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sábado, 5 de dezembro de 2009

Viver e/ou narrar

Quando se vive, nada acontece. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem, eis tudo. Nunca há começos. Os dias se sucedem aos dias, sem rima nem razão: é uma soma monótona e interminável. De vez em quando se procede a um total parcial, dizendo: faz três anos que viajo, três anos que estou em Bouville. Também não há fim: nunca deixamos uma mulher, um amigo, uma cidade, de uma só vez. E também tudo se parece: Xangai, Moscou, Argel, ao fim de 15 dias tudo é igual. Por alguns momentos - raramente - avaliamos a situação, percebemos que nos envolvemos com uma mulher, que nos metemos numa confusão. Por um átimo. Depois disso o desfile recomeça, voltamos a fazer as contas das horas e dos dias. Segunda, terça, quarta. Abril, maio, junho. 1924, 1925, 1926.

Viver é isso. Mas quando se narra a vida, tudo muda; simplesmente é uma mudança que ninguém nota: a prova é que se fala de histórias verdadeiras. Como se fosse possível haver histórias verdadeiras; os acontecimentos ocorrem num sentido e nós os narramos em sentido inverso. Parecemos começar do início: "Era uma bela noite de outono de 1922. Eu era escrevente de tabelião em Marommes." E na verdade foi pelo fim que começamos. Ele está ali, invisível e presente, é ele que confere a essas poucas palavras a pompa e o valor de um começo. "Estava passeando, saíra do vilarejo sem perceber, pensava em meus problemas de dinheiro." Essas frases, tomadas simplesmente pelo que são, significam que o sujeito estava absorto, deprimido, a cem léguas de uma aventura, exatamente nesse tipo de estado de espírito em que se deixam passar os acontecimentos sem vê-los. Mas o fim, que transforma tudo, já está presente. Para nós o sujeito já é o herói da história. Sua depressão, seus problemas de dinheiro são bem mais preciosos do que os nossos: doura-os a luz das paixões futuras.

E o relato prossegue às avessas: os instantes deixaram de se empilhar uns sobre os outros ao acaso, foram abocanhados pelo fim da história que os atrai, e cada um deles atrai por sua vez o instante que o precede: "Era noite, a rua estava deserta." As frases são lançadas negligentemente, parecem supérfluas; mas não caímos no logro e as deixamos de lado: é uma informação cujo valor compreenderemos depois. E temos a impressão de que o herói viveu todos os detalhes dessa noite como anunciações, como promessas, ou até mesmo de que vivia somente aqueles que eram promessas, cego e surdo para tudo que não anunciava a aventura. Esquecemos que o futuro ainda não estava ali; o sujeito passeava numa noite sem presságios, que lhe proporcionava de cambulhada suas riquezas monótonas, e ele não escolhia.

Quis que os momentos de minha vida tivessem uma sequência e uma ordem como os de uma vida que recordamos. O mesmo, ou quase, que tentar agarrar o tempo.

Jean-Paul Sartre, A náusea, pgs. 56-57. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Estou pensando em...


João me presenteou com um inusitado: Ser e Tempo, do Heidegger. Juro, juro, juro que tremi nas bases: é uma leitura chatíssima e dificílima. Mas maravilhosa: um verdadeiro desafio intelectual. Dou-me uns 3 ou 4 anos para lê-lo.

O Gato, evidentemente, até fuçou, mas não deu muita bola. Da próxima vez vou esconder atum no meio do livro, pra ele ver o que é bom. Já falei, gente, eu tento fazer de tudo por este gato, mas ele não colabora.

Minha ambição é ler este e A Fenomenologia do Espírito, do Hegel. Mais uns 2 ou 3 anos. Por quê? Porque eu quero. Tou pagando!!

Heidegger é um mistério para mim. Teoria e prática (um filósofo ensina pelo modo como vive, diz Arendt) são nebulosos. Mistério é a palavra exata, muitas vezes.

Por exemplo: no último mês envolvi-me com três livros diferentes, e como já disse, tempos atrás, uma estranha sinergia apossa as minhas leituras, de tempos em tempos: são livros que magicamente caem na minha mão e falam sobre perguntas que estavam, naquele momento, flutuando como escolhos no cais mental, e destas algumas poucas vezes outros escritos ajuntam-se, como coleguinhas de recreio, e apontam para uma mesma coisa ou questão, mesmo que eu não tenha sabido de antemão.

Os livros são: A vida do espírito, o livro póstumo da Hannah Arendt; Sócrates, o feiticeiro, Nicolas Grimaldi, uma brochurinha que encontrei num sebo e levei como curiosidade - graças a D'us - anos atrás, e O que é filosofia? do Deleuze e do Guattari. Este último ficou numa leitura morna, pelo próprio estilo "desterritorializante" dos autores. A Hannah, com seu estilo claro e preciso, foi lida de cabo a rabo, a primeira parte, sobre o pensar. O do Sócrates foi relido em goles fáceis, pois é poético e atina comigo.

Neste livro soberbo, criticado e aclamado, um tanto quanto esquecido - ele não foi terminado, somente a primeira parte está "completa" - Arendt, que investigou as três atividades da vita activa do homem (labor, trabalho e ação) na sua obra-prima, A condição humana, volta-se para a vita contemplativa, arrematando o ponto deixado em aberto. Pensar, querer e julgar são as atividades da vita contemplativa, e a parte completa é aquela que fala sobre o pensar.

Esta é uma questão que me tem pego, ultimamente: o que é o pensar? Nunca consegui, e não consigo, pensar o pensar e a filosofia como simples intellectual enterprise, como produção de conhecimento, como puro uso do intelecto e produção de conceitos. Evidentemente isto acontece, e todos sabemos que produzir "especulações metafísicas" é tarefa facílima, dados um pouco de leitura, cultura e tempo livre. Mas, para a mesma autora que defendeu a tese, em outro livro (Origens do totalitarismo), que levar uma ideologia até as seus extremos lógicos foi característica importante de todos os regimes totalitários, o que seria então o pensar?

Arendt diz que ficou estupefata com incapacidade de Eichmann de pensar. Eichmann, porém, era um homem relativamente culto - pelo menos educado - chegando a citar Kant em seu julgamento. A "banalidade do mal", conceito criado por Arendt, reside no fato que Eichmann era um cara comum, preocupado com sua carreira na SS, sem nenhum traço específico de antisemitismo ou "doença mental". Para ela, Eichmann simplesmente não conseguia "pensar".

Que é o pensar, portanto, é o que Arendt tenta responder, numa espécie de antologia e argumentação. E é uma pergunta - e uma possível resposta - interessantíssima. Se possível, tentarei digitar a introdução e colocar aqui, para quem quiser.

O que, particularmente, me chamou a atenção, foi uma citação de Heidegger (referenciado no corpo do livro) colocada como epígrafe à introdução:
O pensamento não traz conhecimento como as ciências.
O pensamento não produz sabedoria prática utilizável.
O pensamento não resolve os enigmas do universo.
O pensamento não nos dota diretamente com o poder de agir.
Isto eu chamo de "quebrar os braços", "puxar o tapete", ou "fazer a egípcia".

Fofoca: Heidegger e Arendt foram amantes, uma época. Dá-lhe Diotima!

(continua...)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Blindness

And oh, I forgot to tell you.

Vi "Blindness" ontem de noite. "Ensaio sobre a cegueira", um dos títulos mais curiosos, ao meu ver. Um livro que mergulha fundo em questões humanas, beirando o escatológico, ser chamado de "ensaio" - um ensaio sempre reserva uma distância intelectual - é uma pitada de sarcasmo.

Pensem em um livro de temática semelhante, como "O Senhor das Moscas", do Golding.

Li o "Ensaio" com mais ou menos 16, 17 anos. Um dos livros mais marcantes. Escrevi dezenas de páginas depois dele. Fui tomado por ele. Emprestei-o para alguém e ele sumiu. Saramago, que recentemente começou a escrever em um blog, com seu estilo cursivo e contínuo que me cativa e me marca, produz uma obra prima não em sua criatividade, mas em sua veemência.

Assistam ao filme e conversemos depois.