sábado, 22 de abril de 2006

Hofmann em Basiléia

É mesmo um mundo de contrastes, contrastes medonhos mesmo.

Isso que o faz tão interessante.

(Sabe aquelas coisas ou pessoas que você não entende, que você não concorda, que parecem indiferentes à tua presença, que chegam e vão e parecem que não se importam se nisto você se fode ou não, e mesmo assim você se preocupa, sofre, geme, se alegra ou chora com estas mesmas coisas ou pessoas? Esse mundo é assim.)

Albert Hofmann é o químico suíço que sintetizou a dietilamida do ácido lisérgico.

Dou o nome completo para não ter de ouvir o comentário que escutei estes dias: "ah, então o ácido lisérgico não é um ácido, de verdade? Pensei que ele fizesse mal por ser um ácido, mesmo" (como, derretendo o cérebro? Deveria ter investigado melhor).

Ele comemorou 100 anos de vida no começo deste ano, e uma conferência foi celebrada na cidade de Basiléia, na Suíça, a cidade onde ele trabalhou nos laboratórios da Sandoz durante muito tempo.

Foi neste laboratório que ele, ao procurar sintetizar um novo analéptico derivado de derivados do esporão-do-centeio (um fungo) sintetizou uma série de compostos, um deles o lsd-25, em 1938. As pesquisas com animais não mostraram nada significativo, e ele deixa de lado; cinco anos depois, porém, ele, por pressentimento, segundo suas próprias palavras, sintetiza uma nova leva da substância, e durante o processo começa a se sentir diferente. Acha que é gripe e vai pra casa, e quando se deita vê um monte de fogos de artíficio. Dias mais tarde ele decide experimentar uma fração que ele considerava mínima da substância e voilà! a primeira viagem de ácido do mundo. Vai pra casa de bicicleta, e enfim... Adoro esta história; acho que vou contá-la pros meus netos e bisnetos.

Dizem que ele tem olhos brilhantes, que tem voz forte para se dirigir a 1500 pessoas que estava na conferência, um aperto de mão forte, e manca um pouco, claro, 100 anos já não são 90. Fica todo mundo especulando donde esta tal vitalidade; ele diz que é por causa do ovo cru diário de manhã (espero que sejam ovos caipiras). Nesta conferência foi discutido abertamente as questões colocadas pelo ácido, pela sua criminalização, seus usos, enfim. O prefeito da cidade manda uma carta pra ele, crianças cantam musiquinhas pra ele, ele é recebido com honras e alegria e festejos, um parque ou um banco, sei lá, é dedicado em sua homenagem e a a rua onde ele teve a sua famosa bicicletada em 1943 foi renomeada em seu nome.

Cartas de prefeitos, crianças com musiquinhas e um parque/banco vá lá; creio que este Albert tem outros motivos pra ser um cidadão emérito. Agora, quer coisa mais direta que o nome da rua?

É a Suíça, claro. A Suíça não deve nada a ninguém, e suas vacas gordas e felizes, de úberes cheios e vazando leite grosso, morno, gorduroso, descendo em cascatas por colinas de pastagens verdes emolduradas por montanhas gris, são as testemunhas vivas disto.

Em boa parte do mundo, porém, esta mesma substância é escorraçada, demonizada, criminalizada, tornada alvo de repúdio com base em preconceitos ignorantes, como o exemplo que dei acima, e vários outros que a maiorias de nós já conhece.

Tem gente que é presa (!!) por anos (!!) por ter experimentado dela.

E ainda não falo da maconha.

o tempora! o mores!

1 comentários:

Robson disse...

Gostei muito do texto.

Realmente deveria haver políticas mais sensatas para o uso de alguns tipos de drogas, mas isso também requeriria cidadãos mais sensatos, e talvez eles estejam em falta.