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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sabia ou não sabia?


tirado de cientistasocialnerd.blogspot.com

Estava eu lendo um dos livros mais surpreendentes que li nos últimos tempos - "Sócrates, o feiticeiro", de Nicolas Grimaldi, quando minha "sobrinha" de quatro anos de idade me pergunta o que leio, na pequena brochura que tenho nas mãos.

Eu digo que é uma história. Ele pergunta do que é a história. Eu digo que é uma história de um homem que ia todos os dias para o centro da cidade, e ficava perguntando a todas as pessoas que ele encontrava sobre várias coisas.

"Ele perguntava sobre o quê, Lucas?" Hum, nesta tenho que pensar um pouco. Como vou explicar que ele, Sócrates, ia interrogar sobre certas "virtudes" justamente aquelas pessoas que, de acordo com a opinião geral, as possuíam e delas demonstraram posse - a coragem em um general, a retórica com o melhor dos sofistas?

"Ele perguntava pras pessoas o que era a beleza. Você sabe, Maria?"

"O que é beleza?" (enrolando um pouco a língua)

"É".

"Não sei, Lucas".

Pausa para refletir se tento encetar um diálogo socrático com ela. Decido ser melhor não, e não pelo fato de ela ter quatro anos, mas sim por hesitar não conseguir prosseguir.

"E que outras coisas ele perguntava, Lucas?" ela continua, impávida.

"Sobre a verdade..."

"Ah", ela se remexe feliz na cadeira de balanço, "isso é fácil. Verdade é quando você não fala mentira. Você não sabia, Lucas?"

"Sabia, Maria."

"E ele sabia, Lucas?"

"Ele dizia que não sabia."

"Ele dizia que não sabia mas sabia, Lucas?"

"Não, ele dizia que não sabia mesmo, Maria."

"E ele ia perguntar pras pessoas pra saber, Lucas?"

"Talvez."

"E as pessoas sabiam e diziam pra ele, né Lucas?"

"Ele dizia que ninguém sabia."

"Mas..." pausa, olhando para o infinito, "ele sabia algumas vezes e não sabia outras, né Lucas?"

"Ele dizia que não sabia, Maria."

Trocamos de assunto.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Sócrates redux

"Não é de mal gosto lembrar-nos que dentre em breve futuro próximo estaremos a discutir certamente com fervor a novidade-então-presente que agora tomamos como certa e definida."

Ufa! Como é difícil traduzir as coisas certinhas assim do nada, grego clássico para português pós-moderno. Essa frase aí é do Sócrates, mas não adianta procurar nos anais quaisquer que quereis, pois lá não estarão, tenho certeza. Essa coisa aí ele me falou, e pra deixar tudo claro e certo a conclusão é minha, embora ele tenha resumido em uma frase, como é do costume dele agora, embora ele ainda passe por aquela balbúrdia toda de ironia, de maiêutica, essas taizinhas.

O que na realidade eu queria dizer que, em termos de idéias, elas têm uma história, e esta história, muitas vezes incompleta ou mal-contada, reifica a idéia; não é de se estranhar que muitas das vezes, quando elas mudam demais, as idéias renascem, por assim dizer. Deixam de "ser elas mesmas" e passam a "ser outras coisas".

O problema é que o Sócrates é meio surdo. Sério mesmo: achei que devia ser cera na orelha (depois que vi o estado do coitado quando nos conhecemos não duvido que ele tenha cera até no cu), mas é velhice mesmo. Velhice relativa, digamos, a mesma velhice que ele tinha quando bebeu a tal taça e foi pro Hades...

aliás, tenho que encadear as coisas pra falar de tudo certinho, senão começo a ir de uma à outra e acabo falando de nada.

Sócrates é meio surdo, feio, mas não tanto assim quanto diziam, e é esquecido das coisas; agora sou eu que tenho de retornar às definições em jogo, mesmo que acabe indo contra o meu argumento, eu que sou um cara idôneo e honesto. Ele me diz que é assim já faz dois mil quatrocentos anos (eu que tive de lembrá-lo de quanto tempo ele tinha morrido). Para o meu grande horror inicial, infinita surpresa medial e astronômico divertimento atual ele lê muito devagar e lê mal, por causa dos olhos (quantos sóis na baía de Falera! quantos!), e por que foi alfabetizado nos padrões atenienses da sua época. E no Hades não tem nada pra escrever, embora ele tenha me dito que os Iluministas tinham planos de terminar a Enciclopédia antes de se mudarem para outro paraíso, mais conveniente às suas necessidades post mortem.

O interessante, apesar de tudo isso, é que na conversa ele é incomparável. Descobri, depois de um pouco de tempo, que ele aprendeu a falar de outras formas, em outros idiomas, muitos dialetos europeus obscuros, certo. Isso, em primeiro lugar, explica o conjunto incongruente de sons que ele chama de "meu grego", os quais eu nunca fui capaz de entender. Depois de me contar das conversas infindas com a gentarada grega que mal morria zupt! se mandava pra lá, deu pra compreender a razão: imagine você ter conversado durante centenas de anos com gregos de todas as formas e cores, da Jônia, Macedônia, falando o koiné de todo o Mediterrâneo, o helenístico, imagina só! além de todos os outros esquisitos barbudos de outras partes do mundo.

Nem sempre barbudos, segundo ele me conta. Alguns tinham rastas, e outros eram carecas.

sexta-feira, 31 de março de 2006

Visita

A coisa mais incrível aconteceu, mas estou receoso de contar aqui, nunca se sabe, a internet, dizem, todos ficam sabendo de cada vírgula mal colocada. Na verdade não ficam, pois alguém usa vírgulas na net? Mas enfim... conto.

Cheguei aqui em casa esta segunda feira, cansado e ferido de mais um dia acadêmico maçante e desconstrutivo, de idéias toscas e flácidas como... enfim, o conceito de tosco e flácido que você, leitor atento, tiver em mente - alguns são desaconselhados para menores - quando, ao chegar no portão do prédio, vejo um cara velho e barbudo sentado na escada.

Ele tinha a pele bem bronzeada, curtida, os olhos cinzas e uma basta cabeleira que, embora branca, ainda conservava traços de um antigo castanho queimado. E uma barba um tanto mal cuidada, nada que uma gilete de três lâminas e quatro crianças taiwanesas não resolvam. Ele me vê chegando e vem falar comigo. Achei engraçado ele estar somente com uma camiseta, ainda mais aquela da Embratel que tinha a Ana Paula Arósio, na época que ela considerada a beleza encarnada e todo mundo gostava dela, a pobre-menina-que-namorado-suicidou-se-defronte; mas relevei a camiseta, depois de ver que ele não tinha nada por baixo, deixando a semi-mostra sua vergonha, que na penumbra não era nada saradinha.

Balbuciou algumas coisas, balbuciou modo de dizer, pois falou alto - eu que entendi coisa nenhuma e achei que a caninha Camarão tinha tido mais um freguês esta tarde, e já entrava em prédio meu com aquela carinha burguesa de "por-favor-saia-da-minha-frente", nojinho, quando ele me pega pelo braço e começa a falar mais claro e mais devagar, fazendo gestos amplos com o braço, parecendo que queria o meu liquidificador emprestado, sei lá.

Mas tinha algumas palavras que me eram familiares. Será? Ele começou a apontar para si mesmo, dizendo "Sôôcrates, Sôôcrates, Sôôcrates", parecendo que ia vomitar. Deu um pulo pra trás, instintivamente, e depois me dei conta que Sôôcrates devia ser Sócrates. Me parecia que o sujeito queria dizer que se chamava Sócrates, o que achei muito irônico e até conveniente. Por causa disso relaxei um pouco, botei as coisas no chão e tentei entender o que aquele cara queria.

Mesmo assim continuava a entender bulhufas. Patavinas. E ele lá falando, e tentando arranjar um vidro sujo onde pudesse escrever alguma coisa, e me pegando o braço e falando mais alto, ficando meio sem ar e vermelho no processo, parecendo o tipo de cara que fica enfezado se ninguém o escuta. Parecia até que falava grego.

Me lembrei então que queria estudar mais um pouquinho de grego ainda aquele dia, e que tinha de dar comida pro gato e limpar a pequenina caixinha de areia higiênica do elegante senhor Gato, e já estava me desvencilhando dele e ele me olhando com um ar muito de perdido e desamparado, prestes a desabar no chão e clamar por misericóridia e eu achando aquilo tudo muito esquisito, quando de um átimo ele começa a murmurar, como se tivesse se dado conta de algo importante, sua face se ilumina e ele começa a gritar com todos os pulmões, para a felicidade dos meus vizinhos, "diaphteironta, diaphteironta, diaphteironta!"

Donde, donde um velho de rua aprendeu a ler grego clássico? Isto o que passou pela minha cabeça. Acontece que, como percebi três segundos mais tarde, ele não era um velho de rua. Bem, pelo menos não da minha rua.