quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Mar Português

Um dos poemas mais belos da língua portuguesa, ao meu ver; por sua brevidade, por seu ritmo, por sua coloquialidade, pela mensagem, e pelas belíssimas figuras. Esses são não os motivos para que ele seja um belo poema: ele é um belo poema, e pronto. Esqueçam, então, o dito pelo dito. Há nele um sentimento muito humano, ao qual todos os fatores unem-se para tornar-se poema simples, a ser cantarolado, distraidamente, e então...

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

gato colo; colo gato

domingo, 14 de outubro de 2007

Casamento

Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Foto de família

Que milagre é poder ver as galáxias distantes como folhas a cair, ou pequenas faíscas de massa ígnea depois que a acha está a arder-se, terminada a sua chama. Aqui acaba-se nosso senso de proporção; dizemo-nos que vivemos em um pequeno sol no meio-caminho do centro à periferia da galáxia, e num planeta deste pequeno sol, e em um ponto deste planeta, já tão imenso, apesar de pequeno, e as árvores e gatos que nos cercam e este corpo que nos cerra - e onde é que estamos, afinal, onde estou eu, eu que o pergunto? A minha pele. Grande parte da poeira de casa é pele humana, que descama-se em particulazitas discretas como galáxias. Dizemos tudo isto, mas não temos a idéia - temos apenas as palavras.

Eis duas galáxias que colidem. Talvez acontecerá o mesmo com a "nossa", em breve, poucos bilhões de anos, no máximo. Estas duas aí continuarão na mesmissíssima posição, caro leitor, quanto tu morreres em poucas décadas, até mesmo quando os teus filhos e os netos deles procurarem pelo mesmo ponto; a foto será a mesma. Mudanças ínfimas. O tempo de vida na terra talvez seja da ordem de um suspiro, se é que o vazio cósmico suspira; não o posso confirmar, contudo, imagino-o como um suspiro, talvez. Fleeting moment passing by. Se vai-se repetir tudo, ou se tudo está repetindo-se infinitamente agora; se o tempo é redondo, quadrado ou da forma de uma bala melada, se não existe ou ainda não decidiu tempar-se... isto não importa para o fato que sei de um tempo, que sei de um gato e de uma árvore, e enfim. É um milagre que possamos ver duas galáxias batendo-se como trapos na máquina de lavar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

i thank You God for most this amazing
day:for the leaping greenly spirits of trees
and a blue true dream of sky;and for everything
which is natural which is infinite which is yes

(i who have died am alive again today,
and this is the sun's birthday;this is the birth
day of life and of love and wings:and of the gay
great happening illimitably earth)

how should tasting touching hearing seeing
breathing any--lifted from the no
of allnothing--human merely being
doubt unimaginable You?

(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)

ee cummings XAIPE 1965

domingo, 30 de setembro de 2007

Postado em Sangha Margha:

Nesta manhã de domingo fizemos uma caminhada pela paz, no centro de Florianópolis. Cerca de 30 pessoas - gente da comunidade zen-budista, do budismo vajrayana, da fé Baha'i e do catolicismo - passearam calma e alegremente, entre conversas, cartazes e cuias de chimarrão, em adesão a outras tantas manifestações sobre nossos colegas, monges ou não, de Mianmar. Uma alma mais virtuosa que eu poderá falar melhor, com fotos e demais quetais.

Eu e Joshin, por idéia dele, fomos antes na missa das 7 e meia da manhã, na Catedral Metropolitana. Desejávamos dar um aviso para o povo todo da caminhada; alguém talvez gostaria de juntar-se a nós.

Fazia muitos anos - quase 10, se não me engano - em que não ia a uma missa. Se duvidar, a última vez em que fui numa missa foi quando eu "recebi o Espírito Santo", a minha crisma. Desde então, perdi o hábito - se é que o tive - de ir à missa. Durante a liturgia de hoje, pensamentos e lembranças de tantas missas que eu fui, quando criança, voltaram com aquele caráter fragmentado e distante das lembranças muito antigas. Vi-me ora sentado, ora ajoelhado, ora caminhando, ora escutando. Era somente uma coisa a mais, como outras tantas coisas chatas.

De uns tempos para cá, porém, tenho sentido um desejo de aprofundar-me, de conhecer mais, na e sobre a experiência cristã. É interessante que o zazen me tenha aberto, de certa forma, a querer saber mais. Afinal, assim como um crente sofre com a "perda da fé", uma pessoa sem fé sofre ao ver-se amolecendo debaixo da chuva. Mas não se perde, ou ganha, nada.

Deixo um pouco liturgias e dogmas de lado - a forma - e olho de perto, para um "Deus vivo", que é a expressão que me veio à cabeça. Oxalá que possam viver sua fé, e este sacramento, nas suas vidas.

Joshin falou bem para o povo na catedral, com presença, palavras justas e bonitas. Comungamos, recebemos as bençãos da comunidade para nós, "irmãos de outras religiões", e tomamos café - todo mundo sabe que eu me rendo ao ser convidado a partilhar duma mesa... Agradecimentos ao padre Egidio e ao padre José; este último nos acompanhou em nossa caminhada.

domingo, 23 de setembro de 2007

5 livros que "mudaram a minha vida"

Meu amigo Robizito desafiou-me, seguindo o tal do meme que rodeou por outros blogs afins, a dizer dos cinco livros que mudaram a minha vida.

Ora bolas. Livros que mudaram a minha vida... são tantos, e tão diversos... eu posso dizer que 30 porcento dos livros que eu já li, efetivamente, mudaram a minha vida em uma escala mensurável. Mas certo, entendo o que se quer dizer - o que, aqui começam as más notícias, torna as coisas ainda mais difíceis. Além do mais, há de relevar todos aqueles deliciosos livros da biblioteca do Centro de Magna Sapiência de Santa Catarina (UFSC), e os deliciosos livros que ora peguei emprestado, ora peguei furtosamente e furtivamente - embora eu sempre devolva aos meus amigos.

Escrevendo, percebo que dizer de cinco livros sempre leva-me a falar de outros. Não tem como ser diferente. E, como não quero deixar muita coisa passar, eles vão aparecer.

O critério primordial, então, da minha seleção, será o seguinte: tirando uma ou outra lembrança que pode me vir a cabeça, os livros abaixo citados são todos meus livros de estante, da minha estantezinha branca. A estante não dá conta de todos os livros e das 27 toneladas de xerocópias que tenho, então também poderão entrar na lista os livros que se escondem na prateleira de cima do meu armário - também ele branco. Serão, também, todos livros "de literatura". Acho que vou deixar os outros livros - filosóficos e científicos - para outra deixa, deixa somente deles.

0 - O zero é um caso especial. Um livro que mudou muito a minha vida? Relembrei-me estes dias de um livro de receitas que tínhamos quando eu era criança, chamado A boa mesa. Eu pirava demais com as descrições das cocções e preparações, e pirava mais ainda com as fotos, muito boas por sinal. Sentia um prazer indescritível em acompanhar, passo a passo, o fazer de um prato, mesmo que fosse apenas na minha cabeça. Um dos gestos de carinho que me lembro mais fortemente é de quando a empregada que trabalhava lá em casa fazia o tal do "bolo amarelo". A receita era deste livro, e nele o tal do bolo tinha uma cobertura branca e um recheio, e era um dos mais simples. Ela me fazia sem nenhum dos anteriores, somente a massa, quando eu pedia, e eu adorava o sabor e a textura dele.

A lista continuaria, agora que li outro post sobre o mesmo tema. Como eu pude me esquecer da Droga da Obediência, um dos livros que mais me atiçaram a imaginação, que eu li mais de 3 vezes, que eu reli outras tantas?

Também, a minha experiência de pequeno leitor com a Coleção Vagalume da Ática. Desses, eu não tenho o que comentar, pois temo que todos os cinco livros que mudaram a minha vida eu tenha lido antes dos 12 anos de idade. Acrescento também os gibizões grossões, pelos quais eu era sedento; a uma série de mangá que ganhei por volta dos 12, também, Mai, a "garota psíquica" (esqueci da tradução), a um... bem, o critério mudou. 5 livros que mudaram a minha vida depois dos 15 anos.

... mas, antes, devo dizer: com 13 anos eu li os dois livros do Capra: O Tao da Física e O Ponto de Mutação. Logo depois, li O Mundo Assombrado pelos Demônios, do Carl Sagan. Isto, porém, é para outro post.

1 - O Admirável Mundo Novo, do Huxley. Nem me lembro mais quando foi a primeira vez que o li. Tenho uma edição da Globo, com um desenho engraçado na capa (que não é esta ao lado); suas folhas de papel-jornal estão amarelando lentamente. Ler o AMN foi uma espécie de iniciação na obra do Huxley, que passei a ler todos os que podia encontrar dele (embora eu confesse que até hoje ainda não tenha lido Contraponto...), donde eu cheguei à parte esotérica-mística da obra (e da vida) dele, passando pela Filosofia Perene, caindo no - surpresa! - As Portas da Percepção, terminando com A Ilha. As Portas... me deu muito o que pensar, e A Ilha foi uma leitura interessante, mas AMN continua o melhor dele, para mim. Foi um dos primeiros livros que eu li em inglês - "a squat grey building", ah, que memória boa eu tenho! Na época, não fiquei horrorizado - como muitos ficam - com a visão de futuro do Huxley, e confesso, com uma pitada de perversão, que na época eu achava uma idéia até natural e totalmente funcional, fazer com que as pessoas gostem de fazer o que têm de fazer. Mais tarde, vi que não se tratava somente disto... Uma cena que lembro-me sempre é do céu noturno de Londres, brilhante de outdoors e propaganda no céu, ofuscando a visão das estrelas acima. Que planeta solitário...

AMN levou-me, de uma certa forma, ao 1984, do Orwell. Este é um dos livros que eu releio sempre, volta e meia. Não tenho muito a falar, a não ser que é um tremendo de um livro, dado o contexto em que foi escrito. Acho que tenho um gosto pelas distopias. Confesso que o que eu mais gostei em Independence Day foi o fato de os ETs já meterem fogo logo no início do filme. Depois de 1984, comecei a ver mais as utopias, começando pela A Própria, do Morus, passando pela República do Arístocles, perdão, Platão. Não posso deixar de dizer que a República é o livro clássico mais nojento que eu já li - para um filósofo, aquilo é uma aberração.

2 - Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago. Por que, exatamente, este livro em especial do Saramago como um dos livros que mudaram a minha vida? Eu não sei dizer muito bem. Sei dizer, somente, que sim; tinha 16 anos quando o li, e retenho até hoje a memória de como o livro me impressionou, e tenho textos que comprovam isto... uma espécie de sentimento de injustiça e compaixão e sei lá mais o que levantaram-se em mim como vagas mudas, e eu escrevi febrilmente. Até hoje guardo comigo uma frase dele: "uma coisa sem nome, esta coisa é o que somos."

Também, contudo, por volta da mesma época - ai, como eu tenho vergonha... - eu li aquela famosa série do Benitez, Operação Cavalo de Tróia. Toda ela. E, por pouco, quase deixei-me convencer e converter por um evangelho fantástico. Foi bom, pois depois do golpe meu senso crítico voltou mais maduro e com mais força que antes. Os detalhes pseudo-científicos, porém, eram bastante interessantes.

O que me remete a Madame Bovary, que é um livro com o qual eu me identifico muito. Se Flaubert dizia que a Emma era ele, vamos ter que resolver no muque, pois eu acho que ela é eu.

3 - Lolita, Vladimir Nabokov. Ah, eu sofri com o Lolita; como eu sofri com o Lolita. Li-o pela primeira vez poucos meses atrás. Eu tenho aqui comigo uma espécie de adágio: "o livro certo na hora certa". Tenho esta impressão fortíssima, muitas vezes: "ah, este livro veio parar nas minhas mãos justamente na hora em que estou apto para lê-lo!" Claro, não vou discutir, João: nada mais do que a velha tendência de prestar mais atenção a detalhes que referem-se a nós, certo, misturado com um pouco de psicologia literária. Tudo bem. Mas a impressão continua, e este foi o caso do Lolita. Se tivesse lido antes, tenho certeza, não teria tido a Lolita experience até o seu âmago, até o seu amargo, obscuro, afiado e límpido final. Lolita é um livro belamente muito bem escrito, com uma finura e uma sutileza distinta, sem deixar de ser legível por causa disto.

(Intermezzo: opa, alguns livros que queriam entrar na lista rebelaram-se e caíram por aqui... A Hora da Estrela, Lispector; Solaris, Stanislaw Lem; Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar; Afrodita, Isabel Allende. Clarice, que eu muito gostaria de ver, não aparece; soube mais tarde que se encontrava com Hilda Hilst para um gole de vinho do porto. Mas Allende aproxima-se com um brilho assustador nos olhos.)

4 - O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy. Este livro obscuro de uma autora médio-obscura, indiana inglesa, por assim dizer, veio parar às minhas mãos de uma forma muito especial: minha mãe comprou, começou a ler, não gostou e me deu. Imagino o porquê de ela ter comprado este livro, e tenho certeza do porquê ela não ter gostado: aqui está uma boa prova das diferenças de gosto literário, e expectativas quanto à vida, entre eu e ela. A história dos gêmeos Estha e Rahel envolveu-me da mesma forma que a doce floresta indiana no sol do fim da tarde. Extremamente sinestésico, um pouco delirante, como uma insolação, um pouco doce demais, como uma manga muito madura. Um tanto dividido, duas culturas distintas, duas gerações distintas, a promessa de morte, a morte certa... e um pé atrás, recuando do drama excessivo. Ah, que livro.

(Começo a escutar vozes, e elas dizem "Hesse, Hesse". Não posso mais dormir, então deixo aq
ui um canto para dizer que Hesse, Hesse.)

5 - And last but not least. Este aqui, eu não sei o que dizer dele. Um crássico, não é mesmo, minha gente? Estou falando do Hamlet. Chama a atenção o fato de que eu tenha pouco colocado as mãos nele; de tempos em tempos cruciais, porém, eu encontro-o novamente. Tenho a sorte de lê-lo no inglês. Nada a acrescentar.

A não ser o Walden, Henry David Thoreau. O mais famoso trancendentalista americano depois de Emerson, este cara constrói uma pequena cabaninha de madeira com suas próprias mãos na beira do lago Walden. Não estava isolado do mundo não: o vizinho mais próximo estava a dois quilômetros de distância. Planta seus feijões, faz seu pão. Durante e depois escreve suas memórias e impressões sobre a experiência. Além de escrever bem, nas horas certas as reflexões de Thoreau caem como chuva no telhado.

(Outros protestos enchem as avenidas da minha imaginação. Isaac Asimov, muito cortesmente, me pergunta: "e eu, e eu?" Ao que, evidentemente, eu respondo qual a diferença que um rapaz latino-americano com pouco dinheiro no banco e sem parentes importantes pode fazer para a sua glória imortal. Um grupo de pessoas chamadas/o "Homero" me circunda em um beco escuro e pergunta(m)-me se de nada adiantaram os seus milhares de hexâmetros dactílicos da Ilíada... Jorge Luis Borges sabe que eu já lhe devi as devidas honras em um café de Buenos Aires, mas Machado de Assim olha-me de longe, enfastiado. Fico me perguntando o quanto os escritores podem ficar carentes depois da morte.)

Uma coisa me chama a atenção: como os livros são experiências tão marcantes, e tão fugazes. Voltam sempre, sempre lê-se os mesmos livros, vezes e vezes e vezes. De alguns dos livros, aí em cima, eu me perguntava: cabe ele entrar nesta minha lista tão "nobre" ? Ficava a questão; outros passavam pela minha cabeça, e me questionavam "e eu, e eu, não fui forte para você?" A dúvida dissipava-se, porém, ao voltar-me para trás e poder ver-me lendo, como se fosse agora, como eu os lera pela primeira vez. Alguns são espumas flutuantes, outros pregam-te nas tardes de ócio e fazem sonhar. E nem sempre os livros mais marcantes são os "melhores".

(Oh não... quem eu menos esperava dobra a esquina... e não está sozinho...)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

sombremo-nos


Por que há desejo em mim, é tudo cintilância.

Hilda Hilst

ars longa uita breuis

Ὁ βίος βραχύς, ἡ δὲ τέχνη μακρή, ὁ δὲ καιρὸς ὀξὺς, ἡ δὲ πεῖρα σφαλερὴ, ἡ δὲ κρίσις χαλεπή

ho bíos brakhýs, hê de tékhnê makrê, ho de kairos óksus, hê de peîra sphalerê, hê de krísis khalepê

Ars longa, vita brevis, occasio praeceps, experimentum periculosum, iudicium difficile

A vida, breve; a arte, grande; o momento oportuno, fugaz; o experimento, hesitante; a decisão, árdua.


A famosa fase de Hipócrates, o pai da medicina; traduzida e abreviada para "ars longa uita breuis". A arte, tékhnê, se trata da arte da medicina; "arte" eram consideradas a arte da retórica, da navegação, da escultura. tékhne e poiésis: a arte e o fazer, poiésis sendo o verbo utilizado para as coisas que se fazem, como poesia. Com o tempo é que se diferencia a técnica da arte: para os gregos um escultor era, antes de tudo, um fazedor, como um sapateiro ou um latoeiro.

A arte da medicina, muito maior do que a vida, curta demais: a vida dos doentes, a vida dos médicos. A vida de um médico não é o suficiente para englobar toda a arte da medicina; o aprendizado prossegue, ininterrupto, até a morte - e além, com outros médicos aprendendo a mesma arte.

kairos é o momento oportuno, a "oportunidade". Há duas palavras para tempo, em grego: khrónos e kairos. khrónos é o tempo em si, o tempo que passa, impiedoso. kairos é um momento no tempo, o momento certo em que uma determinada ação pode ser efetiva - ou não. Uma flecha zunirá para cima de qualquer forma, assim como uma pedra cairá, de qualquer forma; uma flecha acertará o alvo, porém, em um determinado "momento oportuno", dadas as "circunstâncias" - mira, força, e quetais. "Ah, aqueles momentos em que eu podia ter feito algo, e não o fiz...", imagino Hipócrates com os seus botões. Pois o momento oportuno é fugaz, muitas vezes.

kairos é uma das palavrinhas gregas que vale a pena aprender.

E o experimento é hesitante; "periclitante", para se dizer. peîra é uma tentativa, um experimento. Tem aqui este sabor de tentativa - e erro. Pois o experimento não nos garante certeza; pode ser um tiro no escuro, baseado no tatear.

Quão árduo, quão sofrido pode ser um julgamento e uma decisão, dado todos os anteriores. krísis é decisão, escolha, julgamento; mas também tem um significado, de acordo com o meu querido LSJ online, de um ponto de mudança de uma doença, para pior ou melhor - que também pode ser "muito difícil de aguentar" (khalepos), para o nosso Hipócrates.

A frase é contundente, e por mais sintético que seja o grego, há um caráter marcante e duro nela. Um certo sentimento de urgência, de algo a ser feito, empresta a sua sombra. Algo além do que uma simples meditação - meletan - sobre o tempo de vida de cada um, e a arte que continuará adiante. Há que se fazer algo, há que se fazer - a arte da medicina que encontra-se, muitas vezes, em cima do fio da navalha.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

"Não se deve limitar-se a escrever assim como não se deve limitar-se a ler. A primeira destas ocupações abaterá, esgotará a energia espiritual. A segunda a enfraquecerá, a diluirá. Recorramos alternativamente a uma e a outra, e temperemos uma com a outra, de tal modo que a composição escrita dê corpo de obra (stilus redigat in corpus) àquilo que a leitura recolheu (quicquid lectione collectum est)."

Nec scribere tantum nec tantum legere debemus: altera res contristabit uires et exhauriet (de stilo dico), altera soluet ac diluet. Invicem hoc et illo commeandum est et alterum altero temperandum, ut quidquid lectione collectum est stilus redigat in corpus.

Sêneca, Carta 84 a Lucílio.
Tirado de "A hermenêutica do sujeito", Foucault.

sábado, 8 de setembro de 2007

Duas do português brasileiro:

Will anda por Sampa e vê uma placa na rua. Ela anuncia que está-se procurando um pudo. É, um pudo, aquele cachorro branquinho e peludo.

Mãe vê, aqui em Floripa, se não me engano, uma placa de alguém vendendo guaraná em pó. Claro que, para vender bem, há de se anunciar as qualidades do produto, como a flor de síaco, por exemplo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Escritor é condenado por morte descrita em romance

Folha de S. Paulo - 6/9/2007 - por Clara Fagundes

Numa cidadezinha polonesa, um corpo é pescado de um rio, com sinais de uma morte sórdida: mãos ao redor do pescoço, atadas a uma forca. A polícia identifica Dariusz Janiszewski, o dono de uma pequena agência de publicidade, que não tinha dívidas ou inimigos. A descrição detalhada deste homicídio, no romance policial Amok (o arrebatamento, em português), terminou em um posfácio inesperado: a prisão do autor, Krystian Bala, condenado ontem (05/09) a 25 anos pelo crime que inspirou a obra. A principal peça da acusação é o romance policial, publicado em 2003, três anos após o assassinato. O investigador Jacek Wroblewski garante que a narrativa tem informações minuciosas, conhecidas apenas pela polícia - ou pelo assassino.

Retirado daqui...

sábado, 1 de setembro de 2007

No meio da floresta


Esta é a única foto conhecida que temos do famoso antropólogo, naturalista, etnólogo, teólogo e gastrônomo Boetius Schwannherz Hawthorne Eckhart III. Boetius foi um dos primeiros a, entre muitas obras, introduzir a estampa indiana no meio da selva amazônica. Na foto ele se encontra na "Passarela do Amor", construída por ele para observar o acasalamento das araras azuis. Boetius também foi o responsável pela maior queimada ocorrida em um floresta tropical, e pela construção de uma casa de ópera feita, inteiramente, de pau-rosa.

13 de dezembro

Bem que esta noite eu vi gente chegando
Eu vi sapo saltitando
E ao longe ouvi o ronco alegre do trovão
Alguma coisa forte pra valer
Estava para acontecer na região
Quando o galo cantou
Que o dia raiou eu imaginei
É que hoje é treze de dezembro e a treze de dezembro
Nasceu nosso rei

O nosso rei do baião
A maior voz do sertão
Filho do sonho de D. Sebastião
Como fruto do matrimônio
Do cometa Januário
Com a estrela Santana
Ao nascer da era do Aquário
No cenário rico das terras de Exu
O mensageiro nu dos orixás
É desse treze de dezembro
Que eu me lembrarei e sei que não me esquecerei jamais

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Ideal

Não há nada mais perigoso do que um ideal. Eu temo, por mim e por outros, um mundo em que algo de ideal acabará prevalecendo. Quero longe de mim a perfeição. Quero distância da mathesis universalis. Um ideal deveria existir somente como isto: um ideal. Todas as pessoas que proclamassem um ideal, acreditando piamente nele, deveriam comer sabão.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Coisas de amigo

A Dé montou uma exposição, juntamente com um colega fotógrafo: Efemeridades. Todo o blábláblá popó-momó pode ser conferido em seu petit blòg Memorialista. Segundo seu namorado, é o começo de uma "linda carreira". Talvez não seja, Jaguarito, talvez não seja. Estás sendo muito romântico. Vamos ser mais realistas e dizer que é o começo de uma série de sucessos, de cachês polpudos e de propostas diversas e divertidas.

Faggiani está publicando, em seu blogette de endereço próprio - um luxo - uma série de artigos sobre psicologia. Muito interessantes, se o querido leitor lembrar-se sempre que a psicologia é um balaio de gatos. Faggiani faz mestrado em Análise do Comportamento na USP. Como eu nem quero saber, muito menos escrever, sobre psicologia atualmente, passo a bola a ele, que também ataca Quem somos nós? e O segredo, como um cara esperto que ele é.

Vidu Bazzo escreveu um texto muito interessante na última semana, Der neue Übermensch - Teil 2, com título em alemão e escrito em inglês. Teve uma parte um que está perdida em algum lugar do seu blogue. Um comentário muito bem escrito sobre a onda ateísta atual, que nega, renega e denega qualquer coisa religiosa... bem, vocês podem ler o texto dele, que está muito melhor escrito do que eu escreveria agora - embora em inglês. A sua leitura pessoal do conceito de além-do-homem nietzscheano é interessante. Um texto lúcido e bonito. Espero que ele consiga colocar suas idéias em prática.

O avô do Vidu morreu esta semana passada, e ele escreveu um réquiem no seu blog também. Já tive a oportunidade de poder conversar com ele, e quero demonstrar mais uma vez os meus sentimentos. Por mais distantes que muitas vezes nos sentimos com relação a outrem, certas coisas nos tocam mais do que logramos pensar; e se toca você, Vidu, toca a mim também.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Tirinha...


Linda tirinha.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Ducentésima postagem

Quais as companhias que aparecem em Blade Runner?

ANACO, Atari, Atriton, Bell, Budweiser, Bulova, Citizen, Coca-Cola, Cuisine Art, Dentyne, Hilton, Jovan, JVC, Koss, L.A. Eyeworks, Lark, Marlboro, Million Dollar Discount, Mon Hart, Pan Am, Polaroid, RCA, Remy, Schiltz, Shakey's, Toshiba, Star Jewelers, TDK, The Million Dollar Movie, TWA, Wakamoto.


Você chegou a ver todas?

Damnatio memoriae


A foto mostra Stalin e o apagamento do comissário Nikolai Yezhov, tornado persona non grata e executado em 1940.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

"No-knead Bread"

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Space Opera

Gente, estava dando uma olhada na Uncyclopedia. A Uncyclopedia é uma versão... digamos... diferente da Wikipedia: usa o mesmo modelo de artigo e postagem, mas tem um compromisso menor com a verdade científica ou filosófica ou factual. Enfim, a Uncyclopedia - ou Desciclopédia, em português - é um bando de nonsense maravilhosamente divertido.

Estava lendo sobre a descrição da Cientologia (Scientology, a religião-culto-empresa que o Tom Cruise é o mais famoso representante) na Uncy... Comecei a ler sobre a Confederação Galática, fundada 75 trilhões de anos atrás, sobre o seu líder Xenu, que trouxe vários alienígenas para a Terra em naves em forma de aviões, colocando-os todos perto de vulcões e os matando com bombas de hidrogênio - a "alma" dos aliens mortos na ocasião são a causa de tantas mazelas para a humanidade, pois elas se agarram aos corpos de carne humanos e quetais.

Eu gosto de ler estas histórias. Na Uncy tem outros artigos sobre a provável história presente, passada ou futura - como a da invasão marciana, a fundação do estado do Megatexas. Na Desci, procure por Ashtar Sheran, o líder espiritual de Elba Ramalho.

De curiosidade, porém - e esta curiosidade há de me matar... de desgosto - fui procurar na Wiki sobre esta história que a Cientologia conta. É a mesma, muitas vezes palavra por palavra. Um dos casos em que não foi preciso satirizar uma história verdadeira para a tornar ainda mais non-sense ou engraçada.

Space opera in Scientology scripture
Xenu (este tem mais figurinhas)

Uia.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Integração homem-gato

Professor, cadê você?

Os que vivem na Praça XV, no centro de Florianópolis, concordam em uma coisa: o Professor é o homem mais culto do Brasil. Há três meses, depois de mais uma noite na escadaria da catedral, ele desapareceu misteriosamente. Confusos com o sumiço, seus companheiros elaboraram várias versões para explicar o caso. O Professor é um morador de rua que se autodenomina revolucionário e que fala português, inglês, espanhol, francês, italiano, alemão, holandês, ao todo, sete idiomas. Antes de ter ido embora, ensinava essas línguas aos colegas, logo após o almoço, a divisão dos restos de pães doados pelo padeiro do outro lado da rua.

Quer continuar? Vá para o blog do Bruno e procure pelo post "Professor, cadê você?".

sábado, 21 de julho de 2007

if

an infinite number of rednecks
riding in an infinite number of pickup trucks
fire an infinite number of shotgun rounds
at an infinite number of highway signs
they will eventually reproduce all
of the world's great
literature
in

braille.gif (740 bytes)


http://www.buddhamind.info/riteside/index.htm

Exercício - II

Comprei um tradutor de textos para o meu computador, esta semana passada.

Se me falta a capacidade de traduzir? Creio que não, quando se trata de um pequeno punhado de línguas, línguas que se reduzem a uns dois ou três dedos da minha mão. É que eu tenho o velho ditado italiano na minha cabeça que diz, já traduzido, que o tradutor é um traidor. Traidor do texto original, do autor de outro texto, em outra língua; amante, talvez, do seu texto, da sua autoria por tabela.

Todos os amantes e traidores, de textos ou qualquer outra coisa, crêem que o seu objeto é um elevado do resto, do todo-o-mais. Eu comprei um tradutor de textos por estar ciente da imensa continentalidade das línguas. Primo em um pequeno pedaço da Experiência Falante de todos os homens; com o meu português e demais, eu penso ser o rei do universo em uma casca de noz. E o menino das margens de um lago acinzentado pela nuvem de borrasca no meio do continente africano? Ah, estas línguas todas que eu não sei. Por mais que eu tente casar todas as minhas primas, umas com as outras.

Quem me vendeu foi um velho senhor simpático, de rugas caninas e pêlos felinos. Tresandava àquele sabor único de velhice, não o embolorado. Como pele animal curtida no sol e lavada repetidamente.

Em verdade, ele é o criador do tal método de tradução, ou melhor dizendo, o seu curador, o seu guarda. Como eu vou poder dizer mais abaixo, o M(N)étodo de Tradução é um tanto primoroso. O vendedor de fato foi quem eu imagino ser o filho, ou neto, ou qualquer descendência longa perdida na história de tal senhor. Um jovem bonito, de dentes brancos e saudáveis, e coxas fortes. Sim, um cavalo. Um belo cavalo de raça, um alazão mouro, um puro-sangue mestiço. As olheiras denunciavam o árduo trabalho em converter todo aquele trabalho - até então impresso em tipos elegantes - para um meio digital. Árduo trabalho. Imagino outros tantos quanto ele. Apareceu aqui em casa, a pele como coral, o odor marinho. Muito saudável.

Um tempo atrás, em que a Rede Mundial ainda fosse algo restrito aos militares e aos cientistas, o programa de tradução me tomaria muito espaço. Muito espaço. Nada comparado ao que ocupava antes, obviamente, mas se era gigantesco, um parente próximo da biblioteca Borgiana - da qual eu fui um dos únicos a sair vivo, embora não esteja ainda muito certo disto - ao menos era uma só, fisicamente localizável, um belo monumento à traição dos tradutores. A ambição louca daquele velhinho era disponibilizar, para todos aqueles que o quisessem, tal Método de Tradução, em sua própria casa. Com a net, nada mais fácil.

Todos sabemos qual é o grande problema com as traduções digitais: elas não traduzem. Seus algoritmos, por mais bem-construídos que sejam, não simulam o nosso falar. Eles trocam certas palavras por certas palavras, analisam algumas expressões e trocam por outras, embutidas em sua programação por um homem cansado, porém atento. Até mesmo analisam contextualmente, fazem cálculos de probabilidade e sorteiam, da mesma medula que o tal do homem cansado os deu. Um dia, as máquinas vão aprender a falar - se é que não já aprenderam. Talvez uma delas tenha aprendido a falar e nunca mais parou; está trancafiada em um sótão em Viena. Só que os algoritmos não sabem trair. Eles não traduzem.

Meu querido amigo me contou que este problema é fácil de ser solucionado: basta disponibilizar todas as traduções possíveis em todas as línguas possíveis. Diferentemente da biblioteca Borgiana, porém - trabalho inútil, segundo ele - só os textos que existem agora terão traduções agora. Este relato que vos escrevo, por exemplo, está em andamento em várias línguas, do ramo românico, saxão, eslavo, chinês e hindu. Mais de dois tradutores em cada uma delas se ofereceu para me traduzir. Os resultados podem ser acessados facilmente através da Web; o programa é relativamente barato, e expira somente depois de 30 anos. O prédio usado anteriormente para tal procedimento maciço está sendo transformado em fábrica de hambúrgueres. Volumes valiosíssimos - como 13 traduções em russo de todos os volumes de Júlia, Sabrina e Bianca - estão sendo leiloados a preço de banana.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Exercício - I

Não digo meu nome, pois sei lá que horas são, e meu nome não importa. Não, não sou daqueles de personalidades múltiplas e o escambau: isto fica mais para o pessoal de óculos de tartaruga quadrado e quetais, os lúgubres que fizeram morada não sei em que recantos do vasto mundo "intelectual". Eu sou eu, ora bolas. Mais que claro. Simplesmente posso dizer que quanto a nomes, tenho mais de um. Mas posso ser chamado de Lucas.

Houve vezes em que acordei e era mais Lucas do que eu mesmo. Hoje, meu bem, não foi um destes dias. A minha cama desarrumada, os livros espalhados por todos os cantos do meu quarto, as laudas e laudas de papel jornal, o jornal nacional, o grande jornal da nação; muitas ainda nem abertas. Eu não me mantenho a par dos dias, os dias passam por mim, e vou saber dos dias, dos grandes dias do grande jornal, dias depois. São minhas quartas e quintas e minhas tardes de domingo que me fazem perguntar do meu nome. Gostaria de ter o meu nome - o meu nome real, regal, o nome de sangue e realeza perdida - estampado em tipos minúsculos numa destas páginas. O que se seguiria, eu não sei.

Mas agora não é mais a manhã. A noite adentra pelas minhas narinas, e os dias que passam por mim, diferentes em sua santa complacência, perdem substância quando a noite se aproxima. Saber que é uma quarta, uma quinta ou uma tarde de domingo pode, muitas vezes, ser somente o hieroglifo, um código, uma senha sem sentido para saber, eriçando os pêlos dos braços, que a noite se aproxima.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Escrevendo

Coisas ficando difíceis. Coisas ficando fáceis.

Está cada vez mais difícil escrever, atualmente. De vez em quando eu me pergunto se seria este o fim deste blog; mas então percebo que a pergunta só faz sentido se eu penso que há alguém que realmente me lê e que espera que eu escreva alguma coisa. Se não há, está tudo muito bem. Então continuo escrevendo.

*****

Meu gato está no meu colo, agora. Não digo nem colo, que colo não descreve a estranha posição dele em cima de mim. Ele está com a bunda apoiada no meu antebraço esquerdo, e o focinho no meu antebraço direito. O movimento do meu punho esquerdo ao teclar levanta e abaixa o traseiro dele, o que ele parece apreciar, pelo movimento da cauda e pela complacência. Agora ele se apóia em mim como se eu fosse de madeira ou pedra, procurando pontos de apoio para descer para o chão, onde se senta com as patas sempre unidas e se lambe.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Destrinchando um boi

O cozinheiro do Príncipe Wen Hui
Estava destrinchando um boi.
Lá se foi uma pata,
Pronto, um quarto dianteiro,
Ele apertou com um dos joelhos,
O boi partiu-se em pedaços.
Com um sussurro,
A machadinha murmurou
Como um vento suave.
Ritmo! Tempo!
Como uma dança sagrada,
Como "a floresta de arbustos".
Como antigas harmonias!

"Bom trabalho"! exclamou o Príncipe.
"Seu método é sem falhas"!
"Método"? disse-lhe o cozinheiro
Afastando a sua machadinha,
"O que eu sigo é o Tao,
Acima de todos os métodos!

Quando primeiro comecei
A destrinchar bois
Via diante de mim
O boi inteiro
Tudo num único bloco.

"Depois de três anos
Nunca mais vi este bloco
Via as suas distinções.

"Mas, agora, nada vejo
Com os olhos. Todo o meu ser
Apreende.
Meus sentidos são preguiçosos. O espírito
Livre para operar sem planos
Segue o seu próprio instinto
Guiado pela linha natural,
Pela secreta abertura, pelo espaço oculto,
Minha machadinha descobre seu caminho.
Não corto nenhuma articulação, não esfacelo nenhum osso.

"Todo bom cozinheiro precisa de um novo facão, uma vez por ano - ele corta.
Todo cozinheiro medíocre precisa de um novo cada mês - ele estraçalha!

"Eu sou a mesma machadinha
Há dezenove anos.
Cortou mil bois.
Sua lâmina é tão fina
Como se fosse afiada há pouco.

"Não há espaços nas articulações;
A lâmina é fina e afiada:
Quando sua espessura encontra
Aquele espaço
Lá você encontrará todo o espaço
De que precisava!
Ela corta como uma brisa!
Por isso tenho esta machadinha há 19 anos
Como se fora afiada há pouco!

"Realmente, há, às vezes,
Duras articulações. Vejo-as aparecendo
Vou devagar, olho de perto,
Seguro a machadinha atrás, quase não movo a lâmina,
E, vapt! A parte cai
Como um pedaço de terra.

"Então retiro a lâmina,
Fico de pé, imóvel,
E deixo que a alegria do trabalho
Penetre.
Limpo a lâmina
E ponho-a de lado".

Disse o Príncipe Wan Hui:
"É isso mesmo! Meu cozinheiro ensinou-me
Como devo viver
A minha própria vida!"


versão de Thomas Merton, A via de Chuang Tzu.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Probabilidades

domingo, 17 de junho de 2007

Fala em e para a análise

A psicanálise é voltada extensivamente para a palavra: o uso dela pelo analisando, o que ele conta, as interpretações do analista. Com Lacan, o inconsciente estruturado como uma linguagem perde o caráter de "profundezas do eu" e passa a estar aí, a olhos vistos. Existe somente um inconsciente na análise, e é o do analisando: e deste inconsciente pode-se dizer que ele existe somente na análise, ali onde ele aparece - que ele é produzido na análise.

A ênfase nas palavras, no que é dito, na fala do analisando, é criticado. Muitos dizem que é um limite, implicando que a análise poderia ir muito além se prestasse mais atenção a outros aspectos - corpo, gestos - e se também trabalhasse neles. Outros dizem que falar pode ser um processo ainda mais alienante. Outros dizem simplesmente que falar e falar pode no máximo provocar um alívio momentâneo.

É interessante perceber que, na controversa história da psicanálise, temos o caso de Reich, psicanalista que começa a trabalhar fortemente com o conceito de "couraça do caráter", deslizando deste modo para um trabalho mais corporal - e muito interessante. Temos também Perls, psicanalista, que felizmente critica Freud e, adotando certas visões fenomenológicas-existenciais presentes na época, cria a Gestalt-terapia. Temos Jung, o futuro herdeiro de Freud, que amplia o conceito de libido até o transformar em uma espécie de energia cósmica, quando então é deserdado.

Porque a psicanálise se apóia tanto no que o analisando diz? Porque não abrir um pouco o escopo e colocar nisto os gestos, o movimentos, os tiques? Porque ela se "limita" a meras palavras?

Por uma questão de método, de coerência e de funcionalidade. Se não for assim, a psicanálise deixa de ser análise e passa a ser outra coisa.

O psicanalista faz aquilo que menos fazemos na nossa vida cotidiana: ele escuta, uma escuta muito diferenciada.

Quando falamos uns com os outros, esperamos fazer sentido e ser compreendidos. Grande parte das vezes isso não acontece, e então nos esforçamos mais para fazer sentido. Fazemos sentido com palavras, gestos e ações: e o outro faz o esforço necessário para compreender. É como se houvesse, em cada diálogo humano, um campo que está presente e que o circunscreve, e que delimitaria as regras do diálogo. Este campo, obviamente, é uma metáfora, tirada da física. O namorado fala com a namorada dentro deste campo, o campo do namoro, e automaticamente o diálogo muda quando o campo muda - o namorado que terminou o namoro não pode mais dizer e fazer as mesmas coisas que dizia e fazia antes, que pareciam tão naturais. De onde vem este campo, seus fatores, sua delimitação, é estudo da psicologia, da lingüística, e não é a questão crucial da psicanálise. É, realmente, nada mais que uma metáfora.

Neste sentido, o psicanalista faz aquilo que menos fazemos: ele pede que o analisando fale o que lhe vier à cabeça, qualquer coisa, por mais idiota ou sem sentido que possa parecer, e escuta! Ele simplesmente não se importa se faz sentido ou não. E o analisando faz aquilo que menos faz no cotidiano: fala tudo o que vier à cabeça - ou tenta (associar livremente parece fácil, mas não é tão fácil, no divã...). O analisando associa livremente, e o analista escuta com atenção flutuante. É esta a fala que se trata na psicanálise, e não o fazer-sentido cotidiano. O psicanalista que se aventurasse a analisar a roda de chopp correria o risco de ser linchado, como nos diz Fabio Herrmann.

É esta "regra fundamental" que faz com que a fala na análise tenha a sua premência: a regra da associação livre. Se fosse simplesmente falar como falamos sempre, o analista seria, no máximo, uma pessoa mais sabida que saberia uma solução para os nossos problemas - seria somente um sentido a mais.

A experiência da fala no campo analítico é distinta do "cotidiano". Ela não procura acrescentar sentidos à nossa vida, à nossa análise, embora obviamente vamos tirando sentido da análise também. A escuta do analista escuta o que se fala além, escuta a lógica do chamado inconsciente.

Alguma coisa, como sempre, CONTINUA...

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Bamboo

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Planta-ovo

A planta-ovo é a beringela. Perguntava-me Will a respeito do nome, egg-plant; e eu, muito erudito, repassava a informação colhida naquela tarde. A beringela selvagem (imaginem uma beringela selvagem, que ameaça à sociedade ela pode ser!) tem em média 3 centímetros de tamanho. É pequena, mas mortal. Provavelmente ela deve ter a forma de um ovo; um ovo escuro, talvez, sed ovum. Ergo, foi chamada de planta-ovo (ou melanzane, ou aubergine, ou nasu, ou brinjal, ou beringela). Suas primas mais civilizadas, contudo, tornaram-se aquelas senhoras beringelas, gordas e polpudas.

A beringela tem um poder fantástico de absorver qualquer tipo de gordura que você coloque nela. Duas beringelas médias podem, com toda a facilidade - e debochando da sua cara, se permitires - sugar o conteúdo de uma latinha de um quarto de litro de azeite de oliva. Sem titubear, sem um ai. É a coisa que as beringelas mais querem na vida: gordura. Água, luz do sol, minerais: tudo isto é colateral na vida de uma beringela, somente um meio para um fim mais nobre - sugar azeite de oliva e ser assadas em fogo alto.

As pessoas têm diversas formas de se haver com as beringelas. Uma seita alimentar moderna que começa com "macro" e termina com "biótica" diz que elas, as tadinhas plantas-ovo, são tóxicas, juntamente com o tomate e a batata, com as quais dividem a mesma família botânica das solanáceas. Uma pena, pois a mistura das três - juntamente com um bocado de pimenta, que também é uma solanácea - e cominho dá um belo, nutritivo e delicioso prato. O cominho é opcional, obviamente.

A questão da toxicidade das solanáceas não é motivo de dúvida: o motivo para cortarmos fora os brotinhos verdes que costumam nascer nas batatas é, exatamente, pelo motivo que na planta batatal a única parte que não é tóxica o bastante é o bulbo que chamamos batata. Quando a batata começa a crescer, concentrações de alcalóides aumentam nos brotos. As solanáceas são as plantas mais famosas da Terra, pelo serviço prestado aos nossos ancestrais, através dos seus alcalóides ("beladona" lhe sugere algo?).

Outras pessoas as amam. Talvez o lema das beringelas seja, realmente, beringelas: ame ou deixe elas. Felizmente as pessoas mais amam que as deixam, o que já se evidencia pelo fato de que, para um ovo escuro crescer até ficar do tamanho de um filhotinho de porco, alguma coisa a mais que o velho algoritmo darwiniano precisa atuar. Na Índia, a beringela é considerada a "rainha dos vegetais". Não é surpreendente vindo de um país em que as pessoas só tem vegetais para comer, muitas vezes. Resta saber se ela é rainha por um quê a mais, ou se é rainha pela sua presença constante e pressurosa.

Se ela é rainha, porém, o seu tratamento não é real. Macera-se, soca-se, corta-se, amassa-se, assa-se, frita-se, salga-se, tempera-se a beringela. Não conheço monarquia em que se louva a majestade com tratamento tão brutal - talvez na Revolução Francesa.


O meu primeiro contato com a beringela deve ter sido, provavelmente, com a beringela à milanesa. Durante muito tempo se achou, neste país, que o único uso a esta coisa preta fosse passá-la em farinha de rosca e ovo e fritar grossas fatias, que perderiam água, sugariam óleo e ficariam crocantes por fora e cremosas por dentro. As famílias emigrantes do Oriente Médio guardavam os seus olorosos segredos de beringela dentro de suas casas. Cosa nostra. Estes segredos incluíam suaves cremes de beringela, carinhosamente batidos; beringelas estalantes e cricrilantes, cuja casca rompia-se desapaixonadamente, como um relâmpago, recheadas com carnes, arroz, vegetais, temperos - ou a própria ela-mesma, retirada, processada e recolocada por mãos de dedos grossos.

A beringela, assim como as mais gostosas e mais suaves coisas da vida, é daquelas que a simplicidade é o dom e a regra. Colocada num forno com azeite, sal e pimenta, é antepasto, pasto e pós-pasto, acompanhada de um bom pão. Chorei de alegria quando, estes dias, descobrimos por acidente a beringela perfeita: as tiras longitudinais, salpicadas por azeite e sal, colocadas em forno altíssimo. Um pré-tratamento para uma futura lazanha, que saiu melhor que o mais apurado cuidado. O óleo salpicado - imagine você borrifando azeite de oliva como água - que não encharcava a beringela, e ao mesmo tempo lhe dava amparo espiritual para enfrentar o forno, deixou o resto da sua polpa entregue a si mesma, liberando seus sucos e aromas que, sublimados pela temperatura altíssima, não tinham mais o que fazer a não ser na polpa se agarrar, só que desta vez transmutados em algo mais - um éter, a quintessência.

Parada Gay

A parada gay de São Paulo, este ano, ganhou da parada de Jesus - em São Paulo - por meio milhão de pessoas, pelas estimativas.

3,5 milhões de pessoas somam 2 porcento da população brasileira. Seja protestando pelo fim da homofobia, celebrando a diversidade, festando com os amigos, fazendo um arrastão, caçando um parceiro(a), exibindo o corpinho sarado ou simplesmente fugindo da multidão, como a Gretchen, 3,5 milhões de pessoas reunidas nas ruas da maior metrópole brasileira é um luxo. Oxalá números menores pudessem ser reunidos por outros motivos. Ia ser algo legal de se ver, 1 milhão de pessoas reunidas na maior metrópole do Brasil pelo fim da corrupção - eu também tenho uma veia utópica.

Ironicamente, porém, um dos poucos incidentes da parada foi o esfaqueamento e a morte de um homem que não fazia parte dos 2 porcento (era francês) e, pela apuração policial até agora, não era gay. Um provável crime de ódio que errou de alvo. 3,5 milhões de pessoas e um episódio irônico podem fazer uma combinação interessante, em termos políticos.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Minhas palavras não seguem
minha poesia ritmos
minha prosa é tépida e lenta e gasosa

Pudera. Palavras.
Como mostrar a você 5 enésimos de um mundo
em palavras que contam um enésimo cada?
Velocidade inalcançável.

A música faria melhor, se o pudesse.
Ela sempre se reduz ao parvo silêncio.
Portentoso silêncio. Magnífico silêncio.
Porém silêncio.

Consegue você dividir as palavras?
Persegui-las, alcançá-las,
encará-las,
dividi-las,
romper a escuridão de uma palavra em suas monumentais letras de gesso
fazê-las abrir-se como a flor de um ferimento sem sangue
um corte simples
uma carne morta

e olhar para diante e quem sabe o quê.

Talvez fosse o mundo uma cortina, talvez o fosse.
Talvez houvessem buracos. Talvez houvesse além, e

domingo, 10 de junho de 2007

Balde de sangue quente:
rio interno. Tão perto
deste mar insosso, ar
corrente. Barreira de
carne: gaiola de idéias:
ferrugem.

Jacas e Bananas

terça-feira, 5 de junho de 2007

As fotinhas da Dé

A Dé é uma amiga de longa data. Formou-se em Jornalismo na UFSC recentemente, junto com Iso e Ju (ou Isadora e Willian, como quiseres). Tendo como paixão secreta a fotografia, Débora se perdeu nos vastos caminhos da yoga, esbarrando de leve no vipassana, para, então, reencontrar a sua grande paixão - a Lomo? Outra grande paixão é o (o que ele é, Dé, guitarrista? baixista? vocalista? enfim...), é o integrante de uma banda nova e promissora da ilha.

Ela está com um site, onde coloca as suas fotinhas. De vez em quando aparece alguma coisa boa :D então eu deixo aqui para quem quiser dar uma olhadinha (já que eu não posso copiar e colar).

domingo, 3 de junho de 2007

"Especulações em torno da palavra homem"

A ser lido sem pressa alguma... em voz alta.

ESPECULAÇÕES EM TORNO DA PALAVRA HOMEM

Carlos Drummond de Andrade

Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?

um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?

Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?

E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta

nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?

Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômem

brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes

de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai

e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?

Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?

Vale menos, morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem

é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?

Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?

Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem

consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono

que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?

Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?

Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?

Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas

e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem?

Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata

com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?

Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insone?

Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?

E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?

Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?

Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?

Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?

Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?

Há alma no homem?
E que pôs na alma
algo que a destrói?

Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?

Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?

E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?

Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?

Meus livrinhos - parte um

Duas lembranças de leitura da minha juventude jovem me vieram com mais força, estes últimos dias. Estou em busca do tempo perdido; sem madeleines, mas com ajuda de pé-de-moleques. O que se tratava de uma mera lembrança, portanto, agora se trata de pistas importantes para algo que eu não sei o que é.

E a internet é uma mão na roda para isto. Achei que ia demorar mais tempo, já que eu não dispunha de nomes e nada a não ser a minha lembrança e conhecimento de palavras-chave: mas em quinze minutos encontrei as duas referências que eu queria. Uma delas, que fica para a próxima - talvez alguém se lembre com emoção e então poderemos ser nostálgicos juntos - é Mai, Garota Sensitiva. Lançado em 1992 - eu tinha 9 anos - foi um dos primeiros mangás a aparecer nos EUA e aqui no Brasil, pela editora Abril. Imagens dele grudaram na minha retina imaginária até os dias de hoje. Durante a minha mudança do bairro de infância para cá onde estou, aos 13 anos, estes "gibis" sumiram, para a minha tristeza na época.

E então, alguém se lembra de uma coleção chamada Aventuras Fantásticas? Eram um livrinhos "de RPG", como o chamavam, de capas com desenhos interessantes e verdinhos. Tinha mais de 20 títulos, dos quais cheguei a brincar com uns cinco, no máximo. Como é que funcionava? A Ediouro, nesta mesma época, tinha uma coleção "Enrola e Desenrola", ou alguma coisa "Escolha a sua aventura". A premissa é mais ou menos esta: o livro dispõe de uma quantidade de seções numeradas. Começando com a primeira, você toma uma escolha que, cada uma delas, o remete a uma seção diferente, e assim vai até terminar.

Esta série "Aventuras Fantásticas" adicionava um toque a mais, acrescentando nuances de RPG - como a definição de pontos iniciais, que eram utilizados nos "combates" e em outros impasses, e o uso de dados para determinar tais resultados.

Um título foi especial para mim. A maioria deles era de um colorido medieval RPGéico, com monstros e tesouros e feiticeiros e a balaiada toda. Alguns não o eram: uns eram mais voltados para a issai-fai. "Planeta Rebelde", porém, me fascinou de uma forma especial. A história issai-fai era interessante, na época; os problemas eram mais interessantes - incluindo um problema "final" que envolvia números binários e que eu achei o máximo; e as ilustrações. Ah, as ilustrações. Acabei de vê-las agorinha mesmo e, além da animação ao ver coisas passadas, relembrei do tesão que eu tinha com aquelas ilustrações, e como aquele "estilo" ficou comigo durante muito, muito tempo - principalmente nas ilustrações que eu próprio fazia.

(Não estou falando da ilustração da capa, por favor.)

Para quem quiser conferir, um pessoal disponibilizou o livro em formato PDF aqui. Então talvez possam sentir o Luquinha.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Fratura exposta na canela

Fui hospitalizado uma vez somente, creio. Talvez duas. Foi quando eu quebrei a minha perna, na metade da canela; tinha eu 13 anos. Fratura exposta: andava de bicicleta no meu bairro de infância, quando eu decido atravessar a rua, defronte à casa do meu pai. Vi um carro ao longe, indo para o aeroporto; talvez ele estivesse indo rápido demais, talvez eu tenha calculado mal. Ficou a primeira versão.

Era uma mulher, dentro do carro, que parou e me socorreu. De qualquer forma, o socorro era o menor problema, pois com a pancada pode-se ouvir lá de trás, onde o meu pai se encontrava com a minha irmã e a namorada dele.

O capô amassou e a minha cabeça bateu no vidro dianteiro, quebrando-o e deixando-o com linhas diversas, como uma teia de aranha. Eu voei aproximadamente quinze metros, indo parar do outro lado da rua.

É uma percepção engraçada: eu me lembro de coisas fragmentadas. Lembro de ver o carro vindo na minha direção, e de saber que ia ser atropelado - sem sentir medo, ou me lamentar. Lembro então de ver, tudo meio preto e branco, cinzento, pouca luminosidade e poucas cores, a minha vista indo do asfalto para o céu para os fios dos postes para o asfalto para o céu para os fios de postes - eu girei no ar umas duas vezes. Então estava no chão. Nenhum baque, nada disso. Simplesmente saí voando e pousei, sem sentir a batida ou o baque no chão. Foi como se eu tivesse levantando vôo e pousado de costas.

Mexi-me devagar. Nada parecia errado. Vi se tinha quebrado os dentes, ou se sentia alguma coisa na cabeça. Percebi que o meu relógio não tinha quebrado. Um tanto automático, sem pensamentos. Levantar-se. Era estranho. Mexi a perna direita: ela se movimentou. Mexi a perna esquerda: algo estava engraçado. Era como se ela não estivesse lá, como se fosse de borracha. Levantei a cabeça e vi o meu calcanhar fazendo um ângulo grave com o resto da canela. E foi então que eu gelei, e gritei alto, sem o saber.

Daí para frente, é só ver o meu pai e o pessoal todo vindo, com olhares assustados e vozes ansiosas. Até hoje tenho uma cicatriz que incomoda um pouco quando se passa a mão, e creio que uma perna ficou maior que outra.

Fiz operação e tive a minha primeira anestesia geral. Um verdadeiro sono sem sonhos.

No momento: não dói, não há medo, não há preocupação. Tudo isto vem depois - depois do quê, exatamente? Esta é uma pergunta muito interessante.

Eu sempre me lembro deste episódio. Sabem por quê? Eu morro de medo de ter dor.

Continua...

terça-feira, 1 de maio de 2007

Meu presente

Completei 24 anos de vida, na semana passada, dia 17.

Ganhei poucos presentes. O que se sucede? Com o passar dos anos, as pessoas dão menos presentes? Sou eu e a minha talvez falsa modéstia em dizer que não precisa de nada, somente a "presença"? Ou é a falsa modéstia dos outros? A situação econômica?

E nem mesmo fui caprichoso em alguns pedidos... me perguntaram o que eu queria, eu respondi: "um abajur", pois preciso de um abajur para meu quarto. Talvez tenha sido somente para demonstrar a intenção de me dar um presente... talvez a própria intenção de me presentear, por si mesma, tenha sido o meu presente. Tempos estranhos, em que nos presenteamos com intenções.

Ainda estou esperando o meu exemplar de "O idiota". Existem outros itens, também, desde 15 reais até a seu rendimento anual. Ainda está em tempo; aproveite.

Mas eu descobri o que eu gostaria muito de me dar de presente. Sim, eu me dar de presente: este papo de presente entra em cena no aniversário, mas todo dia é dia de índio e de presente - uma flor, qualquer coisa. Eu me daria de presente a qualquer dia, este presente. Eu gostaria de ter, sempre do meu lado, um alguém ou algo que me criticasse, com argúcia, inteligência, ironia, finura e firmeza.

Não precisa ter um ar de intelectual e usar óculos de retângulo aro grosso, me olhar por cima e jogar sua torrente ácida; tampouco seria alguém com "experiência", um realista, uma pessoa mais dura e vivida que sabe do que a vida "é feita" e que me puxasse para baixo. Besteira. Nem um tampão, nem um tapado. Podia ser uma pessoa tão estúpida quanto eu; perdida nos mesmos rodeios, um tanto hesitante, um tanto entediada em muitos momentos.

Não, não estou falando de um amor, de um relacionamento. Não, gente, nada disso. Estou falando de um crítico, ou conselheiro, a palavra que melhor lhes descer.

Podia ser um amigo imaginário, uma alucinação, um diálogo interno comigo mesmo. Que diferença faz? Nenhuma, a não ser que se faça na rua e assuste os cavalos. Podia ser um homem jovem, ou uma mulher velha; idoso ou jovem, menos criança - uma criança assim pode me assustar. Um animal também não conviria muito: ia achar muito estranho um animal falante. Pelo menos no começo.

Alguém bem-pensante e bem-falante. Nada de circunlóquios ou preleções; nada de um mestre para me dizer o certo, ou um sacerdote para me contar do errado. Alguém que sabe que critica, mesmo enredado nas mesmas coisas que critica; alguém que sabe que toda firmeza pode ter algo de agressivo, mas somente por um momento; termina-se com um café, depois. Nada de carinhos ou abraços excessivos: eles tendem a atenuar demais os efeitos das palavras.

Eu queria uma outra palavra para atenuar as minhas arestas; uma outra palavra para me tirar um pouco fora daquilo que eu presto tanta atenção: a mim mesmo, à minha miséria e à minha salvação.

Tirar fora não é, simplesmente, esquecer.

Eu queria me levar menos a sério. E isto, muitos devem saber, é facílimo de dizer - e tão complicado para vivenciar.

Este lugar - este lugar que eu delineei e poderia continuar a fazê-lo, embora de fato seja muito simples - é um lugar complicado. Poucas pessoas assumem este lugar. Em sua maioria, amigos, durante pouco tempo, quando não entram naquilo que amigos gostam muito de fazer: fantasiar conjuntamente.

Este lugar é um lugar: não é uma pessoa, ou um título. Como eu falei, pode ser uma alucinação, se for o caso. O problema das alucinações é que elas costumam ser bastante perturbadoras - e isto não tiro da minha experiência pessoal, que é muitíssimo pobre em alucinações.