogo alto.

As pessoas têm diversas formas de se haver com as beringelas. Uma seita alimentar moderna que começa com "macro" e termina com "biótica" diz que elas, as tadinhas plantas-ovo, são tóxicas, juntamente com o tomate e a batata, com as quais dividem a mesma família botânica das solanáceas. Uma pena, pois a mistura das três - juntamente com um bocado de pimenta, que também é uma solanácea - e cominho dá um belo, nutritivo e delicioso prato. O cominho é opcional, obviamente.

A questão da toxicidade das solanáceas não é motivo de dúvida: o motivo para cortarmos fora os brotinhos verdes que costumam nascer nas batatas é, exatamente, pelo motivo que na planta batatal a única parte que não é tóxica o bastante é o bulbo que chamamos batata. Quando a batata começa a crescer, concentrações de alcalóides aumentam nos brotos. As solanáceas são as plantas mais famosas da Terra, pelo serviço prestado aos nossos ancestrais, através dos seus alcalóides ("beladona" lhe sugere algo?).

Outras pessoas as amam. Talvez o lema das beringelas seja, realmente, beringelas: ame ou deixe elas. Felizmente as pessoas mais amam que as deixam, o que já se evidencia pelo fato de que, para um ovo escuro crescer até ficar do tamanho de um filhotinho de porco, alguma coisa a mais que o velho algoritmo darwiniano precisa atuar. Na Índia, a beringela é considerada a "rainha dos vegetais". Não é surpreendente vindo de um país em que as pessoas só tem vegetais para comer, muitas vezes. Resta saber se ela é rainha por um quê a mais, ou se é rainha pela sua presença constante e pressurosa.

Se ela é rainha, porém, o seu tratamento não é real. Macera-se, soca-se, corta-se, amassa-se, assa-se, frita-se, salga-se, tempera-se a beringela. Não conheço monarquia em que se louva a majestade com tratamento tão brutal - talvez na Revolução Francesa.


O meu primeiro contato com a beringela deve ter sido, provavelmente, com a beringela à milanesa. Durante muito tempo se achou, neste país, que o único uso a esta coisa preta fosse passá-la em farinha de rosca e ovo e fritar grossas fatias, que perderiam água, sugariam óleo e ficariam crocantes por fora e cremosas por dentro. As famílias emigrantes do Oriente Médio guardavam os seus olorosos segredos de beringela dentro de suas casas. Cosa nostra. Estes segredos incluíam suaves cremes de beringela, carinhosamente batidos; beringelas estalantes e cricrilantes, cuja casca rompia-se desapaixonadamente, como um relâmpago, recheadas com carnes, arroz, vegetais, temperos - ou a própria ela-mesma, retirada, processada e recolocada por mãos de dedos grossos.

A beringela, assim como as mais gostosas e mais suaves coisas da vida, é daquelas que a simplicidade é o dom e a regra. Colocada num forno com azeite, sal e pimenta, é antepasto, pasto e pós-pasto, acompanhada de um bom pão. Chorei de alegria quando, estes dias, descobrimos por acidente a beringela perfeita: as tiras longitudinais, salpicadas por azeite e sal, colocadas em forno altíssimo. Um pré-tratamento para uma futura lazanha, que saiu melhor que o mais apurado cuidado. O óleo salpicado - imagine você borrifando azeite de oliva como água - que não encharcava a beringela, e ao mesmo tempo lhe dava amparo espiritual para enfrentar o forno, deixou o resto da sua polpa entregue a si mesma, liberando seus sucos e aromas que, sublimados pela temperatura altíssima, não tinham mais o que fazer a não ser na polpa se agarrar, só que desta vez transmutados em algo mais - um éter, a quintessência.

2 comentários:

Débora disse...

debater sobre a beringela... é bem a tua cara e a do will mesmo!
ah, e uma confissão: eu fingo que gosto de beringela para parecer cool, mas no fundo no fundo eu não gosto não...
bjo

Isa disse...

Ai, a Débora não sabe da nada mesmo! Logo a beringela, conhecida por suas mil e uma utilidades - e suas propriedades... ãhn... afrodisíacas. :D
Mas é incrível a capacidade que tens de tornar um texto sobre beringela agradável.
Bjinhos.