sábado, 28 de abril de 2007

Os maravilhosos conceitos lacanianos - Significante

O que são os maravilhosos conceitos lacanianos? O que eles têm de maravilhoso?

O problema com os conceitos é que sempre esperamos aquele conceito... aquela palavra, aquela idéia, que fará a diferença - para um discurso, para uma instituição, para uma pessoa. E, na verdade, como uma pessoa - um sujeito - é efeito de discurso, não muda muito se se trata da Igreja, do Estado ou da dona Maria.

Temos esperança com os conceitos... esperamos que um significante recubra a falta. Esperamos que um significante nos represente, que podemos chegar e dizer "depois de tanto tempo, isto aqui sou eu! isto me representa... isto é o que eu sou." E aqui eu introduzi um dos maravilhosos conceitos lacanianos, o de significante.

O maravilhoso dos conceitos lacanianos é que, a primeira instância, eles podem nos dar a esperança de cubrir algo - e eles maravilhosamente podem servir para fugir desta esperança. Não por sua "natureza intrínseca fugitiva da esperança", mas por estarem no campo do discurso psicanalítico.

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(Longa preleção sobre o conceito de significante; poderia eu me fazer mais claro? Fica a pergunta para todos. Nada de importante: passe para a próxima barra, se te apraz. Se te apraz, não me leia: faça o favor, contudo, de me avisar, com antecedência, que não me lerás.)

Significante é um conceito retirado da linguística, a linguística que nasceu no começo do século passado com Saussure. Saussure nos diz que a unidade linguística é o signo linguístico, e o signo linguístico é composto por duas partes: o significante (S) e o significado (s). A palavra "árvore", por exemplo, é um signo por ter um significado - o conceito - e um significante - a "imagem acústica" árvore. Saussure rompe com tradições que nos fazem pensar a unidade linguística como a relação de um termo a uma coisa: "o signo linguístico une, não uma coisa a um nome, mas um conceito e uma imagem acústica. Esta última não é o som material, coisa puramente física, mas a marca física deste som, a representação que nos é dada por nossos sentidos; ela é sensorial, e se nos ocorre chamá-la 'material', é apenas neste sentido e por oposição ao outro termo da associação, o conceito, geralmente mais abstrato" (Curso de linguística geral, Saussure).

s/S

O importante de ver aqui, para os propósitos do meu texto, é que o significante e o significado, para Saussure, não estão em uma relação imutável de colamento: há uma autonomia do significante para com o significado, e esta autonomia é que permite as substituições presentes na metáfora e na metonímia.

"Uma árvore não é somente uma árvore: uma árvore pode ser uma árvore". Se tivéssemos apenas uma fixidez entre significante e significado, a frase acima não teria sentido nenhum. Ela, contudo, pode ter um sentido.

Lacan introduz, em seu ensino, material da linguística, da chamada linguística estrutural - esta de Saussure. Na leitura de Freud, Lacan recolhe a idéia de significante e significado no "funcionamento mental".

O que difere - radicalmente - o uso dos dois conceitos em Lacan é que este nos diz da primazia do significante sobre o significado - S/s. O que, para Saussure, são duas cadeias mais ou menos correndo juntas - a cadeia dos significantes e a dos significados - trata-se, para Lacan, da primazia do significante, e da cadeia significante. O significado, aqui, passa a ser produto do deslizamento dos significantes.

Quando falamos, na nossa fala, temos uma série de significantes dispostos temporalmente. "Um rato roeu a roupa do rei de Roma" é um exemplo, todos eles significantes. O significado total da minha enunciação não é exatamente a soma dos significados de cada termo: a significação é dada somente no final, na minha pausa. Um. Parei somente com o um. Diz alguma coisa? Uma pessoa contando, talvez. Um rato. Factual, um rato, rato. Um rato roeu. O quê? A roupa. Um rato roeu a roupa. Ponto. Cada uma destas frases tem um significado diferente, não exatamente dado pelo simples somatório dos significados - mas sim pela disposição temporal dos significantes.

Lacan nos diz que a significação - o sentido - não é uma dimensão paralela e conexa com os significantes, mas é efeito de significantes. Quando se diz "linguística estrutural", se quer dizer que a linguagem é uma estrutura. Há de se saber mais sobre o conceito, sobre o movimento do estruturalismo - de forte impacto intelectual. Vide a obra de Levy-Strauss. Mas, basicamente, uma estrutura - como a da linguagem - é determinada pelos seus elementos em relação - estrutural - uns com os outros, não dependentes de uma organização externa.

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O grande "axioma" de Lacan - que muitos dizem ser o que ele desenvolveu durante os 30 anos do seu ensino - é a afirmação poderosa de que

O INCONSCIENTE É ESTRUTURADO COMO UMA LINGUAGEM

Prestemos atenção: o inconsciente (freudiano, psicanalítico, fruto da relação analítica) é estruturado como uma linguagem (a própria linguagem sendo uma estrutura). Como uma: o inconsciente não é uma linguagem, mas os seus mecanismos são como os mecanismos de uma linguagem.

O inconsciente é este constante e atemporal deslizar de significantes; o significado é efeito deste deslizar, e está mais do lado do consciente, do eu.

Lembremos que o significado é o sentido: para Lacan, o sentido é efeito do deslizamento "automático" de significantes "no" inconsciente.

É isto que a experiência da psicanálise vem nos mostrar. Isto chega a ser obsceno.

Como fica a questão colocada no começo do meu post, quando aceitamos pensar - ao menos por um momento - no significante para Lacan?

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Outros maravilhos conceitos lacanianos: objeto a Outro gozo sujeito desejo

5 comentários:

Flavio Mendes disse...

Olá, estava a procurar algo sobre significantes e significados para Lacan e encontrei seu blog. Gostei de ter encontrado. Não sei se faz outras discussões, mas isso muito me interessa.

Ando pensando a questão dos significantes, a metáfora e a metonímia e onde aí aparece o sujeito e o objeto a.

Outra coisa. Sabe algo sobre clínica, política e psicanálise? Isso é possível pensar? (algo de psicanálise em intensão, psicanálise em extensão talvez?).

Faço psicologia na UNIVIX, em Vitória-ES. Me interesso pelo campo psicanalítico, estudando psicanálise em estágio e fazendo parte da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.

Abraço!

Lucas disse...

Caro Flavio,

Fico muito contente por ser de valia.

Este texto eu escrevi faz dois anos. Relendo-o agora eu creio que o escreveria de forma diferente, mas esta escrito e pronto.

Objeto a é o conceito de Proteu de Lacan, que é o que mais chama a atenção, e sobre o qual menos se sabe, a não ser a partir de uma formalização que reduz o objeto a a, praticamente, nada – o que ele não deixa de ser. Neste ponto precisamos voltar para o material da psicanálise – a fala, e não somente fala como discurso, mas a fala de um sujeito, os efeitos de inconsciente.

Eu não posso imaginar o que, exatamente, você quer dizer com “clinica, política e psicanálise”. Posso dizer que das minhas leituras não foram poucos os que vagaram por uma discussão que coloca a política no meio. Lembro-me exatamente de dois: um livro do Joel Birman, que infelizmente não me lembro do titulo agora, lembrando eu digo, e outro da Maria Rita Kehl, “Sobre ética e psicanálise”, que levanta algumas questões tangentes – e no mais é excelente leitura, e brasileira. Os dois. Talvez ler o “Mal-estar na cultura” do Freud não seja uma ma idéia.

Pequeno currículo: fiz estagio obrigatório em psicanálise durante 1 ano e meio, aqui na UFSC (onde me formo em psicologia este semestre), e o curso de formação da EBP aqui em Florianópolis. E, de curiosidade, nasci no ES, em Cachoeiro.

Um grande abraço!

Anônimo disse...

Gostei muito do seu blog.
Estava com duvidas sobre as teorias de Lacan, o que ele queria dizer... mas a sua maneira de dizer é otima, e muito clara.
Parabens, me ajudou demais!!!

Anônimo disse...

Quem sabe este livro do joel Birman não seje o Mal estar na atualidade...abraços....

Maurice

Luan Batista disse...

Esclarecedor.