quinta-feira, 17 de maio de 2007

Fratura exposta na canela

Fui hospitalizado uma vez somente, creio. Talvez duas. Foi quando eu quebrei a minha perna, na metade da canela; tinha eu 13 anos. Fratura exposta: andava de bicicleta no meu bairro de infância, quando eu decido atravessar a rua, defronte à casa do meu pai. Vi um carro ao longe, indo para o aeroporto; talvez ele estivesse indo rápido demais, talvez eu tenha calculado mal. Ficou a primeira versão.

Era uma mulher, dentro do carro, que parou e me socorreu. De qualquer forma, o socorro era o menor problema, pois com a pancada pode-se ouvir lá de trás, onde o meu pai se encontrava com a minha irmã e a namorada dele.

O capô amassou e a minha cabeça bateu no vidro dianteiro, quebrando-o e deixando-o com linhas diversas, como uma teia de aranha. Eu voei aproximadamente quinze metros, indo parar do outro lado da rua.

É uma percepção engraçada: eu me lembro de coisas fragmentadas. Lembro de ver o carro vindo na minha direção, e de saber que ia ser atropelado - sem sentir medo, ou me lamentar. Lembro então de ver, tudo meio preto e branco, cinzento, pouca luminosidade e poucas cores, a minha vista indo do asfalto para o céu para os fios dos postes para o asfalto para o céu para os fios de postes - eu girei no ar umas duas vezes. Então estava no chão. Nenhum baque, nada disso. Simplesmente saí voando e pousei, sem sentir a batida ou o baque no chão. Foi como se eu tivesse levantando vôo e pousado de costas.

Mexi-me devagar. Nada parecia errado. Vi se tinha quebrado os dentes, ou se sentia alguma coisa na cabeça. Percebi que o meu relógio não tinha quebrado. Um tanto automático, sem pensamentos. Levantar-se. Era estranho. Mexi a perna direita: ela se movimentou. Mexi a perna esquerda: algo estava engraçado. Era como se ela não estivesse lá, como se fosse de borracha. Levantei a cabeça e vi o meu calcanhar fazendo um ângulo grave com o resto da canela. E foi então que eu gelei, e gritei alto, sem o saber.

Daí para frente, é só ver o meu pai e o pessoal todo vindo, com olhares assustados e vozes ansiosas. Até hoje tenho uma cicatriz que incomoda um pouco quando se passa a mão, e creio que uma perna ficou maior que outra.

Fiz operação e tive a minha primeira anestesia geral. Um verdadeiro sono sem sonhos.

No momento: não dói, não há medo, não há preocupação. Tudo isto vem depois - depois do quê, exatamente? Esta é uma pergunta muito interessante.

Eu sempre me lembro deste episódio. Sabem por quê? Eu morro de medo de ter dor.

Continua...

terça-feira, 1 de maio de 2007

Meu presente

Completei 24 anos de vida, na semana passada, dia 17.

Ganhei poucos presentes. O que se sucede? Com o passar dos anos, as pessoas dão menos presentes? Sou eu e a minha talvez falsa modéstia em dizer que não precisa de nada, somente a "presença"? Ou é a falsa modéstia dos outros? A situação econômica?

E nem mesmo fui caprichoso em alguns pedidos... me perguntaram o que eu queria, eu respondi: "um abajur", pois preciso de um abajur para meu quarto. Talvez tenha sido somente para demonstrar a intenção de me dar um presente... talvez a própria intenção de me presentear, por si mesma, tenha sido o meu presente. Tempos estranhos, em que nos presenteamos com intenções.

Ainda estou esperando o meu exemplar de "O idiota". Existem outros itens, também, desde 15 reais até a seu rendimento anual. Ainda está em tempo; aproveite.

Mas eu descobri o que eu gostaria muito de me dar de presente. Sim, eu me dar de presente: este papo de presente entra em cena no aniversário, mas todo dia é dia de índio e de presente - uma flor, qualquer coisa. Eu me daria de presente a qualquer dia, este presente. Eu gostaria de ter, sempre do meu lado, um alguém ou algo que me criticasse, com argúcia, inteligência, ironia, finura e firmeza.

Não precisa ter um ar de intelectual e usar óculos de retângulo aro grosso, me olhar por cima e jogar sua torrente ácida; tampouco seria alguém com "experiência", um realista, uma pessoa mais dura e vivida que sabe do que a vida "é feita" e que me puxasse para baixo. Besteira. Nem um tampão, nem um tapado. Podia ser uma pessoa tão estúpida quanto eu; perdida nos mesmos rodeios, um tanto hesitante, um tanto entediada em muitos momentos.

Não, não estou falando de um amor, de um relacionamento. Não, gente, nada disso. Estou falando de um crítico, ou conselheiro, a palavra que melhor lhes descer.

Podia ser um amigo imaginário, uma alucinação, um diálogo interno comigo mesmo. Que diferença faz? Nenhuma, a não ser que se faça na rua e assuste os cavalos. Podia ser um homem jovem, ou uma mulher velha; idoso ou jovem, menos criança - uma criança assim pode me assustar. Um animal também não conviria muito: ia achar muito estranho um animal falante. Pelo menos no começo.

Alguém bem-pensante e bem-falante. Nada de circunlóquios ou preleções; nada de um mestre para me dizer o certo, ou um sacerdote para me contar do errado. Alguém que sabe que critica, mesmo enredado nas mesmas coisas que critica; alguém que sabe que toda firmeza pode ter algo de agressivo, mas somente por um momento; termina-se com um café, depois. Nada de carinhos ou abraços excessivos: eles tendem a atenuar demais os efeitos das palavras.

Eu queria uma outra palavra para atenuar as minhas arestas; uma outra palavra para me tirar um pouco fora daquilo que eu presto tanta atenção: a mim mesmo, à minha miséria e à minha salvação.

Tirar fora não é, simplesmente, esquecer.

Eu queria me levar menos a sério. E isto, muitos devem saber, é facílimo de dizer - e tão complicado para vivenciar.

Este lugar - este lugar que eu delineei e poderia continuar a fazê-lo, embora de fato seja muito simples - é um lugar complicado. Poucas pessoas assumem este lugar. Em sua maioria, amigos, durante pouco tempo, quando não entram naquilo que amigos gostam muito de fazer: fantasiar conjuntamente.

Este lugar é um lugar: não é uma pessoa, ou um título. Como eu falei, pode ser uma alucinação, se for o caso. O problema das alucinações é que elas costumam ser bastante perturbadoras - e isto não tiro da minha experiência pessoal, que é muitíssimo pobre em alucinações.

sábado, 28 de abril de 2007

Questões issai-fai


Issai-fai (dois ditongos, "ái") é o termo antigo, usado pelas exuberantes culturas terrestres, para descrever uma área específica dos estudos sagrados: aquela da previsão. Alguns dos profetas issai-fai consideram-se descendentes diretos de uma tradição cultural de quase três milênios - ver ornitomantes, oniromantes e cartomantes. A maioria deles, contudo, nega esta descendência, preferindo-se colocar à parte de qualquer política temporal - muitas vezes assumindo uma postura cética, o que os liga com outra política temporal terrestre. No auge do movimento consumerista dos primeiros séculos da era nanológica, os estudos issai-fai colocaram-se à disposição para a produção contínua de material descartável. Foi somente com a concretização da intervia D a partir dos trabalhos de Golber e associados que muitos dos antigos profetas foram religados por um intervalo de 34 horas-p. Neste breve intervalo 27 novos rumos para o futuro da ASTI-Galáxia - em três linhinhas - foram delineados, nenhum de acordo com a Condução-FR. Assim, todos os antigos profetas foram exilados para a Aislândia, o que provocou a bancorrota de dois dos maiores conglomerados: o custo associado e corrigido de transporte, embarque-desembarque, chocolates e água mineral na Terra-1 era, para não dizer estrondoso, profético. Por que a Aislândia? Esta é a pergunta que vamos tentar esclarecer neste Xou.

ASTI-Madonna, em "Complexidades da religação: novas questões em uma época não tão nova". Xou no equinócio vernal do ponto-eixo 45.

Os maravilhosos conceitos lacanianos - Significante

O que são os maravilhosos conceitos lacanianos? O que eles têm de maravilhoso?

O problema com os conceitos é que sempre esperamos aquele conceito... aquela palavra, aquela idéia, que fará a diferença - para um discurso, para uma instituição, para uma pessoa. E, na verdade, como uma pessoa - um sujeito - é efeito de discurso, não muda muito se se trata da Igreja, do Estado ou da dona Maria.

Temos esperança com os conceitos... esperamos que um significante recubra a falta. Esperamos que um significante nos represente, que podemos chegar e dizer "depois de tanto tempo, isto aqui sou eu! isto me representa... isto é o que eu sou." E aqui eu introduzi um dos maravilhosos conceitos lacanianos, o de significante.

O maravilhoso dos conceitos lacanianos é que, a primeira instância, eles podem nos dar a esperança de cubrir algo - e eles maravilhosamente podem servir para fugir desta esperança. Não por sua "natureza intrínseca fugitiva da esperança", mas por estarem no campo do discurso psicanalítico.

__________

(Longa preleção sobre o conceito de significante; poderia eu me fazer mais claro? Fica a pergunta para todos. Nada de importante: passe para a próxima barra, se te apraz. Se te apraz, não me leia: faça o favor, contudo, de me avisar, com antecedência, que não me lerás.)

Significante é um conceito retirado da linguística, a linguística que nasceu no começo do século passado com Saussure. Saussure nos diz que a unidade linguística é o signo linguístico, e o signo linguístico é composto por duas partes: o significante (S) e o significado (s). A palavra "árvore", por exemplo, é um signo por ter um significado - o conceito - e um significante - a "imagem acústica" árvore. Saussure rompe com tradições que nos fazem pensar a unidade linguística como a relação de um termo a uma coisa: "o signo linguístico une, não uma coisa a um nome, mas um conceito e uma imagem acústica. Esta última não é o som material, coisa puramente física, mas a marca física deste som, a representação que nos é dada por nossos sentidos; ela é sensorial, e se nos ocorre chamá-la 'material', é apenas neste sentido e por oposição ao outro termo da associação, o conceito, geralmente mais abstrato" (Curso de linguística geral, Saussure).

s/S

O importante de ver aqui, para os propósitos do meu texto, é que o significante e o significado, para Saussure, não estão em uma relação imutável de colamento: há uma autonomia do significante para com o significado, e esta autonomia é que permite as substituições presentes na metáfora e na metonímia.

"Uma árvore não é somente uma árvore: uma árvore pode ser uma árvore". Se tivéssemos apenas uma fixidez entre significante e significado, a frase acima não teria sentido nenhum. Ela, contudo, pode ter um sentido.

Lacan introduz, em seu ensino, material da linguística, da chamada linguística estrutural - esta de Saussure. Na leitura de Freud, Lacan recolhe a idéia de significante e significado no "funcionamento mental".

O que difere - radicalmente - o uso dos dois conceitos em Lacan é que este nos diz da primazia do significante sobre o significado - S/s. O que, para Saussure, são duas cadeias mais ou menos correndo juntas - a cadeia dos significantes e a dos significados - trata-se, para Lacan, da primazia do significante, e da cadeia significante. O significado, aqui, passa a ser produto do deslizamento dos significantes.

Quando falamos, na nossa fala, temos uma série de significantes dispostos temporalmente. "Um rato roeu a roupa do rei de Roma" é um exemplo, todos eles significantes. O significado total da minha enunciação não é exatamente a soma dos significados de cada termo: a significação é dada somente no final, na minha pausa. Um. Parei somente com o um. Diz alguma coisa? Uma pessoa contando, talvez. Um rato. Factual, um rato, rato. Um rato roeu. O quê? A roupa. Um rato roeu a roupa. Ponto. Cada uma destas frases tem um significado diferente, não exatamente dado pelo simples somatório dos significados - mas sim pela disposição temporal dos significantes.

Lacan nos diz que a significação - o sentido - não é uma dimensão paralela e conexa com os significantes, mas é efeito de significantes. Quando se diz "linguística estrutural", se quer dizer que a linguagem é uma estrutura. Há de se saber mais sobre o conceito, sobre o movimento do estruturalismo - de forte impacto intelectual. Vide a obra de Levy-Strauss. Mas, basicamente, uma estrutura - como a da linguagem - é determinada pelos seus elementos em relação - estrutural - uns com os outros, não dependentes de uma organização externa.

_____________

O grande "axioma" de Lacan - que muitos dizem ser o que ele desenvolveu durante os 30 anos do seu ensino - é a afirmação poderosa de que

O INCONSCIENTE É ESTRUTURADO COMO UMA LINGUAGEM

Prestemos atenção: o inconsciente (freudiano, psicanalítico, fruto da relação analítica) é estruturado como uma linguagem (a própria linguagem sendo uma estrutura). Como uma: o inconsciente não é uma linguagem, mas os seus mecanismos são como os mecanismos de uma linguagem.

O inconsciente é este constante e atemporal deslizar de significantes; o significado é efeito deste deslizar, e está mais do lado do consciente, do eu.

Lembremos que o significado é o sentido: para Lacan, o sentido é efeito do deslizamento "automático" de significantes "no" inconsciente.

É isto que a experiência da psicanálise vem nos mostrar. Isto chega a ser obsceno.

Como fica a questão colocada no começo do meu post, quando aceitamos pensar - ao menos por um momento - no significante para Lacan?

_________

Outros maravilhos conceitos lacanianos: objeto a Outro gozo sujeito desejo

Lição de casa

Para vocês, meus sinceros e fiéis leitores, a lição de casa de hoje é pesquisar sobre um singular item:

vocoder

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Empurrando o envelope

Existe uma maravilhosa expressão em inglês: pushing the envelope. Eu a escutei, pela primeira vez, no delicioso Storming Heaven, o relato de Jay Stevens da contracultura americana e aléim.

"Empurrar o envelope".. eu fiquei imaginando como empurrar um envelope... um envelope de borracha, talvez, um pouco de ajuda da topologia...

Nada que uma pesquisa de 5 minutos na net não me mostrasse que o tal "envelope", neste caso, é um conceito matemático, o "locus da interseção de curvas consecutivas". Dêem uma olhada aqui, para uma explicação (em inglês) da expressão.

Pushing the envelope quer dizer, dona Maria, "ir além, levar além dos limites preestabelecidos".

Na síntese sonora, o "envelope" de um som é a variação de sua amplitude no tempo. Mais conhecido como "envelope ADRS", é uma modulação dos diversos componentes, no tempo, de um som específico: ataque/attack, o tempo que leva para o som chegar a sua amplitude máxima; decaimento/decay, o quanto o som cai até chegar no nível seguinte; sustentação/sustain, o nível em que o som permanece até repouso/release, que modula quão rápido ele vai se "extinguir" (pensem numa nota de piano com o pedal para um release mais lento).

Parece simples, não? E é. Mas é impressionante o quanto mexer com estes quatro parâmetros podem modificar o som. Se quiser fazer a experiência, baixe um programinha qualquer de sintetizador (como o FruitLoops, o que eu brinquei um monte) e experimente em mexer nesta curva. Ele é um dos elementos cruciais da síntese sonora, este mundo novo e selvagem e maravilhoso.

Eu sempre imagino que a música eletrônica pushes the envelope. Eu tenho estima pelos envelope pushers. Acho um trabalho maravilhoso. De vez em quando eu abro os olhos e vejo gente pushing the envelope... e sempre imagino um envelope ADRS tomando forma de som, e mais gente mexendo com LFOs, amplificadores, sintetizadores, mixers; pushing the envelope.

Eis a minha contribuição de entrada para uma eulogia da museletro, que ecoa na minha cabeça recentemente. Em breve, em breve.

Real, simbólico e imaginário chez Lacan


Lacan nos propõe uma metáfora. Se nós tomamos uma mesa, a mesa imaginária recorta as funções deste objeto: se come nela, pode servir para colocar um vaso, marca a refeição, etc. A mesa simbólica é a palavra "mesa" tal como ela vem se ligar dentro do discurso: "à table!", fazer "table rase" [fazer tabula rasa, começar do começo, de novo] - o significante "mesa" pode assim se inserir dentro de outras expressões, como "table de matières" [sumário]. O real, enfim, se constitui do resto, mesmo daquele que não se conhece.

Lacan propose une métaphore. Si nous prenons une table, la table imaginaire recoupe les fonctions de cet objet, on mange dessus, elle peut servir à poser un vase, elle marque le repas, etc. La table symbolique, c'est le mot table tel qu'il vient se lier dans le discours : à table!, faire table rase - le signifiant table peut aussi s'insérer dans d'autres expressions, comme table des matières. Enfin, le réel se constitue du reste, soit ce que l'on ne connait pas.

sexta-feira, 20 de abril de 2007



Vocês, vocês, vocês têm três dias para assistir à minissérie televisiva Angels in America, antes que eu escreva um post sobre esta fabulosa história e passe por cima de qualquer spoiler warning conhecido.

*****

Botei uma foto de casa aqui.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Caffè sospeso

Dizem que a tradição nos cafés napolitanos - o sul da Itália - era a de uma pessoa, considerando-se afortunada, ou tendo acordado com o pé direito ou com um pouco mais de dinheiro no bolso, entrar em um café e pedir um "café em suspenso" - caffè sospeso. Ela bebia o seu café - seja ele espresso, prensa francesa, será que havia café turco? e pagava dois. Um segundo, já pago, ficava em suspenso para qualquer pessoa de menos fortuna que entrasse no café e pedisse por um que tenha ficado sospeso naquele dia.

Foi assim que eu ouvi. Dizem que acontece até hoje. Fico imaginando se criássemos o hábito de deixar coisas em suspenso aqui no Brasil, o que aconteceria.

Fico imaginando também os cafés em que todos sabiam que o dono embolsava mais sospesos do que o aceitável... ou aquele em que, pro velho comerciante, todo dia era um bom dia para mais sospesos, mesmo que ninguém tenha pagado por eles.

*****

E falando de café... eu ia escrever uma coisa sobre o café espresso, dizendo que as pessoas falam "expresso" com X para a palavra italiana espresso, que talvez significasse outra coisa do que "expresso". "Expresso", em português, quer dizer uma coisa que é rápida ou direta, ou uma coisa que é exprimida (não confundir com "espremida"). Eu pensava que espresso, em italiano, seria um falso cognato: que poderia remeter a "expresso" (pt), mas na verdade não remeteria. Eu poderia jurar que espresso era um particípio de um verbo que eu não sabia, o qual significaria "espremer", ou "passar sob pressão" - e então, neste caso, seria cognato de "espremido" ou "pressionado". Ledo engano meu: na verdade espresso (it) é, realmente, cognato de "expresso" (pt): meia hora de pesquisa na internet me demoveu de um conhecimento que eu achava que tinha.

Espresso é particípio do verbo esprimere, que quer dizer "expressar". Além disso, espresso também tem o significado de "expresso" - rápido, ou direto. Espremido (squeezed), em italiano, é spremuto - do verbo spremere. E pressionado/passado sobre pressão (pressed) é premuto.

(Eu coloquei as palavrinhas em inglês do lado pois eu procurei aqui.)

Quer dizer que está grafado incorretamente, se se quer manter a palavra em italiano, mas a tradução - a qual eu imaginava incorreta - está correta. Como mantemos a nossa sanidade cultural e não escrevemos caffè, então aí está.

Se você, leitor, tem uma correção, por favor, me mande; eu posso estar falando besteira.

domingo, 8 de abril de 2007

Mar bravio


BeiraMar num domingo de mar bravio.
Clique na imagem e ela, magicamente, se torna maior.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Henry Sobel

Eu não conheço o rabino Henry Sobel. Já o tinha visto, várias vezes, a sua imagem e a sua voz, na mídia; achei engraçado o sotaque, o cabelo. Não escutei direito o que ele falava. Então, não o conheço como rabino e como líder da comunidade judaica de São Paulo. Não sei do seu trabalho.

Ele, como todos sabem, foi pego roubando gravatas "de marca" em um loja em Palm Beach, EUA. Ele declara que não teve a intenção de roubar as gravatas, de que não sabe muito bem o que aconteceu. Passou uma noite na prisão, pagou uma fiança de 3680 dólares e pronto. Foi internado no hospital Albert Einstein na sexta passada, para investigar possíveis desordens psiquiátricas ou afins.

Reações diversas ecoaram: manifestações de solidariedade e preconceito seguiram uma a outra. Ele se afastou temporariamente da sua congregação, muito sensatamente.

Como estudante, eu sei que o rabino pode estar sendo "sincero" (relatando uma vivência "real") quando diz que não quis roubar; estas coisas acontecem. Não podemos dizer, contudo, que ele está sendo, pois isto requer uma confiança que não é preciso depositar, neste momento. A discussão passa longe se o rabino "é ou não é" cleptomaníaco ou não, se ele é um perverso ou não, se os remédios que ele toma mexeram com a cabeça dele ou não. Pessoalmente, esta discussão toda pouco me interessa, por só trazer, cada vez mais, preconceitos e defesas contra preconceitos.

Lembremos do famoso argumentum ad hominem: trata-se, na lógica, de oferecer um argumento contra um propositor do que contra um outro argumento. Falar mal de uma coisa - a religião, por exemplo - através de pontos considerados depreciativos nas pessoas que a advogam, ou nos seus representantes.

O caso dos "homens de religião" é complicado, pois deles é esperado que encarnem a moralidade de sua religião, que ajam moralmente. Assim, cai tão mal a um rabino ser flagrado roubando gravatas, mesmo que ele tenha dito que não o queria fazê-lo...

Disto tudo, tem somente uma coisa que eu gostaria de dizer: eu não queria que o rabino tivesse tido um tratamento pior, ou que esse ato isolado dele justificasse o depreciamento de uma instituição religiosa, ou de sua própria pessoa. Eu queria somente que um outro qualquer pudesse ter o mesmo tratamento e a mesma solidariedade, independente de ser rabino ou judeu ou católico ou comerciante ou evangélico e presidiário.

Lavou, tá limpo.

Sul da Ilha

Eu cresci, a minha infância, no sul da ilha, no bairro do aeroporto, Carianos. O aeroporto não era internacional: era mais um galpão de concreto com uma pista, que se conectava por caminhos misteriosos com a base aérea da aeronáutica. Um dos finais da rua (que depois virou avenida) Diomício Freitas era, justamente, num portão - uma guarita - que separava o "bairro dos oficiais" do restante da população civil. Havia uma certa rivalidade entre quem era filho de oficial militar e quem não o era, alimentado pelo esnobismo inocente.

Meu pai, por ser o dono da farmácia do bairro, tinha o crachazinho para passar pela guarita e adentrar na base aérea. Quando eu ia tomar banho na Tapera - uma praia pequena, de areia muito grossa e água parada como uma poça, cheia de medusas - eu ia por ali. Começavam logo as casas, todas semelhantes, dos oficiais; logo depois terminava esta aglomeração e a estrada continuava durante muito tempo, cercada dos dois lados pelo mato. De vez em quando via-se uma clareira que seguia em linha reta por dentro do mato, onde antenas baixas e parrudas se alinhavam em intervalos regulares. Mais a frente, uma elevação retangular, verde de grama, abrigava uma piscina onde se era tratado o esgoto. Logo depois, a estrada fazia uma curva e descobertava-se então o mar, uma pequena praia da mesma areia grossa da Tapera, um pouco mais agitada por causa do vento sul soprando. Praia deserta, não se podia tomar banho - ou ao menos as pessoas não o faziam. Propriedade da BASF. Um trapichão se debruçava sobre o mar. Uma das primeiras fotos que eu tirei - com uma câmera pequena, que tirava ainda fotos quadradas - foi de lá. Eu tinha visto uma baleia espanando o rabo na água. Corri e tirei uma foto; não me lembro de onde veio a câmera. Jurava ter enquadrado a cena: engano meu. Na foto, somente o mar de várias ondas pequenas do vento sul.

Um sentimento maravilhoso: aquele mar, aquele vento, aquele sol, aquela tranquilidade. Quase nenhuma pessoa. Eu catava conchas, nas poucas vezes em que ia para lá, e trazia montes delas para casa. Elas fediam dentro de uma sacola, o cheiro de mar podre, até que pai ou mãe resolviam jogar fora, para a minha insatisfação: eu apenas não tinha decidido o que fazer com elas. Colocava muitas de molho em um balde com um pouco de sabão, para tirar a lembrança molhada do mar. Muitas estavam quebradas, ou lascadas nas beiradas. Muitas eram muito velhas: assim o supunha, por ser que pareciam como pedra-pomes, cheias de bolhas e buraquinhos, prestes a se esfarelar e se dissolver na água. Outras, eram brilhantes, peroladas, como unhas esmaltadas. Algumas tinham um preto como ébano laqueado; outras eram brancas como osso.

Eu me lembro, quando eu cortei o pulso em um acidente aqui mesmo, na porta do prédio onde moro, que eu vi de relance o osso do meu punho. Era uma cor de pérola, um branco perolado, lindo. Muitas conchas eram assim.

Para entrar no meu bairro de infância, era preciso - e ainda o é - atravessar um espaço só de mato e mangue. Você vai pela Costeira, e em vez de pegar para o Sul-propriamente-dito (Rio Vermelho, Campeche, etc), vai para o aeroporto. Passa a ponte, de onde se tem uma vista bonita da Hercílio Luz brilhando de noite, e um breve espaço sem nada construído, a não ser a estrada e uma cerca alta, tem de ser percorrido antes que o Carianos comece a surgir aos poucos. A primeira vista é a vista do estádio de futebol da Ressacada. Quando eu era pequeno, a estrada era baixa e, quando a maré estava alta, a água do mar tomava a pista, saindo do mangue e do rio ali pertinho. Muitos carros ficavam sem poder seguir em frente; outros modelos o motor aguentava melhor. Este problema não existe mais, pois elevaram a altura da pista. Foi assim, contudo, que eu aprendi sobre este segredo incrível das marés, da forma mais prática possível para mim.

...

Mas eu comecei a escrever para falar de outra coisa. Comecei e fui por outros caminhos, ou por outro caminho, o caminho da "memória"... Eu cresci no sul da ilha, e conheci razoavelmente as praias da região. Tenho as minhas preferências, a até hoje gosto muito mais das praias do sul, de mar bravio e azul-escuro, açoitadas continuamente pelo vento sul, do que as paradas águas das praias do norte - as praias conhecidas do norte, claro. Santinho é uma exceção, e Moçambique, bem, ainda não tive coragem de conhecer a maior praia. Andei em vários costões, e muitas vezes encontrava grandes pedras, de uma pedra meio avermelhada, cor de ferrugem, com pequenas depressões. Muitas eram como se fossem pratos talhados na rocha: buraquinhos redondos, bem rasos, do tamanho de um prato cotidiano, um tanto maior. Haviam também, em menor quantidade, talhos profundos ou rasos. Eu sempre me perguntei, e perguntava aos adultos ao meu redor, o que eram aquilo: intuía que não era nada natural, embora não ficasse tão surpreso se alguém me dissesse que eram naturais. Mas a mim me pareciam coisa humana. Pensava se não seria gente mais antiga e mais rude, pescadores também, que utilizariam as pedras - e seus curiosos entalhes - para limpar peixe, talvez? Não sabia, e ninguém podia me dizer o que era.

Leio hoje num jornaleco, então, o projeto para colocar placas perto destas pedras, na Barra da Lagoa, informando do que elas serviram: oficinas líticas, ou "bacias de polimento", assim o dizem, onde os povos pré-históricos e indígenas da Ilha poliam e afiavam seus utensílios, armas e ferramentas. E lá estava a foto de uma dessas pedras, tão claras na minha lembrança. Na Barra tem algumas, uma, se não me engano, na beira mesmo do canal, perto de onde a criançada pula na água. É bom que se conte a história: as coisas ficam mais interessantes. Se bem que eu ainda ache que ficaria mais interessante sem placas, sendo contada por um manezinho...


segunda-feira, 2 de abril de 2007

Explicando Freud - lacaniamente? - parte I

Tudo começou quando os psicólogos leram o tal o do Freud.

Na página da Wikipédia sobre "desenvolvimento psicossexual", em inglês, desenrola-se todo aquele papo de "fase oral", "fase anal", de que a criança na fase tal é assim e assado, e que as pessoas que ou param ou regridem a tal fase do seu desenvolvimento são assim ou assado.

Isto não é psicanálise, isto é a psicologia usando vocabulário e palavreado psicanalítico.

O pior, contudo, é quando diz que, no advento da fase fálica, "pelos seis anos de idade", o menino "se apaixona pela mãe" e quer "tomar o lugar do pai". E então todo o drama do complexo de Édipo acontece, e o menino desiste de querer tomar a mãe do pai e se conforma com a castração. E então entra "em latência".

E isto é, realmente, a visão da psicologia do desenvolvimento que se encontra nos manuais.

Para o leigo - ou turista - que se aventura a ler psicanálise, ou este tipo de apresentação causa uma resistência incrível, ou a historinha bem-contada seduz, de alguma forma.

Semana passada tive a excelente oportunidade de ver isto por mim mesmo: uma mãe achou absurda a idéia de que o seu bebê tivesse uma "sexualidade", e ainda mais que esta sexualidade envolvesse ela, a mãe. Eu não tive como responder, na hora, de uma forma adequada ao momento e à ocasião.

Mas, quando ela falou isto, me veio a cabeça a imagem de um bebezinho - vamos chamá-lo de Pedro - que tem um Pedrozinho na cabeça e que tem desejos sexuais pela mãe e que por causa disto quer matar o pai. Isto é ridículo. Isto não é psicanálise. Em primeiro lugar, a criança sequer nasce com um "eu", para Lacan; até mesmo para sacar que ela é um corpo, um corpo separado da mãe, demora um pouco, e demora ainda um tanto mais para juntar os "fragmentos" do seu corpo em uma imagem aceitável - no famoso "estádio do espelho". O eu é uma construção imaginária, um jogo de espelhos. Lacan chama o recém-nascido de "pequeno pedaço de carne", o que não é tão delicado da parte dele.

Sexualidade não é o sexo. Parece óbvio, mas talvez não seja. A libido não é a força dessexualizada que Jung supunha ser, mas também não é somente a vontade de colocar o coisinho no buraquinho. Envolve as excitações corporais e o que fazemos com elas, desde pequenos. A "descoberta" do recém-nascido é que, junto com a satisfação de uma necessidade - fome, por exemplo - houve um "a-mais". O leite vem e mata a fome, mas vem este "a-mais" - o "amor da mãe", falando metaforicamente - que não se pediu.

É claro que o bebê não pediu nada, afinal ele nem sabe que desconforto é aquele que ele sente. O organismo chora, a mãe interpreta: "é fome o que ele tem", e vai lá e dá o peito. A satisfação da fome vem, e com ela o a-mais. É "de brinde". E é este o tipo de coisa que se aprende a pedir do outro - o brinde, o a-mais. Isto é sexualidade, para a psicanálise. A mãe tem prazer em amamentar, o bebê recebe mais do que o leite da mãe.

Continua...

domingo, 25 de março de 2007

Continue a história

Na noite do pepino, todas as mulheres solteiras de uma pequena cidade...

quinta-feira, 22 de março de 2007

Mudanças

Vitor voltou da Alemanha, onde estagiou durante um ano no departamento de demos executáveis - será que escrevi certo? - de uma das maiores empresas de software do mundo, a SAP. Passa seis meses no Brasil - volta depois para lá, para mestrar. Ele relata a suas "impressões" sobre cá-esta-terra em seu novo blog, escrito em inglês para os seus colegas do velho continente.

Vamos dar oi pro Vitor, galera! Oi, Vitor!

Bem-vindo de volta, meu querido!

O caríssimo Robizito vai ser casar. Será? Que coisa linda.

Se caminhares pela praça Roosevelt - Sampa - numa noite de semana e encontrares um carinha moreno, de grandes olhos e queixo mal-escanhoado, pergunte se o nome dele é Willian. Nas noites de deprê ele se manda para lá com um caderninho de "aspiral" - que arrepio que eu tenho quando escuto alguém dizer isto - e escreve, enquanto vê o povo da cena cênica paulista. Abra a Playboy deste próximo mês, abril, mês do meu aniversário, e procure por uma matéria sobre cachaça: é dele. Procure outra sobre hambúrgueres, e esta é do Bruno, que lá está também - só que nos dias de deprê ele se manda pra FNAC.

Adri(ano) agora é mestre - em psicologia, pela UFSC. Não consigo evitar a tentação de toda vez que o vejo o chamar de mestre. Todos que o viram nestes dois anos passados sabem o quanto este lindo exemplar neurótico deixou de ter vida pessoal, dedicando-se à sua pesquisa. Alguém lhe dê uma reatulizada sobre as futilidades humanas, por favor! Parabéns, meu caro Adri.

Meu pai cortou a perna com uma serra-elétrica estes dias, na região do joelho. Fui para a casa dele, visitá-lo, pensando que o encontraria de repouso na cama; ledo engano. Lá estava ele com a perna dura como uma pedra, no balcão do seu restaurante, andando pra lá e pra cá, serelepe.

Minha mãe pensa em fechar a farmácia; depois disso ela vai passear pela casa dos meus avós. Quem sabe ela não volta a estudar?

Flávio Joshin pensa em abrir uma academia de yoga com o irmão.

O que a Débora está fazendo eu não conto, pois este é um blog de família.

Minha irmã está com 20 anos e eu me surpreendo por ela ser uma mulher.

Eu vou começar estágio em psicanálise com o Sérgio, meu analista.

Mudanças, mudanças. Às vezes eu gostaria que parasse um pouco, mas na verdade eu sei que não pára, e só assusta muito quando quem não quer mudar é você mesmo. Os últimos dias foram assustadores, mas coisas novas vão aparecendo, e é um engano pensar que nada disso me toca. Por quantas coisas eu chorei, por desamparo, por desespero? Como é bom poder respirar, depois de ter de segurar o fôlego durante mais do que confortável.

Eu falo pra todos que eu tenho uma relação sui generis com os livros: eles me visitam nas horas em que costumam fazer mais sentido (claro que isto pode ser uma ilusão cognitiva proporcianada pelas vezes em que leio livros e sou profundamente tocado por eles, destacadas das vezes em que os leio e isso não acontece, mas não quero deixar a mágica se perder assim tão fácil não...) O que dizer do primeiro capítulo de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector? Ou mesmo, eu me lembro bem de ontem, indo pro João Paulo, um bairro aqui de Florianópolis, no ônibus, abro o livro e encontro a dedicatória:

A POSSÍVEIS LEITORES

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. C.L.

É um tanto natural e fácil amar aquilo que se é semelhante. Amar a diferença, que dificuldade!

Amar a dificuldade, que diferença!

terça-feira, 20 de março de 2007

De volta...


Marido e mulher dormem na mesma cama, mas não sonham os mesmos sonhos.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Ah, que delícia de ilha...


Praia Mole, perto da entrada para a trilha da Galheta, esta terça-feira passada.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Baudrillard est mort

Jean Baudrillard morreu, aos 77 anos, em Paris.

Eu tenho esta louca impressão de que a intelectualidade não morre. Como pode, não? Políticos morrem, donas de casa morrem, mas a intelectualidade não morre.

Então fico chocado quando alguém diz que Baudrillard morreu. Escuta, alguém pode me dizer se o Derrida ainda está vivo? E o Chomsky?

É como se um intelectual fosse somente as idéias dele. Neste sentido, a intelectualidade não morre, mesmo - enquanto nos dispusermos a não queimar livros em fogueiras na praça XV de Novembro.

De la séduction - do qual esqueci o título exato em português - é uma gracinha. Uma gracinha.

terça-feira, 6 de março de 2007

Bagdad Café


Uma recomendação do tio Lucas.

Sim, eu sei que recomendo muitas coisas, e muitas vezes é só para agitar o copo. Para atiçar discussões. Para ver o choque estampado no rosto, e rir internamente.

Mas esta aqui é uma recomendação sincera. Esta vem da parte de mim que é humana, que quer somente ser feliz, que sabe que não pode ser sempre, que chora com isto e vai na locadora e vê um filme como Bagdad Café e se emociona com ele. É da parte de mim que chega em casa e depõe a máscara cotidiana sobre o lençol amarfanhado da cama.

É uma recomendação feita com as entranhas. Coração é entranha; intestino é entranha.

(parte da produção de serotonina é no intestino)

O filme é uma pequena pérola. Se você procura por um blockbuster, ou por um roteiro extraordinário com um final surpreendente, ou por uma dissecação completa de um dos caracteres, ou por uma crítica altamente complexa e sutil sobre qualquer assunto em voga, esqueça que este filme existe. Não, eu nunca falei em Bagdad Café. Eu falei em Bagdad Café? Não, não falei no filme Bagdad Café.

Como eu disse, o filme é uma pequena pérola. Não tem nada de grande pérola. Mas é por ser pequena assim que é grande.

Assista-o despretenciosamente. Se não gostar, poupe o mundo - e os seus parceiros e familiares - das suas críticas. Vá fazer amor. Vá fazer pão.

Eu não o vi recentemente: faz muito tempo que o vi, mais de um ano. Mas é que hoje, voltando pra casa da praia, uma música sai do mais profundo rincão da minha coisice mental: "Áaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai am cóóóóóóóóóóóólin iúúúúúúúú". "Calling you", de Jevetta Steele. A música realmente colou.

*****

Agora, se você quer criticar, discutir teoria pós-moderna ou psicanálise ou quer somente cuspir na cara de alguém imaginário, aqui vai o filme para você, companheiro. The piano teacher. A música, de altíssima qualidade: Schubert & Parceiros. A língua? Francesa. O lugar? Áustria. Tem perversão, sexo, fetiches e garotões parrudos.

E é um ótimo filme também. Ótimo. Dá, tranquilamente, três rodadas de chopes no seu bar cult das proximidades.

*****

E agora eu vou ver Magnolia pela quarta vez. Com licença.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Muito além da diversão

Uma longa história que felizmente continua, depois de engatinhar durante anos, pausada por contigências históricas muito atuais. Estou surpreso e feliz por ter encontrando, através desta página, o seguinte estudo noticiado por três dos maiores tablóides americanos.

Griffiths, R.R., Richards, W.A., McCann, U., & Jesse, R. (2006). Psilocybin can occasion mystical experiences having substantial and sustained personal meaning and spiritual significance. Psychopharmacology, 187, 268-283.

Psilocibina, para os desinformados, é uma das substâncias "alucinógenas" presentes nos cogumelos "alucinógenos" (detesto esta palavra). Existem duas substâncias "alucinógenas" presentes nestes fungos, a psilocibina e a psilocina; como a psilocibina é metabolizada em psilocina no corpo humano, esta distinção é irrelevante. A psilocibina é altamente aparentada com uma grande classe de compostos, onde se inclui vários outros "alucinógenos", como o LSD (ácido lisérgico).

Só é desgastante ver que um dos jornais ainda diz que LSD tem potencial de abuso - uma breve passada de olhos na literatura científica não condiz com isto, a não ser que se tenha redefinido "potencial de abuso" nos últimos meses, algo do que não estou certo.

Não é necessário um estudo para comprovar os efeitos subjetivos de uma experiência como esta. Quem a teve sabe disto. Um estudo é importante, contudo, em dois sentidos: a) para limpar o caminho de muita tralha, propiciando uma discussão científica, e b) poder ter voz na mídia do estabilishment, não apenas como voz de uma "minoria" de usuários, mas a voz de uma ferramenta - a ciência - que tem grande prestígio social junto a "poderes" estabelecidos.

O interessante, também, e animador, é ver a circunstância em que o acontecimento está inserido: os pesquisadores (McCann é um nome conhecido na pesquisa com o MDMA, de um modo polêmico), o laboratório (Johns Hopkins), o país, o funding. Até este momento, as poucas alternativas vinham sendo conduzidas, de uma certa forma, fora do mainstream.

O interesse da pesquisa também conta. Eles pensam em uma aplicação de tais substâncias em casos de depressão crônica - como em pacientes terminais de câncer. Esta é a tendência em grande parte das pesquisas, ou, melhor dizendo, de tentativas de pesquisa.

Uma discussão séria e lúcida pode, então, começar a ter vez. O uso de tais substâncias tem um representação social nada positiva, independente da camada da população que se trate. Nem mesmo educação superior evita isto, o que é um dado incompreensível, ao meu ver. (Seria muito, muito interessante que eu tivesse material para comprovar isto que eu estou falando, sendo que se trata somente de percepção pessoal - bem fundamentada, sendo ainda percepção pessoal. Fica uma idéia para o futuro.)

Fico aqui esperando mais experimentos, mais resultados e mais mentes dispostas. Estou torcendo por isto, dedos cruzados, fitinha no pulso.

domingo, 4 de março de 2007

Visita aos vajrayanas

Hoje tivemos um "dharma com pipoca" aqui na comunidade da casa verde. O filme, é Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera. Um filme muito bonito, de visual mais bonito ainda. A segunda vez que eu o via.

E então, pela primeira vez, fui a uma sangha de budismo vajrayana - budismo tibetano. Aquela, que fica no Canto da Lagoa, atrás do bambuzal. Fomos eu, Edgar e o grande (literalmente) Flávio "Joshin", a convite do último que já conhecia um pessoal de lá.

Era uma cerimônia de tsog. Eu não sei o nome exato, ou do que se trata, mas era uma cerimônia de "Tara Vermelha" (faço pouco idéia do que seja, sei que é a invocação da tal), e no primeiro domingo do mês eles fazem uma espécie de oferenda de alimentos que todos comem - tsog, que foi o que eu fui.

Chegamos atrasados e nos sentamos no fundão, colocando almofadinhas coloridas nas nádegas. Crianças corriam para lá e para cá, um gato que ficava circulando pelas pessoas atrás de carinho e comida - muito parecido com o meu, por sinal, na primeira vez que o vi levei um susto de três nanosegundos, "o que você está fazendo aqui?". O lugar era muito colorido, com várias figuras nas paredes, de cores fortes, com flores estilizadas; um lugar gostoso. Um cheiro doce e fresco emanava de algum lugar.

E um monte de recitações em tibetano. Aproveitei o ambiente para um pouco de zazen. As recitações não paravam. Uma hora, dedicaram algumas palavras para seres que tinham morrido recentemente, incluindo a monja Zuiten do zen, vários praticantes humanos, um "cachorro na Lagoa" e um beija-flor.

Chegam então os pratinhos com comida. Uma pequena melange de várias coisas: um pedacinho de maçã, outro de banana, um sanduichinho de atum, tirinhas de pimentão verde, uma uva passa, fatia de queijo, biscoitinhos cream-cracker e wafers, fatias de pepino em vinagre, um pedaço de salame italiano e pimentinhas vermelhas. O último item me surpreendeu mais que o antepenúltimo (já sabia que o pessoal do vajrayana não negava carne), mas então me lembrei que era um cerimônia dos "cincos sabores", segundo meu grande amigo.

Comecei a comer as coisinhas... e o pessoal continuava recitando. Até me meti a comer a pimentinha. Uma mulher do lado me pede para eu ter cuidado, mordiscar a pontinha da pimenta primeiro. Agradeço e dou um bicadinha, que arde; "se é para comer, coma tudo de uma vez". E eu meto a pimenta na boca e a mastigo. E ela arde. Caramba, como a pimenta arde.

Chorava e fios de água escorriam pelo meu nariz. Cada respiração era como uma chama que se voltava para dentro. Recebi cinco pimentas: uma o Edgar pegou, três eu comi - a última eu praticamente engoli - e uma ficou para trás. Pretendia comer todas, afinal nunca se sabe o que o pessoal acha falta de respeito, mas uma ficou para trás - estava de bom grado para mim, muito bom grado.

Ótima oportunidade para olhar sensações sem se deixar levar demais... afinal, vai passar. Mas que arde, arde pra caralho.

Essa foi a minha visita no centro vajrayana. Fiquei contente de conhecer os colegas, e fiquei mais contente ainda por praticar o zen. Não me dou muito bem com rituais, com recitações. Prefiro o zazen, curto e simples - literalmente, preto no branco.

As formas são diversas, contudo, para diversas pessoas, diversos interesses.

Obrigado, pessoal.

sábado, 3 de março de 2007

Hora do lanche

São sete e pouco da noite. Me levanto do sofá onde me encontro, descansando de uma semana de estudos intensos estudando (é, paradoxal, mas é assim mesmo, D'na'Mari'a). Vou para cozinha com o pensamento de café fresco se antecipando ao momento presente; o café está praticamente alucinado, ali na frente: falta apenas o café real para que a minha fantasia vire realidade. Com o canto do olho, com um pedaço de banana-passa na boca, vejo um vulto cinzento se aproximando com um andar furtivo, os ombros levantados e a cabeça baixa: é o meu gato. Sei que esta não é o movimento de caçador dele: ele vem resoluto, embora devagar. Seus movimentos, se fossem humanos, me levariam a vê-los como certeza de algo. Quando ele caça, os movimentos são parecidos: o andar furtivo, a cabeça baixa, os ombros levantados. Mas algo é diferente. Talvez o olhar, não tão fixo. Os ombros, também, não tão tensos, embora semelhantes.

Ele entra assim, na cozinha, e tranquilamente passa por mim, não sem antes esfregar - de leve! - o seu rabo, e somente o rabo, por minha panturrilha, e se lança a arranhar uma das estantezinhas de madeira que temos.

Quer comer, sei de mim pra mim mesmo. Faz meses - talvez anos? - em que ele repete a mesma coisa.

Eu fico me perguntando "como é que este bicho funciona". Como é que, de uma forma ou outra, quando ele "quer comer", ele faz justamente este movimento? Por que não arranhar a cesta com a comida, ou pegar o próprio pacote de comida e servir-se ele mesmo? A pergunta, feita de uma forma senso comum, é "como é que ele pensa para fazer isto?"

Porém, eu tenho cá a minha hipótese - de que este era um comportamento supersticioso que foi reforçado mais que o acaso e virou resposta condicionada. Isto tudo é Skinner, o famoso Skinner que aprofundou as teorias de condicionamento do mais famoso Pavlov & seu Cão.

Comportamento supersticioso (daqui):

[Skinner] cortou completamente o elo causal entre o comportamento e a recompensa. Preparou o aparelho para recompensar a pomba de tempos em tempos, não importava o que o pássaro fizesse. Agora, o que os pássaros precisavam realmente fazer era só pousar e esperar a recompensa. Mas na realidade, não foi isso o que fizeram. Pelo contrário, em seis dentre oito casos, eles desenvolveram - exatamente como se estivessem aprendendo um hábito recompensado - o que Skinner chamou de comportamento supersticioso. Em que isso precisamente consistia, variava de pomba para pomba. Um dos pássaros girava como um pião, dando duas ou três voltas no sentido anti-horário, no intervalo entre as recompensas. Outro pássaro repetidamente lançava a cabeça na direção de um determinado canto no alto da caixa. Um terceiro exibia um comportamento de atirar-se para o alto, como se estivesse levantando uma cortina invisível com a cabeça. Dois deles desenvolveram independentemente o hábito rítmico do "balanço do pêndulo", oscilando a cabeça e o corpo de um lado para o outro. Eventualmente, este último hábito deve ter se assemelhado bastante à dança de namoro de algumas aves-do-paraíso. Skinner usou a palavra superstição porque os pássaros se comportavam como se achassem que o seu movimento habitual tivesse uma influência causal sobre o mecanismo de recompensa, quando na verdade isso não ocorria. Era o equivalente da dança da chuva para as pombas.

(o texto é bem interessante e merece ser lido todo... ainda mais sendo o Dawkins...)

Eu entro na cozinha, ele vem e arranha a estante, se esticando todo, e numa vez em três - digamos que ele faz isso umas seis vezes por dia - eu dou comida para ele, e todas as vezes ele come. Pra vocês verem, o reforço não é contínuo - não é sempre que ele acontece, e não é sempre no mesmo intervalo - tanto de tempo quanto de resposta reforçada.

Bem, tenho a impressão que ele secretamente ri-se de mim, pobre humano o comparando com simples pombos. De um certo ponto de vista, somos os dois mamíferos e talvez temos mais em comum em termos psicológicos do que ele com um pombo, ou eu com um pombo... Quem sabe arranhar a estante seja uma construção cognitiva?

Ah, se meu gato falasse... ou se eu, pelo menos, gateasse...

sexta-feira, 2 de março de 2007

Calor

Coisas a se questionar profundamente:

  1. o caráter de novidade que nosso pensamento e nossas práticas (humanas) parecem imprimir, sempre;
  2. a não-necessidade de uma "sacralidade";
  3. o ideal de progresso.

Um dos piores pesadelos deve ser o de um mundo transparente - de um mundo que funciona muito, muito bem; onde se pode ver o funcionamento de tudo.

Imortalidade e onisciência laplaciana deve ser a sombra secreta de qual todas as criaturas fogem em horror.

Sim, estamos apoiados nos ombros de gigantes... mas, de uma certa forma, não há nada de novo sob o sol.

*****

Está um dia terrivelmente quente aqui em Florianópolis. Ontem e hoje. O céu, azul anil, onde nenhuma nuvem pousava para nos dar refresco: a umidade da proximidade com o mar entranhava nos ossos e saía em suor escaldante. A presença insana do sol, folha alguma se mexia. Foi um dia ocupado: entreguei um trabalho, fiz uma prova, passei grande parte do dia na universidade, tive meus óculos escuros furtados, comi lanchinhos, comprei dezenas de bala de banana para distribuir entre os professores e meus coleguinhas, cheguei em casa muito, muito cansado, descobri que a moça da limpeza aqui em casa deixou todos as janelas fechadas desde o meio-dia, e meu gato mal conseguia miar, tamanho o forno aqui dentro, tomei um banho que me restaurou, e fui deitar na minha chapa macia com o ventilador soprando bafo morno em cima de mim.

Terrivelmente quente. Vou tentar ir à praia hoje, mas ainda tenho de entregar um último trabalho. Terrivelmente quente.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Alvorada da janela de minha casa...


... com uma pequena pincelada do Corel Photopaint, evidentemente.

*****

Porque você sabe onde as palavras vão cair,
você não tem medo de andar na chuva.
A chuva de caixinhas escuras,
quer caia na sua cabeça - ou não.

Apreendes as colunas, dois eixos e um,
espaços vazios, cheios, espaços,
em que caixinhas se lançam na lama
desenhando um pixelado gramado.

Assim então não tens medo.
Tantos hematomas e pancadas necessárias;
mas não são tão possíveis, tão queridas?
Pois acaso não sabes onde elas irão cair?



terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Desperdício

Meu pai tem um restaurante, um buffet a quilo, num bairro aqui de Florianópolis.

Não se enganem: comida é sim reaproveitada em um restaurante deste, sempre de acordo, é claro, com as especificações da Vigilância Sanitária.

Mas se pode ver o quanto de comida vai fora. Isso sempre me deixou desconfortável, e fico imaginando o quanto vai fora, e em escala macro, é muita coisa. Por mais logística que se faça, por mais que se imagine - e os restaurantes tem bastante interesse financeiro em não deixar sobrar, claro - sempre sobra muita coisa. Fico imaginando se não se poderia tomar soluções fáceis, de uma certa forma, para dispor de uma maneira mais inteligente, de todos estes restos, sem necessariamente tranformá-los em lixo.

Uma delas seria distribuir a comida entre pessoas de renda inferior, ou doar para alguma entidade assistencialista, algo assim. Sabem por que isto não pode ser feito? Porque qualquer problema que as pessoas tiverem, com relação a comida, é culpa do estabelecimento - como doenças, por exemplo. E, para evitar de uma vez este tipo de problema, a letra da lei coloca, peremptoriamente, que os restaurantes não podem fazer isto, e ponto final. E os restaurantes respiram aliviados. Eles não têm muito interesse nisto, afinal.

A lógica da argumentação é impecável: evita-se problemas sanitários com esta medida. Mas é o tipo de lógica burra, cega, fechada em interesses e resultados muito próximos. Mais um caso de lógica que se fecha em si mesma.

Pois, de uma certa forma, qual é o estabelecimento que não tende a prezar a qualidade das coisas que produz - sempre, é claro, dentro do parâmetro custo-benefício? Qual é a possibilidade de uma pessoa ter salmonela, por exemplo, comendo comida de um restaurante? Em mais de cinco anos do restaurante de meu pai, teve apenas um ou dois casos. Quer dizer, a medida tem seu âmbito, mas não seria um âmbito mal pensado... ou simplesmente preguiça de fazer diferente?

Pois porque não tentar fazer algo diferente? Não, a imagem do sopão dos pobres não precisa pular na sua cabeça. A comida poderia ser distribuída de graça, ou depois de um certo horário em que as classes trabalhadoras (ahUAHuaUAHhauHAUH) já tivessem voltado pra labuta, uma redução drástica de preço, algo desta forma, um prato por um real, que tal? O argumento de que se evita isto para evitar problemas sanitários é ridículo. Afinal, os problemas talvez não sejam tantos, e faria muito mais sentido proporcionar um tratamento para as pessoas que supostamente passaram mal por causa de tal comida, do que evitar a possibilidade por medo de uma possibilidade mais remota que talvez pareça.

Eu sei que o caso dos restaurantes é somente um entre muitos. Eu imagino que este tipo de desperdício é uma constante no esquema que montamos para nós mesmos, em nível local e mais global. Tenho certeza que o emblema de nossa época, para a posteridade, será a imagem de lixo, muito lixo, escondido daqueles que podem, jogados na frente dos lares de quem não podem tanto, presente na vida de outros que simplesmente não contam. Vide uma reportagem da revista piauí, deste mês, sobre a cidade de Lagos, uma megalópole de 15 milhões de pessoas vivendo em condições marcantes, onde uma das moedas de troca é o próprio lixo. 15 milhões de pessoas.

Sempre me lembro, nestes momentos, da Sônia Felipe, filósofa aqui da UFSC: imagine você indo no supermercado, comprando um quilo de carne suína de primeira, e ganhando junto um saco com quinze quilos de merda suína, a quantidade de resíduos que, felizmente, atualmente não passa sequer perto dos seus olhos, mas infecta o solo de regiões de intensa atividade agropecuária intensiva, como o oeste do estado de Santa Catarina.

A questão da lógica que maneja as nossas trocas materiais é que ela é, muitas vezes, short-sighted. Fico me perguntando se faz sequer sentido desejar que poderia ser diferente.

Niebuhr

Eu procurava por uma frase específica, que volteava pelo espaço aberto de minha mente, fresca e úmida como terra nova, como a noite de segunda. Era uma frase conhecida, que eu pensava ser de algum dos grandes padres cristãos, ou de Cristo ele mesmo. A frase é a seguinte:

"Meu Deus, dá-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar o que está ao meu alcance e sabedoria para que eu saiba a diferença entre ambas."

Que, fico sabendo, é usada pelo AA (e talvez pelos Narcóticos Anônimos também), com o nome de "oração da serenidade". É uma frase realmente muito bonita. Talvez ela aponte mais para incertezas do que para certezas: talvez nunca possamos saber, realmente, a diferença. Mas se colocar neste lugar já é o melhor começo, e muitas vezes o melhor começo é meio caminho andado - a gente anda, muitas vezes, sem o saber. Eu me perguntava recentemente, afinal, quando é que "se desiste" e quando é que não...

É a minha grande pergunta, atualmente. Quando é o movimento, e quando é a pausa?

A frase, porém, é de um teólogo americano que viveu no século XX, Reinhold Niebuhr. A internet, o grande celeiro da sabedoria incompleta em forma escrita, me dá mais um pouco dele. É teologia, então não é fácil "leitura", mas aqui vai dois trechinhos (a tradução é minha):

Human nature is, in short, a realm of infinite possibilities of good and evil because of the character of human freedom. The love that is the law of its nature is a boundless self-giving. The sin that corrupts its life is a boundless assertion of the self. Between these two forces all kinds of ad hoc restraints may be elaborated and defined. We may call this natural law [or divine law]. But we had better realize how very tentative it is. Otherwise we shall merely sanction some traditional relation between myself and my fellow man as a "just" relation, and quiet the voice of conscience which speaks to me of higher possibilities. What is more, we may stabilize sin and make it institutional....

Theology, February, 1940, in Love and Justice, p. 54.

A natureza humana é, em suma, um reino de infinitas possibilidades de bem e mal, por causa de seu caráter de liberdade humana. O amor, que é a lei de sua natureza, é uma doação, sem fronteiras, de self. O pecado que corrompe a sua vida é uma asserção sem fronteiras do self. Entre estas duas forças todos os tipos de restrições podem ser elaboradas e definidas. Podemos chamar isto de lei natural [ou lei divina]. Mas é melhor compreendermos o quão temporário isto é. De outra forma, nós meramente sancionaríamos alguma relação tradicional entre mim mesmo e os meus companheiros humanos como uma relação "justa", e aquietaríamos a voz da consciência que me fala de possibilidades mais amplas. Mais ainda, podemos estabilizar o pecado e o tornar institucional...

*****

Politics always aims at some kind of a harmony or balance of interest, and such a harmony cannot be regarded as directly related to the final harmony of love of the Kingdom of God. All men are naturally inclined to obscure the morally ambiguous element in their political cause by investing it with religious sanctity. This is why religion is more frequently a source of confusion than of light in the political realm. The tendency to equate our political with our Christian convictions causes politics to generate idolatry.

Christianity and Crisis, July 21, 1952, in Love and Justice, p. 59.

Política sempre almeja algum tipo de harmonia ou equilíbrio de interesses, e tal harmonia não pode ser considerada como diretamente relacionada à harmonia final de amor do Reino de Deus. Todos os homens são naturalmente propensos a obscurecer o elemento moralmente ambíguo em sua causa política, investindo-o com santidade religiosa. Isto é como a religião é mais frequentemente uma fonte de confusão do que de esclarecimento no reino político. A tendência de igualar as nossas convicções políticas com nossas convicções cristãs faz com que a política gere idolatria.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Fogo Azul


Uma maravilha miraculosa em nossas cozinhas, cotidianamente.

O fogo é azul.

Durante milênios, em nossa história evolutiva, o fogo foi aquela criatura indomável, flamejante, carmim. Freud diz que mijar no fogo e o apagar foi uma grande conquista da humanidade, ou algo deste calibre.

E dona Maria vai pra cozinha, liga o gás e acende o fogo, e lá está a sempiterna chama azul.

Se você olha com carinho, percebe o quanto é uma coisa maravilhosa. O fogo é azul.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Procrastinação

Estou profundamente emocionado.

Que eu sou um grande procrastinador, todo mundo que me conhece sabe. Aliás, não é para com tudo: eu sou um grande procrastinador, mas um procrastinador acadêmico. Deixo atrasar trabalhos, enrolo os professores, peço segundas chances.

Em outras coisas, sou normalmente organizadinho e bonitinho.


Meu receio é que todos pensem que eu sou uma criatura pelvelsa, que faço isto por não dar a mínima a tudo aquilo, por não querer saber. Bem, sempre se tem uma pontinha de não querer saber, mas não sou uma pelvelso, a não ser talvez em manifestações sexuais esporádicas.

Não, Kátia; não, Magda, Roberto (os dois, Guerra e Cruz, que lindo título), Sílvio, Olga, Carmen, Ângela, Edmilson, Chalfin, Abel, Jadete, Andréa, Mauro, Sérgio, Fernando, Tuto, e demais. Não, não faço por mal. Sou apenas um rapaz latino-americano procrastinador.

Estou profundamente emocionado pois, como sempre do nada, dou de cara com artigos sobre procrastinação, justamente numa tarde de sábado em que estou procrastinando trabalhos que podem decidir se vou repetir a disciplina semestre que vem ou não (já deixo aqui avisado que se tratam de Desenvolvimento III e Social II, para que eu sofra peer pressure, o que dizem que ajuda a não procrastinar). Os artigos dizem que a procrastinação é um problema acadêmico sério, que os departamentos de atendimento aos alunos devem saber lidar com isto, e que eu não sou o único!

Usualmente a procrastinação de trata de ou problemas pessoais (dã, categoria aaaaaaaaaaampla), ou ansiedade e coisas similares (hum), raiva, hostilidade, baixa auto-estima, baixa tolerância a frustração ou questões de perfeccionismo. Interessante.

E eu vou então me mandar e tentar parar de procrastinar, que é o que eu estou fazendo escrevendo pra vocês.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Galheta


A praia, é a Galheta, para quem conhece, aqui em Florianópolis. A vista é do alto da trilha que vai da "fortaleza" da Barra da Lagoa para a Galheta. Foi ali, onde a montanha esconde a praia no centro da foto, que eu passei as últimas horas de 2006. Uma lua monumental prateava a vegetação arrastada pelo constante vento marítimo, espraiada no declive suave das encostas. As ondas quebravam em colunas de mercúrio. Ternura, admiração e terror. A Galheta é conhecida por ser uma praia de nudismo optativo, por prática de sexo nas trilhas mais próximas da praia, e (dizem) por ser ponto focal para as bruxas da ilha, especialmente na lua cheia. Muitas pessoas evitam a Galheta por um motivo qualquer (destes). Esta é a cidade onde eu moro.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Palitos no céu, palitos no inferno

Tem uma historinha oriental, talvez budista, que nos fala o seguinte:

um cara vai para o "inferno", e o que ele encontra lá? Uma mesa enorme, com pratos deliciosos, manjares inesquecíveis, moças e rapazes nus (há de se respeitar o gosto sexual de cada) deitados cobertos com sushis, enfim, um repasto maravilhoso. Várias pessoas se sentavam em torno desta mesa: todas tinham o braço esquerdo amarrado nas costas, e no braço direito a mão era amarrada com um longo palito, que impediam que elas usassem as mãos para se servir de qualquer coisa, e os palitos eram longos demais para que elas os usassem para levar coisas à boca. Todos estavam famintos, então, obrigados a sentar nas cadeiras, com a visão de comida eternamente deliciosa à sua frente; choravam e gritavam de desespero, choro e ranger de dentes. Provavelmente, em sua angústia, usavam seus palitos para cutucar a orelha do companheiro ao lado.

No "céu", a cena era exatamente a mesma, sem tirar nem pôr: até o sushi estava lá. Só que todos usavam os palitos para levar a comida até a boca do companheiro ao lado. Fico imaginando as conversas: "gostaria de alguma coisa?" "humm... que tal aquele quiche de azeitonas, ali do seu lado?". E todos comiam e ficavam satisfeitos. Não sei dizer se comiam o tempo todo ou se faziam outra coisa nas horas vagas, como carteado - é de se pensar. Mas enfim, a história é esta.

Hipótese(s):

a) um macaco descobriu uma forma de lavar suas batatas numa praia japonesa; a idéia se transmitiu "noosfericamente" para os demais macacos de balneários vizinhos. Os macacos descobriram o céu e o inferno. Os macacos ensinaram os habitantes do céu por analogia; os habitantes do inferno tentaram escravizar os macacos por analogia, e até hoje os macacos não voltaram ao inferno.

Esta é a minha hipótese, a mais simples em que posso pensar para esclarecer esta história.
Trecho de "O mito de Sísifo", o turbilhante livro de Camus.

Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também pode se fazer para a alegria. Essa palavra não está demais. Imagino ainda Sísifo indo outra vez para seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as lembranças da terra se mantêm muito intensas na lembrança, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente pesado, acontece que a tristeza se impõe ao coração humano: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O enorme desgosto é pesado demais para carregar. São nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Lixo

A gente abre o Bis, come o Bis e joga o papel fora.

A gente esquece que não se joga nada fora. Não se joga nada fora: apenas joga para longe.

Jogar fora é lançar longe, em viagem. Nada foi fora, a não ser longe dos olhos.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Lambuze-me

Atenção, todos vocês: descobri ontem que o alimento que se conserva por mais tempo é o mel. Foram encontrados potes, em sarcófagos egípcios, com um tanto de mel, ainda consumível - um tempo atrás. Provavelmente então o mel foi encaminhado à Sotheby's, e uma pessoa de l'argent enfeitou o seu pão nosso de cada dia da Polaîne com camadas douradas egípcias.

Ou ela fez como eu e o velho de Marquez, no "Memória de minhas putas tristes": fez um café forte e Bom, e adoçou-o com o mel - sem a "tapioca" do velho, necessariamente.

Eu tomo mel todo dia, desta forma, religiosamente prazerosa, meu paraíso profano. Será que o mel tem uma virtude conservativa, exatamente por se conservar tanto? Será que ele vai me fazer viver mais, ficar mais conservado, enquanto envelheço na soleira da minha casinha de madeira, sentado perto da grama salpicada de sereno, tomando café e observando o mundo desfilar à minha porta? Bem que eu podia viver numa época em que as coisas se davam desta forma: havia "forças" e afinidades entre as coisas, definidas por suas características. (Tenho em mente o livro do Eco, "A ilha do dia seguinte".) Hoje, o mel é apenas um adoçante, e quando muito tem suas propriedades anti-sépticas e anti-inflamatórias.

Mas ainda penso que daqui a pouco ele vai perder o posto de campeão na sua virtude conservativa. Nunca se sabe onde a indústria alimentícia terrestre do século XXI e além pode nos levar. Creio que não é preciso ir muito longe: não é característico dos contos e historietas pós-modernos o personagem principal, jovem urbano, encontrar uma bolacha, daquelas suas favoritas, debaixo da almofadona do sofá, e comê-la, para desespero de sua mãe fluminense, d. Alcina?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Comoção nacional

A morte de um menino de 6 anos, João, preso ao cinto de segurança do lado de fora de um carro, arrastado por 7 quilômetros pelas ruas do Rio de Janeiro. Estava com a mãe e a irmã quando três homens se aproximaram para um roubo. Elas saíram, e ele não conseguiu sair - a Folha enfatiza a hiperatividade e os problemas motores e físicos do garoto.
Na novela do horário nobre global, uma cena: três freiras lêem a tragédia no Globo, com lágrimas nos olhos e voz trêmula, e rezam um pai nosso.
Isso, sim, é comoção nacional: uma cena colocada em último momento no horário nobre.
A Folha também dá detalhes da massa encefálica e do corpo decapitado e aquebrantado. Os suspeitos foram quase linchados. A multidão gritava "assassinos". E eles disseram que não perceberam que o garoto estava preso no carro.
Mentira? Muito crack na cabeça?
Eu mesmo quis linchar um destes caras. Quis, quis, quis. Quis muito. Fiquei muito revoltado. Uma atitude natural. Foi breve, mas foi. Precisei de uma dose de razão e outra de sensibilidade para deixar o acontecimento ir...
Rezemos pelo garoto. Ou melhor, pensemos no garoto e rezemos por nós.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Cila-ila, Caribdis-ibdis & Tila Tekila

(versão 1, modificações possíveis, eu tenho pressa...)
Ultimamente tenho sido assombrado - literalmente assombrado, assombreado, soçobrado - por um questionamento cruel. Cruel, e delgado como uma lasca de cristal; a crueldade de uma lasca de cristal que se enterra debaixo da unha.

Onde está a diferença entre desistir e deixar acontecer? Onde está aquela sutil diferença entre desistir de algo - por achar impossível, por não poder mais ir adiante, por quaisquer razão - e a consciência limpa de que algo acabou, de que se tentou, se viveu?

Onde poder confessar que não dá mais, e onde é que esta confissão é uma mentira?

Será que dá para definir esta dúvida? Será que eu sempre sou responsável pelas minhas escolhas?

Nem todas as coisas são possíveis. Há coisas que simplesmente não podemos fazer. Isso não nos mostra que as coisas são impossíveis: há muitas coisas que podemos fazer. É assim que se dividem as coisas, então? Entre possíveis e impossíveis? Mas ora, como haveria de ser assim, se olhamos ao nosso redor e vemos as circunstâncias e a paisagem mudando, de momento a momento. Olhamos para a nossa história e vemos que certas coisas que achávamos impossíveis são possíveis, e outras, que achávamos possíveis, não o são tanto assim... e nada impede que este movimento continue, a colocar os possíveis nos impossíveis e vice-versa.

Estou falando de dois pólos, possível e impossível, mesmo sabendo, como coloquei agorinha acima, que não se trata de estes dois pólos, realmente. Se trata de algo muito, muito mais complicada: a probabilidade.

Mas... onde está a diferença entre desistir e deixar acontecer? Por que se desiste? Quem é que desiste?

Enfim, quem é que vai conviver com o arrependimento?

Afinal, arrependimento existe?

*****

Ao mesmo tempo, a realidade me bateu com força total, e me lançou de cara no chão.

Somos uma geração que tem medo de realidade, pois achamos que ela não existe por si só. Vivemos nesta posição esquisita de negar uma realidade forte, mas ao mesmo tempo a temos na nossa frente todo o tempo - e sabemos disto.

Creio que não se trata em nada de uma característica destes nossos tempos, esta dialética frente à realidade. Mas os nossos tempos são os primeiros a inventar para si a fantasia de uma realidade "virtual", de várias realidades, de várias facetas. Enquanto que em outras épocas parecia ser mais difícil sair fora da historinha do "real" - a não ser pela via da fantasia desenfreada, pra se dizer assim (romances, céu e inferno, loucura) - a nossa época se compraz e se congratula em colocar para si mesma que a realidade tem o impacto de uma bala de gelo no crânio. Ela pode impactar, mas ao mesmo tempo derrete-se.

Quando eu falo realidade eu não falo somente "do mundo lá fora". Este mundo lá fora, que é ele? Que sou eu, este mundo "aqui dentro"? Realidade pode ser definida, para os meus simples interesses leigos, como aquilo que resta depois de tudo mais, depois de qualquer dissolução do mundo dentro das nossas cabecinhas: a morte é um exemplo de realidade, para se colocar assim. Ou melhor, o saber-se morrer.

A realidade é o lembrete que se tem de fazer alguma coisa, mesmo que não se saiba o quê, ou o porquê.
*****

Onde desistir, então? Será que toda desistência é uma covardia? Será que devemos mesmo, como Hamlet, tomar de armas frente a um mar de problemas e, opondo-se a eles, extingui-los? Será que é esta a metáfora da vida humana - a da "luta", a da oposição, a da força humana frente aos vendavais que ameaçam extinguir sua tênue e fraca, porém inteligente, centelha de vida?

Ou será que a metáfora é a homérica, os homens como gerações de folhas ao vento, morrendo e caindo, ao capricho de deuses tão caprichosos quanto nós, mas imortais?

Ou será que a metáfora é outra, de um homem numa relação harmônica com os outros e com o seu mundo, encontrando um equilíbrio dinâmico - ou pior, encontrando a entropia?

O que nos espera além das estrelas: o fogo, o gelo, ou uma injeção de graça na testa? Ou o carimbo do Ibama intergalático?
*****

Eu não vou afirmar que todas as respostas são temporárias (apesar de me parecerem assim), mas se assim são, eu não me admiro. Não vou afirmar que todas as decisões morais e éticas são temporárias, apesar de me parecerem assim, mas se o forem, eu não me admiro. Não vou afirmar: não posso dizer.

Me admiro um pouco, na verdade, a admiração de um cara que gostaria que ao menos uma coisinha ínfima que fosse fosse certa, segura e certeira.

(A morte? Mas quem é que morre? Te contaram? Quem?)

Mas não me admiro no sentido de achar que só é assim, se for, por uma falha humana.

Talvez faça mais sentido - e seja mais engraçado - se pudéssemos pensar que ter certeza seja a maior falha humana de todas. De que, quando alguém chegar e dizer para nós, "eu sei", podemos desconfiar muito dele.
*****

Vocês entendem? Se seguimos pelo caminho, encontramos nossos inimigos mais ferrenhos. Se não seguimos, não encontramos nada, nem ninguém, e morremos. Se continuamos pelo caminho, encontraremos no mínimo dois rios. Um do nada, e outro do tudo. Não é difícil de ver isto. Não é uma experiência mística. Encontramos dois rios, um do "niilismo", e outro do "eternalismo". Dizem que foram estes os dois rios que Sidarta encontrou, para usar o personagem espiritual com quem tenho mais intimidade. Encontramos o caminho de que nada existe, ou nada é verdadeiro, ou nada permanece, e vivemos com isto. Ou então encontramos o caminho de que algo existe, algo é verdadeiro, algo permanece - para sempre - e vivemos com isto.

Como viver com o primeiro? Já sabemos o que o niilismo sincero e aplicado pode fazer. Todos nós sabemos. O segundo, eternalismo, sabemos também.

Dizem que era esta a discussão que estava em voga 2600 anos atrás, na época de Sidarta: a discussão se existia algo que permanecia para sempre, ou, para colocar em uma palavra, se existia algo que era imutável. Alguns iam pro lado do niilismo e respondiam que não: nada era imutável, nem a mais minúscula das partículas imagináveis. Outros iam pro lado do eternalismo e diziam que sim, que havia algo imutável, mesmo que fosse a mais minúscula das partículas imagináveis.

Não precisamos ir muito longe para entrar nesta discussão: a discussão entre mutável e imutável encontra-se no nosso berço cultural, no nascimento da nossa "filosofia".

E, falando seriamente, não há nada de mais nesta discussão também, pois é um questionamento básico, ao meu ver. Ele continua ininterruptamente até hoje. O importante é perceber que cada um destes posicionamentos leva a uma atitude com relação à vida e morte.

Este questionamento está no âmago da vida cotidiana, da vida de todos nós. Esta AMBIVALÊNCIA está no âmago da vida de todos nós. Não precisa ser dotado para ver: não se trata de misticismo, ou de insight. Este conflito está no âmago da nossa "existência".

Quem eu sou? E nos damos respostas: escolhemos uma opção, muitas vezes mudamos no meio, misturamos um pouco, fazemos uma resposta, e vivemos desta forma.

E eu tenho a impressão de que nenhuma das respostas vai acabar com esta contradição fundamental. O que fazer, então?

Se fosse somente uma questão de responder a uma pergunta, não seria tão foda assim. Afinal, há várias perguntas que não damos a mínima se elas forem respondidas ou não - a não ser, é claro, quando elas se apresentam para nós, quando sim tratamos de resolvê-las (e nem sempre estamos certos de ter dado "A Resposta", mas grande coisa...) Mas esta contradição, ela te incomoda ou não?

Muitas vezes dá vontade de tirar uma faca que está enterrada no meu peito, achando que ela é a causa de tanta confusão, de tanta insatisfação. Mas todos sabemos o que acontece quando tiramos facas enterradas no peito: o sangue brota e jorra com força.

O que fazer? Fazer nada, afinal de contas é tudo um sonho, nada existe em seu sentido mais puro? Tiro ou não tiro?

Quem é que vai tirar a faca? E quando, e onde, e como?

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Will-ill

Estou triste.
Amigo ou irmão... enfim, como continuam sendo poucas as palavras; e como continua intenso o meu anseio de empregá-las...
Muitos antes de mim já falaram de amigos. E muitos antes de mim já o foram. O mesmo para irmãos. Como posso dizer, senão isto, de alguém que se foi e que pra mim não pode ser somente ou irmão ou amigo?
Como amigo: os anos de convivência, os interesses conjuntos, as cenas compartilhadas, as tantas conversas. A leve sutileza da amizade, com os seus tempos de inércia - outros de exaustão - e seus reencontros de festa.
Como irmão, que outra palavra mais para descrever aquele palpitante mistério de um laço, de uma espécie de sangue conjunto correndo. Não simbioticamente: correndo, fluindo.
É uma tarde de um belo dia. Verão, ou primavera, ou qualquer outra estação que queirais. Aquela que sentirem melhor, batendo no seu rosto, é esta. Façam-me o favor de apenas não chegar a extremos de congelar a água: imaginem comigo, para que possais compreender. O sol oblíquo traz aquela luz dourada - aquela luz de final de tarde que esmaece e parece poder virar qualquer outra luz que lhe apeteça. Há pequenos glóbulos luminosos refletidos por um rio, este cercado por barrancos de terra rica e preta, e espigões de plantas delgadas, finos canudos. A água flui. Lentamente, letargicamente, nos cinturões onde as rãs depositam seus ovinhos. Água turva em contraste com a água corrente e rápida e lépida e fresca. Há alguma coisa se movendo nesta corrente: um barquinho, um tronquinho, uma pessoinha, não se pode ver. Duas pessoas, uma de cada margem, correm paralelas, um pouco atrás desta forma indistinta, esta sombra buraco no rio. Sou eu e meu amigo. Corremos e rimos e gorgolejamos de emoção e fúria, em disparada deste buraco negro no rio. Muitas vezes um vau no rio nos aproxima, chegamos perto de alcançar a nossa presa. Podemos sentir o calor e ver o suor na testa do outro. Outras tantas, estamos distantes. Margens são margens, distantes. Escuta-se o barulho dos galhos sendo quebrados pelos pés, ouve-se possíveis lamentações solitárias, vê-se que o outro diminuiu a marcha. Tiras verde-escuras cortam a sua imagem, me apresentam-no em fatias: quase desaparece. Corremos atrás da mancha no rio.
É assim que se flui.
Estou triste. Meu amigo Will foi-se para São Paulo, este final de semana.
Eu sei: São Paulo é ali do lado. Eu sei: que excelente oportunidade para ele. Eu sei: não vai ser a última vez que eu vou o ver.
Esta última eu mais sinto que sei. Mas eu sei.
Ele estava, faz muito tempo, contando com isto, querendo isto. Eu vi, acompanhei, dou fé, e dei apoio. É uma coisa importante para ele, muito além da importância que as pessoas dão para a palavra importância. E para mim também o é, mesmo que eu não o saiba dizer.
Pois o meu grande amigo dá o seu passo no Mundão. Todos nós damos os nossos passos no Mundão. Bilhões de pessoas deram os seus passos no Mundão - e a maioria delas está morta - história. Uns tinham filhos, outros não os tinham, como o Will. Muitos deram seus passos por necessidade, muitos por vaidade. Uns claudicantes, outros triunfantes. Uns sôfregos, outros trágicos, outros contidos, tantos ignorantes.
Choro por quê? então me perguntam. Que tristeza é esta?
Bem, eu chamo de tristeza para poder dizer a vocês. São tantas coisas em mim que eu detestaria vos fazer perder o seu tempo precioso catalogando os meus sentimentos.
Tristeza de não poder ter perto de mim este cara que dividiu muitas coisas comigo. Tristeza de ter que ouvir, escutar, e torcer, somente. Melancolia e nostalgia por visões do futuro passadas. Insegurança quanto ao futuro, por ele e por mim. Inveja - este o mais insidioso e mais pessoal de todos.
E, eu não sei explicar, um tremendo otimismo e bom-humor. Eu estou, de uma certa forma, contando contigo, Will. Acho que você sabe disto.
Eu não me dirijo muito a ele, aqui nesta minha escrita, pois eu sei que ele não me lê. Quase não me lê, e se duvidar nunca me leu, aqui no meu blog. Eu não me importo muito com isto. Mas eu vou me dirigir a você agora, Will, mesmo que você não me leia.
Admiro a tua presença. Admiro a tua alma. Ter te conhecido e conviver contigo é uma prova de vida - e ponto.
(Eu pretendia te escrever uma pequena eulogia, além destas palavras, mas não farei mais, por receio de ficar cheesy para os meus colegas amigos e algo-mais leitores. Né, meus colegas leitores? Eu queria que todos vocês saíssem chorando depois de ler o meu texto, devido a minha excepcional capacidade de colocar emoções no papel; que todos vocês desviassem os olhos marejados de lágrimas e pensassem então nos meus amigos, e deslumbrassem a ambivalência e a finitude dos laços humanos... Estou sendo egoísta: quero que todos chorem porque eu estou chorando. Sem essa, que a vaca tá esperando a ordenha.)
Então vá logo de uma vez, e trate de ser feliz. Nos vemos em breve.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Javé-é

Sabemos que, para muitos de nós, Javé continua a ser a resposta mais acertada para uma pergunta angustiante: "Quem é Deus?" Um budista, um hindu ou um taoísta não concordaria, tampouco muitos cristãos, muçulmanos e judeus, mas a minha resposta é a de um crítico literário, e se fundamenta na força e no poder da única personalidade literária que, tratando-se de vivacidade e notoriedade, ultrapassa até Hamlet, Falstaff, Iago, Lear e Cleópatra. Traduzindo a questão em termos religiosos, o Javé de "J" é a representação mais convincente da alteridade transcendental que já encontrei na vida. E, no entanto, Javé não é apenas "antropomórfico" (termo inútil!), mas é mesmo absolutamente humano, e não é, de maneira alguma, um sujeito agradável - e por que deveria sê-lo? Não pretende se candidatar a cargo político, não busca a fama nem almeja receber tratamento favorável por parte da mídia. Se o cristianismo insiste que Jesus Cristo é a boa nova (asserção tornada inválida pela brutalidade dos cristãos ao longo da história), então, Javé é a "má nova" encarnada, e a Cabala nos diz que ele, com toda a certeza, tem um corpo, um corpo imenso. É algo terrível cair nas garras do Javé vivo.
Harold Bloom. Jesus e Javé: Os nomes divinos. Rio de Janeiro, Objetiva, 2006.