sábado, 22 de agosto de 2009

Did Plato beat the [bush] cat?

Com o passar do tempo gosto menos do Platão. Pessoalmente. Isto quer dizer o quê? Admiro a sua envergadura, mas o conheço cada vez mais e desprezo algumas de suas idéias. Ao mesmo tempo, contudo, sei que as suas obras escritas guardam as chaves - preciosíssimas! - da filosofia ocidental, mesmo que, algumas vezes, sejam anti-chaves, ou chaves de espaços negativos.

A República é o exemplo paradigmático do platonismo aplicado, e suas consequências. Seria a República uma grande ironia, ou somente um exercício intelectual? Ou um destino político inevitável do zôon politikon? Alguns dizem que Platão realmente sugeriu sua república como uma realidade prática, e a sua amizade com Díon pode sugerir isto. Outros dizem que há somente ramelas pedagógicas, e que uma leitura cuidadosa o indicaria - através de linhas de campos de imanência a la Deleuze, talvez? Ou então uma grande e deliciosa ironia. Como eu sempre cuido terapeuticamente das ironias, sonho com a terceira. Então eu e Platão riríamos muito.

Mas tomando seus escritos face-valued, a República é um pesadelo a que somente os reis-filósofos poderiam aspirar. Em termos práticos. A argumentação platônica tenta procurar a forma de governo mais justa possível, e neste interím passa por cima da timocracia/meritocracia, da oligarquia, da democracia e da tirania/despotismo, consideradas como formas "dialéticas" de governo, que não tem o Bem em vista e como objetivo e que, portanto, não podem manter-se por si mesmas (tomo o wikiartigo como hupomnemata).

Esta é a parte mais interessante da República: todos os sistemas pensáveis de governo são colocados em questão, com a conclusão citada acima. O que prossegue depois disto, porém, é de deixar qualquer (pós?)moderno de sobreaviso; o governo do Bem parece-se demasiado com os regimes totalitários que tivemos a oportunidade sangrenta de vivenciar (agora também temos a oportunidade sangrenta de vivenciar uma das formas de democracia mais radical).

Aliás, tenho a impressão que a espécie de utopia disforme de Platão - que apenas não merece o título de distopia por discrição por parte dos críticos - foi o campo que, desde o Renascimento (com a sua reconstrução de um helenismo e classicismo que talvez nunca tenham existido) semeou grande parte dos grandiosos projetos políticos modernos. Apesar de O (outro) Filósofo [Aristóteles] ter se servido fartamente de Platão em seu pensamento político, e consequentemente a escolástica cristã ter se servido fartamente - ou ter subjugado, o que se sobrepõe sutilmente - do Filósofo, a idade média européia nunca foi além do não muito temeroso, embora forte, pensamento feudal. Pelo menos desde as Cruzadas.

A música pode ser uma interessante analogia. Uma das partes que mais me enoja em Platão é aquela em que, em sua nova Cidade[-estado], certos tipos de "harmonias" e "tons" deveriam ser proibidos - os que "provocam" a lassidão, a intemperança, a melancolia, etc.; o trabalho dos poetas (poiétes, os "fazedores", vistos assim como meros artífices de mentiras e contrapostos ao logos verdadeiro do [rei-]filósofo) deveria ser severamente censurado; e a "literatura" poética - os épicos homéricos, por exemplo - deveria ser "reescrita", de modo a não sobrar nenhum trecho que, exempli gratia, descreva deuses olímpicos com paixões humanas. Tudo muito bem regrado.

Comparemos esta sobriedade de harmonias e tons com a profusão maluca da música pós-renascentista. Não é preciso ser apreciador de música "erudita" para verificar isto. Estou para encontrar o nefelibata que me diga que os melhores trechos de Bach, por mais glaciais e celestiais e "não-humanos" que sejam, não contém as pestíferas harmonias vilipendiadas por Platão.

Ufa. Ainda bem.

Isto assemelha-se, grosso modo, com uma discussãozinha que vim a saber atualmente: a da "reescritura" das cantigas de roda tradicionais. Você sabia que há uma versão "politicamente correta" do Atirei o pau no gato? Ela vai mais ou menos assim:

Não atire o pau no gato
Porque isso não se faz
O gatinho é nosso amigo
Não devemos maltratar os animais

(em algumas letras é Jesus quem diz para não maltratar.)

Pode haver algum mérito em querer diminuir um conteúdo "violento" em alguma coisa, mas justamente no Atirei o pau no gato? Você, leitor, você atira paus em gatos na rua, depois de ter cantado com fervor o Atirei dezenas de milhares de vezes, quando criança? Você sente uma propensão para isto? Você já atirou? Matou gatos? Envenenou-os?

Eu me lembro do prazer que era fazer o miaaaaaaaaaaaaaaaaaau final, aquele grito estridente de criança, que treme as órbitas dos olhos e esfria a barriga. Hoje eu tenho um gato em casa. Não sou um anjo de candura, mas ele ainda tem as quatro patas e as duas orelhas. Hum, vai ver que é um sentimento inconsciente de culpa, causado pela minha incessante cantilena de mau-trato aos felinos, que me faz manter e alimentar e acarinhar um deles dentro de minha própria casa!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

E o Segredo vai para...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

"O que foi isto?"

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sonic. Cetim. Satie.

Atualmente eu tenho vergonha da maioria das minhas poesias de outrora, embora saiba que tenha escrito muito melhor outrora do que atualmente escrevo - se e quando escrevo. Uma pena.

Então, escutando Satie - depois de tanto tempo! - retorna à cabeça o poemeto escrito anos atrás. Com um grão de sal, filho e espírito santo, por favor. Aproveitem que o uitubiú tem a opção de vídeos em alta qualidade, agora, e pode melhorar um pouco o som.

à Satie

O céu escuro, na janela sem vidros,
encompassa a sedosa fumaça
do cigarro enrolado

Satie. Cetim. Um pastor contando estrelas.
No acetinado. Da noite.
Cetim. Nos meus braços.
Mamilos e torso torcido
para em beijo ávido beijar-me.

Conto estrelas com a língua. Enlaço.
com o que brilha nos teus olhos.

São meus, os olhos da noite.
Se conto estrelas, traço-as.
Onde sou poeira; molda-me.
Se abres a boca, pérolas.

08/09/2005

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A mesma dica do uitubiú vale para esta apresentação de um dos temas de Philip Glass para o filme As horas, que é um dos meus favoritos. Torley mostra barbaramente como a música de Glass é tecnicamente fácil, baseada em ostinatos e harmônicos; isto não é empecilho, contudo, para que ela seja boa e aproveitável. Mas enfim, eu tenho um gosto extremamente duvidoso, para alguns - amo muito tudo isso.

Aliás, lembro-me perfeitamente do frio na barriga na primeira vez em que escutei esta música. Eu o sinto, até hoje, ao escutá-la.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Catatau morreu




Não me lembro a primeira vez que o vi; talvez tenha sido mesmo na fila da matrícula, lá no comecinho do novo milênio. De qualquer forma, estudante do CFH que eu era, até poucos dias atrás, o Catatau estava sempre presente, com a sua pose altiva.

Foi enterrado na frente da reitoria.

Leve se suportável, breve se não o é

"O que ocorre com as crianças, nós mesmos experimentamos, crianças crescidas que somos. As pessoas que elas amam, com quem estão habituadas, com as quais brincam, fazem-nas tremer de medo quando se apresentam mascaradas. Não é somente dos homens, é das coisas que cumpre tirar a máscara, obrigando-as a reassumir seu verdadeiro rosto. De que serve mostrar-me estas espadas, estas chamas, esta multidão de carrascos que rugem em torno de ti? Descarta este aparato que te esconde e que só aterroriza os tolos. Tu és a morte, que outrora meu escravo ou uma serva podia desafiar. Mas quê? Ainda teus chicotes, tuas estacas que me apresentas com grande ostentação, estes aparelhos que se adaptam peça por peça a todas as articulações a fim de desmembrá-las, estes milhares de instrumentos empregados para dilacerar, para despedaçar um homem? Despoja-te destes espectros; silencia os gemidos, os lamentos entrecortados, os gritos agudos do supliciado feito em pedaços. Tu és a dor, que o gotoso despreza, que o dispéptico padece em meio a delícias, que a jovem tolera no parto; dor leve se suportável, breve se não o é."

[13] Quod vides accidere pueris, hoc nobis quoque maiusculis pueris evenit: illi quos amant, quibus assueverunt, cum quibus ludunt, si personatos vident, expavescunt: non hominibus tantum sed rebus persona demenda est et reddenda facies sua. [14] Quid mihi gladios et ignes ostendis et turbam carnificum circa te frementem? Tolle istam pompam sub qua lates et stultos territas: mors es, quam nuper servus meus, quam ancilla contempsit. Quid tu rursus mihi flagella et eculeos magno apparatu explicas? quid singulis articulis singula machinamenta quibus extorqueantur aptata et mille alia instrumenta excarnificandi particulatim hominis? Pone ista quae nos obstupefaciunt; iube conticiscere gemitus et exclamationes et vocum inter lacerationem elisarum acerbitatem: nempe dolor es, quem podagricus ille contemnit, quem stomachicus ille in ipsis delicis perfert, quem in puerperio puella perpetitur. Levis es si ferre possum; brevis es si ferre non possum.

Carta de Sêneca para Lucílio, 24; texto em português tirado de A hermenêutica do sujeito, M. Foucault (Martins Fontes, 2004), texto em latim aqui.

leuis aut breuis: o aforismo estóico de que uma dor ou é forte e breve e insuportável - ou passa ou morremos - ou é leve e dura mais, então suportável. Epicuro, antes disso, já apontava em uma de suas máximas (140.IV), abaixo, o que viria a ser a quarta parte do seu tetraphármakos: o que é mal é breve ou no tempo ou leve na intensidade (na carta para Meneceu em outro lugar, 133).

"A dor não dura de uma forma ininterrupta na carne, mas aquela que é extrema não dura mais que um tempo muito curto, e mesmo aquele nível de dor que excede ligeiramente o prazer da carne não dura muitos dias; quanto às doenças de longa duração, elas são acompanhadas de mais prazer (na carne) do que de dor."

ou khronízei to algoûn sunekhôs en tê sarkí, alla to men ákron ton elákhiston khrónon páresti, to de mónon huperteînon to hēdómenon kata sárka ou pollas hēméras sumbaínei; hai de polukhrónioi tôn arrōstiôn pleonázon ékhousi hēdómenon en têi sarkhi ḗper to algoûn.

sábado, 4 de julho de 2009

Carta de Epicuro para Meneceu

[Epicurus' letter to Menoeceus; lettre de Épicure à Ménécée; Epikurs Brief an Menoikeus; epistolḗ pros Menoikéa - greek text, texte grec, "griechische texte" (!), hellenik... whatever]

Abaixo vai a carta de Epicuro para Meneceu, em grego. Não encontrava o original transliterado na internetz - o original em grego, por exemplo, está aqui -, então resolvi fazer um favor para a humanidade, gastando algumas horas transliterando do xerox do Armário Branco - algumas notas sobre a transliteração aqui. As palavras em vermelho são as que não consigo encontrar tradução; as em verde são aquelas que eu faço idéia mas não encontro o verbete correto, e não quero desvirtuar ninguém.

O texto abaixo é do livro de M. Conche, em francês; Epicure, lettres et maxims, disponível na biblioteca da UFSC. As notas absolutamente ininteligíveis para alguém com menos de um doutorado são do mesmo texto, que boto apenas como curiosidade. Acompanha junto uma bela e boa tradução, em francês, que está disponível neste livro do google books, além de notas que tenho preguiça de copiar. Como o texto de Epicuro é livre para todos, não tenho medo do copirraite; as notinhas do autor(a), porém, poderiam me comprometer com a PUF.

Talvez uma tradução pessoal esteja em andamento. Talvez.

Por favor, aproveitem. É um belíssimo texto.

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Epíkouros Menoikeî khaírein.

[122] Mḗte néos tis ōn mellétō philosopheîn, mḗte gérōn hupárkhōn kopiátō philosophôn. Oúte gar áōros oudeís estin oúte párōros pros to kata psukhēn hugiaînon. Ho de légōn ē mḗpō toû philosopheîn hupárkhein hṓran ē parelēluthénai tēn hṓran hómoiós estin tôi légonti pros eudaimonían ē mē pareînai tēn hṓran ē mēkéti eînai. hṓste philosophētéon kai néōi kai géronti, tôi men hópōs gēráskōn neázēi toîs agathoîs dia tēn khárin tôn gegonótōn, tôi de hópōs néos háma kai palaios hêi dia tēn aphobían tôn mellóntōn. meletân oûn khrē ta poioûnta tēn eudaimonían, eíper paroúsēs men autês pánta ékhomen, apoúsēs de pánta práttomen eis to taútēn ékhein.

[123] Ha de soi sunekhôs parēngellon, taûta kai prâtte kai meléta, stoikheîa toû kalôs zên taût’ eînai dialambánōn. Prôton men ton theon zôion áphtharton kai makárion nomízōn, hōs hē koinē toû theoû nóēsis hupegráphē, mēthen mḗte tês aphtharsías allótrion mḗte tês makariótētos anoíkeion autôi prósapte; pân de to phuláttein autoû dunámenon tēn meta aphtharsías makariótēta peri auton dóxaze. theoi men gar eisín; enargēs gar autôn estin hē gnôsis; ohíous d’ autous polloi nomízousin, ouk eisín; ou gar phuláttousin autous hoíous nomízousin. asebēs de oukh ho tous tôn pollôn [124] theous anairôn, all’ ho tas tôn pollôn dóxas theoîs prosáptōn. ou gar prolḗpseis eisin all’ hupolḗpseis pseudeîs hai tôn pollôn huper theôn apopháseis. énthen hai mégistai blábai ek theôn epágontai kai ōphéleiai. taîs gar idíais oikeioúmenoi dia pantos aretaîs tous homoíous apodékhontai, pân to mē toioûton hōs allótrion nomízontes.

Sunéthize de en tôi nomízein mēden pros hēmâs eînai ton thánaton; epei pân agathon kai kakon em aisthḗsei; stérēsis dé estin aisthḗseōs ho thánatos. hóthen gnôsis orthē toû mēthen eînai pros hēmâs ton thánaton apolauston poieî to tês zōês thnētón, ouk ápeiron prostitheîsa khrónon, allá ton tês [125] athanasías apheloménē póthon. outhen gar estin en tôi zên deinon tôi kateilēphóti gnēsíōs to mēden hupárkhein en tôi mē zên deinón. hṓste mátaios ho légōn dediénai ton thánaton oukh hóti lupḗsei parṓn, all’ hóti lupeî méllōn. ho gar paron ouk enokhleî, prosdokṓmenon kenôs lupeî. to phrikōdéstaton oûn tôn kakôn ho thánatos outhen pros hēmâs, epeidḗper hótan men hēmeîs ômen, ho thánatos ou párestin, hótan de ho thánatos parêi, tóth’ hēmeîs ouk esmén. oúte oûn pros tous zôntás estin oúte pros tous teteleutēkótas, epeidḗper peri hous men ouk éstin, hoi d’ oukéti eisín. All’ hoi polloi ton thánaton hote men hōs mégiston tôn kakôn pheúgousin, hote de hōs anápausin [126] tôn en tô zên. [ho de sophos] oúte phobeîtai to mē zên; oúte gar autôi prosístatai to zên oúte doxázetai kakon eînaí ti to mē zên. hṓsper de to sitíon ou to pleîon pántōs alla to hḗdiston haireîtai, hoútō kai khrónon ou ton mḗkiston alla ton hḗdiston karpízetai. ho de parangéllōn ton men néon kalôs zên, ton de géronta kalôs katastréphein euḗthēs estin ou mónon dia to tês zōês aspastón, alla kai dia to tēn autēn eînai melétēn toû kalôs zên kai toû kalôs apothnḗiskein. polu de kheírōn kai ho légōn kalon men mē phûnai,
phúnta d’ hópōs ṓkista púlas Aídao perêsai.
[127] ei men gar pepoithōs toûtó phēsin, pôs ouk apérkhetai ek toû zên? en hetoímōi gar autôi toût’ estín, eíper ên bebouleménon autôi bebaíōs; ei de mōkṓmenos, mátaios en toîs ouk epidekhoménois.

Mnēmoneutéon de hōs to méllon oúte pántōs oukh hēméteron, hína mḗte pántōs prosménōmen hōs esómenon mḗte apelpízōmen hōs pántōs ouk esómenon.

Analogistéon de hōs tôn epithumiôn hai mén eisi phusikaí, hai de kenaí, kai tôn phusikôn hai men anankaîai, hai de phusikai mónon; tôn de anankaíōn hai men pros eudaimonían eisin anankaîai, hai de pros tēn toû sṓmatos [128] aokhlēsían, hai de pros auto to zên. toútōn gar aplanēs theōría pâsan haíresin kai phugēn epanágein oîden epi tēn toû sṓmatos hugíeian kai tēn psukhēs ataraxían, epei toûto toû makaríōs zên esti télos. toútou gar khárin pánta práttomen, hópōs mḗte algômen mḗte tarbômen. hótan de hápax toûto peri hēmâs génētai, lúetai pâs ho tês psukhês kheimṓn, ouk ékhontos toû zṓiou badízein hōs pros endéon ti kai zēteîn héteron hôi to tês psukhês kai toû sṓmatos agathon sumplērṓsetai. tote gar hēdonês khreían ékhomen, hótan ek toû mē pareînai tēn hēdonēn algômen; [hṓtan de mē algômen] oukéti tês hēdonês deómetha.

Kai dia toûto tēn hēdonēn arkhēn kai télos légomen eînai toû makaríōs [129] zên. taútēn gar agathon prôton kai sungenikon égnōmen, kai apo taútēs katarkhómetha pásēs hairéseōs kai phugês, kai epi taútēn katantômen hōs kanóni tôi páthei pân agathon krínontes. Kai epei prôton agathon toûto kai súmphuton, dia toûto kai ou pâsan hēdonēn hairoúmetha, all’ éstin hóte pollas hēdonas huperbaínomen, hótan pleîon hēmîn to duskheres ek toútōn hépētai; kai pollas algēdónas hēdonôn kreíttous nomízomen, epeidan meízōn hēmîn hēdonē parakolouthêi polun khrónon hupomeínasi tas algēdónas. pâsa oûn hēdonē dia to phúsin ékhein oikeían agathón, ou pâsa méntoi hairetḗ; katháper kai algēdōn [130] pâsa kakón, ou pâsa de aei pheuktē pephukuîa. têi méntoi summetrḗsei kai sumpheróntōn kai asumphórōn blépsei taûta pánta krínein kathḗkei. khrṓmetha gar tôi men agathôi katá tinas khrónous hōs kakôi, tôi de kakôi toúmpalin hōs agathôi.

Kai tēn autárkeian de agathon mega nomízomen, oukh hína pantōs toîs olígois khrṓmetha, all’ hópōs ean mē ékhōmen ta pollá, toîs olígois arkhṓmetha, pepeisménoi gnēsíōs hóti hḗdista poluteleías apolaúousin hoi hḗkista taútēs deómenoi, kai hóti to men phusikon pân eupóristón esti, to de kenon duspóriston. hoí te litoi khuloi ísēn poluteleî diaítêi tēn hēdonēn [131] epiphérousin, hótan hápan to algoûn kat’ éndeian ekhairethêi; kai mâza kai húdōr tēn akrotátēn apodídōsin hēdonḗn, epeidan endéōn tis auta prosenénkētai. to sunethízein oûn en taîs haplaîs kai ou polutelési diaítais kai hugieías esti sumplērōtikon kai pros tas anankaías toû bíou khrḗseis áoknon poieî ton ánthrōpon kai toîs polutelésin ek dialeimmátōn proserkhoménous kreîtton hēmâs diatíthēsi kai pros tēn túkhēn aphóbous paraskeuázei.

Hótan oûn légōmen hēdonēn télos hupárkhein, ou tas tôn asṓtōn hēdonas kai tas en apolaúsei keiménas légomen, hṓs tines agnooûntes kai oukh homologoûntes ē kakōs ekdekhómenoi nomízousin, alla to mḗte algeîn kata sôma [132] mḗte taráttesthai kata psukhḗn. ou gar pótoi kai kômoi suneípontes oud’ apolaúseis paidōn kai gunaikôn oud’ ikhthúōn kai tôn állōn hósa phérei polutelēs trápeza, ton hēdun gennâi bíon, alla nḗpōn logismos kai tas aitías exereunôn pásēs hairéseōs kai phugês kai tas dóxas exelaúnōn, ex hôn pleîstos tas psukhas katalambánei thórubos.

Toútōn de pantōn arkhē kai to mégiston agathon phrónēsis. dio kai philosophías timiṓteron hupárkhei phrónēsis, ex hês ahi loipai pâsai pephúkasin aretaí, didáskousa hōs ouk éstin hēdéōs zên áneu toû phronímōs kai kalôs kai dikaíōs, áneu toû hēdéōs. sumpephúkasi gar ahi aretai tôi zên hēdéōs kai to zên hēdéōs toútōn estin akhṓriston.

[133] Epei tína nomízeis eînai xreíttona toû kai peri theôn hósia doxázontos kai peri thanátou dia pantos haphóbōs ékhontos kai to tês phúseōs epilelogisménou télos, kai to men tôn agathôn péras hōs éstin eusumplḗrōtón te kai eupóriston dialambánontos, to de tôn kakôn hōs ē khónous ē pónous ékhei brakheîs, tēn de hupó tinōn despótin eisagoménēn pántōn engelôntos , ha de apo túkhēs, ha de par’ hēmâs, dia to tēn men anánkēn anupeúthunon eînai, tēn de túkhēn ástaton horân, to de par’ hēmâs adéspoton, hôi kai to mempton [134] kai to enantíon parakoloutheîn (epei kreîtton ên tôi peri theôn múthōi katakoloutheîn ē têi tôn phusikôn ehimarménêi douleúein; ho men gar elpída paraitḗseōs hupográphei theôn dia timês, hē de aparaítēton ékhei tēn anánkēn), tēn de túkhēn oúte theón, hōs ohi polloí nomízousin, hupolambánontos (outhen gar atáktōs theôi práttetai) oúte abébaion aitían ([ouk] oíetai men gar agathon ē kakon ek taútēs pros to makaríōs zên anthrṓpois dídosthai, arkhas méntoi megálōn agathôn ē kakôn hupo taútēs khorēgeîsthai), [135] kreîtton eînai nomízontos eulogistōs atukheîn ē alogistōs eutukheîn; béltion gar en taîs práxesi to palôs krithen orthōthênai dia taútēn.

Taûta oûn kai ta toùtois sungenô meléta pros seauton hēméras kai nuktos [kai] pros ton hómoion seautôi, kai oudépote oúth’ húpar oút’ ónar diatarakhthḗsēi, zḗseis de hōs theos en anthrṓpois. outhen gar éoike thnētôi zṓiōi zôn ánthrōpos en athanátois agathoîs.

FINIS

123 - 7 <hoi> supplevit Gassendi
124 - 3 post blábai scholia : aítiai toîs kakoîs - 9 ápeiron Aldobrandini: áponon libri
126 - 1 <ho de sophos> ins. ex Usener
127 - 4 <oúte pántōs hēméteron> epitome Laertii Diogenis in codice Vaticano gr. 96: om. libri.
128 - 3 tēn tês psukhês ataraxían cod. B. post correctionem: tēn ataraxían B (ante corr.): tēn toû sṓmatos ataraxían libr. cett.
128 - 8 <hótan de mē algômen> supplevit Gassendi
130 - 6 arkhṓmetha Cobet: khrṓmetha libri
131 - 5 proserkhoménous cod. Vaticanus gr. 96 ut Usener: proserkhoménois pler. libri - 8 tas en apol. cod. Vaticanus r. 96: tas tôn en apol. libri
132 - 7 philosophías cod. P post correctionem: philosophía cod. P (ante corr.) B Co - 9 <oude phronímōs kai kalôs kai dikaíōs> suppl. Estienne.
133 - 5 engelôntos Bailey: angéllontos: angelōntos: angelôntos libri <ehimarménēn … légontos> exemplii causa suppl. Usener
134 - 4 hupolambánontos Usener: hupolambánōn libri - 5 <ouk> ins. Usener
135 -1 nomízontos Usener: nomízein: nomízōn libri - 3 seauton Gassendi: heauton libri - 4 <kai> ins. Diano - 5 zḗseis cod. B post correctionem ut Usener: zḗsēi cod. P post corr.

E não é que existe?

Há épocas em que uso aqueles dilatores nasais para dormir de noite. Tenho uma longa história de respirador bucal; durante o dia eu respiro pelo nariz normalmente, tendendo a voltar a respirar pela boca, dependendo da posição. De noite, porém, não tem jeito: eu respiro pela boca.

Dilatadores nasais não são, porém, baratos. Não são exatamente caros, custando aproximadamente uns R$ 1,50 cada um; a tendência de desconsiderar, contudo, um pedacinho de adesivo com plástico que parece não fazer muita coisa é maior do que os benefícios - confirmados desde a primeira noite de sono - do mesmo. Imagino uma bola, como a bola dos adesivos de entrada na Pinacoteca, formada pelos meus dilatadores nasais, e não desejo que esta seja a minha única contribuição ao planeta.

A minha mentalidade de universitário (almoço a R$ 1,50, por exemplo, do qual comi apenas duas vezes em oito anos) imagina uma forma de poder reaproveitar os dilatadores nasais. Pensa em várias coisas: em argolinhas de metal, ou plástico; em aramezinhos de garrafa de espumante, delicadamente torneados, para adaptar-se à cavidade nasal e proporcionar um sono delicioso. Penso se os povos antigos não tiveram esta idéia antes: uma armação de bambu para os japoneses? Uma breve olhada na internet dissipa todas as fantasias de criatividade e nos mostra que praticamente tudo que se possa fazer já existe.

Última chance, então: bem que eu poderia reaproveitar os dilatadores, usando um pouco de cola, virando do outro lado para não "cansar" o plastiquinho; não sei. Parece que não vai dar certo, além de ser uma coisa meio porca. Melhor pagar de uma vez e economizar naquelas aquisições baratinhas da livraria local.

Do desejo

Poste em construção permanente, a ser utilizado para milhares de coisas ainda incertas e não-sabidas; quem quiser colaborar com algo, é só entrar em contato com um grato autor.

(Olá! Eu sou um interlúdio que está, para o seu prazer e conforto, no lugar de um longo e entendiante monólogo sobre a etimologia da palavra desejo & cognatos.

O autor esboça, com muitas palavras, que desejo/deseo/désir/desire vem do latim desiderare, que embora de etimologia incerta talvez venha de "esperando vir das estrelas" (de sidero). A palavra alemã usada para desejo, wunsch, também tem a conotação de "voto" - fazemos votos/ we wish you... - e, como wish, provavelmente vem da raiz do PIE (Proto Indo-Europeu) *wen-/*wun-/*won, raiz esta com significado de "ir atrás, querer, desejar, estar satisfeito", e que é a mesma raiz de vênus, venéreo, venerar, venerável (arrá!): sânscrito vanas- "desejo," vanati "deseja, ama, ganha". O asterisco antes da raiz significa que ela não é comprovada, que não há registro dela - justamente pelo PIE ser uma tentativa de reconstrução...

Logo após, o autor copia descaradamente do dicionário etimólogico que está consultando, para escrever que uma outra família de quereres e desejares também vem de uma raiz do PIE, *wel-.*wol-, "ser agradável, desejável"; inglês will, alemão wollen, francês vouloir, grego elpis, latim volo, velle (voluntas, velleitas, voluptas), algumas coisinhas do sânscrito como vrnoti, "escolhe, prefere", e derivados.

Outra raiz do PIE, *gher-, "desejar, querer", vai viajar muito e virar o khrestai - "faltar, querer" - grego, que passa pelo kharisma, e que vira hortatório, além de peripatetices na Índia.

Outras palavrinhas gregas para desejo e correlatos: thelô e thelema, epithumia - "apetite, desejo, vontade" -, orexis - "fome, desejo, vontade, yearning (adoro esta palavra)" -, boulêsis - "desejo, vontade, deliberação", e a mais interessante, thumos, que serviu para batizar um órgão corporal útil somente para a pirralhada e que dizia-se ser a sede da alma, da vontade, e consequentemente ficou com o significado de "paixão".)

Este é outro dicionário, em uma versão papélica, que provoca muitos momentos de diversão e angústia. Vamos sinonimizar!

desejo: 1. alvitre: arbítrio, cabeça, capricho, determinação, escolha, fantasia, gosto, juízo, (bel-) prazer, predileção, preferência, querer, vontade. 2. ambição: apego, avidez, cobiça, cupidez, febre, fome, gana, sede. 3. anseio: anelo, pretensão, propósito. 4. apetência: ânsia, apetite, fome, vontade. 5. arroubo: arrebatamento, disposição, elã, entusiasmo, exaltação, fervor, ímpeto, impulso, interesse, rasgo, rompante. 6. aspiração: anseio, impulso, querer, vontade. 7. cisma: capricho, devaneio, extravagância, inspiração, obstinação, sonho, teimosia, veleidade, veneta. 8. lubricidade: apetite (sexual), atração, excitação, lascívia, tentação, volúpia.

À procura do desejo: alguns trechinhos...

...e o que mais vier a ser adicionado no futuro.

Analogistéon de hōs tôn epithumiôn hai mén eisi phusikaí, hai de kenaí, kai tôn phusikôn hai men anankaîai, hai de phusikai mónon; tôn de anankaíōn hai men pros eudaimonían eisin anankaîai, hai de pros tēn toû sṓmatos aokhlēsían, hai de pros auto to zên.

Da mesma forma é preciso considerar que, entre os desejos, uns são naturais, os outros vãos/vazios (kenos), e que entre os naturais uns são necessários, e os outros somente naturais. Entre os [desejos] necessários uns são para a felicidade (eudaimonia), outros para a ausência de sofrimento do corpo, e outros para a própria vida.

Epicuro, Carta a Meneceu, 128.

Ver Platão (Rep. 8.558d) para distinção entre desejos (epithumias) necessários (anankaious, também “de acordo com a natureza - physis, 8.558e) e não-necessários.

“die Einheit des Selbsbewusstsein mit sich selbst, zu seinem Wesen; diese muss ihm wesentlich werden; das heisst, es ist Begierde überhaupt”

"... quer dizer, consciência de si é o estado de desejo (Begierde), em geral."

Hegel, Fenomenologia do Espírito, parte IV.

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.

Minha transliteração do grego antigo

(não uma postagem em si; serve somente como referência para notas futuras)

Macron para indicar as vogais longas; sem micron.

O espírito fraco (psilé) não é indicado; somente o espírito forte (daseîa), que toma a forma de um “h” antes de uma vogal.

O acento grave (bareîa) não é indicado; somente o acento agudo (oxeîa) é indicado.

Vogais acentuadas com circunflexo indicam perispōménē (que é a subida e a queda do tom na mesma vogal, que naturalmente é sempre longa).

O iota subscrito (hypogegramménē) toma a forma de um “i” escrito depois da vogal, que naturalmente é sempre longa.

Algumas letras e conjunções: χ = kh; υ = u (ou y); ζ = z (pronúncia entre zd e dz); ξ = x (pronúncia ks), γξ = nx; γγ = ng, γκ = nk.

sábado, 20 de junho de 2009


(Möbius Strip II, 1963, MC Escher)

P: Por que a galinha atravessou a faixa de Möbius?
R: Para chegar ao mesmo lado.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Lições de um sesshin


Há um boi:
ele é branco,
pasta acima,
dorme embaixo.

Ou é o contrário?

[Para aqueles que se perguntam WTF é um sesshin, aqui vai uma breve descrição. As belas fotos de Michel Seikan aqui.]

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Burnout? Esqueça: o maior problema do ambiente corporativo é o boreout

[título da postagem inspirado – ou plagiado, as you like it – em/de um artigo do Times, assim como o testezinho abaixo também é de lá]

Burnout, aquela crise de estresse prolongado - que muitas vezes não parece estresse - é um luxo de gente que realmente se estalfa no trabalho e na vida. O resto se vira com o boreout, e você tem a típica vida de escritório.

O boreout é revolucionário, pois ele desafia a concepção atual de "horas de trabalho" pagas. Fulano tem um contrato de 8 horas de trabalho por dia - ou melhor, de comparecimento ao ambiente de trabalho. Se ele vai trabalhar ou não acabou virando tarefa do gerente - que nesse momento pode estar conversando com as colaboradoras sobre a relação homens e mulheres e príncipes encantados. Afinal, é tarde de sexta-feira.

Gente que enrola para fazer qualquer atividade, gente que finge fazer hora extra, ou almoçar no escritório, para parecer estar mais tempo no trabalho, e gente que fica falando no telefone com voz séria para fazer parecer que é um assunto profissional - em vez de ficar olhando para a parede, olha para o digg.com, ou fica horas planejando aquela festa do departamento.

Principalmente no trabalho de escritório é muito, mas muito mais fácil boreoutizar: as novas tecnologias facilitam horrendamente. Existem até páginas de relacionamento com uma versão discreta, pronta para ser usada na fuça de seus coworkers, e softwares que proporcionam uma saída rápida de qualquer programa em andamento, ou que proporcionam fachadas na tela do computador.

Eu, pessoalmente, detesto a história de "tantas horas". Acho uma perda de tempo. Gostaria de poder trabalhar por trabalho concluído: você tem tantas tarefas, faça a sua agenda e entregue o necessário no tempo previsto.

Como sei, contudo, que não arranjamos forma melhor de organizar o trabalho atual - principalmente o trabalho em equipe -, posso até aturar. Se não tenho o que fazer, contudo, fico nervoso, pensando no que poderia estar fazendo por aí - lendo Allende, comendo, jogando Armada 2, fazendo zazen, correndo - e a falta do que fazer é mais angustiante do que muito do que fazer.

Boreout, contudo, não é somente um funcionário matar trabalho: boreout é uma analogia de uma "síndrome" que pode ocorrer, nesta situação. A pessoa sente-se cansada e deprimida, dependendo do caso.

Eis um pequeno questionário para verificar a sua boreoutidade.
1 você faz tarefas pessoas no trabalho?
2 Você se sente desmotivado ou entediado?
3 Você finge, algumas vezes, estar ocupado?
4 Você se sente cansado e apático depois de um dia de trabalho, mesmo não tendo se estressado no escritório?
5 Você está infeliz com o seu trabalho?
6 Você acha o seu trabalho sem sentido?
7 Você poderia terminar as suas tarefas mais rápido do que você faz atualmente?
8 Você está com medo de trocar de emprego por que você pode ter um corte de salário?
9 Você manda e-mails pessoais para seus colegas durante o horário de trabalho?
10 Você tem pouco, ou nenhum, interesse em seu trabalho?
(imagine quanto da bloguice do mundo é escrita em um período de boreout...)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Um Ano Vivendo Biblicamente

A. J. Jacobs, depois de ler toda a Enciclopédia Britânica, outsourcear o seu trabalho para a Índia e outros experimentos, decidiu levar os preceitos bíblicos ao pé da letra durante um ano.

O resultado é um livro, uma barba, uma serie de dicas interessantes e uma TED talk. Dêem uma olhada tanto no site quanto na fala deste jornalista de sorriso muito simpático.

Com uma só palavra

Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em conseqüência da instabilidade da posição em que esteja. Quem se examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora um aspecto, ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero, sábio, ignorante, liberal, avarento, pródigo, assim me vejo de acordo com cada mudança que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. Não posso aplicar a mim mesmo um juízo completo, simples, sólido, sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra.

Non seulement le vent des accidens me remue selon son inclination, mais en outre je me remue et trouble moy mesme par l'instabilité de ma posture; et qui y regarde primement, ne se trouve guere deux fois en mesme estat. Je donne à mon ame tantost un visage, tantost un autre, selon le costé où je la couche. Si je parle diversement de moy, c'est que je me regarde diversement. Toutes les contrarietez s'y trouvent selon quelque tour et en quelque façon. Honteux, insolent; chaste, luxurieux; bavard, taciturne; laborieux, delicat; ingenieux, hebeté; chagrin, debonaire; menteur, veritable; sçavant, ignorant, et liberal, et avare, et prodigue, tout cela, je le vois en moy aucunement, selon que je me vire; et quiconque s'estudie bien attentifvement trouve en soy, voire et en son jugement mesme, cette volubilité et discordance. Je n'ay rien à dire de moy, entierement, simplement, et solidement, sans confusion et sans meslange, ny en un mot.

Michel de Montaigne, "De l'Inconstance de nos Actions", Essais.
A tradução é do excelente livro de Eduardo Giannetti, Auto-engano, fonte de borbulhantes citações diversas.

domingo, 7 de junho de 2009

"Nadador"

(Michael Phelps no começo de Beijing 2008 @ Guardian.co.uk)

O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, passáro da água!

É a tua fina, ágil cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!

É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda

E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento...

Cecília Meireles
Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século. Objetiva: Rio de Janeiro, 2001.

sábado, 6 de junho de 2009

Tédio


Nada é mais insuportável ao homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem atividades, sem distrações, sem aplicações. Ele então sente seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Sem se controlar ele deixa sair do fundo da sua alma o tédio, o negrume, a tristeza, o desapontamento, o rancor, o desespero.

Rien n'est si insupportable à l'homme que d'être dans un plein repos, sans passions, sans affaire, sans divertissement, sans application. Il sent alors son néant, son abandon, son insuffisance, sa dépendance, son impuissance, son vide. Incontinent il sortira du fond de son âme l'ennui, la noirceur, la tristesse, le chagrin, le dépit, le désespoir.


Quando fiquei, uma vez, a considerar as diversas agitações dos homens, e os perigos e sofrimentos a que se expõem, na corte, na guerra, onde nascem tantas brigas, paixões, empresas difíceis e frequentemente ruins, etc., eu descobri que todo o mal dos homens vem de uma só coisa, que é a de não saber ficar em repouso em um quarto.

Quand je m’y suis mis quelquefois, à considérer les diverses agitations des hommes et les périls et les peines où ils s’exposent, dans la cour, dans la guerre, d’où naissent tant de querelles, de passions, d’entreprises hardies et souvent mauvaises, etc., j’ai découvert que tout le malheur des hommes vient d’une seule chose, qui est de ne savoir pas demeurer en repos dans une chambre.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Mãos frias, coração quente?


Diz o ditado popular, e com um pouco de razão: mãos (e pés) frios são, muitas vezes, uma forma de concentrar o calor na parte mais importante do corpo – vísceras e cérebro.

Durante um tempo cheguei a pensar que era um descendente dos reptilianos de Orion, afinal estou sempre com mãos e pés gelados; entrei, porém, em contato com eles através do meu rádio portátil de ondas longas – através um pequeno paradoxo temporal que envolve a criação do universo, que deixo para outra hora -, para matar a charada, e desconsiderei a hipótese depois de descobrir que geléia de framboesa é altamente tóxica para eles.

Quer dizer, não estou sempre com pés e mãos gelados; isso acontece somente no inverno, em climas frios, e naquele vento terrível que sopra do sul. Qualquer arzinho frio que sopra, e eu fico todo encarangado. As mãos ficam frias e lívidas, com alguns pontinhos arroxeados. Os pés parecem ser perfurados com facas. E posso até estar suando – pouco – debaixo das roupas: as extremidades continuam frias.

A minha tendência hipocondríaca é de começar a googlear a descobrir que existe uma doença, chamada doença de Raynaud, em que justamente isto acontece: a circulação de sangue para as extremidades diminui drasticamente, a partir de fatores como frio ou estresse (ou ansiedade), deixando os dedos brancos, depois azulados (por falta de oxigênio) e depois avermelhados novamente, quando o sangue volta. Coisas do sistema nervoso autônomo.

Olhando as fotos googlicas, porém, vejo que minhas mãos e pés não se parecem muito com aquilo, então me dou o benefício da duvida e fico com fenômenos de Raynaud eventuais – ou simplesmente uma mão fria com mais freqüência. O coração continua quente, e é isto que importa.

Ou não: um experimento que virou hype, recentemente, nos mostra que tendemos a ser mais generosos quando as nossas mãos estão quentes, e tendemos a ser mais generosos com outrem quando as mãos de fulano estão mais quentes. Todo mundo sente uma espécie de aversão, mesmo que leve, por um aperto de mão frio – e se for úmido e mole, temos a pior das impressões antes mesmo de conhecer a pessoa. Eu, pessoalmente, sempre fico receoso de apertar a mão de uma pessoa quando ela está muito fria – o que, como disse anteriormente, é bem freqüente nas temperaturas baixas. Foi mais de uma vez em que botei as mãos nos bolsos, ou segurei uma caneca de chá ou café, ou mesmo esfreguei rapidamente as mãos nas calças, ao saber que teria de apertar a mão de alguém. Afinal, a primeira impressão é a que fica.

Tem dias que desejaria cumprimentar as pessoas somente com um aceno, mesmo gostando de tocar um pouco nelas.

Segurar uma xícara de chá ou café é, no mínimo, uma solução irônica para resolver o problema das mãos frias. Por quê?

Abaixo vão umas diquinhas que coligi nos últimos tempos, e outras tantas que tento utilizar no cotidiano.

A primeira (e que meu Jejujinho me ajude) é evitar a cafeína – presente obviamente no café e em certos chás. A cafeína pode ser um bom broncodilatador, mas também é um bom vasoconstritor, como muitos estimulantes. Do mesmo modo, talvez tomar Viagra esquente as mãos; alguém descubra e me envie.

O mesmo vale para o cigarro: evite pelas mesmas razoes do café.

O velho chá de gengibre – e o gengibre mesmo, em suas várias formas – dá um calorão muito bom. Gingko biloba, aquele que aumenta o fluxo de sangue no cérebro e ajuda na memória, também pode ajudar. Cuidado com as interações com outros medicamentos.

Alimentação com boas quantidades de ômega 3 e fazer exercícios é bom, mas o engraçado é que exercício demais tende a fazer com que o sangue vá para os órgãos vitais, fora do tempo do exercício, do que exercício moderado.

Siga o conselho da mamãe e coma bem e com freqüência.

E o bom e velho vestuário. Como diz a Sonia, bote uma faixa de um tecido quentinho nos quadris que espanta qualquer friagem. Como o seu problema, amigo, não é no centro, mas nas pontas, apele para as luvas e meias. Se você é como eu e sente que a luva somente embala uma mão já fria, saiba que em algum lugar do mundo existem luvas hi-tech (fibras de prata e o quatrilho) que prometem reverter a entropia e trazer o calor de volta – mesmo que isso também envolva um certo paradoxo temporal e quebras das leis da física.

Mas você quer, na verdade, um consolo? Experimentos mostram que os ratinhos frios vivem mais que os ratinhos quentes. Isto, porém, fica para a próxima.

domingo, 24 de maio de 2009

As seen on TV


- MacGyver!

- Sim, senhora.

- O menino está com sede, e não temos laranjas. Temos somente um elástico, três gatinhos, um chiclete que o menino está a mascar, uma caixa de limões, um pote de fermento e alguns clipes de papel.

BUM!

Audaciosamente indo onde nenhuma ameixeira...

Começo meu dia com aproximadamente 100 miligramas de cafeína. Todos os dias. Esta é uma rotina que estabeleci desde os meus 14, 15 anos. Quando paro de tomar café tenho os sintomas de abstinência de cafeína. Tento sempre não exagerar muito, e ao mesmo tempo não parar de tomar café.

Já tive, muitos anos atrás, uma suave intoxicação por cafeína, em uma festa inesquecível. Era uma casa muito engraçada, com paredes de pedra e madeira, as últimas forradas com o verso de caixas de leite, como escamas, que brilhavam suavemente na luz colorida. Era de madrugada, a geada cobria o quintal da casa, uma vaca mugia ao longe e chega um salva-vidas moreno; ele cozinha uma canjica, para nosso maravilhamento, e todos comemos juntos. Bem servidos de café. Meu coração começou a bater muito rápido; eu suava frio. Havia tomado no mínimo umas quatro xícaras boazudas de café. Uma parte de mim olhava para tudo aquilo à distância.

Antes disso, porém, eu era uma criança. Não podia ser chamado de hiperativo, mas quando se tem um quintal imenso – na verdade, um bairro todo – para explorar e correr e bicicletar, até mesmo os mais introspectivos lascam o joelho no muro, ao seu próprio modo. Bem, a introspecção veio mais tarde.

Dei-me conta, agora, que eu era o líder do grupelho da vizinhança – que envolvia uma menina da minha mesma exata idade – nasceu no mesmo dia e ano -, os dois irmãos dela, pouco menores do que eu, a minha irmã e a sua amiga da casa do outro lado. Ocupava o lugar do capitão na nossa “nave”, a ameixeira no fundo do quintal: três galhos que se entrelaçavam e providenciavam um assento natural, no ponto acessível mais alto, onde ainda podíamos nos equilibrar. Quem decidia quem era o que, e onde, era eu: costumava mandar minha irmã para uma espécie de “sala de processamento de lixo e cozinha”, o primeiro andar – o primeiro galho horizontal -, de baixo para cima, perto da escotilha de entrada. Mais tarde ela foi promovida para a navegação, se não me engano.

Fiz, rapidinho no Paint, já que alguém aqui em casa andou desinstalando o meu Corel, um plano vertical da nossa nave.

1 - observação
2 - ponte de comando e batalha; arsenal
3 - cadeira do capitão
4 - comunicações; navegação
5 - sala dos motores; engenharia; arsenal (área pouco utilizada)
6 - armazenamento; cozinha; lavanderia
7 - saída de emergência
8 - escotilha

Estes são nomes que arranjei atualmente, embora na prática as coisas acabassem se arranjando desta forma. A área riscada são as “escadas”, que por acaso coincidem com o tronco da ameixeira.

Não consigo mais imaginar o que fazíamos, todos os dias, durante horas em cima daquela arvore.

Houve tentativas de usurpar o meu lugar, que foram resolvidas, provavelmente na base de pouca diplomacia e muita gritaria. Eu nunca fui de brigar... a não ser liderando as expedições punitivas contra B. R., o menino da “outra rua”, que eu tive o prazer de sujar com muita bosta de vaca e passar por cima do seu dedão com a bicicleta pesada da minha mãe, entre outras coisas. Passei tardes inteiras pensando em estratégias: como faze-lo passar por cima da minha armadilha de abacate?

No meio disto tudo eu tinha ataques de bronquite. É o que a minha mãe diz hoje, mas talvez fosse bronquiolite. Asma não, a não ser que tivesse ataques de asma até hoje. Dos cinco aos oito anos eu tinha estes pequenos ataques, seja por correr muito, ou quando ficava “nervoso” - tive de interrogar a minha mãe, pois não me lembrava de muita coisa. Tenho lembranças, isso sim, do meu encontro com o nebulizador. Não era nada cotidiano: esporadicamente lá vinha o nebulizador, com Berotec e Atrovent. Lembro do verde-e-amarelo da caixinha. O vapor se formava e dançavam as gotinhas dentro do tubinho plástico, antes de ir para a máscara que eu segurava disciplinadamente na boca, sentindo o leve gosto salgado.

Então tiveram a idéia: vamos dar café para o menino. Cafeína = (metil)xantina, xantina = broncodilatador. Nada a se estranhar, sendo o filho de uma farmacêutica e tendo como pai quem viveu o costume antigo, do interior do ES, de passar o “café forte” (a primeira passada de água pelo coador de pano) e o “café fraco” (a segunda passada, para as crianças). Todos os dias eu tomava café, com um pouco de leite, e um golinho de café puro.

Meu pai diz que o café me “curou” da bronquite. Fui promovido para o café forte desde criança, e até hoje estranho quando alguém exclama “não dá café pro menino!”.

sábado, 23 de maio de 2009

Musings make the people come together

Virtual heart pumps up the realism

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Anotação Realmente Aleatória: Nunca demore mais de 32 segundos para certificar-se de que você ainda está vivo.

***

Na madrugada do meu nascimento a lua estava fininha, começando a crescer. Eu acho.

***

A vida fica muito mais interessante e divertida quando você descobre que a) as pessoas nem sempre fazem aquilo que você imagina que elas façam, e b) as pessoas fazem aquilo que você faz e imagina que elas não façam - como dançar na sala sozinho no meio da tarde.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Cesta de promoções em supermercado ilhéu

... ou a volta do cabo USB.

Aliás, não é a primeira vez que encontro bebidas em posições diferentes dentro de um super. Semanas atrás vi, atrás das alfaces e rúculas, uma garrafa de Stolichnaya – ingrediente indispensável do Bolli Stolli de Eddy e Patsy, mind you – gelando.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Eat a Peach

Nada melhor do que chegar em casa tarde da noite, com fome, e esquentar um prato de parafusos com feijão, cenoura, alface – tudo juntinho-, um pouco de temperinho verde e lasquinhas de gengibre fresco, pra espantar o frio e enxotar o demônio que se apossou dos meus pulmões e garganta nos últimos dias.

(Bem, existem coisas melhores, mas me sinto muito pouco à vontade, neste blogue sem restrição de idade, para dedilhar meu gosto suspeito por gummi bears.)

E depois é uma ventania só. Como bom caucasiano sou um pouco sensível ao feijão preto – isso é verdade, dado estatístico comprovável. Mais um dos itens “Lucas queria ser negro ou mulato ou índio ou caboclo”.

***

João e eu fomos no super hoje e, antes de pegar a cerveja, passamos pelo estande de frutas, na promoção de quarta-feira. A maçã básica de cada dia. Banana, talvez, se não estivessem tão verdes, como sempre – banana verde, pra mim, é como comer isopor. Gosto daquelas que estão ficando pretas, quase apodrecendo; o povo de casa me recrimina por isto. Será uma perversão? Não sei.

Ele me aponta um pêssego muito bonito. Olhei. Cheirei. Tive um arrepio que contraiu até o cu. Desculpem pelo vocabulário tosco – em Portugal não é tosco, mas não estamos em Portugal. Lembrança das aulas de ashtanga-yoga em que, delicadamente, a instrutora pedia para contrair “o esfíncter”(qual, o piloro?), junto com a respiração.

Fruta é uma coisa muito doida, ruminávamos depois, sentados em um canteirinho qualquer no meio de uma rua. Atraente em todos os sentidos possíveis, e serve somente para isto: atrair. A própria fruta não é de nenhuma serventia para a semente, lá dentro, que dependendo do caso dispõe de mais ou menos substancia – na forma de castanha, noz, ou similar – para se nutrir. A carne da fruta é totalmente dada para o mundo, um luxo natural, uma transformista vegetal. Serve para que a comamos e sejamos bobos o suficiente para espalhar um pouco mais a semente, seja retirando a fruta da arvore ou engolindo aqueles caroços, pequenos ou enormes, de tão afobados em engolir a polpa sumarenta.

A melancia é a epítome da segunda estratégia. Só separo as sementes de melancia, até hoje, assombrado pela profecia materna: iriam nascer “pés” de melancia pelos ouvidos e nariz, se eu as engolisse.

E como cheira, uma fruta. Como cheira. Aprendi com meu pai a escolher fruta pelo cheiro, primeiro, e depois pela textura e cor.

Imagine você, numa época não muito distante, em que os cheiros bons não eram produzidos por grandes companhias cosméticas; em que as cores fortes e vibrantes não estavam disponíveis em galões de 20 litros. Imagine você indo atrás de comida; carne ainda é artigo de trabalho de grupo e muito suor e sangue, e você não consegue mais viver só de mato, como seus antigos primos orangotangos. E eis então o fruto. Um pêssego. Perdido e solitário, como você. Que fragrância suave, e ao mesmo tempo tão chamativa como o canto das mais espertas sereias! Que cor luminosa e contrastante com o verde e marrom dos arredores, e ao mesmo tempo tão natural que assim o seja, apontando para si mesmo, dizendo “aqui estou eu!”. Que textura macia e delicada, que suave penugem, que delícia pressentir o choque dos dentes rompendo a fina película protetora e afogando-se no gole do sumo que sangra...

Enfim, a pessoa come o pêssego. Romantizo um pouco, pois senão a história pararia por aqui, e eu não quero que assim seja, pois o quilo daquele pêssego era 28 reais e 80 centavos. Um pêssego nos custou quase quatro reais.

Estivéssemos cada um de nós sozinho em sua visita ranchal, jamais compraríamos o pêssego. Afinal é um luxo, caro, passando longe dos nossos radares antenados com o cálculo premente, custo x benefício. Mas estávamos em dois e, depois do arrepio esfincterial e espinhal, nada mais havia a ser feito a não ser levar um daqueles pêssegos californianos e dividi-lo. Sentamo-nos no meio-fio de um canteiro, nossas sacolas arriadas, e comemos. The rest is silence. (we starve, look at one another short of breath...)

Independente do que se come, comer junto de um amigo é muito mais nutritivo. Se se trata de pêssegos californianos, une-se o útil ao agradável, junto com o inevitável kairós - e o irrepetível.

O cheiro deles ainda está na minha mão, depois de uma hora e meia, e de fatias de gengibre. Mais acima, no pulso, pulsam as notas cítricas e de madeira de uma amostra de um novo perfume, que surrupiei de uma amiga. Talvez um dia, por descuido, ainda temperarei meu feijão com Armani ou Fahrenheit, pois guardo os meus perfumes dentro da geladeira, abaixo dos ovos caipiras.

Já fui vegano, e os animais que me perdoem, mas perfume é fundamental.