terça-feira, 9 de maio de 2006

Solaris

Solaris. Planeta. Planeta? Talvez um organismo. Um planeta coberto por um organismo; um único organismo talvez, habitando um planeta.

Um século de pesquisas, e nenhuma resposta.

Sabe-se de suas complexas estruturas, de suas revoltas manifestações mutantes, arquitetura titânica escalofobética em compostos orgânicos. Parece intencional. Parece que percebe a pequena estação flutuante, perto de sua superfície.

Um século de investigação científica, de complexa catalogação, de ansiosa especulação metafísica; um século de estudos solarianos, de volumosos volumes encardenados em couro verde, de volumosos volumes de índices aos volumosos volumes, arranjados em ordem alfabética em uma estante em órbita.

Até agora, o nosso único contato, e ainda não se sabe se estamos a contatar o nosso único contato, organismo talvez, mostruoso, uma camada de plasma, talvez pensante.
Uma pequena estação em órbita, um século de pesquisa. Um iogue cósmico? Uma inteligência planetária?

Um século de contato frustrado, um século de catalogação do que talvez possa ser inteligência - a sublime simetria matemática de suas catedrais de esponja, efêmeras! - do que talvez possam ser causalidades desconhecidas, criatividade entrópica aos engulhos, destinada a ser engolfada, um turbilhão de leis físicas em meio a um espaço apavorantemente vazio.

Kris Kelvin, psicólogo. Dezesseis meses de viagem, desce em uma pequena cápsula até a estação, recepcionado pela voz mecânica do computador. Vem para investigar o comportamento aberrante da equipe a bordo, sua falta de respostas, seu estranho silêncio. Kris deve ser um excelente cientista, para ser recomendado a tal missão; foi estudante e amigo de um dos pesquisadores, que descobre então morto, Gibarian. Suicídio. É o que lhe fala Snow, que Kelvin descobre solitário na cabinde de rádio. Snow olha-o com medo, como se não reconhecesse, como se não soubesse de quem se tratava, como se ignorasse os avisos recentes de sua chegada. Outro, Sartorius, trancado no laboratório, parece ter medo de que Kelvin veja o que, ou quem, está junto dele. O som dos passos é de criança, e a risada também.

Kelvin vê uma negra andando pelos corredores da estação. Desce para ver o corpo de Gibarian no congelador, morto na última noite, e encontra, do lado dele, cadáver, a negra estendida ao seu lado, o corpo morno, como se estivesse dormindo, em meio a um frio enregelante.

Kris começa a perguntar se ele, também, não está enlouquecendo, alucinando, por um motivo qualquer, talvez os gases tóxicos do planeta. Monta um experimento e descobre que, infelizmente, nada daquilo é delírio. E então vai dormir.

"Tirei toda a minha roupa, fiz com ela uma bola que joguei longe e deixei-me cair sobre o travesseiro. Nem mesmo me dei ao trabalho de o inflar convenientemente. Adormeci sem apagar a luz.

Quando tornei a abrir os olhos, tive a impressão de haver cochilado alguns minutos. O quarto estava banhado por uma penumbra vermelha. Fazia menos calor. Eu estava me sentindo bem, deitado, com as cobertas afastadas, inteiramente nu. A cortina só cobria metade da janela e lá, defronte de mim, ao lado da vidraça, iluminada pelo sol vermelho, havia alguém sentado. Reconheci Rheya. Usava um vestido de prata, branco, cujo tecido estava esticado no bico dos seios. Tinha as pernas cruzadas e os pés descalços. Imóvel, com os braços abertos bronzeados até os cotovelos, olhava-me por entre os cílios escuros. Rheya, com seus cabelos pretos penteados para trás. Encarei-a durante muito tempo, calmamente. Meu primeiro pensamento foi reconfortante: eu estava sonhando e consciente disso. Não obstante, preferia que ela sumisse. Fechei os olhos e tratei de varrer aquele sonho. Quando tornei a abri-los, Rheya estava sentada ao meu lado. Tinha os lábios entreabertos, como de costume, num gesto de assoviar. Mas seu olhar era sério. Lembrei-me da véspera, quando fizera aquelas especulações a respeito dos sonhos. Rheya não havia mudado desde o dia em que a vira pela última vez. Tinha, naquela época, dezenove anos. Hoje teria vinte e nove. Mas, evidentemente, os mortos não mudam, ficam eternamente jovens. Ela fixava-me com o olhar espantado de sempre. Tive vontade de atirar alguma coisa sobre ela. No entanto, apesar de se tratar de um sonho, não tive coragem - mesmo em sonho - de maltratar uma morta.

- Coitadinha! Você veio me visitar? - murmurei."

[continua aqui.]

Este livro é fantástico; esta cena é fantástica. O livro não é fantasticamente bem escrito, a história não é fantasticamente bem bolada, nem desenvolvida, mas é exatamente, para mim, este deixar pontas soltas, este silenciar-se, o grande toque de arte do Lem.

É tocante a figura de Kelvin, o cientista, o psicólogo, assumindo paradoxalmente, com uma ansiedade reconfortante, a posição de crédulo, a posição de não querer saber quem Rheya é, quem ela está sendo agora, ao mesmo tempo de achar-se podendo resgatar uma culpa do passado, através do perdão desta Rheya, Rheya esta que pode ser um símile, um fantasma, uma tentativa de comunicação do "oceano"...

É tocante a própria Rheya, ao descobrir da sua morte.

Além do resto do livro, da própria discussão sobre o oceano em si, da história cômica e trágica de mais uma interface entre o mistério da fé e do conhecimento científico, "solarística", de som e fúria, significando nada. Nada?

Este foi o livro que inspirou dois filmes, um do Tarkovsky, de 72, se não me engano, que é mais fiel ao texto do livro, mas é um tanto maçante, e o recente, de 2002, do Soderbergh, com o George Clooney, que é interessante, mas nada demais. A música deste filme, porém, de Cliff Martinez...
eu até queria que este blog tivesse sons, pois a música é fantasticamente... silenciosa. Sem palavras. Leia o livro, e ouça a música.

"O silêncio destes espaços infinitos me apavora". Pascal.

6 comentários:

Robson disse...

Vou procurar fazer isso.

Um abraço.

Vitor disse...

Credo, spam de comentários?

Que coisa grotesca, desumana...

Gostei do post metafísico. Até me fez pensar duas vezes. Mas acho que ainda não gosto do filme. Não parece um livro para ser filmado.

Anônimo disse...

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