sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Cila-ila, Caribdis-ibdis & Tila Tekila

(versão 1, modificações possíveis, eu tenho pressa...)
Ultimamente tenho sido assombrado - literalmente assombrado, assombreado, soçobrado - por um questionamento cruel. Cruel, e delgado como uma lasca de cristal; a crueldade de uma lasca de cristal que se enterra debaixo da unha.

Onde está a diferença entre desistir e deixar acontecer? Onde está aquela sutil diferença entre desistir de algo - por achar impossível, por não poder mais ir adiante, por quaisquer razão - e a consciência limpa de que algo acabou, de que se tentou, se viveu?

Onde poder confessar que não dá mais, e onde é que esta confissão é uma mentira?

Será que dá para definir esta dúvida? Será que eu sempre sou responsável pelas minhas escolhas?

Nem todas as coisas são possíveis. Há coisas que simplesmente não podemos fazer. Isso não nos mostra que as coisas são impossíveis: há muitas coisas que podemos fazer. É assim que se dividem as coisas, então? Entre possíveis e impossíveis? Mas ora, como haveria de ser assim, se olhamos ao nosso redor e vemos as circunstâncias e a paisagem mudando, de momento a momento. Olhamos para a nossa história e vemos que certas coisas que achávamos impossíveis são possíveis, e outras, que achávamos possíveis, não o são tanto assim... e nada impede que este movimento continue, a colocar os possíveis nos impossíveis e vice-versa.

Estou falando de dois pólos, possível e impossível, mesmo sabendo, como coloquei agorinha acima, que não se trata de estes dois pólos, realmente. Se trata de algo muito, muito mais complicada: a probabilidade.

Mas... onde está a diferença entre desistir e deixar acontecer? Por que se desiste? Quem é que desiste?

Enfim, quem é que vai conviver com o arrependimento?

Afinal, arrependimento existe?

*****

Ao mesmo tempo, a realidade me bateu com força total, e me lançou de cara no chão.

Somos uma geração que tem medo de realidade, pois achamos que ela não existe por si só. Vivemos nesta posição esquisita de negar uma realidade forte, mas ao mesmo tempo a temos na nossa frente todo o tempo - e sabemos disto.

Creio que não se trata em nada de uma característica destes nossos tempos, esta dialética frente à realidade. Mas os nossos tempos são os primeiros a inventar para si a fantasia de uma realidade "virtual", de várias realidades, de várias facetas. Enquanto que em outras épocas parecia ser mais difícil sair fora da historinha do "real" - a não ser pela via da fantasia desenfreada, pra se dizer assim (romances, céu e inferno, loucura) - a nossa época se compraz e se congratula em colocar para si mesma que a realidade tem o impacto de uma bala de gelo no crânio. Ela pode impactar, mas ao mesmo tempo derrete-se.

Quando eu falo realidade eu não falo somente "do mundo lá fora". Este mundo lá fora, que é ele? Que sou eu, este mundo "aqui dentro"? Realidade pode ser definida, para os meus simples interesses leigos, como aquilo que resta depois de tudo mais, depois de qualquer dissolução do mundo dentro das nossas cabecinhas: a morte é um exemplo de realidade, para se colocar assim. Ou melhor, o saber-se morrer.

A realidade é o lembrete que se tem de fazer alguma coisa, mesmo que não se saiba o quê, ou o porquê.
*****

Onde desistir, então? Será que toda desistência é uma covardia? Será que devemos mesmo, como Hamlet, tomar de armas frente a um mar de problemas e, opondo-se a eles, extingui-los? Será que é esta a metáfora da vida humana - a da "luta", a da oposição, a da força humana frente aos vendavais que ameaçam extinguir sua tênue e fraca, porém inteligente, centelha de vida?

Ou será que a metáfora é a homérica, os homens como gerações de folhas ao vento, morrendo e caindo, ao capricho de deuses tão caprichosos quanto nós, mas imortais?

Ou será que a metáfora é outra, de um homem numa relação harmônica com os outros e com o seu mundo, encontrando um equilíbrio dinâmico - ou pior, encontrando a entropia?

O que nos espera além das estrelas: o fogo, o gelo, ou uma injeção de graça na testa? Ou o carimbo do Ibama intergalático?
*****

Eu não vou afirmar que todas as respostas são temporárias (apesar de me parecerem assim), mas se assim são, eu não me admiro. Não vou afirmar que todas as decisões morais e éticas são temporárias, apesar de me parecerem assim, mas se o forem, eu não me admiro. Não vou afirmar: não posso dizer.

Me admiro um pouco, na verdade, a admiração de um cara que gostaria que ao menos uma coisinha ínfima que fosse fosse certa, segura e certeira.

(A morte? Mas quem é que morre? Te contaram? Quem?)

Mas não me admiro no sentido de achar que só é assim, se for, por uma falha humana.

Talvez faça mais sentido - e seja mais engraçado - se pudéssemos pensar que ter certeza seja a maior falha humana de todas. De que, quando alguém chegar e dizer para nós, "eu sei", podemos desconfiar muito dele.
*****

Vocês entendem? Se seguimos pelo caminho, encontramos nossos inimigos mais ferrenhos. Se não seguimos, não encontramos nada, nem ninguém, e morremos. Se continuamos pelo caminho, encontraremos no mínimo dois rios. Um do nada, e outro do tudo. Não é difícil de ver isto. Não é uma experiência mística. Encontramos dois rios, um do "niilismo", e outro do "eternalismo". Dizem que foram estes os dois rios que Sidarta encontrou, para usar o personagem espiritual com quem tenho mais intimidade. Encontramos o caminho de que nada existe, ou nada é verdadeiro, ou nada permanece, e vivemos com isto. Ou então encontramos o caminho de que algo existe, algo é verdadeiro, algo permanece - para sempre - e vivemos com isto.

Como viver com o primeiro? Já sabemos o que o niilismo sincero e aplicado pode fazer. Todos nós sabemos. O segundo, eternalismo, sabemos também.

Dizem que era esta a discussão que estava em voga 2600 anos atrás, na época de Sidarta: a discussão se existia algo que permanecia para sempre, ou, para colocar em uma palavra, se existia algo que era imutável. Alguns iam pro lado do niilismo e respondiam que não: nada era imutável, nem a mais minúscula das partículas imagináveis. Outros iam pro lado do eternalismo e diziam que sim, que havia algo imutável, mesmo que fosse a mais minúscula das partículas imagináveis.

Não precisamos ir muito longe para entrar nesta discussão: a discussão entre mutável e imutável encontra-se no nosso berço cultural, no nascimento da nossa "filosofia".

E, falando seriamente, não há nada de mais nesta discussão também, pois é um questionamento básico, ao meu ver. Ele continua ininterruptamente até hoje. O importante é perceber que cada um destes posicionamentos leva a uma atitude com relação à vida e morte.

Este questionamento está no âmago da vida cotidiana, da vida de todos nós. Esta AMBIVALÊNCIA está no âmago da vida de todos nós. Não precisa ser dotado para ver: não se trata de misticismo, ou de insight. Este conflito está no âmago da nossa "existência".

Quem eu sou? E nos damos respostas: escolhemos uma opção, muitas vezes mudamos no meio, misturamos um pouco, fazemos uma resposta, e vivemos desta forma.

E eu tenho a impressão de que nenhuma das respostas vai acabar com esta contradição fundamental. O que fazer, então?

Se fosse somente uma questão de responder a uma pergunta, não seria tão foda assim. Afinal, há várias perguntas que não damos a mínima se elas forem respondidas ou não - a não ser, é claro, quando elas se apresentam para nós, quando sim tratamos de resolvê-las (e nem sempre estamos certos de ter dado "A Resposta", mas grande coisa...) Mas esta contradição, ela te incomoda ou não?

Muitas vezes dá vontade de tirar uma faca que está enterrada no meu peito, achando que ela é a causa de tanta confusão, de tanta insatisfação. Mas todos sabemos o que acontece quando tiramos facas enterradas no peito: o sangue brota e jorra com força.

O que fazer? Fazer nada, afinal de contas é tudo um sonho, nada existe em seu sentido mais puro? Tiro ou não tiro?

Quem é que vai tirar a faca? E quando, e onde, e como?

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Will-ill

Estou triste.
Amigo ou irmão... enfim, como continuam sendo poucas as palavras; e como continua intenso o meu anseio de empregá-las...
Muitos antes de mim já falaram de amigos. E muitos antes de mim já o foram. O mesmo para irmãos. Como posso dizer, senão isto, de alguém que se foi e que pra mim não pode ser somente ou irmão ou amigo?
Como amigo: os anos de convivência, os interesses conjuntos, as cenas compartilhadas, as tantas conversas. A leve sutileza da amizade, com os seus tempos de inércia - outros de exaustão - e seus reencontros de festa.
Como irmão, que outra palavra mais para descrever aquele palpitante mistério de um laço, de uma espécie de sangue conjunto correndo. Não simbioticamente: correndo, fluindo.
É uma tarde de um belo dia. Verão, ou primavera, ou qualquer outra estação que queirais. Aquela que sentirem melhor, batendo no seu rosto, é esta. Façam-me o favor de apenas não chegar a extremos de congelar a água: imaginem comigo, para que possais compreender. O sol oblíquo traz aquela luz dourada - aquela luz de final de tarde que esmaece e parece poder virar qualquer outra luz que lhe apeteça. Há pequenos glóbulos luminosos refletidos por um rio, este cercado por barrancos de terra rica e preta, e espigões de plantas delgadas, finos canudos. A água flui. Lentamente, letargicamente, nos cinturões onde as rãs depositam seus ovinhos. Água turva em contraste com a água corrente e rápida e lépida e fresca. Há alguma coisa se movendo nesta corrente: um barquinho, um tronquinho, uma pessoinha, não se pode ver. Duas pessoas, uma de cada margem, correm paralelas, um pouco atrás desta forma indistinta, esta sombra buraco no rio. Sou eu e meu amigo. Corremos e rimos e gorgolejamos de emoção e fúria, em disparada deste buraco negro no rio. Muitas vezes um vau no rio nos aproxima, chegamos perto de alcançar a nossa presa. Podemos sentir o calor e ver o suor na testa do outro. Outras tantas, estamos distantes. Margens são margens, distantes. Escuta-se o barulho dos galhos sendo quebrados pelos pés, ouve-se possíveis lamentações solitárias, vê-se que o outro diminuiu a marcha. Tiras verde-escuras cortam a sua imagem, me apresentam-no em fatias: quase desaparece. Corremos atrás da mancha no rio.
É assim que se flui.
Estou triste. Meu amigo Will foi-se para São Paulo, este final de semana.
Eu sei: São Paulo é ali do lado. Eu sei: que excelente oportunidade para ele. Eu sei: não vai ser a última vez que eu vou o ver.
Esta última eu mais sinto que sei. Mas eu sei.
Ele estava, faz muito tempo, contando com isto, querendo isto. Eu vi, acompanhei, dou fé, e dei apoio. É uma coisa importante para ele, muito além da importância que as pessoas dão para a palavra importância. E para mim também o é, mesmo que eu não o saiba dizer.
Pois o meu grande amigo dá o seu passo no Mundão. Todos nós damos os nossos passos no Mundão. Bilhões de pessoas deram os seus passos no Mundão - e a maioria delas está morta - história. Uns tinham filhos, outros não os tinham, como o Will. Muitos deram seus passos por necessidade, muitos por vaidade. Uns claudicantes, outros triunfantes. Uns sôfregos, outros trágicos, outros contidos, tantos ignorantes.
Choro por quê? então me perguntam. Que tristeza é esta?
Bem, eu chamo de tristeza para poder dizer a vocês. São tantas coisas em mim que eu detestaria vos fazer perder o seu tempo precioso catalogando os meus sentimentos.
Tristeza de não poder ter perto de mim este cara que dividiu muitas coisas comigo. Tristeza de ter que ouvir, escutar, e torcer, somente. Melancolia e nostalgia por visões do futuro passadas. Insegurança quanto ao futuro, por ele e por mim. Inveja - este o mais insidioso e mais pessoal de todos.
E, eu não sei explicar, um tremendo otimismo e bom-humor. Eu estou, de uma certa forma, contando contigo, Will. Acho que você sabe disto.
Eu não me dirijo muito a ele, aqui nesta minha escrita, pois eu sei que ele não me lê. Quase não me lê, e se duvidar nunca me leu, aqui no meu blog. Eu não me importo muito com isto. Mas eu vou me dirigir a você agora, Will, mesmo que você não me leia.
Admiro a tua presença. Admiro a tua alma. Ter te conhecido e conviver contigo é uma prova de vida - e ponto.
(Eu pretendia te escrever uma pequena eulogia, além destas palavras, mas não farei mais, por receio de ficar cheesy para os meus colegas amigos e algo-mais leitores. Né, meus colegas leitores? Eu queria que todos vocês saíssem chorando depois de ler o meu texto, devido a minha excepcional capacidade de colocar emoções no papel; que todos vocês desviassem os olhos marejados de lágrimas e pensassem então nos meus amigos, e deslumbrassem a ambivalência e a finitude dos laços humanos... Estou sendo egoísta: quero que todos chorem porque eu estou chorando. Sem essa, que a vaca tá esperando a ordenha.)
Então vá logo de uma vez, e trate de ser feliz. Nos vemos em breve.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Javé-é

Sabemos que, para muitos de nós, Javé continua a ser a resposta mais acertada para uma pergunta angustiante: "Quem é Deus?" Um budista, um hindu ou um taoísta não concordaria, tampouco muitos cristãos, muçulmanos e judeus, mas a minha resposta é a de um crítico literário, e se fundamenta na força e no poder da única personalidade literária que, tratando-se de vivacidade e notoriedade, ultrapassa até Hamlet, Falstaff, Iago, Lear e Cleópatra. Traduzindo a questão em termos religiosos, o Javé de "J" é a representação mais convincente da alteridade transcendental que já encontrei na vida. E, no entanto, Javé não é apenas "antropomórfico" (termo inútil!), mas é mesmo absolutamente humano, e não é, de maneira alguma, um sujeito agradável - e por que deveria sê-lo? Não pretende se candidatar a cargo político, não busca a fama nem almeja receber tratamento favorável por parte da mídia. Se o cristianismo insiste que Jesus Cristo é a boa nova (asserção tornada inválida pela brutalidade dos cristãos ao longo da história), então, Javé é a "má nova" encarnada, e a Cabala nos diz que ele, com toda a certeza, tem um corpo, um corpo imenso. É algo terrível cair nas garras do Javé vivo.
Harold Bloom. Jesus e Javé: Os nomes divinos. Rio de Janeiro, Objetiva, 2006.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Kundera-era-era

O pessoal do copirraite vai ter de me perdoar, mais uma vez. Mas a minha vontade de partilhar algo que não é meu vai além do meu ressabio.

Na verdade, eu duvido muito que tenha algum problema com o "pessoal do copirraite", este meu pequeno espaço virtual que meia dúzia de belos gatos pingados visitam, esperando pelo quê? ninguém sabe.

Mas este livro, que eu li de uma sentada de seis horas interrompida pela polenta com frango e quiabo - dos quais comi cuidadosamente só o quiabo, eita prato gostoso, Noss'Sora - me fez ter sonhos, sonhos que agitaram o copo da minha vida água com areia.

E que eu o li outra vez, alguém acredita? Mas o li com apenas 18 anos, e como parecem poucos os 18 anos... com 23 o leio de novo, e quedo-me hipnotizado. Neste ritmo, me dá cosquinha saber o que eu vou achar dos livros - e das músicas, e dos enfins - com o passar do tempo. Espero que o prognóstico para mim seja mais ou menos como o dos vinhos: refina com a idade. Afinal, eu também sou organoléptico.

Uso refina porque dizem "melhora". Mas melhora em que sentido? Pros apreciadores, somente. Enfim, quem me conhecer até este dia vai ter o prazer ou desprazer de poder saber - e quem sabe poder zombar da minha cara. Até lá, salve a juventude e as cosquinhas.

Mas então, este trecho, que eu fiz o grande favor de, quebrando as leis de copirraite, disponibilizar em uma bela página online, com o meu template inconfundível, é o seguinte imediato ao trecho que, quebrando as leis enfimenfimenfim, eu coloquei no meu post passado.

"....que nascera de seu sonho, que não era de lugar nenhum."

"Mas ela lhe diz, com amargura, que ele deve ficar onde se sente feliz, e faz aqueles gestos incoerentes que sempre o irritaram, que sempre achara desagradáveis. Segura suas mãos nervosas, apertando-as contra as dele para acalmá-la."

A questão das mãos, neste trecho, é tocante. O livro descreve, em várias cenas, como Tomas segura as pontas da mão de Tereza, sempre que esta as tem tremendo. As várias cenas fazem, então, um thread, um colar, compartilhando isto: os medos e as raivas de Tereza, as suas mãos tremendo. É um gesto poderoso.

A questão da cesta, remete à cesta em que veio Moisés, vista em outra parte. O tema do "es muss sein!" também não veio do nada.

E o trecho todo é mais tocante quando se acompanhou os dois até este momento. Sei que é desnecessário dizer, mas tomem-me então como o amigo bêbado que diz as coisas mais desnecessárias, sempre - as que todo mundo já sabe. As várias "amigas sexuais" de Tomas, de como Tereza sabia delas...

Então, paro por aqui antes que comece a passar o livro por inteiro.
*****

Eu dedico este texto a todos os amantes de faunos.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Andorinha-inha


Ele acordou no meio da noite e constatou, surpreso, que tinha tido sonhos eróticos. Só se lembrava com precisão do último deles: uma mulher gigante nadava nua numa piscina, era pelo menos cinco vezes maior do que ele e tinha a barriga coberta por grossos pêlos que iam das coxas ao umbigo. Olhava-a da borda da piscina e sentia-se muito excitado.
Como pode ficar excitado com o estômago doendo e com o corpo enfraquecido? Como podia ficar excitado ao olhar uma mulher que, se estivesse acordado, só lhe inspiraria repulsa?
Disse a si mesmo: existem duas rodas dentadas que giram em sentido inverso no mecanismo de relojoaria do cérebro. Numa estão as visões, na outra as reações do corpo. O dente sobre o qual está gravada a visão de uma mulher nua encaixa no dente oposto, sobre o qual está inscrito o imperativo da ereção. Quando a engrenagem se altera, por qualquer motivo, e o dente correspondente à excitação entre em contato com o dente sobre o qual está desenhada a imagem de uma andorinha em pleno vôo, nosso sexo se endurece à vista da andorinha.
Aliás, ele lera um estudo no qual um de seus colegas, especialista em sono, afirmava que um homem que sonha está sempre em ereção, seja qual for o sonho que tenha. A associação da ereção com uma mulher nua não era, portanto, mais do que um regulagem escolhida pelo Criador entre mil outras regulagens possíveis para ajustar o mecanismo de relojoaria na cabeça do homem.
O que existe de comum entre tudo isso e o amor? Nada. Basta que uma roda da engrenagem desvie uma fração de milímetro na cabeça de Tomas para que ele fique excitado só de ver uma andorinha, o que não muda em nada o seu amor por Tereza.
Se a excitação é um mecanismo que depende de uma capricho de nosso Criador, o amor, ao contrário, é aquilo que só pertence a nós, e pelo qual escapamos do Criador. O amor é nossa liberdade. O amor está para além da necessidade, para além do "es muss sein!" ["tem de ser!"].
Mas nem isso é a verdade inteira. Mesmo que o amor seja algo diferente do mecanismo de relojoaria da sexualidade imaginado pelo Criador para seu divertimento, ele é, ainda assim, ligado a esse mecanismo como uma doce mulher nua se balançando no pêndulo de um enorme relógio.
Tomas diz a si mesmo: associar o amor à sexualidade é uma das idéias mais bizarras do Criador.
Pensou ainda: a única maneira de salvar o amor da tolice da sexualidade seria acertar o relógio de maneira diferente em nossa cabeça, para que pudéssemos ficar excitados com a visão de uma andorinha.
Embalou-se com este doce pensamento. À beira do sono, no espaço encantado das visões confusas, de repente teve certeza de que acabara de achar a solução para todos os enigmas, a chave do mistério, uma nova utopia, o Paraíso: um mundo em que se tem uma ereção diante de uma andorinha, e em que podia amar Tereza sem ser importunado pela tolice agressiva da sexualidade.
Voltou a adormecer.

Milan Kundera, A insustentável leveza do ser. 5, #22.

Esta passagem é infinitamente mais rica e mais vívida dentro da história de Tomas e Tereza e Franz e Sabina que eu reli, em uma sentada de seis horas ininterruptas (minto, comi polenta no meio).

sábado, 13 de janeiro de 2007

Panadero-ero

En un cuento de Guy de Maupassant, la joven sirvienta de una casa burguesa va con su canastro bajo el brazo a comprar el pan de cada mañana. Por un ventanuco espía al joven panadero amasando y se lleva consigo la imagen de suas anchas espaldas, sus brazos poderosos, la piel brillante de sudor y esas manos sensuales sobando y sobando la masa con determinación de amante, tal como ella quisiera ser tocada. Y como es cuento de amor, su fantasía se cumple con creces. La vista de uno de esos grandes panes campesinos me trae el inevitable recuerdo del panadero de Maupassant y sus manos en la masa y en la carne firme de la muchacha... Hay manos y manos, unas pesadas y torpes, otras pequeñas y fuertes, las hay livianas y temerosas, otras grandes y gentiles, pero para hacer pan y para hacer el amor, lo que importa es la intención que guía a la mano...

[....]

Recuerdo la cocina de un convento en Bruselas, donde presencié, reverente, la misteriosa cópula de la levadura, la harina e el agua. Una monja sin hábito, con las espaldas de un cargador de muelles y las manos delicadas de una bailarina, preparaba el pan en moldes redondos y rectangulares, los cubría con un paño blanco mil veces lavado y vuelto a lavar, y los dejaba reposar junto a la ventana, sobre un mesón de madera medieval. Mientras ella trabajaba, en otro extremo de la cocina se producía el sencillo milagro cotidiano de la harina y la poesía, el contenido de los moldes cobraba vida y un proceso lento y sensual se desarrollaba bajo esas blancas servilletas que, como sábanas discretas, cubrían la desnudez de las hogazas. La masa cruda se hinchaba en suspiros secretos, se movía suavemente, palpitaba como cuerpo de mujer en la entrega del amor. El olor ácido de la masa en fermento se mezclaba con el aliento intenso y vigoroso de los panes recién horneados. Y yo, sentada sobre un banquillo de penitente, en un rincón oscuro de esa vasta habitación de piedra, inmersa en el calor y la fragancia de aquel misterioso proceso, lloraba sin saber por qué...
Isabel Allende, Afrodita.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Rebento-ento

Fiquei com ódio da vida, porque tudo o que se faz debaixo do sol me desagradou. Tudo é fugaz, uma corrida atrás do vento. Detesto todo o trabalho com que me afadigo debaixo do sol, porque devo deixar tudo para o homem que virá depois de mim. E quem sabe se ele será sábio ou insensato? De qualquer modo, ele será dono de tudo o que eu fiz debaixo do sol com a minha fadiga e sabedoria. Também isso é fugaz. Então fiquei com o coração desesperado por causa de todo o trabalho com que me afadiguei debaixo do sol. De fato, há quem trabalhe com sabedoria, conhecimento e sucesso. E depois tem que deixar seus bens para outro que com nada se afadigou. Também isto é coisa fugaz e grande mal.
Então, que proveito resta para o homem de todo o seu trabalho e esforço mental com que ele se afadigou debaixo do sol? Sim, os seus dias todos são dolorosos, a sua tarefa é penosa, e até de noite ele não pode repousar. Também isso é fugaz!
Eclesiastes, 2, 17-23.


Tudo isso ela me ensinava, quando sobre as questões de amor discorria, e uma vez ela me perguntou: - Que pensas, ó Sócrates, ser o motivo desse amor e desse desejo? Porventura não percebes como é estranho o comportamento de todos os animais quando desejam gerar, tanto dos que andam quanto dos que voam, adoecendo todos em sua disposição amorosa, primeiro no que concerne à união de um com o outro, depois no que diz respeito à criação do que nasceu? E como em vista disso estão prontos para lutar os mais fracos contra os mais fortes, E mesmo morrer, não só se torturando pela fome a fim de alimentá-los como tudo o mais fazendo? Ora, os homens, continuou ela, poder-se-ia pensar que é pelo raciocínio que eles agem assim; mas os animais, qual a causa desse seu comportamento amoroso? Podes dizer-me?

De novo eu lhe disse que não sabia; e ela me tornou: - Imaginas então algum dia te tornares temível nas questões do amor, se não refletires nesses fatos?

- Mas é por isso mesmo, Diotima - como há pouco eu te dizia - que vim a ti, porque reconheci que precisava de mestres. Dize-me então não só a causa disso, como de tudo o mais que concerne ao amor.

- Se de fato - continuou - crês que o amor é por natureza amor daquilo que muitas vezes admitimos, não fiques admirado. Pois aqui, segundo o mesmo argumento que lá, a natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre e ficar imortal. E ela só pode assim, através da geração, porque sempre deixa um outro ser novo em lugar do velho; pois é nisso que se diz que cada espécie animal vive e é a mesma - assim como de criança o homem se diz o mesmo até se tornar velho; este na verdade, apesar de jamais ter em si as mesmas coisas, diz-se todavia que é o mesmo, embora sempre se renovando e perdendo alguma coisa, nos cabelos, nas carnes, nos ossos, no sangue e em todo o corpo. E não é que é só no corpo, mas também na alma os modos, os costumes, as opiniões, desejos, prazeres, aflições, temores, cada um desses afetos jamais permanece o mesmo em cada um de nós, mas uns nascem, outros morrem. Mas ainda mais estranho do que isso é que até as ciências não é só que umas nascem e outras morrem para nós, e jamais somos os mesmos nas ciências, mas ainda cada uma delas sofre a mesma contingência. O que, com efeito, se chama exercitar é como se de nós estivesse saindo a ciência; esquecimento é escape de ciência, e o exercício, introduzindo uma nova lembrança em lugar da que está saindo, salva a ciência, de modo a parecer ela ser a mesma. É desse modo que tudo o que é mortal se conserva, E não pelo fato de absolutamente ser sempre o mesmo, como o que é divino, mas pelo fato de deixar o que parte e envelhece um outro ser novo, tal qual ele mesmo era. É por esse meio, ó Sócrates, que o mortal participa da imortalidade, no corpo como em tudo mais o imortal porém é de outro modo. Não te admires portanto de que o seu próprio rebento, todo ser por natureza o aprecie: é em virtude da imortalidade que a todo ser esse zelo e esse amor acompanham.

O banquete, Platão.

Renard-ard

- Ma vie est monotone. Je chasse des poules, les hommes me chassent. Toutes les poules se ressemblent, et tous les hommes se ressemblent. Je m'ennuie donc un peu. Mais, si tu m'apprivoises, ma vie sera comme ensoleillée. Je connaîtrai un bruit de pas qui sera différent de tous les autres. Les autres pas me font rentrer sous terre. Le tien m'appellera hors du terrier, comme une musique. Et puis regarde! Tu vois, là-bas, les champs de blé? Je ne mange pas de pain. Le blé pour moi est inutile. Les champs de blé ne me rappellent rien. Et ça, c'est triste! Mais tu as des cheveux couleur d'or. Alors ce sera merveilleux quand tu m'auras apprivoisé! Le blé, qui est doré, me fera souvenir de toi. Et j'aimerai le bruit du vent dans le blé...

- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
Antoine de Saint-Exupéry. O pequeno príncipe. Em português tirado daqui.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Quando eu acordo de manhã e jogo o lixo no lixo de qualquer forma, com um pouco de raiva, até, mal me lixando se estou jogando sacolas plásticas junto com restos de comida, eu me dou conta de que algo mudou na minha vida.

E não é o melhor dos dias.

domingo, 7 de janeiro de 2007

Anamórfico


Encontrei este cara que faz estes desenhos incríveis na calçada.

Dêem uma checada: o efeito se chama "anamorfismo". Eu achei fantástico.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007


Você já se imaginou comendo uma quiche deliciosa como esta, com pequeninos pedaços de vidro? Pois eu e Will comemos.

*****


Ney Matogrosso cantando...
Finalmente

A vida toda eu esperei por agora
Sentir o teu perfume assim tão de pertinho
Esse teu cheiro que existe só na flora
Naquelas flores que também contém espinhos

A vida toda eu esperei essa glória
Beijar mordendo esses teus lábios de fruta
Boca vermelha cor de amora cor da aurora
Dois cogumelos recheados com açúcar

Já vem de longe esse desejo perene
Suco de kiwi escorrendo lentamente
Não é de hoje que eu preciso conter-me
Chegou a hora vamos ver finalmente



Alzira Espíndola, Paulo Salles e Itamar Assumpção

sábado, 30 de dezembro de 2006

Merton II

"A meditação budista, sobretudo a do Zen, não procura explicar, mas sim prestar atenção, conscientizar-se, manter-se vigilante, em outras palavras: desenvolver certo tipo de conscientização que está acima e além da ilusão produzida por fórmulas verbais - ou pela excitação emocional. Ilusão em relação a quê? Ilusão quanto à apreensão do que é a meditação em si mesma. Ilusão devido à diversão e à distração no que concerne àquilo que se encontra ali mesmo: a própria conscientização."
Thomas Merton, Zen e as Aves de Rapina. Cores e negritos por Lucas

Ney

Liz deu para minha mãe, tempão atrás, a gravação do Ney Matogrosso cantando com Pedro Luis e a Parede, o álbum Vagabundo.

Excelente.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

"O Filho que Eu Quero Ter"

Disseram-me que a Bina, amiga do disseram-me (Robizito, de Guarulhos), a qual eu acho que não conheço/não sei, está grávida. E ela colocou uma letra do Toquinho e do Vinícius, aqui.

Eu não conhecia. Muito, muito linda.
Estava lendo aqui, nesta madrugada, algumas acusações que ex-devotos do tal Sai Baba fizeram.

Abuso sexual de homens jovens, encenações e truques mágicos do que seriam "materializações", uso do dinheiro das doações. Enfim.

Estas são apenas as acusações (quem quiser saber mais, googleie por David Bailey, "The Findings"). A própria organização do Sai tem sua réplica, que eu comecei a ler, mas o estilo é praticamente soporífero, em muitos casos. Eu sinceramente não tiro nenhuma conclusão.

Digo apenas que não existe coisa que me tantaliza mais do que a perfídia e a escravidão mental que muitas práticas religiosas e devocionais trazem consigo. Eu fico chocado e muito, muito revoltado com este aspecto tão presente, reatualizado a cada instante. Ou você acha que no nosso mundo "esclarecido" estas coisas não acontecem?

*****

"Pareidolia" é um tipo de ilusão ou percepção equivocada, provocada por um estímulo vago ou obscuro. A definição é do Skeptic's Dictionary. É na pareidolia que o Rorschach se baseia. O caso do rosto marciano, se trata da mesma coisa. Do olho de Deus em um pulsar. Da face de Jesus em uma nebulosa - ou em um tronco de árvore - ou em uma tortilla.

Todos nós somos tendenciosos neste sentido. Vemos faces, mais do que tudo, onde sombras e manchas estão. Vemos muita coisa. Para quê cultuar uma tortilla? Cantemos a criatividade humana, em vez disso.

*****

Fico triste. Não me vejo como um idealista. Não creio que uma humanidade error-proof seria mais feliz. Não creio que acreditar em coisas inacreditáveis deixa as pessoas infelizes. E, contudo...

Tenho de andar com um espelho do meu lado, e parar para olhar - sempre.

*****

Uma pequena aranha na minha perna, agora.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Eulogia

Que vergonha. Que vergonha.

Todos que me conhecem ou que me lêem por algum tempo passado sabem do meu variado gosto musical. Sabem do quanto eu me derreto com as interpretações divinas da Vaughan; o quanto meu coração portenho bate por uma Buenitos que não existe com Piazzolla, o quanto Mozart me comove, ou Bach me eleva às alturas.

E todos sabem da minha paixão, por assim dizer, pela museletro. E do como a minha nuca ainda se arrepia com o som do trance, do psy.

Durante muito tempo, eu curti muito o trance. Parei um pouco, no meu eterno questionamento das coisas que eu faço. Volta e meia escutava um Astrix da vida, umas das antigas do GMS, um Man with no Name, fechando com 1200 micrograms. E um pouco do Infected Mushroom, também. Mas confesso a vocês que este tipo de música, apesar de me atrair, não me chamava tanto mais assim.

Foi quando eu fui pro eletro, mas daí é uma outra história.

O principal motivo de largar um pouco o trance? Ele me cansa. Muito puxado, até mesmo para os meus ouvidos. Têm alguns que são, dá pra se ver muito bem, exclusivos de uma rave - e só numa rave mesmo pra aguentar uma coisa tão full power.

Sempre gostei um pouco do Infected, sempre. Mas, preferia outros. Não achava as suas músicas tão boas assim.

E hoje, para a minha vergonha, resolvi dar um tempo das três deles - são uma dupla israelense - que eram o meu default, o que eu escutava sempre.

Agora, humildemente, jogo cinzas por cima de mim, e rasgo as minhas vestes, em um gesto de perdão.

Pois que eu reescutei, com assombro e admiração, os dois últimos álbuns: Converting Vegetarians e IM the SuperVisor. Com assombro e admiração eu escutei o quanto os caras são bons; com assombro e admiração eu decidi, depois de ficar indiferente frente aos pedidos de pessoas próximas, vê-los em sua próxima passagem por aqui.

O último, IM the SuperVisor, é simplesmente incrível (o C.V. é meio bobinho). Não vou falar muito dele, obviamente, pois depois muitos virão pra cima de mim, falando que "nem é tão bom assim". Claro, né nega, se procuras samba sabes que não é disso que eu tou falando aqui. Mas, se é pra dizer uma coisa, eu digo: não, é o paraíso na terra; não, não é respirar fundo e ver o sol nascendo dourado e sentir amor por todas as coisas vivas e não-vivas e aquelas cujo status vivente ainda não se sabe, mas não importa; não, não são 188 bpm que vão te explodir e te fazer renascer num dos lokas hindus de flores gigantes e vacas gordas,

mas eles sabem o que fazem. Não se deixem enganar pela aparente simplicidade da música. Observem as linhas melódicas. Divirtam-se, ao menos, com a música título, que é engraçadinha.

Além da rave; além da pista de dança. Entre os dois, e além. Divirtam-se - e dêem um novo sentido para diversão, por favor.

Pois precisamos.

(Ah, o trio default era Cities of the Future, IM the SuperVisor e I Wish, esta do C.V.)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

"Este fato tem sido explorado por engenheiros contrários à engenharia reversa. Discuto um exemplo em Dennet, 1978 (p. 279):
Existe um livro sobre como detectar peças de antiquário falsificadas (que é também, inevitavelmente, um livro sobre como falsificar peças antigas) que dá este malicioso conselho para quem quiser enganar o comprador 'experiente': depois de terminada sua mesa ou seja lá o que for (tendo usado todos os meios usuais para simular idade e uso), pegue uma furadeira moderna e faça um furo na peça em algum lugar bem evidente e intrigante. O provável comprador argumentará: ninguém faria um furo tão feio sem ter um motivo (não se supõe que ele seja 'autêntico', de qualquer forma), então ele deve ter servido a algum propósito, o que significa que esta mesa foi usada na casa de alguém; como foi usada na casa de alguém, não foi feita expressamente para ser vendida neste antiquário... Portanto, é autêntica. Mesmo que esta 'conclusão' ainda deixe espaço para algumas dúvidas, o comprador estará tão ocupado sonhando com usos para aquele buraco que meses se passarão antes que as dúvidas venham à tona.

Já se disse, com que plausibilidade eu não sei, que Bobby Fischer usou a mesma estratégia para derrotar adversários no xadrez, sobretudo quando o tempo estava se esgotando: faça um movimento deliberadamente 'estranho' e observe seu adversário perder um tempo precioso tentando entender o que você fez."

Daniel Dennett, A perigosa idéia de Darwin. Rocco, 1998.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

"A montagem da pulsão é uma montagem que, de saída, se apresenta como não tendo nem pé nem cabeça - no sentido em que se fala de montagem numa colagem surrealista. Se aproximarmos os paradoxos que vimos de definir no nível do Drang ao do objeto, ao do fim da pulsão, creio que a imagem que nos vem mostraria a marcha de um dínamo acoplado na tomada de gás, de onde sai uma pena de pavão que vem fazer cócegas no ventre de uma bela mulher que lá está incluída para a beleza da coisa."

Jacques Lacan, Seminário 11 - Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
all nearness pauses,while a star can grow

all distance breathes a final dream of bells;
perfectly outlined against afterglow
are all amazing the and peaceful hills


(not where not here but neither's blue most both)

and history immeasurably is
wealthier by a single sweet day's death:
as not imagined secrecies comprise


goldenly huge whole the upfloating moon.

Time's a strange fellow;
more he gives than takes
(and he takes all)nor any marvel finds
quite disappearance but some keener makes
losing,gaining
-love! if a world ends


more than all worlds begin to(see?)begin

E. E. Cummings

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Que estes mesmos contactos insistam e se multipliquem em torno de uma criatura única até bloqueá-la toda inteira; que cada detalhe de um corpo apresente para nós tantas significações perturbadoras como os traços de um rosto; que um único ser, em vez de inspirar-nos quando muito irritação, prazer ou aborrecimento, nos obsidie como uma melodia ou nos atormente como um problema; que esse ser passe da periferia do nosso universo ao seu centro, que se torne mais indispensável do que nós próprios, e estará realizado o admirável prodígio: assistiremos então à invasão da carne pelo espírito, e não mais um passatempo do corpo.

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar. Tradução de Martha Calderaro. Nova Fronteira, 1980.

domingo, 10 de dezembro de 2006

Thomas Merton no seu livro, Zen e as Aves de Rapina. Trecho interessante para a discussão do provável caráter escapista das práticas religiosas.
Em ambos os casos, os 'fatos' não são apenas impessoais e objetivos: são fatos de experiência pessoal. Tanto o budismo como o cristianismo se assemelham, ao utilizarem a trama ordinária do cotidiano da existência humana como material para transformação radical da consciência. uma vez que a existência humana ordinária, cotidiana, está cheia de confusão e sofrimento, é óbvio que serão utilizadas essas duas coisas para a transformação da nossa conscientização e nosso entender, passando para além de ambos a fim de atingir a 'sabedoria' no amor. Seria grave erro supor que o budismo e o cristianismo oferecem apenas explicações em relação ao sofrimento, ou, pior, justificações e mistificações construídas sobre este fato inelutável. Pelo contrário, ambos demonstram como o sofrimento permanece inexplicável, sobretudo para aquele que tenta explicá-lo a fim de evadir-se dele, ou que pensa que a própria explicação seja uma fuga. O sofrimento não é um 'problema' como, por exemplo, algo que pudéssemos controlar de fora. O sofrimento é considerado, tanto pelo cristianismo como pelo budismo, cada um a seu modo, como fazendo parte da nossa própria identidade-ego e de nossa existência empírica. E a única coisa a fazer em relação a isso, é mergulhar de cheio em plena contradição e confusão, de maneira a ser transformado pelo que o Zen denomina 'a Grande morte' e o cristianismo declara ser 'morte e ressurreição em Cristo'.
Acceptance of not-knowing produces tremendous relief.

Winnicott

terça-feira, 5 de dezembro de 2006


Cozinha de retiro. Muitas vagens picadas, cenouras cortadas, e silêncio. Eu, logo atrás da pequena estátua de madeira.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Ciência versus Religião.

Boooooooooooooooooooom... (reboa um sino)

Ciência versus Religião.

Boooooooooooooooooooom...

Ciência versus Religião.

Boooooooooooooooooooom...

Ciência versus Religião.

Boooooooooooooooooooom...

Ciência versus Religião.

Boooooooooooooooooooom...

domingo, 1 de outubro de 2006

Olho no olho

Diz-se que estamos todos cegos, de alguma forma. Estamos cegos para quê, exatamente? Não escutamos, mas escutamos - o que escutamos? Não vemos, mas vemos - o que vemos? Não sentimos, mas sentimos - o que sentimos?

Você aí que me lê, na frente de uma tela de computador. Talvez na pressa, ainda com as costas não encostadas no espaldar; ou talvez escutando uma seleção de domingo das suas músicas mais favoritas, chateando, lendo seus interesses múltiplos e variados. É uma boa, não? Como é bom fazer as coisas de que gostamos... um daqueles dias em que sentimos a tranquilidade de uma vida bem vivida batendo de leve na janela.

Mas quem te ensinou a gostar? De onde vem isto? "Eu desenvolvi estes gostos, estas qualidades, estes planos de vida..." ou "alguns eu já os tenho desde pequeno..." ou "pode ser filogenético ou ontogenético?". Quem te ensinou a gostar? De onde vem isto?

O gostar de cada dia, a tranquilidade de uma vida bem vivida, bem oleada - como se anda sobre o fio de uma navalha a cada dia. Estar certo de estar fazendo o melhor que se pode, o melhor que se quer, de ter escolhido uma coisa boa, de onde vem isto? Como pode você estar tão certo andando sobre o fio de uma navalha?

Um leve sussurro, um estremecimento qualquer, um vento frio que passa e levanta as cortinas - um alfinete que cai no chão - uma gota de chuva na janela - o latido de um cachorro - a palavra de uma pessoa amada - uma rachadura na parede, uma rachadura na sua cara. Em cima da navalha você está, como não?

E eu?

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Coen

Festival mundial da Paz aconteceu aqui em Floripa, dia primeiro ao dia 6 de setembro.

Hoje é feriado, dia da independência. Eu não sou patriota MESMO, pois hoje eu acordei, vi que a Terezinha não veio, mas não estranhei, de vez em quando ela não vem. Mais tarde, escuto minha mãe roncando no quarto - ela nunca deixa de ir trabalhar de manhã, mas eu não estranhei, ela teve dias complicados. Então, meio dia e meia, desci para o meu almoço habitual no "aquilo" aqui perto - rua vazia, mercadinho fechado, o restaurante fechado. Claro, é feriado.

Não participei muito do festival não. Acho muito legal e interessante a iniciativa, mas não me agrada - falando em termos de preferência pessoal, somente - o trabalho da Unipaz. Mas eu passava lá de vez em quando, descobri a mulher das trufas, a primeira estava boa, que era somente de chocolate, mas as outras que não eram somente de chocolate pareciam ser somente de chocolate com aromatizantes. Peço delicadamente para a moça das trufas se dedicar mais a este aspecto, para o nosso próximo Festival Internacional da Paz.

Que é lindo um bando de gente se reunir para falar de paz, isto é.

Mas no último dia apareci. Tive de, conhecer a monja Coen, a famosa monja Coen que não irritou a Fernanda Young ("Irritando Fernanda Young", GNT). Ouço falar da Coen faz muito tempo. Ela falou algumas palavras no festival, e mais tarde ela proferiu uma palestra na Educação Física da Udesc - "Corporeidade, Sexualidade e Espiritualidade", junto com um doutor em sexualidade humana e mais um professor de tantra yoga, que veio para o festival também.

A palestra não importa tanto, em termos de ponto de vista sobre estes três aspectos. Praticantes religiosos costumam pensar tudo em termos de reconexão, de modo que o assuntou acabou caindo para outros lados. A platéia era pequena, pequena mesmo, assim todo mundo ficou bem à vontade para falar qualquer coisa que quisesse. E eu exercitando, como sempre, a minha (in)tolerância no escutar as opiniões "idiotas" dos outros.

Confesso, tive olhos somente para a Coen. Uma mulher de cabeça raspada, próxima dos seus 60 anos, de olhos brilhantes e vívidos, de sorrisos. E diversas vozes.

Uma suave, tranquila, e baixa, que penetrava na minha cabeça e me trazia o maior enternecimento. Principalmente quando ela falava sobre o darma.

Falando sobre baratos, sobre drogas e sobre o uso masturbatório da sexualidade, Coen nos contava sobre os meninos de rua que ela costuma visitar. Que ela chega para eles e propõe que fumem um baseado, mas sem maconha, sem tabaco, sem coisa alguma. Que fechem um - e ela vai lá e fecha e eles fecham muito melhor que ela, têm mais prática - e vamos então. Puxa fundo - ar, somente ar - segura, e expira bem devagar. O que é isso? Pranayama. Ter barato com oxigênio.

Que coisa fantástica, que coisa linda a monja Coen chegar nos meninos e meninas assim, dessa forma.

Dei um abraço nela. Foi um prazer conhecê-la pessoalmente.

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

six-branched


Eu me quedo em assombro com a simetria natural. Desculpem-me, mas eu me quedo.

É um floco de neve. Não são todos que são assim tão simétricos, contudo. A maioria deles não o são. Mas, dadas as condições necessárias, voilà.

Quem precisa de mais mandalas do que esta?

Poema para os Atos Mortos

Um texto muito interessante.

"Ainda que lhes tenhamos tanto medo, e que nos esforcemos por toda a vida a não cometê-los, são justamente nos atos errados que se abrigam as lições mais fundamentais da condição humana. Quem jamais desejou viver sua própria vida como um grande equívoco? Todos nós acalentamos o sonho de acertar, acertar sempre, e desta forma obter o máximo do mundo. Mas a existência possui mais facetas do que imaginamos, e - principalmente - não somos perfeitos. Ou, sendo mais correto, os atos humanos são forjados pelas intenções relativas, e ironicamente são justamente as certezas absolutas que dão fruto aos nossos maiores erros - não somos perfeitos porque nos achamos quase sempre certos."

(continua...)

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Il y a?

Lembrando que, para um ponto de vista psicanalítico, homens e mulheres são definidos de formas diferentes com relação à ordem simbólica - independente de sua constituição biológica/genética. Este é o ponto de vista psicanalítico. Êêê. Assim, o texto abaixo não fala somente de homens e mulheres como os portadores de pênis ou vagina.

Tendo dedicado metade de um século ao estudo do amor, do sexo e da linguagem, Lacan apareceu, no final da década de 60, com uma dessas expressões-bomba pelas quais era tão bem conhecido: "não existe a relação sexual" ("il n'y a pas de rapport sexuel").

A redação em francês é ambígua na medida em que a expressão rapports sexuels pode ser usada para simplesmente se referir ao ato sexual. Entretanto, Lacan não estava afirmando que as pessoas não tinham relações sexuais - uma alegação no mínimo ridícula; o uso da palavra rapport aqui sugere uma esfera mais "abstrata" de idéias: relação, relacionamento, proporção, razão, fração e assim por diante.

De acordo com Lacan, não há nenhuma relação direta entre homens e mulheres uma vez que são homens e mulheres. Em outras palavras, eles não "interagem" uns com os outros como homem para mulher e mulher para homem. Alguma coisa impede tais relações; algo desvia estas interações.

Existem muitas maneiras diferentes de se refletir a respeito do que tal relação - se ela existisse - poderia envolver. É possível pensar que teríamos algo parecido com uma relação entre homens e mulheres se pudéssemos defini-los em termos um do outro, digamos, como opostos, yin e yang, ou em termos de uma inversão complementar simples como atividade/passividade (o modelo de Freud, se bem que insatisfatório até para ele). É possível até mesmo associar a masculinidade a uma curva seno e a feminilidade a uma curva co-seno, uma vez que isto nos permitiria formular algo que poderíamos tomar como uma relação sexual da seguinte forma: seno(ao quadrado)x+co-seno(ao quadrado)x=1.

[Segue uma figura de um gráfico com as duas funções, com uma diferença de fase de meio pi]

A vantagem desta fórmula específica é que ela parece explicar, de forma gráfica, a descrição de Freud dos diferentes tipos de coisas que os homens e as mulheres procuram um no outro: "Têm-se a impressão de que o amor do homem e o amor da mulher psicologicamente sofrem de uma diferença de fase" (vol.XXII, p. 164). Aqui, apesar da heterogeneidade aparente das curvas masculina e feminina, apesar de seus tempos distintos, seria possível combiná-los de tal forma a torná-los um.

Mas, de acordo com Lacan, tal igualdade é impossível: nada que se pudesse qualificar como uma relação verdadeira entre os sexos pode ser falado ou escrito. Não existe nada complementar a respeito desta relação, nem existe uma relação inversa simples ou algum tipo de pararelismo entre eles. Ao contrário, cada sexo é definido separadamente com relação a um terceiro termo. Consequentemente, só existe uma não-relação, uma ausência de qualquer relação direta imaginável entre os sexos.

Lacan procura mostrar que (1) que os sexos são definidos separada e diferentemente, e (2) que seus "parceiros" não são simétricos nem sobrepostos. Os analisandos demonstram dia após dia que seus sexos biomédica/geneticamente determinados (órgãos genitais, cromossomos, etc.) podem estar em conflito com conceitos socialmente definidos de masculinidade e feminilidade e com suas escolhas de parceiros sexuais (ainda concebidas por muitas pessoas como estando baseadas nos instintos reprodutivos). Os analistas são, portanto, diariamente confrontados com a inadequação de definir a diferença sexual em termos biológicos.

Bruce Fink, O sujeito lacaniano. Jorge Zahar; 1998.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

(Kissing, Alex Grey, 1983)

Il n'y a pas de rapport sexuel

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Unhas e estrelas

Minha irmã perdeu a unha do polegar direito, numa rave, depois que a mesma foi esmagada por uma porta de carro. Uma coisa muito feia, diga-se de passagem. Ficou preta, parecia que o dedo ia necrosar por inteiro, tomando todo o corpo dela.

A unha caiu, e ela está crescendo de novo. Hoje ela me mostrou a unha, que está cobrindo já metade da área de uma unha de polegar normal. Pode-se ver que a unha é grudada na carne, mesmo. Lembrei-me que a unha cresce da base para a extremidade, deslizando e empurrando a camada córnea acima dela. E nós vamos cortando, ou se somos indianos e queremos entrar para o Guiness deixamo-las crescerem até ficarem negras e encurvadas.

Isto me faz pensar sobre os processos vários que acontecem no nosso corpo, e dos quais sequer sentimos alguma coisa. Processos microscópicos, como o crescimento dos pêlos, das unhas, até mesmo dos membros. A tal da renovação celular - a maior parte da poeira de nossas casas é pele humana.

Olhem para o lua no céu claro, e tentem distinguir o seu movimento. Qualquer estrela, se for lua nova. A lua está lá, parada; eppur si muove.

Isto não é fantástico?

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

(Estou no lugar de um novo post que virá em breve. Por favor, sejam gentis comigo. Por mais que pareça curto ou mesmo desprezível, eu tenho sim algo a dizer. Todos os posts têm.)

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Associação Coral de Florianópolis, ontem, em sua apresentação de aniversário de 46 anos, no CIC.

Regida pelo fofo Heller, que desta vez resolveram "inovar" e fazer uma apresentação chamada Rock, juntamente com a banda Zawajus, esta que anima muitas festinhas de formatura e afins aqui pelos arrededores.

Na primeira metade do espetáculo fiquei insatisfeito: a acústica do CIC continua um tanto menos do que sempre se espera, mas as vozes das dezenas de integrantes do coral simplesmente eram apenas um murmúrio, um white noise, e se ouvia somente a bateria, o baixo, a guitarra e nem o piano do fofo Heller podia-se ouvir. Eu fiquei descontente.

Mas na segunda metade parece-me que equalizaram direito, e foi mais interessante. A interpretação da "Bohemian Rhapsody" do Queen foi muito linda: contando que eles a apresentaram ano passado, este ano ficou muito, muito melhor.

De qualquer forma, eu gostei, achei interessante, mas eu gosto de ouvir um coral ou um grupo vocal pelo o que ele é, mesmo.

Lembrei-me ontem de quando eu cantava num grupo vocal, uns quatro, três anos atrás, não me lembro. Eu não sabia (e ainda não sei) ler partitura, então o baixo cantava tudo para mim (eu era barítono), eu gravava na cabeça e mandava ver. Tenho esta boa memória musical.

Não exagero em nada ao dizer que um dos momentos mais "felizes", mais "completo", mais "banal" da minha vida foi quando, sendo uma música específica ou não, não posso lembrar, estava lá cantando de corpo e alma com todo o pessoal e uma consonância que para mim só poderia ser perfeita tomava conta. Era uma coisa linda.

O meu pequeno quinhão de voz que me cabia apoiado pelas vozes ao meu lado, reverberado, amplificado, vibrando em conjunto, até que a distinção entre a minha voz e a dos outros continua, mas importa pouco, ou de uma maneira diferente.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Terminou hoje a gloriosa semana da SBPC que ocupou a nossa querida federal daqui.

Digo gloriosa, pois foi legal ter a minha universidade, onde passo grande parte do meu tempo ultimamente, cheia de gente de diversos lugares. As pessoas que estão visitando, que vieram de longe (Paraíba e afins, e todo o resto) estavam muito mais felizes do que o pessoal daqui. Turistas (ainda mais cientistas e protocientistas) ficam muito felizes quando estão turistando. Tiram foto de cada arbusto, de cada folha seca à luz do sol da tarde. Senhoras de vestidos grossos sentadas na grama no sol baixo das três horas da tarde.

Uma feira enorme se estendeu perto do prédio do Convivência. Barraquinhas de bugigangas e comidas e mais bugigangas, e o sempre presente cheiro de incenso. Mulheres que vieram da Bahia para vender mandalas feitas de linhas coloridas esticadas numa base de metal. Os eternos gringos que vivem de vender brincos enroladinhos, como gavinhas de uma planta patagônica.

Aproveitei e assisti quatro palestras de graça (não era difícil). A primeira com a "filósofa da corte"; escutei a expressão e, apesar de saber que neste contexto ela é ofensiva, eu gostei; Marilena Chauí, a grande maga do ensino de filosofia para aqueles que nada sabem, como eu, falando sobre utopia. Um texto muito interessante, indo de encontro a um interesse meu de grande data: as distopias literárias modernas. Dois livros que apreciei muitíssimo, e ainda aprecio, foram 1984 e Admirável mundo novo. Eu tenho esta veia para ficção científica, quando na verdade a própria FC se trata de um futurismo, e todo futurismo literário tem seu tantinho de utópico.

Enfim, uma apresentação cheia do que me pareceu de leves indiretas à situação política atual.

Conheci Peter Fry, antropólogo britânico que estuda o "homossexualismo" no Brasil já faz 35. Considerações muito, mas muito interessantes sobre a questão das "paradas gays" e a saúde pública. A Míriam estava com ele também, e falou bem da questão das diferenças entre os objetivos de grupos GLBTSRHLDKAQQ aqui no Brasil e na França.

Conheci a Mara Lago, que apesar de ser daqui e de eu ter lido textos dela, eu ainda não a conhecia. E terminei com uma palestra de um antropólogo, que parecia ser bem conhecido, brasileiro, falando sobre Gregory Bateson.

Pra quem me conhece faz tempo, sabe o quanto eu tenho uma admiração secreta por este cara, o Bateson.

Ah! Eu ia quase me esquecendo que conheci também o Gabriel Cohn, este sim conhecido por aqueles que circulam pelo meio científico, que não é o meu caso, falando sobre "interdisciplinaridade" - que foi este, aliás, o tema do encontro da SBPC este ano, interdisciplinaridade.

Para mim foi muito interessante, e de uma certa forma construtivo, ver, principalmente, todas estas discussões ao meu redor. Não sou, e não pretendo, ser "cientista", mas é neste "mundo", de discussão, que eu vivo e espero fazer a minha vida em termos profissionais.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Então:

Daniel Cravinhos, 25, teve que ser retirado nesta quinta-feira do plenário do 1 Tribunal do Júri de São Paulo, onde acontece o júri do caso Richthofen, durante a leitura das cartas de amor que Suzane von Richthofen, 22, escrevia para ele na época em que os dois namoravam. Em contrapartida, os apelidos, a intimidade e as promessas de amor de Suzane para Daniel arrancaram risos da platéia.

Estes risos, por quê? O que faz uma pessoa rir das palavras de amor de um réu de assassinato?

Senso de justiça?

Senso de ironia?

Negar que um casal de "assassinos" teve tais sentimentos como amor e etcs?

Achei vil. "Entendo", mas achei vil.

terça-feira, 18 de julho de 2006

Ah, o jazz.

Tem dias que só mesmo a Sarah pra estar do meu lado.

Alguém tem que fazer a estatística pra confirmar a minha impressão: as letras de jazz usam tanto o would quanto eu escuto? é would pra cá, would pra cá... it would be nice, it would be good, if i'd, if you'd.

Tem para nós, falantes do português, aquele gostinho do futuro do pretérito, este tempo tão ausente das nossas falas e tão presente nos nossos atos cotidianos: amaria, ficaria, faria, seria...

Ah, este gostinho amargo do futuro do pretérito.

terça-feira, 27 de junho de 2006

Uma fonte que, em vez de água, jorra mercúrio. Fundação Juan Miró, Barcelona.

Atualmente fechada em um compartimento de vidro, ela foi criada por Calder em tributo aos mineiros de mercúrio de Almaden. Muito tempo atrás ela era aberta, e bem em sua frente ficava o Guernica de Picasso.

Mercúrio, como sabemos, é tóxico; dizem que mergulhar o braço em mercúrio é uma experiência fantástica, devido a sua densidade, 13 vezes maior que a água (e consequentemente grande empuxo). Mas não tentem com mãos nuas, por favor.

domingo, 25 de junho de 2006

Para Vitor


Há doenças piores que as doenças

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 23 de junho de 2006

"What the bleep" redux

Nesta quarta-feira passada aconteceu, no auditório do centro de Educação Física e Fisioterapia da UDESC, mais uma discussão/mesa-redonda sobre o filme "Quem somos nós", o mesmo que eu critiquei algumas semanas atrás, sem o ter assistido por completo.

Nesta ocasião o filme foi exibido, antes da discussão, e eu pude ter a oportunidade de assisti-lo por completo. Olha, ele é pior do que eu pensava. Qual o sentido de pior no qual me refiro aqui? Bem, juro pra vocês que estou tentando ser crítico somente com os aspectos científicos-filosóficos do filme, mas acontece que sou jovem, eventualmente fico irritado com ele como um todo.

Passei grande parte do filme chocado, literalmente, com certa manipulação de evidências - ou, pra deixar mais claro, com certa apresentação de má evidência. Isto seria manipulação do senso crítico dos espectadores, que ficam em uma situação complicada; nada é apresentado com o seu contraponto crítico, e não se pode sair no meio do filme pra verificar se os dados apresentados ali se encontram em algum lugar decente e foram escrutinizados decentemente. E isso deve ser feito, pois o filme se apresenta como uma discussão "científica" (ou pra que servem, então, aqueles intectuais/cientistas que nelem se apresentam?); se não o fosse, e se e somente se, tudo poderia ser colocado como metáforas, opiniões pessoais, divagações sobre a sina humana, uma maneira "poética" ou "diferente" de olhar as coisas.

No final das contas, portanto, eu terminei o filme me sentindo um idiota, pois nem mesmo eu conseguia mais pensar direito. Da metade em diante eu fui bombardeado com uma tal confusão de argumentos e falas que, daí em diante, me despreocupei em tentar entender (pois criticar é uma forma de entender) e simplesmente aguentava uma cena após outra. Quer dizer, uma coisa quase hipnótica.

Algum de vocês já passou por uma situação altamente incompreensível? Como, uma figura, "conversar com um esquizofrênico"? Foi mais ou menos assim, pra mim. No final, quando a mulher ficou "curada" de sua baixa-estima ou qualquer coisa que ela tivesse ou achasse que tivesse e se começa a falar de "Gahd" (a maneira como o atlante de 35.000 anos de idade... perdão, a maneira como a mulher loira que é "canal" para este guerreiro atlante fala "god") com cenas da beleza do mundo e uma música sintetizada com graves longos...

Eu já li, vi e escutei muitas obras como esta. O porquê desta, especialmente, ter me chamado tanto a atenção? Em primeiro lugar que dois amigos meus, de faculdade, os quais considero pessoas inteligentes e críticas, assistiram o filme e me indicaram fervorosamente, por ter colocado "questões novas". Tudo bem, disso eu realmente não posso duvidar. A questão é que um deles, por exemplo, é ardente nas suas críticas contra "terapias alternativas" e em livros de auto-ajuda - uma discussão valiosíssima. Mas e este filme, então? O que ele é?

Ah, relaxa, Luquinhas... é só um filme.
:D

De qualquer forma, eu pretendo escrever um texto claro e direto sobre algumas críticas, aquelas mais palpáveis. Aceito sugestões, se alguém tiver alguma, ou qualquer outra coisa pra mandar.

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Ócio criativo

ingrishonline.wordpress.com

É, realmente não se tem mais nada a fazer.

domingo, 18 de junho de 2006

Antinôo

Fernando Pessoa escrevia em inglês, e, para meu grande prazer, ele escreveu uma poesia chamada "Antinous".

Antinôo foi o amado - eromenos - do imperador Adriano. Adriano era dado a estes estranhos costumes helenísticos. A morte de Antinôo, aos 20 anos, porém, coloca em turbilhão o imperador;

He weeps and knows that every future age
Is looking on him out of the to-be;
His love is on a universal stage;
A thousand unborn eyes weep with his misery.
Adriano foi um dos "cinco grandes" imperadores de Roma, e a sua história me fascina.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Calma que eu escrevo mais em breve.

Enquanto este dia não chega, porém, porque não escrever um comentário comentando algo do seu interesse? Vamos, vai ser divertido!!

terça-feira, 6 de junho de 2006

Zazen

Hoje (ontem, que eu escrevi isto ontem de noite) foi a primeira vez que eu fui em um zendo ("templo" zen budista, ou melhor, lugar de prática zen). Zazen de 40 minutos, uma pequena cerimônia entoada, uma pequena mommy preleção do monge (o Gensho, o mesmo da palestra) e chá de hortelã. Simples assim. O povo muito cordial, mas nada de esbanjamento de sorrisos. Assuntos triviais e piadinhas discutidos em meio "coisas sérias".

O povo? Gente "normal", olhe só. :) Uma pequena and pletora de interesses e vidas, aparentemente distintas, todos sentados sobre a almofada preta, voltados para a parede. Estranho silêncio o do zazen conjunto.

E eu, o principiante. É a primeira I vez que eu pratico zazen em conjunto. Tenho uma prática prévia, mas solitária. Senti que todo o meu conhecimento "teórico" budista valia não tanto que eu acho que ele vale, no fim das contas.

Acho que rolou um estranhamento meu. Vou ter de voltar pra conferir isso direito. :)

*****

Impressionantesíssimo, vendo agora, a meditação de ontem. Fiquei com uma dor horrenda nas costas, como eu fico de vez em quando, principalmente quando eu me sento mal, e eu falo are horrenda de ruim mesmo, constante, forte. Decidi-me simplesmente sentir a dor. Senti a dor. Ela dói. Imagino que se estivesse sozinho terminaria parando pelo meio; mas eu tinha um monge zen exatamente às minhas costas.

Então a dor começou a parar de ser dor. Era apenas uma sensação. Se duvidar, ela chegou a ficar prazeirosa durante um pequeno one tempo. Impressionante, isso. A dor é somente uma sensação. Afinal, quem é que dói? :)

domingo, 4 de junho de 2006

Tirei da Wikipedia:

De acordo com estudos que determinam a habilidade da mente subconsciente em absorver mensagens subliminares, a frase subliminar "Mommy and I are one" é considerada a mensagem subliminar mais efetiva para ajudar na auto-motivação.

(...)

De acordo com Silverman e Wienberger, esta frase funciona porque "há poderosos desejos inconscientes de um estado de unicidade com 'a mãe boa da infância remota' ... e a gratificação destes desejos pode aumentar a adaptação."

Que merda é esta que eles estavam pensando?

Comecei a ver o tal do "What the bleep do we know", sendo este bleep uma forma mais educada de "fuck", se não me engano. Soube do filme através de colegas da facul, que pareceram ficar impressionados o bastante com as questões que ele levanta. Li a sinopse e achei interessante. O filme, segundo o que li, traz vários pensadores e cientistas na "velha" questão de realidade e física quântica, etc. Parecia ser interessante, e nunca é demais ver se realmente a discussão é válida.

Acontece que o filme parece ser uma grande palhaçada. Vejam vocês que, antes mesmo de assisti-lo, naturalmente eu olhei pela net, procurando discussões e opiniões. Decepcionei-me ao saber que o filme é escorraçado por todos os pensadores mais céticos, e que ele é, no final das contas, panfletagem de um culto religioso que tem uma mulher que diz encarnar um ser de 35.000 anos chamado Ramtha.

Pois bem, eu não posso criticar muito o filme pessoalmente, pois comecei a vê-lo uns 15 minutos atrás e infelizmente não posso continuar a vê-lo. Ele começa com uma animação que envolve galáxias e neurônios e pequenas partículas e múltiplas realidades, com a voz de trocentas e sete pessoas (entre elas "Ramtha") fazendo perguntas filosóficas clássicas, e falando que a quântica pode dar a resposta final, e jogos de palavras com as palavras "real" e "irreal", enfim, um aperitivo. Deixo passar, evidentemente, é divertido ficar com água na boca. Começaram, então, a falar, e eu parei exatamente na hora em que um cara, sentado em uma confortável poltrona, fala o seguinte (tomei o cuidado de ser praticamente literal): "quando o sujeito vê um objeto, uma área do cérebro se acende (no exame de PETscan); quando ele imagina, a mesma área do cérebro se acende também. Então quem vê, o cérebro ou o olho? a realidade é aquela que vemos com os olhos ou aquela que vemos com o cérebro?"

Bem, tive de parar. Se o resto do filme seguir com esta baboseira, não dá. Em primeiro lugar que o filme segue então com o mesmo tipo de questionamento, de que a "realidade externa" não precisa ser anterior à "realidade interna", de que a RI pode mudar a RE, ou seja, no final das contas, que a mente cria a realidade. Dicotomia de primário, isto.

Segundo lugar que o experimento que ele provavelmente cita deve ser da Nancy Kanwisher, em que se encontraram similaridades grandes entre as duas atividades e sua ativação cerebral, mas não exatamente equivalência. Pelo que sei parece que há um consenso, nesta área do conhecimento, de que, por mais parecidos que sejam, por mais processamento em paralelo parecido que tenham, há diferença entre os dois, perceber um objeto real, e imaginá-lo.

Esta questão do imaginado e do sentido aparece, por exemplo, na questão da sinestesia (com S, não com C!!). Um experimento que foi feito com fMRI (imageamento funcional por ressonância magnética, um dos métodos mais eficazes de determinar a ativação de áreas cerebrais) determinou que a percepção sinestésica visual é processada, no córtex cerebral, da mesma forma que uma percepção visual comum, e diferente da imaginação visual. Quer dizer, os sinestetas não imaginam, não mentem, dizendo que vêem percepções visuais "irreais" (ou seja, que nós não vemos). Ela realmente existe. Mas ela é limitada e determinada, e mesmo assim há uma diferença marcante entre uma coisa "alucinada" e uma coisa "real", e esta diferença é mais pragmática que teórica. (Ora, as pessoas não vivem tendo alucinações o tempo inteiro?) Uma percepção visual "irreal" é um fato, e levanta sim questões sobre a realidade da realidade, embora não chegue a dizer então que o "mundo interno" pode modificar o "mundo externo".

Pois este tipo de discussão é fundamental, eu creio, quando se trata de ser o mais esclarecida possível. Se se for de tratar com o problema da epistemologia, da ontologia, enfim, não vai ser a mecânica quântica que vai responder. Aliás, alguém atualmente tem a pretensão de responder? ora, seriam tantas as áreas do conhecimento aptas a dar uma contribuição a isto, por mais ínfima que seja...

Pra compensar tudo isso, estou lendo um livro que a Carmen Moré me emprestou, um tal de "É real a realidade?", do Watzlawick. Leitura linda e recomendada, um livro bom de ler; a proposta dele é que o que chamamos de realidade é resultado da comunicação. Na verdade ele não chega a defender esta tese: o estilo do livro é mais "anedótico", coloquial. Muito interessante.

E saiu, pela Companhia de Bolso, o livro do Sagan, "O mundo assombrado pelos demônios". Vou fazer uma petição pública para que este livro se torne obrigatório nas primeiras fases de todas as faculdades :)

Vou parar esta discussão, agora.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Ontem eu fui a uma palestra sobre zazen, aqui mesmo na UFSC, com o monge Gensho, o cara que "mestreia" o Centro Zen-Budista aqui de Floripa.

Em termos "teóricos", nada de surpreendente. Mas é inspirador ver um praticante do darma, poder conversar com ele, ver as suas respostas às mais diferentes perguntas.

E perceber que passou da hora de conhecer a sangha daqui.

Uma historinha que encontrei na página deles:

"Minha mãe tem 92 anos, sofre de Alzheimer e, atualmente, confunde todas as coisas.

Na minha família, há o hábito ancestral de pedir a benção. Mesmo sendo monge budista eu conservo esse hábito. Todas as noites, meus filhos pedem a benção antes de dormir. Mesmo aqueles que já são adultos o fazem, até por telefone. Sempre respondo 'Deus o abençoe', como faziam meu pai, minha mãe e meus avós.


Por causa da doença, minha mãe hoje troca tudo: chama-me de papai, pede-me a benção. E eu a abençôo. Às vezes, consigo que ela me chame de filho e acerte em me abençoar.

Em todas as ocasiões, quedo-me comovido, pensando que mesmo doente, ela continua a me ensinar: todos agora são seus irmãos já mortos, que para ela estão vivos; a empregada pode ser sua mãe, a quem ela beija a mão e chama de querida; os filhos são seus pais e ela é mãe e avó de todos.

Exatamente como nós deveríamos ver os outros seres."

A historinha é dele mesmo.

terça-feira, 30 de maio de 2006

Fiquei estarrecido com o acontecimento de ontem.

Segunda-feira de manhã, um belo dia talvez, a aula pré-prandial, chegando atrasado como sempre, abro a porta e encontro a sala em círculo. Penso estar na sala errada, dada a história sempre "expositiva" do professor. Mas era a minha sala, sem sombra de dúvida. Entro, encontro uma cadeira para sentar, fora do círculo; penalidade dada àqueles atrasados de segunda de manhã. Descubro que a sala está discutindo entre si um texto, que eu também não li, como é o meu costume inconsciente. Algumas regras postas, contudo: que o professor não interviria em nada, e que ninguém podia sair até que a primeira prerrogativa terminasse.

Peguei o texto de uma mesa abandonada e comecei a ler ali mesmo, enquanto algumas pessoas colocavam pontos e questões. Era um texto curto e interessante, de um assunto que me interessava, e foi muito interessante estar lendo ali o texto, junto com os (poucos, devo dizer) comentários da turma. Tudo muito interessante. Falava da "linguagem dos sentimentos" em grupos, e embora este termo esteja meio caduquinho e breguinha, ele colocava alguns pontos interessantes, e, melhor ainda, concernentes à situação que estava ocorrendo ali e naquele momento. A intenção deste exercício provavelmente era, além da discussão do texto, uma vivência mesmo das "linguagens" em jogo.

Foi um processo bem interessante. Em certos momentos algumas das poucas pessoas que estavam discutindo pediam a intervenção do professor, em termos de conceitos a ser esclarecidos, e coisa e tal. Ele se recusava e a coisa continuava. Estes pedidos começaram a ficar mais frequentes e mais "afetivos", sublinhando o papel dele como professor e estas coisas assim. No final das contas uma menina ficou realmente nervosa, praticamente com raiva. Logo depois ele parou e perguntou como nos sentimos com isto. E os comentários me impressionaram.

Quem não falou nada durante o tempo todo, uns 80 porcento da turma, continuou calado. Foi só ele liberar a turma, e faltava bastante tempo para o término da aula, que este pessoal (que eu carinhosamente chamo de "as meninas da psico") debandaram com graça e elegância, uma por uma, sem um piu ou ai. Literalmente uma por uma, e se duvidar em ordem alfabética. O restante, obnubilado por tal enxame de futuras psicólogas, continuava a discussão. Uma disse que achou chato e que ficou a aula inteira lendo um outro texto; outra, que ficou confusa e que achava que tinha sido "não-legal" da parte do professor proceder desta forma, não respondendo às suas dúvidas. Outra disse que tinha sido uma perda de tempo, e a raivosa disse que aquilo não era uma aula de verdade. Me foco aqui nas críticas, mas os que falaram de resto foram mais neutros que outra coisa. Eu só comentei que me senti totalmente de fora com a opinião da sala como um tudo, contudo, pois eu realmente tinha ficado muito contente, com a leitura e com a dinâmica.

Teve um comentário que me chamou bastante a atenção: "nós somos uma sala quieta, realmente". Não me lembro do contexto, mas enfim, eles assumem para eles mesmo esta "qualidade"? Puxa vida. Eu não sei se fiquei mais estarrecido com o desinteresse das meninas da psico ou com esta relação professor-aluno, desta relação específica com o conhecimento, destes apelos à "autoridade" sobre o assunto e até mesmo, por que não dizer, desta carência de..,. autodidatismo?

Enfim, não posso colocar isto como generalizável para a minha faculdade como um todo, mas me alegra saber que eu ajo de forma diferente.

*****

É praticamente uma aventura pessoal descobrir até onde a experiência de nossos contemporâneos e de nossos antepassados pode nos guiar em certas formas de proceder na nossa própria vida.

(Começo falando de forma geral e abstrata, mas todos aqui devem saber que falo de mim mesmo. :))

Tenho visto que a minha escolha profissional será/é marcante, em vários sentidos. Hoje eu falo do sentido da marca, da alfinetada na almofada da vida cotidiana que uma escolha de caminho sempre dá; uma escolha escolhe quem escolhe.

Se eu decido ir pro lado da psicoterapia ou mesmo, por que não, da psicanálise, qual será a relação que eu vou ter de manter com a comunidade onde estou e, mais especificamente, com a língua? É uma pergunta que eu tenho me colocado por motivos óbvios, pensativo que estou em que mudanças de lugares e afins. Eu tenho de ser um ótimo falante de uma língua, para uma prática psicoterapêutica? Ou psicanalítica, então?

O que eu tenho percebido é que a experiências dos meus contemporâneos e dos meus antepassados pode indicar perguntas, mas não caminhos. Não mais. Em realidade é o meu papel ou meu destino ou sina ou bolhinha-de-sabão trilhar as novas configurações, como todos fazem todo o tempo e acham que não fazem.

iê!

*****

Acontecimentos marcantes me fizeram lembrar da famosa frase do Sócrates, no seu julgamento.

"Uma vida não-examinada não é digna de ser vivida."

Na verdade a frase me veio (e ficou um dia inteiro) em inglês, mas digamos que esta é a tradução formal da frase, que em grego é praticamente a mesma. Eu acho uma frase aterradora e marcante.

Aliás, como eu estou falando tanto de "marca" e "marcante"! Engraçado...

*****

O veranico de maio está aí, em sua força total. Hoje eu suei toda a gordura acumulada em dias e mais dias glaciais, e então temos o último suspiro de calor antes do frio.


Agora eu tenho um aquecedor a óleo e nunca mais passarei frio... dentro do meu quarto.

terça-feira, 23 de maio de 2006

Adoro bandinhas de menininhas. De pequenas mini-punks narcísicas, de belos sorrisos raros, de olhos escuros e olhares desconfiados, de rostos lisos e brilhantes e rostos redondos e bochechas vermelhadas e maçãs do rosto salientes e cabelos pretos de ângulos retos e obtusos como uma fina placa de ébano laqueado.

Adoro como elas cantam, como se pouco se importassem, com a fina camada de atenção sublimada. Como strippers. A maneira de abraçar suas pequenas guitarras de boca, como armas que embalassem em seu colo gentil e quente e enrolado em tiras róseas.

Adoro a podre corroída misère maquiada das finas moças gentis, de amplo sorriso.

You know, like the Big Dipper.

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Pelas termas de Caracala!!

Voltei a ser adolescente.

Estou escutando, com o maior tesão, a minha trilha sonora de meus 15-16 aninhos, radiantes aninhos, os aninhos de... bem, quem me conhece sabe que aninhos foram estes... E que trilha é esta, d'na Mareea me pergunta?

Ora, ora, quem mais que No Doubt no Tragic Kingdom?

you came in with the breeeeeeeeeeeeze, on sunday morning...
I'm sure you've changed since yesterday, without any warning

E, confesso, foi uma redescoberta legal. O No Doubt, nesta época, ainda tava brincando com a música; despretencioso (é com s ou c?) e divertido, como muitas músicas deveriam ser. É legal. Além de suas letrinhas falando de coisinhas básicas, que eu estou me sentindo o mais básico dos humanos, humano, demasiado humano, no último mês.

Pois, no resto, como diria a Moùza, they only want you when you're seventeen... when you're twenty one, you're not fun.

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Por que a água é azul?

Sim, a água é azul, em grandes quantidades. Sim, há dias que a a água tem sua cara marrom, como na BeiraMar "poluída", ou sua cara cinza, como no mar cinzento dos elfos de Tolkien e, na expressão mais desconcertante, o mar cor-de-vinho de Homero. E tem dias que a água do seu copo não quer, de jeito nenhum, deixar de ser transparente. Aliás, a água do meu copo nunca deixou de ser transparente. Mas água em grandes quantidades é azul. É porque a água reflete o céu?

http://www.dartmouth.edu/~etrnsfer/water.htm

Eu sou fascinado pela cor azul. Eu sou fascinado pelas cores naturais. O brilho de uma esmeralda, por mais azul e profundo que seja, não substitui o azul anil intenso e extenso de um dia de outono, céu de brigadeiro. Um rubi, nas suas entranhas de fogo, não se compara ao brilho preternatural e efêmero de uma chama.

terça-feira, 9 de maio de 2006

Solaris

Solaris. Planeta. Planeta? Talvez um organismo. Um planeta coberto por um organismo; um único organismo talvez, habitando um planeta.

Um século de pesquisas, e nenhuma resposta.

Sabe-se de suas complexas estruturas, de suas revoltas manifestações mutantes, arquitetura titânica escalofobética em compostos orgânicos. Parece intencional. Parece que percebe a pequena estação flutuante, perto de sua superfície.

Um século de investigação científica, de complexa catalogação, de ansiosa especulação metafísica; um século de estudos solarianos, de volumosos volumes encardenados em couro verde, de volumosos volumes de índices aos volumosos volumes, arranjados em ordem alfabética em uma estante em órbita.

Até agora, o nosso único contato, e ainda não se sabe se estamos a contatar o nosso único contato, organismo talvez, mostruoso, uma camada de plasma, talvez pensante.
Uma pequena estação em órbita, um século de pesquisa. Um iogue cósmico? Uma inteligência planetária?

Um século de contato frustrado, um século de catalogação do que talvez possa ser inteligência - a sublime simetria matemática de suas catedrais de esponja, efêmeras! - do que talvez possam ser causalidades desconhecidas, criatividade entrópica aos engulhos, destinada a ser engolfada, um turbilhão de leis físicas em meio a um espaço apavorantemente vazio.

Kris Kelvin, psicólogo. Dezesseis meses de viagem, desce em uma pequena cápsula até a estação, recepcionado pela voz mecânica do computador. Vem para investigar o comportamento aberrante da equipe a bordo, sua falta de respostas, seu estranho silêncio. Kris deve ser um excelente cientista, para ser recomendado a tal missão; foi estudante e amigo de um dos pesquisadores, que descobre então morto, Gibarian. Suicídio. É o que lhe fala Snow, que Kelvin descobre solitário na cabinde de rádio. Snow olha-o com medo, como se não reconhecesse, como se não soubesse de quem se tratava, como se ignorasse os avisos recentes de sua chegada. Outro, Sartorius, trancado no laboratório, parece ter medo de que Kelvin veja o que, ou quem, está junto dele. O som dos passos é de criança, e a risada também.

Kelvin vê uma negra andando pelos corredores da estação. Desce para ver o corpo de Gibarian no congelador, morto na última noite, e encontra, do lado dele, cadáver, a negra estendida ao seu lado, o corpo morno, como se estivesse dormindo, em meio a um frio enregelante.

Kris começa a perguntar se ele, também, não está enlouquecendo, alucinando, por um motivo qualquer, talvez os gases tóxicos do planeta. Monta um experimento e descobre que, infelizmente, nada daquilo é delírio. E então vai dormir.

"Tirei toda a minha roupa, fiz com ela uma bola que joguei longe e deixei-me cair sobre o travesseiro. Nem mesmo me dei ao trabalho de o inflar convenientemente. Adormeci sem apagar a luz.

Quando tornei a abrir os olhos, tive a impressão de haver cochilado alguns minutos. O quarto estava banhado por uma penumbra vermelha. Fazia menos calor. Eu estava me sentindo bem, deitado, com as cobertas afastadas, inteiramente nu. A cortina só cobria metade da janela e lá, defronte de mim, ao lado da vidraça, iluminada pelo sol vermelho, havia alguém sentado. Reconheci Rheya. Usava um vestido de prata, branco, cujo tecido estava esticado no bico dos seios. Tinha as pernas cruzadas e os pés descalços. Imóvel, com os braços abertos bronzeados até os cotovelos, olhava-me por entre os cílios escuros. Rheya, com seus cabelos pretos penteados para trás. Encarei-a durante muito tempo, calmamente. Meu primeiro pensamento foi reconfortante: eu estava sonhando e consciente disso. Não obstante, preferia que ela sumisse. Fechei os olhos e tratei de varrer aquele sonho. Quando tornei a abri-los, Rheya estava sentada ao meu lado. Tinha os lábios entreabertos, como de costume, num gesto de assoviar. Mas seu olhar era sério. Lembrei-me da véspera, quando fizera aquelas especulações a respeito dos sonhos. Rheya não havia mudado desde o dia em que a vira pela última vez. Tinha, naquela época, dezenove anos. Hoje teria vinte e nove. Mas, evidentemente, os mortos não mudam, ficam eternamente jovens. Ela fixava-me com o olhar espantado de sempre. Tive vontade de atirar alguma coisa sobre ela. No entanto, apesar de se tratar de um sonho, não tive coragem - mesmo em sonho - de maltratar uma morta.

- Coitadinha! Você veio me visitar? - murmurei."

[continua aqui.]

Este livro é fantástico; esta cena é fantástica. O livro não é fantasticamente bem escrito, a história não é fantasticamente bem bolada, nem desenvolvida, mas é exatamente, para mim, este deixar pontas soltas, este silenciar-se, o grande toque de arte do Lem.

É tocante a figura de Kelvin, o cientista, o psicólogo, assumindo paradoxalmente, com uma ansiedade reconfortante, a posição de crédulo, a posição de não querer saber quem Rheya é, quem ela está sendo agora, ao mesmo tempo de achar-se podendo resgatar uma culpa do passado, através do perdão desta Rheya, Rheya esta que pode ser um símile, um fantasma, uma tentativa de comunicação do "oceano"...

É tocante a própria Rheya, ao descobrir da sua morte.

Além do resto do livro, da própria discussão sobre o oceano em si, da história cômica e trágica de mais uma interface entre o mistério da fé e do conhecimento científico, "solarística", de som e fúria, significando nada. Nada?

Este foi o livro que inspirou dois filmes, um do Tarkovsky, de 72, se não me engano, que é mais fiel ao texto do livro, mas é um tanto maçante, e o recente, de 2002, do Soderbergh, com o George Clooney, que é interessante, mas nada demais. A música deste filme, porém, de Cliff Martinez...
eu até queria que este blog tivesse sons, pois a música é fantasticamente... silenciosa. Sem palavras. Leia o livro, e ouça a música.

"O silêncio destes espaços infinitos me apavora". Pascal.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Seria Horácio epicurista?

[Adendo do dia seguinte, seis de maio de dois mil e seis, data do sesquicentenário do nascimento do médico vienense, forefather da psicanálise, vida doçura esperança salve salve Sigmund Freud {lê-se "fróid"}. Sim, Quinto Horácio Flaco tinha sua ampla raiz epicurista. Depois de uma estafante busca pela internet encontrei fontes fidedignas deste fato, e descobri que Epicuro falava umas coisas muito mais interessantes do que eu imaginava, e que eu sou um cara tão genial que acabei sendo epicurista na minha pontuação da poesia, mesmo conhecendo três linhas biográficas sobre a vida de Epicuro, tirada de um velho manual de filosofia qualquer. Mentira, é que o epicurismo tem um pontos de contato com o pensamento budista. O texto, assim sendo, está sendo reescrito para o futuro próximo.]

Estou passando por uma época complicadinha. Não entro em detalhes, mas estava recentemente procurando alguma peça de literatura que refletisse este velho drama, o drama do amor e da separação; não o drama do amor-resto de um, e de outro que não ama mais. Falo sim do amor de dois, separados. Procurei, e algumas coisas que encontrei não me satisfaziam. Principalmente Romeu e Julieta, muito cristão, que a única parte que eu gosto é a linda declaração de amor dos dois.

Eu sou muito (pós?)moderno para ser romântico!

Hoje de manhã, do nada, me lembrei do Horácio, a tal falada ode do Horácio (Odes, I.11), que uma época eu cheguei a ter escrita em letras grandes no meu quarto, mas nunca eu parei para ler direito como eu fiz hoje. Ela fala o seguinte (a tradução depois é minha; valeu, Perseus!!):

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, uina liques et spatio breui
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit inuida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

Não queiras, Leuconoê - é ímpio - conhecer o fim que a mim, a ti, deram os deuses, e nem tentes os cálculos dos babilônios. Quão melhor suportar o que quer que virá! Sejam vários invernos, ou seja o último que Júpiter nos concede, e que agora enfraquece o mar Tirreno contra as pedras; sejas sábia, filtres os vinhos, e corte todas as longas esperanças, sendo nosso tempo breve. Enquanto nos falamos fogem os nossos instantes, invejosos: colha os dias, confiando o mínimo no futuro.

Enfim, estava bem ali, debaixo do meu nariz este tempo todo. Sentei-me hoje então e escrevi uma pequena análise leiga, baseado no que eu conheço, e algumas questõezinhas interessantes, esclarecendo e aumentando o pouco o sentido e o significado de algumas palavras e expressões. Não seria nem uma análise, e sim alguns pontos interessantes.

O que se segue é este texto.

Nefas é a palavra para "contra a lei divina". Sendo este poema romano e pagão, seriam as vontades e leis dos deuses; impiedade seria, por exemplo, a húbris, o orgulho humano em se exceder acima de sua medida (p. ex, de conhecer o que lhe reserva a vontade - ou mesmo o capricho, pois os deuses são caprichosos - do Olimpo). Este é um conceito grego, mas creio que pode se aplicar neste poema de Horácio. Os "cálculos (números) dos babilônios" se refere à astronomia caldéia - à previsão de um futuro através de sinais externos.

E por que seria "tão melhor" suportar o que vier? É uma boa pergunta. Eu mesmo estou me fazendo ela a torto e a direito. De três uma: ou há o destino, e mesmo que o pudéssemos prever não poderíamos controlá-lo; não há destino certo e seguro, e neste caso poderíamos conhecê-lo um pouco e controlá-lo um pouco, talvez muito pouco; ou não há destino. As Moiras, na mitologia greco-romana, eram as três deusas: uma fiava o tecido da vida, outra media o comprimento dele, e outra o cortava. Mas, mesmo assim, as vidas dos homens eram como folhas de árvores, sujeitas à vontade e necessidades dos deuses. Como fica esta questão?

Em qualquer um dos três casos, porém, não vale a pena saber do futuro. Em um, porque ele não vai mudar; em outro, porque ele é incerto, e no terceiro, porque não dá pra saber.

Os invernos e os verões e demais estações que se repetem e, apesar de ser cíclicos, marcam a linha reta unívoca que marca a vida humana; este mesmo inverno (se) enfraquecendo, debilitando (e a primavera começa antes do inverno terminar...) ao bater e bater e bater as ondas contra a barreira de pedras lambidas por muito tempo pelas mesmas ondas da água do mar Tirreno (pumex significa pedra, em geral, especialmente estas pedras erodidas pela água). Que visão magnífica! As pedras lentamente sendo dilapidadas pela água, pedras onde o próprio inverno deixa de ser... Quão prático, numa cena dessas, usar a palavra "inverno" para invocar um tempo natural e cíclico, sendo que o "inverno", tal como nós vemos, morre a cada ano...

Filtrar os vinhos, isto é, passar o vinho por peneira ou coador para retirar as impurezas: os pedaços de casca e de fruta ainda presentes, pedrinhas, os sais que se formam no fundo, e a parte da borra que ainda permanece. Como todos os visitantes da cantina da Pipa sabem (ou da sua cantina de vinhos coloniais local) vinho com impurezas dá uma dor de cabeça!, além de não ser a coisa mais fantástica de se tomar na vida. A sabedoria - invocada anteriormente - pode ser também a sabedoria de tomar dos próprios vinhos. Aliás, se uma pessoa filtra os seus vinhos, há uma grande chance de que a mesma os tenha produzido (e talvez plantado e talvez colhido e talvez pisado as uvas). Quer dizer, a pitadinha de ponos, de sofrimento/trabalho duro, presente na vida cotidiana.

Spatio brevi é ablativo absoluto de razão, "sendo a extensão (da vida) curta".

Spes longam é a "esperança que se estende (muito no futuro)"; "de uma vida curta corte todas as esperanças que apontam demasiado além". Quer dizer, não são todas as esperanças a ser cortadas de uma tal vida curta, mas sim estas longas esperanças. Aiaiai...

"O tempo invejoso nos foge enquanto falamos". Este inuida, além de invejoso, pode significar algo que nos odeia, algo que não nos é favorável. "Estamos aqui a falar, Leuconoê, e eu a te contar para colher os dias, enquanto estes mesmos dias estão a correr por baixo do nosso nariz". Invejosos do quê? Eu não sei. Me parecem mais impiedosos de não conceder a nós o que tanto queremos - o desejo de que eles não passem, o desejo de termos algo aqui para sempre.

E então chegamos a um ponto importante, o famoso carpe diem. Colha os dias, imperativo. Quando se trata de plantas, carpo quer dizer colher como se colhe uma flor, ou uma fruta. Para animais, é se alimentar (tomar como nutrição) de (plantas). O carpe do Horácio faz uso de quase todos os usos do verbo carpo, desde colher até alcançar, juntar, aproveitar, usar, perseguir, gastar. Me agrada, porém, pensar que este carpo me relembra os vinhos a ser filtrados. Os dias (momentos) podem ser como moscas para um rã, prontos a ser rapidamente agarrados (e usados, gastos, comidos, um atrás do outro...), mas de que forma, se não somos rãs?

Eu retomo este ponto por causa do significado que carpe diem acabou tomando com o tempo, desvinculado do seu contexto aqui no poema. "Aproveite o dia" é uma frase simples e equívoca demais, podendo ser lida de várias formas. Procure rapidamente na internet por carpe diem e literatura, e verás de tudo, desde os sonetos engraçadíssimos do século XVI (um dos quais traduzi, faz muito tempo, aqui - relevem que faz tempo), até definições e defesas do hedonismo. No poema inteiro, certamente, Horácio fala da brevidade da vida, de como ela nos foge em cada momento. Ao pedir a Leuconoê, porém, para que seja sábia e filtre os vinhos, ele está simplesmente pedindo que ela seja uma sábia hedonista e prefira uns prazeres que outros, somente?

A última frase pode apontar para um possível sentido: confiando o mínimo no (dia) posterior. Credulus é a mesma que o nosso crédulo: o que acredita com facilidade, sem suspeita. Acreditar no quê, porém? Acreditar que um dia seguirá o outro, certamente, e que amanhã certamente o sol levantará no leste e se porá no oeste. E talvez acreditar nos prazeres futuros, e nos sofrimentos futuros, o que não deixa de ser o destino, ao meu ver. Quam minimum credula postero, acreditando o mínimo. Acreditar e esperar, acreditar "um mínimo" e esperar "não muito além".

Até onde? Esta é uma pergunta fantástica que eu tenho me feito todos os dias.

[Aliás, para os budistas, estes últimos pensamentos podem ter lembrado, mesmo que de longe (para mim foi muito de perto) a famosa reflexão sobre a morte, que para muitos parece um pensamento pessimista, mas é uma prática que traz uma reflexão muito profunda.]

quarta-feira, 3 de maio de 2006

Resumo rápido de um conto zen-budista moderno:

- Mestre, eu quero aprender com o senhor.
- Então não pense em macacos.
Cara sai. Passa o dia inteiro vendo macacos, pensando em macacos: verdes roxos azuis amarelos.
E ele volta. E sabem de uma coisa? Eu esqueci o final.

A luta com palavras é a coisa mais vã. Palavras não são apenas os pequenos e grandes pensamentos que saem da nossa cabeça através da boca. As palavras surgem antes mesmo que nos demos conta; surgem mesmo de um corpo soçobrado, surgem mesmo de um corpo transfigurado. Especialmente destes corpos, as palavras surgem.

Vetores poderosíssimos, as palavras. Perfuram e transpassam três gerações de mamíferos de porte médio, em média, para desconforto dos seres viventes.

Estou em um momento de crise, poderoso, insurgente; mar martelante.

Rio de Janeiro, século XIX. Chuva de verão: quente. Água escorrendo pelos bueiros, levando a merda depositada nas ruas para o grande mar da pequena baía. Mais ou menos como Florianópolis, século XXI.

Vários nomes para isso, da extensa & fecunda produção literária-psicológica. Uma que me lembrei: vórtice. Fabio Herrmann, psicanalista brasileiro.

Outro nome: chuá.