sábado, 4 de julho de 2009

E não é que existe?

Há épocas em que uso aqueles dilatores nasais para dormir de noite. Tenho uma longa história de respirador bucal; durante o dia eu respiro pelo nariz normalmente, tendendo a voltar a respirar pela boca, dependendo da posição. De noite, porém, não tem jeito: eu respiro pela boca.

Dilatadores nasais não são, porém, baratos. Não são exatamente caros, custando aproximadamente uns R$ 1,50 cada um; a tendência de desconsiderar, contudo, um pedacinho de adesivo com plástico que parece não fazer muita coisa é maior do que os benefícios - confirmados desde a primeira noite de sono - do mesmo. Imagino uma bola, como a bola dos adesivos de entrada na Pinacoteca, formada pelos meus dilatadores nasais, e não desejo que esta seja a minha única contribuição ao planeta.

A minha mentalidade de universitário (almoço a R$ 1,50, por exemplo, do qual comi apenas duas vezes em oito anos) imagina uma forma de poder reaproveitar os dilatadores nasais. Pensa em várias coisas: em argolinhas de metal, ou plástico; em aramezinhos de garrafa de espumante, delicadamente torneados, para adaptar-se à cavidade nasal e proporcionar um sono delicioso. Penso se os povos antigos não tiveram esta idéia antes: uma armação de bambu para os japoneses? Uma breve olhada na internet dissipa todas as fantasias de criatividade e nos mostra que praticamente tudo que se possa fazer já existe.

Última chance, então: bem que eu poderia reaproveitar os dilatadores, usando um pouco de cola, virando do outro lado para não "cansar" o plastiquinho; não sei. Parece que não vai dar certo, além de ser uma coisa meio porca. Melhor pagar de uma vez e economizar naquelas aquisições baratinhas da livraria local.

Do desejo

Poste em construção permanente, a ser utilizado para milhares de coisas ainda incertas e não-sabidas; quem quiser colaborar com algo, é só entrar em contato com um grato autor.

(Olá! Eu sou um interlúdio que está, para o seu prazer e conforto, no lugar de um longo e entendiante monólogo sobre a etimologia da palavra desejo & cognatos.

O autor esboça, com muitas palavras, que desejo/deseo/désir/desire vem do latim desiderare, que embora de etimologia incerta talvez venha de "esperando vir das estrelas" (de sidero). A palavra alemã usada para desejo, wunsch, também tem a conotação de "voto" - fazemos votos/ we wish you... - e, como wish, provavelmente vem da raiz do PIE (Proto Indo-Europeu) *wen-/*wun-/*won, raiz esta com significado de "ir atrás, querer, desejar, estar satisfeito", e que é a mesma raiz de vênus, venéreo, venerar, venerável (arrá!): sânscrito vanas- "desejo," vanati "deseja, ama, ganha". O asterisco antes da raiz significa que ela não é comprovada, que não há registro dela - justamente pelo PIE ser uma tentativa de reconstrução...

Logo após, o autor copia descaradamente do dicionário etimólogico que está consultando, para escrever que uma outra família de quereres e desejares também vem de uma raiz do PIE, *wel-.*wol-, "ser agradável, desejável"; inglês will, alemão wollen, francês vouloir, grego elpis, latim volo, velle (voluntas, velleitas, voluptas), algumas coisinhas do sânscrito como vrnoti, "escolhe, prefere", e derivados.

Outra raiz do PIE, *gher-, "desejar, querer", vai viajar muito e virar o khrestai - "faltar, querer" - grego, que passa pelo kharisma, e que vira hortatório, além de peripatetices na Índia.

Outras palavrinhas gregas para desejo e correlatos: thelô e thelema, epithumia - "apetite, desejo, vontade" -, orexis - "fome, desejo, vontade, yearning (adoro esta palavra)" -, boulêsis - "desejo, vontade, deliberação", e a mais interessante, thumos, que serviu para batizar um órgão corporal útil somente para a pirralhada e que dizia-se ser a sede da alma, da vontade, e consequentemente ficou com o significado de "paixão".)

Este é outro dicionário, em uma versão papélica, que provoca muitos momentos de diversão e angústia. Vamos sinonimizar!

desejo: 1. alvitre: arbítrio, cabeça, capricho, determinação, escolha, fantasia, gosto, juízo, (bel-) prazer, predileção, preferência, querer, vontade. 2. ambição: apego, avidez, cobiça, cupidez, febre, fome, gana, sede. 3. anseio: anelo, pretensão, propósito. 4. apetência: ânsia, apetite, fome, vontade. 5. arroubo: arrebatamento, disposição, elã, entusiasmo, exaltação, fervor, ímpeto, impulso, interesse, rasgo, rompante. 6. aspiração: anseio, impulso, querer, vontade. 7. cisma: capricho, devaneio, extravagância, inspiração, obstinação, sonho, teimosia, veleidade, veneta. 8. lubricidade: apetite (sexual), atração, excitação, lascívia, tentação, volúpia.

À procura do desejo: alguns trechinhos...

...e o que mais vier a ser adicionado no futuro.

Analogistéon de hōs tôn epithumiôn hai mén eisi phusikaí, hai de kenaí, kai tôn phusikôn hai men anankaîai, hai de phusikai mónon; tôn de anankaíōn hai men pros eudaimonían eisin anankaîai, hai de pros tēn toû sṓmatos aokhlēsían, hai de pros auto to zên.

Da mesma forma é preciso considerar que, entre os desejos, uns são naturais, os outros vãos/vazios (kenos), e que entre os naturais uns são necessários, e os outros somente naturais. Entre os [desejos] necessários uns são para a felicidade (eudaimonia), outros para a ausência de sofrimento do corpo, e outros para a própria vida.

Epicuro, Carta a Meneceu, 128.

Ver Platão (Rep. 8.558d) para distinção entre desejos (epithumias) necessários (anankaious, também “de acordo com a natureza - physis, 8.558e) e não-necessários.

“die Einheit des Selbsbewusstsein mit sich selbst, zu seinem Wesen; diese muss ihm wesentlich werden; das heisst, es ist Begierde überhaupt”

"... quer dizer, consciência de si é o estado de desejo (Begierde), em geral."

Hegel, Fenomenologia do Espírito, parte IV.

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.

Minha transliteração do grego antigo

(não uma postagem em si; serve somente como referência para notas futuras)

Macron para indicar as vogais longas; sem micron.

O espírito fraco (psilé) não é indicado; somente o espírito forte (daseîa), que toma a forma de um “h” antes de uma vogal.

O acento grave (bareîa) não é indicado; somente o acento agudo (oxeîa) é indicado.

Vogais acentuadas com circunflexo indicam perispōménē (que é a subida e a queda do tom na mesma vogal, que naturalmente é sempre longa).

O iota subscrito (hypogegramménē) toma a forma de um “i” escrito depois da vogal, que naturalmente é sempre longa.

Algumas letras e conjunções: χ = kh; υ = u (ou y); ζ = z (pronúncia entre zd e dz); ξ = x (pronúncia ks), γξ = nx; γγ = ng, γκ = nk.

sábado, 20 de junho de 2009


(Möbius Strip II, 1963, MC Escher)

P: Por que a galinha atravessou a faixa de Möbius?
R: Para chegar ao mesmo lado.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Lições de um sesshin


Há um boi:
ele é branco,
pasta acima,
dorme embaixo.

Ou é o contrário?

[Para aqueles que se perguntam WTF é um sesshin, aqui vai uma breve descrição. As belas fotos de Michel Seikan aqui.]

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Burnout? Esqueça: o maior problema do ambiente corporativo é o boreout

[título da postagem inspirado – ou plagiado, as you like it – em/de um artigo do Times, assim como o testezinho abaixo também é de lá]

Burnout, aquela crise de estresse prolongado - que muitas vezes não parece estresse - é um luxo de gente que realmente se estalfa no trabalho e na vida. O resto se vira com o boreout, e você tem a típica vida de escritório.

O boreout é revolucionário, pois ele desafia a concepção atual de "horas de trabalho" pagas. Fulano tem um contrato de 8 horas de trabalho por dia - ou melhor, de comparecimento ao ambiente de trabalho. Se ele vai trabalhar ou não acabou virando tarefa do gerente - que nesse momento pode estar conversando com as colaboradoras sobre a relação homens e mulheres e príncipes encantados. Afinal, é tarde de sexta-feira.

Gente que enrola para fazer qualquer atividade, gente que finge fazer hora extra, ou almoçar no escritório, para parecer estar mais tempo no trabalho, e gente que fica falando no telefone com voz séria para fazer parecer que é um assunto profissional - em vez de ficar olhando para a parede, olha para o digg.com, ou fica horas planejando aquela festa do departamento.

Principalmente no trabalho de escritório é muito, mas muito mais fácil boreoutizar: as novas tecnologias facilitam horrendamente. Existem até páginas de relacionamento com uma versão discreta, pronta para ser usada na fuça de seus coworkers, e softwares que proporcionam uma saída rápida de qualquer programa em andamento, ou que proporcionam fachadas na tela do computador.

Eu, pessoalmente, detesto a história de "tantas horas". Acho uma perda de tempo. Gostaria de poder trabalhar por trabalho concluído: você tem tantas tarefas, faça a sua agenda e entregue o necessário no tempo previsto.

Como sei, contudo, que não arranjamos forma melhor de organizar o trabalho atual - principalmente o trabalho em equipe -, posso até aturar. Se não tenho o que fazer, contudo, fico nervoso, pensando no que poderia estar fazendo por aí - lendo Allende, comendo, jogando Armada 2, fazendo zazen, correndo - e a falta do que fazer é mais angustiante do que muito do que fazer.

Boreout, contudo, não é somente um funcionário matar trabalho: boreout é uma analogia de uma "síndrome" que pode ocorrer, nesta situação. A pessoa sente-se cansada e deprimida, dependendo do caso.

Eis um pequeno questionário para verificar a sua boreoutidade.
1 você faz tarefas pessoas no trabalho?
2 Você se sente desmotivado ou entediado?
3 Você finge, algumas vezes, estar ocupado?
4 Você se sente cansado e apático depois de um dia de trabalho, mesmo não tendo se estressado no escritório?
5 Você está infeliz com o seu trabalho?
6 Você acha o seu trabalho sem sentido?
7 Você poderia terminar as suas tarefas mais rápido do que você faz atualmente?
8 Você está com medo de trocar de emprego por que você pode ter um corte de salário?
9 Você manda e-mails pessoais para seus colegas durante o horário de trabalho?
10 Você tem pouco, ou nenhum, interesse em seu trabalho?
(imagine quanto da bloguice do mundo é escrita em um período de boreout...)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Um Ano Vivendo Biblicamente

A. J. Jacobs, depois de ler toda a Enciclopédia Britânica, outsourcear o seu trabalho para a Índia e outros experimentos, decidiu levar os preceitos bíblicos ao pé da letra durante um ano.

O resultado é um livro, uma barba, uma serie de dicas interessantes e uma TED talk. Dêem uma olhada tanto no site quanto na fala deste jornalista de sorriso muito simpático.

Com uma só palavra

Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em conseqüência da instabilidade da posição em que esteja. Quem se examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora um aspecto, ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero, sábio, ignorante, liberal, avarento, pródigo, assim me vejo de acordo com cada mudança que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. Não posso aplicar a mim mesmo um juízo completo, simples, sólido, sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra.

Non seulement le vent des accidens me remue selon son inclination, mais en outre je me remue et trouble moy mesme par l'instabilité de ma posture; et qui y regarde primement, ne se trouve guere deux fois en mesme estat. Je donne à mon ame tantost un visage, tantost un autre, selon le costé où je la couche. Si je parle diversement de moy, c'est que je me regarde diversement. Toutes les contrarietez s'y trouvent selon quelque tour et en quelque façon. Honteux, insolent; chaste, luxurieux; bavard, taciturne; laborieux, delicat; ingenieux, hebeté; chagrin, debonaire; menteur, veritable; sçavant, ignorant, et liberal, et avare, et prodigue, tout cela, je le vois en moy aucunement, selon que je me vire; et quiconque s'estudie bien attentifvement trouve en soy, voire et en son jugement mesme, cette volubilité et discordance. Je n'ay rien à dire de moy, entierement, simplement, et solidement, sans confusion et sans meslange, ny en un mot.

Michel de Montaigne, "De l'Inconstance de nos Actions", Essais.
A tradução é do excelente livro de Eduardo Giannetti, Auto-engano, fonte de borbulhantes citações diversas.

domingo, 7 de junho de 2009

"Nadador"

(Michael Phelps no começo de Beijing 2008 @ Guardian.co.uk)

O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, passáro da água!

É a tua fina, ágil cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!

É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda

E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento...

Cecília Meireles
Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século. Objetiva: Rio de Janeiro, 2001.

sábado, 6 de junho de 2009

Tédio


Nada é mais insuportável ao homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem atividades, sem distrações, sem aplicações. Ele então sente seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Sem se controlar ele deixa sair do fundo da sua alma o tédio, o negrume, a tristeza, o desapontamento, o rancor, o desespero.

Rien n'est si insupportable à l'homme que d'être dans un plein repos, sans passions, sans affaire, sans divertissement, sans application. Il sent alors son néant, son abandon, son insuffisance, sa dépendance, son impuissance, son vide. Incontinent il sortira du fond de son âme l'ennui, la noirceur, la tristesse, le chagrin, le dépit, le désespoir.


Quando fiquei, uma vez, a considerar as diversas agitações dos homens, e os perigos e sofrimentos a que se expõem, na corte, na guerra, onde nascem tantas brigas, paixões, empresas difíceis e frequentemente ruins, etc., eu descobri que todo o mal dos homens vem de uma só coisa, que é a de não saber ficar em repouso em um quarto.

Quand je m’y suis mis quelquefois, à considérer les diverses agitations des hommes et les périls et les peines où ils s’exposent, dans la cour, dans la guerre, d’où naissent tant de querelles, de passions, d’entreprises hardies et souvent mauvaises, etc., j’ai découvert que tout le malheur des hommes vient d’une seule chose, qui est de ne savoir pas demeurer en repos dans une chambre.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Mãos frias, coração quente?


Diz o ditado popular, e com um pouco de razão: mãos (e pés) frios são, muitas vezes, uma forma de concentrar o calor na parte mais importante do corpo – vísceras e cérebro.

Durante um tempo cheguei a pensar que era um descendente dos reptilianos de Orion, afinal estou sempre com mãos e pés gelados; entrei, porém, em contato com eles através do meu rádio portátil de ondas longas – através um pequeno paradoxo temporal que envolve a criação do universo, que deixo para outra hora -, para matar a charada, e desconsiderei a hipótese depois de descobrir que geléia de framboesa é altamente tóxica para eles.

Quer dizer, não estou sempre com pés e mãos gelados; isso acontece somente no inverno, em climas frios, e naquele vento terrível que sopra do sul. Qualquer arzinho frio que sopra, e eu fico todo encarangado. As mãos ficam frias e lívidas, com alguns pontinhos arroxeados. Os pés parecem ser perfurados com facas. E posso até estar suando – pouco – debaixo das roupas: as extremidades continuam frias.

A minha tendência hipocondríaca é de começar a googlear a descobrir que existe uma doença, chamada doença de Raynaud, em que justamente isto acontece: a circulação de sangue para as extremidades diminui drasticamente, a partir de fatores como frio ou estresse (ou ansiedade), deixando os dedos brancos, depois azulados (por falta de oxigênio) e depois avermelhados novamente, quando o sangue volta. Coisas do sistema nervoso autônomo.

Olhando as fotos googlicas, porém, vejo que minhas mãos e pés não se parecem muito com aquilo, então me dou o benefício da duvida e fico com fenômenos de Raynaud eventuais – ou simplesmente uma mão fria com mais freqüência. O coração continua quente, e é isto que importa.

Ou não: um experimento que virou hype, recentemente, nos mostra que tendemos a ser mais generosos quando as nossas mãos estão quentes, e tendemos a ser mais generosos com outrem quando as mãos de fulano estão mais quentes. Todo mundo sente uma espécie de aversão, mesmo que leve, por um aperto de mão frio – e se for úmido e mole, temos a pior das impressões antes mesmo de conhecer a pessoa. Eu, pessoalmente, sempre fico receoso de apertar a mão de uma pessoa quando ela está muito fria – o que, como disse anteriormente, é bem freqüente nas temperaturas baixas. Foi mais de uma vez em que botei as mãos nos bolsos, ou segurei uma caneca de chá ou café, ou mesmo esfreguei rapidamente as mãos nas calças, ao saber que teria de apertar a mão de alguém. Afinal, a primeira impressão é a que fica.

Tem dias que desejaria cumprimentar as pessoas somente com um aceno, mesmo gostando de tocar um pouco nelas.

Segurar uma xícara de chá ou café é, no mínimo, uma solução irônica para resolver o problema das mãos frias. Por quê?

Abaixo vão umas diquinhas que coligi nos últimos tempos, e outras tantas que tento utilizar no cotidiano.

A primeira (e que meu Jejujinho me ajude) é evitar a cafeína – presente obviamente no café e em certos chás. A cafeína pode ser um bom broncodilatador, mas também é um bom vasoconstritor, como muitos estimulantes. Do mesmo modo, talvez tomar Viagra esquente as mãos; alguém descubra e me envie.

O mesmo vale para o cigarro: evite pelas mesmas razoes do café.

O velho chá de gengibre – e o gengibre mesmo, em suas várias formas – dá um calorão muito bom. Gingko biloba, aquele que aumenta o fluxo de sangue no cérebro e ajuda na memória, também pode ajudar. Cuidado com as interações com outros medicamentos.

Alimentação com boas quantidades de ômega 3 e fazer exercícios é bom, mas o engraçado é que exercício demais tende a fazer com que o sangue vá para os órgãos vitais, fora do tempo do exercício, do que exercício moderado.

Siga o conselho da mamãe e coma bem e com freqüência.

E o bom e velho vestuário. Como diz a Sonia, bote uma faixa de um tecido quentinho nos quadris que espanta qualquer friagem. Como o seu problema, amigo, não é no centro, mas nas pontas, apele para as luvas e meias. Se você é como eu e sente que a luva somente embala uma mão já fria, saiba que em algum lugar do mundo existem luvas hi-tech (fibras de prata e o quatrilho) que prometem reverter a entropia e trazer o calor de volta – mesmo que isso também envolva um certo paradoxo temporal e quebras das leis da física.

Mas você quer, na verdade, um consolo? Experimentos mostram que os ratinhos frios vivem mais que os ratinhos quentes. Isto, porém, fica para a próxima.

domingo, 24 de maio de 2009

As seen on TV


- MacGyver!

- Sim, senhora.

- O menino está com sede, e não temos laranjas. Temos somente um elástico, três gatinhos, um chiclete que o menino está a mascar, uma caixa de limões, um pote de fermento e alguns clipes de papel.

BUM!

Audaciosamente indo onde nenhuma ameixeira...

Começo meu dia com aproximadamente 100 miligramas de cafeína. Todos os dias. Esta é uma rotina que estabeleci desde os meus 14, 15 anos. Quando paro de tomar café tenho os sintomas de abstinência de cafeína. Tento sempre não exagerar muito, e ao mesmo tempo não parar de tomar café.

Já tive, muitos anos atrás, uma suave intoxicação por cafeína, em uma festa inesquecível. Era uma casa muito engraçada, com paredes de pedra e madeira, as últimas forradas com o verso de caixas de leite, como escamas, que brilhavam suavemente na luz colorida. Era de madrugada, a geada cobria o quintal da casa, uma vaca mugia ao longe e chega um salva-vidas moreno; ele cozinha uma canjica, para nosso maravilhamento, e todos comemos juntos. Bem servidos de café. Meu coração começou a bater muito rápido; eu suava frio. Havia tomado no mínimo umas quatro xícaras boazudas de café. Uma parte de mim olhava para tudo aquilo à distância.

Antes disso, porém, eu era uma criança. Não podia ser chamado de hiperativo, mas quando se tem um quintal imenso – na verdade, um bairro todo – para explorar e correr e bicicletar, até mesmo os mais introspectivos lascam o joelho no muro, ao seu próprio modo. Bem, a introspecção veio mais tarde.

Dei-me conta, agora, que eu era o líder do grupelho da vizinhança – que envolvia uma menina da minha mesma exata idade – nasceu no mesmo dia e ano -, os dois irmãos dela, pouco menores do que eu, a minha irmã e a sua amiga da casa do outro lado. Ocupava o lugar do capitão na nossa “nave”, a ameixeira no fundo do quintal: três galhos que se entrelaçavam e providenciavam um assento natural, no ponto acessível mais alto, onde ainda podíamos nos equilibrar. Quem decidia quem era o que, e onde, era eu: costumava mandar minha irmã para uma espécie de “sala de processamento de lixo e cozinha”, o primeiro andar – o primeiro galho horizontal -, de baixo para cima, perto da escotilha de entrada. Mais tarde ela foi promovida para a navegação, se não me engano.

Fiz, rapidinho no Paint, já que alguém aqui em casa andou desinstalando o meu Corel, um plano vertical da nossa nave.

1 - observação
2 - ponte de comando e batalha; arsenal
3 - cadeira do capitão
4 - comunicações; navegação
5 - sala dos motores; engenharia; arsenal (área pouco utilizada)
6 - armazenamento; cozinha; lavanderia
7 - saída de emergência
8 - escotilha

Estes são nomes que arranjei atualmente, embora na prática as coisas acabassem se arranjando desta forma. A área riscada são as “escadas”, que por acaso coincidem com o tronco da ameixeira.

Não consigo mais imaginar o que fazíamos, todos os dias, durante horas em cima daquela arvore.

Houve tentativas de usurpar o meu lugar, que foram resolvidas, provavelmente na base de pouca diplomacia e muita gritaria. Eu nunca fui de brigar... a não ser liderando as expedições punitivas contra B. R., o menino da “outra rua”, que eu tive o prazer de sujar com muita bosta de vaca e passar por cima do seu dedão com a bicicleta pesada da minha mãe, entre outras coisas. Passei tardes inteiras pensando em estratégias: como faze-lo passar por cima da minha armadilha de abacate?

No meio disto tudo eu tinha ataques de bronquite. É o que a minha mãe diz hoje, mas talvez fosse bronquiolite. Asma não, a não ser que tivesse ataques de asma até hoje. Dos cinco aos oito anos eu tinha estes pequenos ataques, seja por correr muito, ou quando ficava “nervoso” - tive de interrogar a minha mãe, pois não me lembrava de muita coisa. Tenho lembranças, isso sim, do meu encontro com o nebulizador. Não era nada cotidiano: esporadicamente lá vinha o nebulizador, com Berotec e Atrovent. Lembro do verde-e-amarelo da caixinha. O vapor se formava e dançavam as gotinhas dentro do tubinho plástico, antes de ir para a máscara que eu segurava disciplinadamente na boca, sentindo o leve gosto salgado.

Então tiveram a idéia: vamos dar café para o menino. Cafeína = (metil)xantina, xantina = broncodilatador. Nada a se estranhar, sendo o filho de uma farmacêutica e tendo como pai quem viveu o costume antigo, do interior do ES, de passar o “café forte” (a primeira passada de água pelo coador de pano) e o “café fraco” (a segunda passada, para as crianças). Todos os dias eu tomava café, com um pouco de leite, e um golinho de café puro.

Meu pai diz que o café me “curou” da bronquite. Fui promovido para o café forte desde criança, e até hoje estranho quando alguém exclama “não dá café pro menino!”.

sábado, 23 de maio de 2009

Musings make the people come together

Virtual heart pumps up the realism

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Anotação Realmente Aleatória: Nunca demore mais de 32 segundos para certificar-se de que você ainda está vivo.

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Na madrugada do meu nascimento a lua estava fininha, começando a crescer. Eu acho.

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A vida fica muito mais interessante e divertida quando você descobre que a) as pessoas nem sempre fazem aquilo que você imagina que elas façam, e b) as pessoas fazem aquilo que você faz e imagina que elas não façam - como dançar na sala sozinho no meio da tarde.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Cesta de promoções em supermercado ilhéu

... ou a volta do cabo USB.

Aliás, não é a primeira vez que encontro bebidas em posições diferentes dentro de um super. Semanas atrás vi, atrás das alfaces e rúculas, uma garrafa de Stolichnaya – ingrediente indispensável do Bolli Stolli de Eddy e Patsy, mind you – gelando.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Eat a Peach

Nada melhor do que chegar em casa tarde da noite, com fome, e esquentar um prato de parafusos com feijão, cenoura, alface – tudo juntinho-, um pouco de temperinho verde e lasquinhas de gengibre fresco, pra espantar o frio e enxotar o demônio que se apossou dos meus pulmões e garganta nos últimos dias.

(Bem, existem coisas melhores, mas me sinto muito pouco à vontade, neste blogue sem restrição de idade, para dedilhar meu gosto suspeito por gummi bears.)

E depois é uma ventania só. Como bom caucasiano sou um pouco sensível ao feijão preto – isso é verdade, dado estatístico comprovável. Mais um dos itens “Lucas queria ser negro ou mulato ou índio ou caboclo”.

***

João e eu fomos no super hoje e, antes de pegar a cerveja, passamos pelo estande de frutas, na promoção de quarta-feira. A maçã básica de cada dia. Banana, talvez, se não estivessem tão verdes, como sempre – banana verde, pra mim, é como comer isopor. Gosto daquelas que estão ficando pretas, quase apodrecendo; o povo de casa me recrimina por isto. Será uma perversão? Não sei.

Ele me aponta um pêssego muito bonito. Olhei. Cheirei. Tive um arrepio que contraiu até o cu. Desculpem pelo vocabulário tosco – em Portugal não é tosco, mas não estamos em Portugal. Lembrança das aulas de ashtanga-yoga em que, delicadamente, a instrutora pedia para contrair “o esfíncter”(qual, o piloro?), junto com a respiração.

Fruta é uma coisa muito doida, ruminávamos depois, sentados em um canteirinho qualquer no meio de uma rua. Atraente em todos os sentidos possíveis, e serve somente para isto: atrair. A própria fruta não é de nenhuma serventia para a semente, lá dentro, que dependendo do caso dispõe de mais ou menos substancia – na forma de castanha, noz, ou similar – para se nutrir. A carne da fruta é totalmente dada para o mundo, um luxo natural, uma transformista vegetal. Serve para que a comamos e sejamos bobos o suficiente para espalhar um pouco mais a semente, seja retirando a fruta da arvore ou engolindo aqueles caroços, pequenos ou enormes, de tão afobados em engolir a polpa sumarenta.

A melancia é a epítome da segunda estratégia. Só separo as sementes de melancia, até hoje, assombrado pela profecia materna: iriam nascer “pés” de melancia pelos ouvidos e nariz, se eu as engolisse.

E como cheira, uma fruta. Como cheira. Aprendi com meu pai a escolher fruta pelo cheiro, primeiro, e depois pela textura e cor.

Imagine você, numa época não muito distante, em que os cheiros bons não eram produzidos por grandes companhias cosméticas; em que as cores fortes e vibrantes não estavam disponíveis em galões de 20 litros. Imagine você indo atrás de comida; carne ainda é artigo de trabalho de grupo e muito suor e sangue, e você não consegue mais viver só de mato, como seus antigos primos orangotangos. E eis então o fruto. Um pêssego. Perdido e solitário, como você. Que fragrância suave, e ao mesmo tempo tão chamativa como o canto das mais espertas sereias! Que cor luminosa e contrastante com o verde e marrom dos arredores, e ao mesmo tempo tão natural que assim o seja, apontando para si mesmo, dizendo “aqui estou eu!”. Que textura macia e delicada, que suave penugem, que delícia pressentir o choque dos dentes rompendo a fina película protetora e afogando-se no gole do sumo que sangra...

Enfim, a pessoa come o pêssego. Romantizo um pouco, pois senão a história pararia por aqui, e eu não quero que assim seja, pois o quilo daquele pêssego era 28 reais e 80 centavos. Um pêssego nos custou quase quatro reais.

Estivéssemos cada um de nós sozinho em sua visita ranchal, jamais compraríamos o pêssego. Afinal é um luxo, caro, passando longe dos nossos radares antenados com o cálculo premente, custo x benefício. Mas estávamos em dois e, depois do arrepio esfincterial e espinhal, nada mais havia a ser feito a não ser levar um daqueles pêssegos californianos e dividi-lo. Sentamo-nos no meio-fio de um canteiro, nossas sacolas arriadas, e comemos. The rest is silence. (we starve, look at one another short of breath...)

Independente do que se come, comer junto de um amigo é muito mais nutritivo. Se se trata de pêssegos californianos, une-se o útil ao agradável, junto com o inevitável kairós - e o irrepetível.

O cheiro deles ainda está na minha mão, depois de uma hora e meia, e de fatias de gengibre. Mais acima, no pulso, pulsam as notas cítricas e de madeira de uma amostra de um novo perfume, que surrupiei de uma amiga. Talvez um dia, por descuido, ainda temperarei meu feijão com Armani ou Fahrenheit, pois guardo os meus perfumes dentro da geladeira, abaixo dos ovos caipiras.

Já fui vegano, e os animais que me perdoem, mas perfume é fundamental.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O alegre desespero - I

Edmond Blattchen – André Comte-Sponville, em Une éducation philosophique [Uma educação filosófica], bem no início, o senhor diz, a propósito de Deus: “Sua existência, em seguida sua inexistência, sempre foi para mim a questão principal”. Existência primeiro, inexistência em seguida? Como se deu, para o senhor, a passagem da fé ao ateísmo?

André Comte-Sponville – É evidentemente a questão principal. Toda a nossa vida muda, parece-me, ao menos na sua primeira parte – creio que é menos verdade no fim do caminho -, mas toda a nossa vida parece primeiro mudar conforme acreditemos ou não em Deus. Ou seja, conforme creiamos ou não que a verdade está do lado de nossos sonhos, que a verdade está do lado de nossas esperanças.
No fundo, o que é crer em Deus? Crer em Deus é crer que o essencial de nossos desejos, de nossos desejos mais fortes, será satisfeito, ou até mesmo já está satisfeito. O que desejamos, no fundo, acima de tudo? Não morrer, reencontrar aqueles que perdemos, ser amados... E o que nos diz a religião? Que não morreremos, ou não verdadeiramente, que vamos ressuscitar; que reencontraremos aqueles que amamos e perdemos; enfim, que somos amados para além de toda a esperança. Como gostaria que isso fosse verdade! O senhor me pergunta: “Como passou da fé ao ateísmo?” Bem, passei da fé ao ateísmo passando da esperança ao desespero.

Não é a escolha mais fácil. O senhor escreve em Le mythe d’Icare [O mito de Icaro]: “O difícil é ser só, sem deus, sem amigo, sem amor. O ateísmo é difícil”. O senhor optou pela dificuldade?

Sim, porque é difícil renunciar às esperanças. Porque é difícil afrontar o que há de desesperador na condição humana. E ainda mais quanto se renuncia àquilo que chamo de “religiões de substituição”, ou seja, essas outras esperanças que serviram durante um tempo de ersatz de religião. E, em minha biografia, como o senhor evocou, há o que se chama hoje de “messianismo marxista”, ou seja, uma esperança, valendo, é certo, para esta Terra, uma esperança imanente, como diriam os filósofos, mas que tinha, em contrapartida, todos os caracteres do absolutismo religioso.
Uma vez que renunciei à fé, à esperança religiosa propriamente dita e também às esperanças messiânicas que entrevira no marxismo ou no comunismo, encontrei-me só e nu, como diz Sócrates. Ou seja, ante a vida tal como ela é. Mas não creia que escolhi o desespero por gosto pela tristeza; é exatamente o contrario. Um psicanalista me escreveu, quando saiu meu primeiro livro, que apreciava seu conteúdo “porque”, dizia ele, “como psicanalista, como terapeuta, constato que a esperança é a principal causa de suicídio”. Por quê? Porque se comete suicídio sobretudo por decepção. Em outras palavras, é muito bonito esperar isto ou aquilo, seja para esta vida seja para uma outra; mas, é preciso constatá-lo, a vida não deixa de continuar! A vida como ela é: a vida real.
Ora, o que eu constato (mas como todo mundo, me parece) é que a vida, no fundo, é decepcionante. Porque ela não corresponde às nossas esperanças. De forma que, diante das decepções que a vida não cessa de lhes infringir, muitas pessoas julgam que, se a vida não satisfaz suas esperanças, é a vida que não tem razão! E fecham-se assim vivos na amargura e no ressentimento...

Donde a escolha, de algum modo filosófica, do que se chama materialismo. Poderíamos talvez explicar o que Lenin chamava de “a linha de Demócrito”.

Sim. A escolha do materialismo é justamente esta: em vez de dizer “Se a vida não responde às minhas esperanças, é a vida que não tem razão”, diremos “A vida faz o que ela pode!”, “A vida é pegar ou largar”. Pois não há nada mais.
O real é pegar ou largar. São minhas esperanças que, desde o início, são infundadas. Cessemos de sonhar a vida, cessemos de esperar viver... e vivamos! A linha de Demócrito, como efetivamente dizia Lenin para caracterizar o materialismo, é primeiro este movimento que consiste em escolher o mundo real, este aqui, esse mundo material (donde a palavra materialismo), que consiste em pensar que não há outra vida senão esta, corporal, material; que não há nada a esperar da morte; que não há esperança última. Mas que, neste espaço, neste mundo, nesta vida, pode-se atingir o prazer, aquilo que é a experiência de todos nós, cotidiana; pode-se atingir a alegria; pode-se atingir a felicidade.
E o que diz a tradição filosófica da qual parti, a tradição materialista com Demócrito, com Epicuro, a tradição racionalista com Espinosa, é que se pode encontrar nesta vida, bem mais do que nas esperanças religiosas, os meios para atingir uma plenitude de paz, uma plenitude de felicidade, o que Espinosa chama “a beatitude”; donde o titulo de meu livro, que o senhor evocava há pouco, Tratado do desespero e da beatitude. Não se tratava, ao meu ver, de dizer que era preciso escolher entre o desespero e a beatitude, mas, pelo contrário, que não se teria um sem o outro. É como as duas faces da mesma moeda: só teremos felicidade na proporção do desespero que formos capazes de suportar.

“O materialismo”, escreve o senhor, “mesmo não sendo sempre ateu, é inseparável da critica da religião.” É preciso dizer que, em Une education philosophique (1989), o senhor não poupa criticas com respeito à religião. Num capítulo intitulado “A moral desesperadamente”, o senhor escreve: “A religião é uma ilusão; pior, uma covardia e uma renegaçao”. É, portanto, um erro. É uma afirmação bastante forte!

Sim, é forte. Mas, aí, seria preciso detalhar um pouco mais. Por que “uma ilusão”? Parti do texto de Freud, O futuro de uma ilusão, em que ele explica que uma ilusão não é a mesma coisa que um erro, não é forçosamente um erro. Quando digo que a religião é uma ilusão, isso não quer dizer Deus não existe, mesmo que, é claro, seja o que eu creio. “Uma ilusão”, diz Freud, “é um pensamento derivado dos desejos humanos.” Ter ilusões, como se diz, é crer verdadeiro o que se deseja, crer verdadeiro o que se espera. Em outras palavras, familiarmente: tomar os seus desejos pela realidade.
Que desejamos nós? Não morrer, ser amados. E o que nos diz a religião? Que não morreremos, que somos amados para além de toda a esperança... Portanto, a religião é uma ilusão por ser um pensamento derivado não de um saber – pois é evidente que não há saber de Deus -, mas de nossos desejos! É, portanto, uma ilusão: crer em Deus é tomar os seus desejos pela realidade. Eis o primeiro ponto.
Por que, segundo ponto, uma covardia ou uma renegação? Porque, parece-me, ser religioso é considerar que a verdade já é conhecida, visto que é revelada. É, portanto, submeter a liberdade de seu espírito a um corpo de doutrinas já constituído, independentemente de todo exame.
E é verdade que neste sentido, como intelectual, como racionalista, como livre-pensador (não no sentido dogmático ou estreito que a palavra tem às vezes, mas no sentido literal), recuso submeter meu pensamento, antes de exame, a verdades pretensamente reveladas, quaisquer que sejam. Recuso tanto os dogmas quanto as promessas.

É a famosa frase de Renan!

“É possível que a verdade seja triste.” É nesta que está pensando? Sim, é possível que a verdade seja triste.
Em outras palavras, quando tento ver o que pode ser a verdade – não a conheço mais do que os outros, mas, como todos, tento ver qual é a verdade mais provável, o que me parece verdadeiro -, não devo levar em conta minhas esperanças. Nada prova que a verdade corresponde ao que espero.
Se eu devesse escolher em função das minhas esperanças, creia que preferiria que Deus existisse. Se só dependesse de mim!... Mas a esperança não é um argumento. E é isso que significa o ateísmo.

Enfim, a “renegação”?

A renegação, justamente, porque é renegar essa liberdade de espírito, é renunciar a esse poder, e a esse dever, de livre exame.
Depois, terceiro ponto, é também aceitar o horror. Aceitar o horror, pois o mundo tal como o conhecemos, a vida tal como a conhecemos, não são globalmente atrozes, mas comportam atrocidades. Há males pelos quais os homens são responsáveis, como as guerras ou a injustiça, mas há muitos horrores pelos quais eles não são responsáveis: os cataclismos, as doenças, o sofrimento das crianças...
Como, diante de uma criança que sofre, diante de uma criança que morre, diante da mãe dessa criança, como ousar celebrar a bondade e a onipotência de Deus ou as maravilhas de sua criação? Crer em Deus, crer num Deus ao mesmo tempo bom e onipotente, é tolerar o intolerável! É o que chamo de covardia: aceitar o inaceitável. É violar, parece-me, o dever de compaixão, de solidariedade, para com aqueles que estão no horror, com aqueles que enfrentam a atrocidade. Aqui, sinto-me próximo de meu mestre Marcel Conche. Ninguém, diante de uma criança que sofre e que morre, ninguém, diante da mãe desta criança, ousaria dizer: “O mundo é maravilhoso”; ninguém ousaria dizer: “Este mundo foi criado por um Deus bom e onipotente”. Pois bem, o que não se pode dizer perante uma criança que sofre, não se deve jamais dizer, jamais, porque há sempre em algum lugar crianças que sofrem de forma atroz. Não vamos transigir com o horror!

Comte-Sponville, Andre. O alegre desespero. Sao Paulo: Editora UNESP, 2002.
(esperando que o copirraite nao me impeça de compartilhar sem fins lucrativos...)

Booklet Creator

Se você, como eu, tem o costume de imprimir arquivos .pdf, gratuitamente baixados da internet, a glória dos universitários depauperados, já deve ter descoberto o esquema do livreto: um arquivo .pdf comum que é impresso no formato de livro, ficando 4 páginas por folha (duas na frente e duas no verso) e que, dobrado ao meio, forma um livro, com a ordem certinha das páginas.

Se tentar fazer isto somente com impressão frente e verso não dará certo. Tente, se duvida, e gaste toda a sua tarde cortando folhas pela metade.

A natureza, na forma de árvores, agradece; o seu bolso, que paga metade da impressão, agradece; e o pessoal que imprime (se não for você em sua casa ou na sua empresa, seu espertinho) agradece, por ter de gastar somente metade das folhas.

Acontece que mais de 56 porcento dos funcionários de gráficas não sabem fazer o esquema do livreto (booklet), o que é uma vergonha, contando o fato que eles possuem uma versão do adobe acrobat profissional que faz isso com o gasto mínimo de 4 joules e 67000 descargas sinápticas - e que eles ganham seu salário para fazer justamente isto.

Para, então, não fazer com que a sua viagem para a gráfica tenha sido em vão, a maternal nutriz internet também proporcionou, sem demais custos, o Booklet Creator. Mande seu arquivo (obrigatoriamente .pdf) para eles e pronto: tens aí o teu texto prontinho para impressão livreto. Nada de filas por nada, nada de fazer o seu amigo da gráfica passar vergonha, nada de passar como “aquele chato do livreto”.

sábado, 16 de maio de 2009

As minha amiga e os meu amigo



- Não fala assim, beim. Esse é um problema que eles têm, uma doença, porque muitas vezes a fraqueza na pessoa causa o problema de doença de homossexualismo.

- Viadagem.
- O Furico falou aquela coisa, palavrão, mas ele tá certo. Por que existe coisa mais, assim, de viado, do que a gelatina light?

Não tem.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Escrevendo o seu currículo

Todo mundo sabe o que é um currículo e muitos já se viram na situação – um tanto desconfortável para uns, intrigante para outros, e excitante para poucos – de escrevê-lo.

Engraçado é que curriculum vitae – CV – é uma das poucas palavras do mundo profissional que não foi tomada de empréstimo, traduzida ou simplesmente neologizada do inglês ou francês, mas sim tomada de um idioma longínquo no tempo - mas não na cultura, o latim. Curriculum quer dizer uma pista de corrida, um “corredródomo”, um estádio, e consequentemente um percurso, uma série de passos, semelhante às voltas de um carro de fórmula 1 na pista. Curriculum vitae é percurso de vida: o que você, fulano, fez – ou deixou de fazer.

Num exercício de etimologia manezinha, podemos também ver a semelhança entre currículo e “curricar”, que é andar pela vizinhança (ou pescar com o barco em movimento) – talvez procurando trabalho, ou somente um cafezinho e uma conversa solta.

Resumé é a palavra que muitos outros lugares, contudo, utilizam, e aponta para a característica fundamental de um CV: ser resumido. Vamos, então, resumidamente passar ao que interessa: algumas dicas para a redação do seu currículo. Existem vários çaites que fornecem modelos e dicas de como escrevê-lo, e não pretendo fornecer nenhum deles. Leiam o abaixo apenas como o olhar de um provavel selecionador sobre os currículos que chegam.

- Mantenha uma estrutura em tópicos. A maioria dos modelos segue uma estrutura deste tipo. Cabeçalho com dados pessoais, experiência profissional, formação, outras informações, devem ser colocadas em separado e de preferência formatadas como tal. Utilize com vontade novos parágrafos, indentaçoes, listas.

- Não escreva blocos de texto. Mantenha as sentenças curtas, sem muitas orações. Os selecionadores dispõem de não muito tempo, dependendo do cargo em questão, para olhar cada currículo. A leitura é extremamente seletiva e frases longas e complicadas tornam o processo de procura da informação desejada muito mais difícil – e, neste caso, pode ter certeza que seu currículo foi deixado de lado e já passamos para outro. Pense em você mesmo tendo 2 minutos para ler uma receita de bolo, ter de saber quais os ingredientes principais, como fazer, quanto tempo demora e quão difícil é.

- Do mesmo modo, faça com que a maioria das informações principais fiquem na primeira página, se for um currículo impresso. Se for interessante, o selecionador olhara nas outras páginas aquilo que a primeira página pode ter indicado. Se possível, faça com que seu currículo tenha apenas uma página. Não coloque capas, não use muito papel para pouco conteúdo, especialmente se você tem pouco a dizer.

- Personalize o seu currículo em relação à vaga, de preferência. Muitas instituições deixam explicito quais os requisitos e competências desejados para o cargo em questão, e tenha isto em mente ao redigir seu currículo. Não interessa que você tenha feito quatro cursos de capacitamento para salva-vidas se você está se candidatando para artífice de manutenção.

- Respeite o formato, o cronograma e os prazos da instituição. Não entregue atrasado o seu currículo, e não tente fazer com que ele seja aceito depois do prazo. Se a instituição pede que seja feito em tal formato e entregue de tal e tal forma, faça deste jeito. Muitas empresas fazem o processo de recrutamento eletrônico, utilizando a internet. Outras somente aceitam currículos eletrônicos – banco de dados – e algumas só aceitam os currículos feitos eletronicamente para determinada vaga. Preencha de acordo todos os campos pedidos. Nunca tente entregar o currículo pessoalmente para insinuar proximidade com alguém da instituição.

- Fique de olhos nos requisitos. A vaga pede “segundo grau completo” e você não o tem? Não insista. Quanto mais formal o processo seletivo, maior o rigor com que estes detalhes são vistos.

- Não deixe nada subentendido, não sugira nem insinue. Isto dá a impressão de incerteza, de indecisão, ou mesmo de informação falsa.

- No cabeçalho, coloque somente o suficiente para que o selecionador saiba qual o seu nome, de onde você é, a sua idade, e como ele pode entrar em contato com você. Nome do cachorro, tamanho da calça, não interessa. Se seu nome for ambíguo com relação ao sexo, faça com que seu sexo apareça em algum lugar do currículo. Não é necessário colocar um campo “masculino/feminino” no cabeçalho; “fui consultora de...”, “faxineiro”, em algum lugar é o suficiente. Nem idade nem sexo podem, por lei, ser usados para desqualificar uma pessoa maior de idade em um processo seletivo, mas é importante que o selecionador possa ter estes dados em mente.

- Seja sucinto, mas não a ponto de prejudicar o seu currículo. Detalhe aquilo que você considera importante, sempre mantendo-se o mais sucinto possível, em um estilo telegráfico. É comum que, por exemplo, a experiência profissional de auxiliar administrativo tenha envolvido o trabalho de catalogação de documentos segundo as normas da ABNT, ou atendimento telefônico passivo. Se isso for colocado somente como “auxiliar administrativo”, aquilo que pode ser uma experiência procurada pelo selecionador – o atendimento telefônico, por exemplo - pode passar batida. Não caia no outro extremo, porém, de exagerar as suas atribuições, como a mulher que coloca que foi “do lar” durante muitos anos e que tinha experiência com atendimento, já que atendia ao telefone de casa.

- Detalhe o que você fez, como fez e que resultados atingiu, com relação a sua experiência profissional. Isso se torna cada vez mais importante quanto mais tático e estratégico for o cargo.

- Da mesma forma, detalhe a duração, tanto da formação – estudos – quanto da experiência. Não é necessário datas exatas: de uma idéia. “De mês de ano tal a mês de ano tal” está ótimo. Coloque suas experiências e sua formação em ordem cronológica, não importando se decrescente ou crescente (eu pessoalmente prefiro que comece com as mais atuais).

- Não utilize o seu currículo Lattes para candidatar-se a algo que não esteja relacionado com o mundo acadêmico. Sim, a sua produção acadêmica pode ser extremamente interessante e enriquecer uma instituição, mas caso o interesse surja ele pode ser pesquisado depois. Vinte e sete páginas de um Lattes são garantia certa de impaciência na pessoa que esta lendo o seu currículo. Se achar necessário, mencione na sua formação, em poucas palavras, o numero de artigos publicados e a área de pesquisa, preferencialmente relacionando com o cargo pretendido. Não nos interessa saber que você tem dezenas de artigos sobre a coloração das enguias se você está se candidatando para um cargo administrativo.

- Se você não tem experiência profissional, detalhe algo que você já tenha feito, mesmo que não tenha recebido nada por isto, e o que você aprendeu nesta experiência. Pode haver algo valioso, nisto. É importante lembrar, contudo, que quando se pede experiência profissional, é muito difícil que alguém sem ela sequer chegue a receber uma segunda olhada.

- Quer colocar alguma informação pessoal que você ache interessante – seus interesses, seus hobbies, ocupações? Tudo bem, isto é bem legal – mas se e somente se você chamou a atenção, antes, por outros quesitos, e não somente por ou com isto. A sua personalidade e gostos não estão em jogo em um processo seletivo - pelo menos não na análise dos currículos.

- E, o mais básico de todos os conselhos, não minta – ou pelo menos não minta muito. Não tente fazer de você a imagem do que você imagina que alguém está procurando: muitas das vezes as suas expectativas quanto a isto estão muito enganadas.

Um currículo é um cartão de visitas, e como tal deve ser uma apresentação profissional, sucinta e objetiva - pois é isto que ele é, e nada mais. Quanto mais currículos aparecem para determinada vaga, mais focado se torna o olhar do selecionador, e mais voltado para o perfil do cargo e da instituição. Os demais aspectos ficam, então, para a entrevista – e é na entrevista, sim, que as decisões são tomadas, e é lá que você terá mais espaço para mostrar-se. Antes disso, porem, é preciso que o seu currículo seja selecionado de talvez um monte de outros, e você não estará na pilha de folhas de papel.

A entrevista... outros quinhentos.

domingo, 10 de maio de 2009

Theonion.com: Trekkies Bash New Star Trek Film As 'Fun, Watchable'


Trekkies Bash New Star Trek Film As 'Fun, Watchable'

“Why brazils always end up on top?” – O efeito castanha-do-pará

Quando um material granular com objetos de diferentes tamanhos – como uma mistura de amendoins e castanhas-do-pará – é sacudido, as partículas de maior tamanho – as castanhas-do-pará, neste caso – ficam na superfície, e as de menor volume ficam embaixo.

O mesmo acontece com café solúvel, leite em pó, areia da praia da BAF, bolinhas de isopor, bolinhas de gude, bolinhas de diversos material, bolinhas. Intuitivamente todos conhecemos este efeito a ponto de podermos tirar vantagem dele – ao sacudir o pacote de granola, por exemplo, para poder retirar e comer todas aquelas castanhas deliciosas.

Tal comportamento irracional tem sido estudado há décadas pelos pesquisadores do Centro de Pesquisas sobre Muesli, na Finlândia. Dr. Strrojni promete uma granola “anti brazil-nut effect” dentro de cinco anos. “A tecnologia necessária para igualar o tamanho das castanhas ao dos outros materiais granulares presentes na porção típica de granola ainda está sendo desenvolvida”, afirma.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Moises nas Olimpiadas

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Do octopuses dream of tentacled sheep?

Aproveitando o ensejo trazido pela homofonia da língua japonesa, compartilho um trechinho de Leminski, Paulo, o escritor e poeta brasileiro que primeiro conheceu - no sentido bíblico - os haiku japoneses - e percebeu a agudo e contundente sentimento em muitos deles, a ávida discrepância, a tolerante espera, a incongruência vívida. Em suas palavras: "não, o haikai de Bashô não é a fotografia adocicada de um lótus flutuando no velho tanque de um mosteiro".

***

tako tsubo ya
hakanaki yume wo
natsu no tsuki

蛸壺や
はかなき夢を
夏の月

A Bashô, este haikai pintou, quando num barco, na baía de Akáshi. Diz, mais ou menos:

a armadilha do polvo,
sonhos flutuantes,
lua de verão

O poeta, no barco, olha a água noturna e vê no fundo os cestos de bambu, onde os pescadores apanham polvos, atraídos pela luz das tochas: a boca das cestas tem pontas de bambu aguçadas, de modo que o bicho pode entrar mas não sair.

Os "sonhos flutuantes" ("hakanáki yumê") guardam relação com os reflexos das tochas na água trêmula, onde se reflete a lua amarela (ou quase vermelha) do verão.

Misteriosos parentescos entre os polvos que entram na armadilha, os sonhos que flutuam e os reflexos da lua: todas estas coisas parecem pertencer a um mundo irreal, subaquático, onírico.

No original japonês, uma estranheza de linguagem, que ainda carrega mais os milagres da cena. A partícula "wo", depois de "hakanáki yumê", sonhos flutuantes, indica, em japonês, que a expressão é o objeto direto de um verbo. Qual o verbo? O original não diz. Nem qual o sujeito. Quem faz o quê com os sonhos flutuantes? Arrisco a versão:

polvos na armadilha
sonhos pululam
a lua vermelha

"Flutuantes" não dá conta, plenamente, do japonês "hakanáki", verdadeira onomatopéia visual, imitativa do movimento de oscilação das águas. Algo como um zigue-zague. Um treme-treme. Um tremelique. Um quase-quase. A forma é simples. A intuição é barroca.

A tessitura sonora e silábica do haikai é rica de anagramas, tranças de sons que se entrelaçam. A sílaba "tsu" está em "armadilha" ("tsubo"), em verão ("natsu") e em "lua" ("tsuki"). "Hakanáki" quase rima com "nátsu".

Em "hakanáki", um japonês pode enxergar ainda, ainda, uma aparição do verbo "chorar", "náku", reforçando o clima aquático. "Hakanáki" compõe-se de dois ideogramas: "fruto" + "não" + "sem fruto".

"Hakanáki yumê", portanto é, literalmente, "sonho sem fruto".
Paulo Leminski. Vida: Cruz e Souza, Bashô, Jesus, Trotski. Porto Alegre: Sulina, 1998.

***

Haicai composto em 1688, durante a observação da pesca de polvos em Akashi, atualmente uma cidade da província de Hyogo. Potes de barro são submersos na água à noite, presos por cordas. Os polvos, tomando-os por abrigos seguros, neles se introduzem, permitindo sua captura. Por outro lado, as horas de sono do verão são curtas, tornando ainda mais efêmeros os sonhos. Será Bashô que sonha ou é o polvo, satisfeito com a tranqüilidade ilusória de seu pequeno mundo, ignorante do destino que o aguarda ao amanhecer? Na tradição poética, quem normalmente lamenta as poucas horas escuras do verão são os casais de amantes, que devem se separar na alvorada. Ao trocar esse sentimento romântico pela vida de um polvo, Bashô entra no campo do humor, característica da poesia de haikai. Entretanto, não sentimos vontade de rir. Ao contrário, somos tomados por grande compaixão pelo ser que, ao final de seu sonho, encontrará a morte. A lua que brilha sobre o polvo e seu pote é, afinal, a mesma que brilha sobre o homem e sua existência, tão fugaz quanto um sonho. O kigo é natsu no tsuki, lua de verão.

Arranhadas amadoras (e não é meu gato)

"Não se preocupem, porém: várias pessoas ocupam grande parte da sua vida em estudar este tipo de problema. Filólogos, fonólogos, historiadores das línguas, linguistas, psicolinguistas e demais enfurnam-se em tabelas e textos e apresentam algumas coisas interessantes que podem ser de valia."

Dá uma olhada aqui para algumas ranhuras amadoras no japonês.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

domingo, 19 de abril de 2009

Tantos sorrisos...


(Ah, oi, olá. Meu nome é Abe Sada... melhor, Sada Abe para você. A mulher do meio, sim. Neste momento eu estou sendo presa por ter asfixiado o meu amante durante o ato, e depois ter cortado fora seu pênis e seus testículos. Carreguei-os comigo durante um tempo.)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Estágio, Ken Lee e Kate Bush

E lá começo o meu estágio em um departamento de RH de uma empresa "paraestatal".

300 currículos para uma vaga em poucas horas; quem diria que por trás da cena estaria um pobre e relapso estagiário de psicologia, decidindo o seu futuro?

E quem sabe o que mais ocorrerá? Só sei que nas próximas semanas escreverei menos por aqui. Isto me deixa triste: nada melhor do que ruminar e regurgitar o verde pasto mundial nestas linhas.

Se bem que eu sou pessoa de escrever journals e mantê-los em segredo, dentro da gaveta da direita da escrivaninha, até a publicação e fama póstuma - placa de mármore inclusa. Mas não espalha.

*****

Maryah falou que esta moça tem chutzpah. Ah bé!

*****

Então, alguém já escutou o Aerial, da Kate Bush?

Pergunto pois eu sempre me aventuro a fazer uma pequena crítica musical de todas as músicas que escuto e gostaria que outras pessoas ouvissem. Faço esta "crítica", porém, não para qualificar algo que escuto - se bem que é um exercício interessante - mas por quê, no fundo, quero que os poucos leitores escutem. Espero mais: espero que gostem, apreciem, encontrem-me na rua e me interpelem dizendo "ah, aquela tua Kate Bush, que coisa linda!", e então combinamos de escutá-la com uma boa taça de vinho, juntos.

Se não gostar, fique quieto. Não quero fazer crítica - se bem que...

Mas então: Kate Bush mostra que, além de ter sido influência para muita gente, soube assimilar bem as lições da época... e da idade. A voz não brilha reluzente, com os agudos de outrora, mas está mais aveludada e curtida. Algumas vezes soa a Madonna, mas neste caso é você que escuta Madonna mais do que devia.

Duas músicas excelentes: A coral room, que é uma espécie de revêrie deliciosa (inclua Mr. Bartolozzi na sua escuta também).

Aerial (desconsidere, se quiser, o número do Cirque), a faixa-título, que retoma o tema do canto dos passarinhos - premente e presente em todo o segundo cd - com as notas de ínicio, cordas etéreas, compartilhando uma guitarra elétrica no fim. O timing das gargalhadas é fabuloso. Tá curioso? Vá escutar. Escutei Aerial rindo.

Genial.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Zazenkai com aikido

Dia 26 de abril, um domingo, teremos um zazenkai.

Zazenkai é uma espécie de mini-sesshin, um dia de prática intensiva de zazen, com refeições "formais" (ōryōki) e enfins.

Este zazenkai, porém, reserva-nos algo de novo: práticas de aikido, que provavelmente serão dadas pelo sensei Carlos, do Kawai Shihan Dojo, aqui de Florianópolis - ou pelo sensei Altair, disto ainda não tenho certeza.

Está ao lado o cartaz do evento e espalhem para quem tiver interesse! As vagas são poucas, infelizmente.

Longe do Ideal, portanto real

Temple Grandin é doutora em ciências animais, propõe uma forma mais digna no abate de animais para consumo de carne, e é autista. Conhecida por ser o sétimo caso no maravilhoso livro de Oliver Sacks, Um Antropólogo em Marte - cujo título é uma expressão de Temple, referindo-se como ela se sente com relação às "outras pessoas" - Temple é uma mulher inspiradora: tanto na sua história com autismo, tanto no seu esforço para, a partir de uma percepção diferente dos animais, sugerir e trabalhar em formas menos cruéis de abate. É uma perspectiva que pode não ser ideal, para todos aqueles que querem um "mundo sem matança"; mas, como tal mundo é um ideal - e por muito tempo continuará sendo - é gente como Temple que faz o conjunto de pequenas diferenças que realmente fazem a diferença.

Os trechos abaixo focam-se mais na questão do abate de animais, e no trabalho de Temple. O texto completo é muito mais interessante, como Oliver Sacks reiteradamente os faz ser.

Oliver Sacks, Um antropólogo em Marte. São Paulo, Companhia das Letras, 2006.

"O gato fica perturbado com os mesmos tipos de sons que os autistas - sons agudos, assobios, ou barulhos altos e repentinos; não conseguem se acostumar com eles", Temple me disse. "Mas não se incomodam com barulhos graves e surdos. Ficam perturbados com contrastes visuais muito fortes, sombras e movimentos bruscos. Um leve toque faz com que se afastem, um toque firme os acalma. A maneira como eu me afastava ao ser tocada é igual como a vaca se afasta - acostumar-se a ser tocada é muito parecido com domesticar uma vaca arisca." Foi precisamente sua compreensão da base comum (em termos de sensações e sentimentos fundamentais) entre animais e pessoas que lhe permitiu mostrar tal sensibilidade pelos primeiros, insistindo vigorosamente num tratamento humanizado.
Ela achava ter sido instruída nesse conhecimento em parte pela experiência de seu próprio autismo e em parte por vir de uma longa linhagem de fazendeiros e, quando criança, ter passado tanto tempo em fazendas. Seu próprio modo de pensamento não lhe deixava saída dessas realidades. "Se você é um pensador visual, é fácil se identificar com animais", disse a caminho da fazenda. "Se todos os seus processos de pensamento estão na linguagem, como pode imaginar que o gado pensa? Mas se você pensa em imagens..."

(....)

Ver a vaca sofrendo e ouvir seus mugidos de luto irritaram Temple e fizeram com que sua mente se voltasse para as inumanidades do abate. Não tinha nada a ver com galinhas, ela disse, mas a matança delas era particularmente repugnante. "Quando chega a hora de as galinhas irem para a Terra dos McNuggets, eles pegam-nas, viram-nas de cabeça para baixo e cortam os pescoços." Um agrilhoamento parecido do gado, pendurado de cabeça para baixo para que o sangue possa vir todo para a cabeça antes que cortem seus pescoços, é uma imagem comum em antigos matadouros kosher, ela disse. "Às vezes, quebram as pernas, berram de dor e terror." Graças a Deus, estas práticas estão começando a mudar. Adequadamente executado, "o abate é mais humano que a natureza", ela prosseguiu. "Oito segundos após o pescoço ser cortado, o corpo libera endorfinas: o animal morre sem dor. O mesmo acontece na natureza, quando um carneiro é dilacerado por coiotes. A natureza criou isso para aliviar a dor de um animal à morte." O terrível, tanto mais por ser evitável, segundo ela, é o sofrimento e a crueldade, a introdução do medo e da tensão antes do corte letal; e é o que ela mais se preocupa em evitar. "Quero reformar a indústria da carne. Os militantes querem acabar com ela", disse, e acrescentou: "Não gosto de nada radical, à direita ou à esquerda. Tenho uma antipatia radical pelos radicais."
Longe dos mugidos das vacas e dos bezerros separados, cuja angústia Temple parecia sentir na própria carne, achamos uma área tranquila e silenciosa da fazenda, onde o gado pastava placidamente. Temple se ajoelhou e estendeu a mão com um pouco de feno, e uma vaca se aproximou e o comeu, cutucando sua mão com o focinho macio. Uma expressão suave e feliz tomou o rosto de Temple. "Agora, sinto-me em casa", disse. "Quando estou com o gado, não tem nada a ver com cognição. Sei o que a vaca está sentindo."

(....)

Caminhamos devagar ao longo de uma rampa ligeiramente curva e com paredes altas, por onde o gado passava em fila indiana, alegre em sua inconsciência do que estava por vir, até o choque de um disparo letal. Temple foi uma das pioneiras no desenho dessas rampas, e seu nome está associado, no mercado, com a introdução das calhas em curva. Conforme subíamos a passarela, olhando por cima das paredes da calha, Temple me falou das virtudes especiais dessas rampas, como a curva impedia os animais de ver o que os esperava no final, até estarem bem próximos (evitando assim qualquer apreensão), e, ao mesmo tempo, aproveitando a tendência natural da vaca para andar em círculos. As paredes altas evitavam as distrações perturbadoras e serviam para que o gado se concentrasse em seu caminho.
No alto da rampa, dentro do edifício, os animais eram levados, quase imperceptivelmente, por uma correia rolante que passava sobre suas barrigas (esse "retentor de trilho duplo" era outra inovação de Temple). Algus segundos depois, o animal era morto instantaneamente por um tiro de ar comprimido no cérebro.

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Tive uma sensação de horror quando Temple me mostrou a máquina, mas ela me garantiu que o gado não tinha o menor indício, a menor apreensão, sobre o que lhe esperava; todo o esforço dela, de fato, ia no sentido de eliminar tudo o que pudesse causar terror ou desgaste aos animais, para que pudessem seguir pacífica, dócil e inconscientemente para a morte. Mas eu continuava a sentir náuseas com relação a tudo aquilo. Como será que ela se sentia, como será que os outros se sentiam, trabalhando naqueles lugares?
Temple explorou o assunto e escreveu um artigo clássico sobre o tema. Alguns funcionários de matadouros, ela comenta, desenvolvem rapidamente uma dureza defensiva e passam a matar os animais de uma maneira puramente mecânica: "A pessoa encarregada de matar encara o seu trabalho como se estivesse grampeando caixas numa esteira rolante. Não tem qualquer emoção em relação ao seu ato". Outros, ela mostra, "passam a gostar de matar e [...] atormentam os animais de propósito". Falar dessas atitudes levou o pensamento de Temple a fazer um paralelo: "Vejo uma correlação muito forte", ela disse, "entre a forma como os animais são tratados e os deficientes. [...] O estado da Geórgia é um ninho de cobras - tratam [os deficientes] pior que os animais. [...] Os estados com pena de morte são os que infligem o pior tratamento aos animais e aos deficientes".
Tudo isso deixa Temple apaixonadamente irritada e preocupada com a reforma da humanidade: quer mudar o tratamento dos deficientes, em especial dos autistas, assim como o tratamento dispensado ao gado pela indústria da carne. (A única maneira adequada de matar animais, a única que demonstra respeito pelo animal, segundo Temple, é a via do ritual, ou "sagrada".)

Foi um grande alívio sair do matadouro, para fora daquele cheiro pestilencial que parecia permear cada centímetro do lugar, embrulhando-me o estômago e me obrigando por vezes a segurar a respiração para não vomitar; um imenso alívio, uma vez do lado de fora, poder respirar o ar fresco e puro, não contaminado pelo cheiro de sangue e de vísceras; um imenso alívio, moralmente, afastar-me da idéia da matança. Questionei Temple sobre isso no carro. "Ninguém deve matar animais o tempo todo", ela disse, e me contou que tinha escrito bastante sobre a importância de uma rotatividade de funcionários, para que não ficassem empregados permanentemente no abate, lidando com sangria ou violência. Ela própria precisa de outros ambientes e ocupações, que formam uma parte vital e de modo geral mais prazerosa da sua vida. Sua compreensão da psicologia e do comportamento dos animais de rebanho é requisitada não apenas por fazendas de corte e matadouros pelo mundo afora, mas por tosadores de ovelhas até da Nova Zelândia, e por parques de animais selvagens e jardins zoológicos. Fiquei com a impressão de que ela gostaria de passar um tempo nas estepes africanas, dando consultoria sobre manadas de elefantes e de animais visados como presas, como antílopes e gnus. Mas fiquei na dúvida se conseguiria entender os macacos (que têm certa "teoria da mente") assim como compreende as vacas. Ou os acharia desconcertantes, impenetráveis, da mesma forma que achava as crianças e outros seres humanos? ("Com os animais de fazenda, sinto o comportamento deles", disse posteriormente. "Com os primatas, compreendo suas interações intelectualmente.")
Os sentimentos mais profundos de Temple estão relacionados ao gado; sente uma ternura, uma compaixão por eles que é análoga ao amor. Discorreu longamente sobre isso enquanto nos dirigíamos para nossa próxima parada, uma fazenda de corte - como procurava estabelecer um clima leve ao colocar o gado na calha, transmitir tranquilidade aos animais, trazer-lhes paz nos últimos momentos de suas vidas. Para ela, tratava-se de algo meio físico e meio sagrado acalmar o animal nos últimos momentos de sua vida, e era o que tentava ensinar incessantemente às pessoas que trabalham com as calhas nos matadouros.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Vida Incerta

De uma vez por todas eu resolvi acabar com o problema do siso - este siso superior direito que parece estar "fundido" no maxilar - caso de manual, segundo a dentista - e que não quis sair, mesmo com 3 horas e meia de paciente e excruciante tentativa, muitos meses atrás.

Procurei um bom cirurgião-dentista e me disponibilizei para envolver um pouco mais de dinheiro. Conversamos e ele promete "uma hora, no máximo", com a ajuda do gás do riso e sua provável experiência em tirar sisos renitentes (que, descubro depois, podem fazer crescer neoplasias se não retirados, em certos casos).

Mas um detalhe chama a atenção: tenho que assinar um termo de compromisso me responsabilizando por quaisquer parestesias mais permanentes que possam ocorrer depois da cirurgia, devido a proximidade de um nervo. Pergunto se isto já ocorreu, e ele diz que sim, no começo da carreira - mas que o ex-cliente é agora seu conhecido e amigo.

Bem, eu prefiro ficar sem parestesia a ter um novo amigo, mas pelo visto eu vou ter que preferir tirar o siso, independente de qualquer outra coisa - parestesia, parapraxe, catexia, bolo de chocolate.

Nada que uma segunda opinião não possa esclarecer.

Lembrei-me disto ao ler, agora, a carta que Freud escreve para Fliess logo após descobrir que Emma Eckstein - que tinha sido diagnosticada com histeria e sofreu um tratamento experimental, uma cirurgia no nariz, baseado em teorias um tanto exóticas de Fliess e Freud - estava passando mal e tendo hemorragias porque Fliess esqueceu um pedaço grande de gaze dentro do nariz dela.

Freud, como bom amigo, tenta mitigar a culpa do seu querido correspondente. Logo depois ele sonha o sonho de Irma, que ocupa boa parte do Traumdeutung, e é considerado um sonho "inaugural" da psicanálise.

Estava pensando com meus botões: nunca foi fácil ser médico. Pior que ser médico, muitas vezes, é ser paciente, e ter de aturar um médico tomado por teorias exóticas sobre a etiologia da histeria fazendo cauterizações com cocaína em seu nariz. Mas, por outra parte, algumas vezes a confiança que se dedica a um médico - ou à medicina, bem entendido - e a falta de alternativas nos colocam com o lado selvagem da questão de saúde e doença: parece estar tudo garantido, mas nem sempre está.

Freud errou algumas vezes. Um dos seus pacientes - um amigo - teve sua morte "apressada" quando Freud tentou "substituir" sua dependência da morfina pela cocaína, o que provocou sua (Freud) retração e retratação posterior, do campo de pesquisas com a cocaína, no qual estava envolvido. Há um suicídio entre suas pacientes - o que eu dificilmente colocaria como erro médico. Vários deslizes pequenos.

Vários podem ser vistos nesta página que apresenta Freud como um serial killer que matou o seu primo Johann e outras quatro outras pessoas, desfigurou e provocou lesões em outras tantas dolosamente, além de ter estuprado sua prima Pauline e provavelmente ter tido três filhos com sua cunhada, Minna (esta última hipótese é suposição minha).

É algo que de vez em quando me deixa inquieto, a mim que tenho a pretensão de trabalhar nesta área. Embora não seja e não serei médico, é conhecido que ser terapeuta (analista, uáreva) lida com questões "éticas" tão complicadas quanto. A vida parece ser manuseada mais pelas mãos de um médico do que de um terapeuta, mas isto desconsidera as fortíssimas coisas que podem acontecer em uma terapia - que não é uma viagem intelectual, por mais que os obsessivos o queiram.

É claro que sempre se pode "escolher" a distância com a qual você fará as coisas, mas qual seria a graça de estar completamente seguro na sua poltrona? Um macaco velho que sabe exatamente como são as coisas - de tanto que consegue fazer com que elas sejam como "são".

Esta dose de incerteza - que somente é balanceada pela necessidade imperativa de algo a ser feito - faz parte de muitas das atividades humanas fundamentais. Dar à luz é uma figura que fala por si.

Em janeiro do ano passado o filho do meu pai morreu "no dia em que teria nascido", por anóxia, e eu teria o maior prazer de colocar, com todos os seus títulos, o nome da médica que foi de tamanha negligência, neste caso. Infelizmente eu não o tenho mais. Ela merece esta menção, no seu currículo. Foi perdoada pelo meu pai e sua mulher - injustamente, ao meu ver.